CONSIDERAÇÕES FILOSÓFICAS SOBRE O LIVRO “O CAPOTE”

ARYANE RAYSA ARAÚJO DOS SANTOS

As relações entre filosofia e literatura frequentemente se entrelaçam, uma vez que o pensamento filosófico se manifesta na literatura, enquanto esta, por sua vez, reflete os grandes debates filosóficos. Neste ensaio, não nos propomos a delimitar as fronteiras entre filosofia e literatura, pois trata-se de uma tarefa muito extensa, nosso objetivo é explorar como essa relação se desenvolve a partir de duas obras bem especificas que nos propomos comentar. Para tanto, tomaremos como exemplo a novela O Capote, de Nikolai Gogol, escrita no século XIX, e a obra Introdução ao Filosofar: O Pensamento Filosófico em Bases Existenciais, de Gerd A. Bornheim. Utilizaremos alguns conceitos discutidos por Bornheim para analisar a novela de Gógol, especialmente no que concerne à atitude do protagonista, Akáki Akákievitch, diante do mundo e de sua própria existência.

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DANTE, JOYCE E O TERCEIRO CÉU

ALBÉRIS ERON FLÁVIO DE OLIVEIRA

Neste ensaio, refletimos sobre a presença do “Céu” como lugar, na imaginação e nos escritos de três bem conhecidos escritores: Paulo de Tarso, representante do mundo mais antigo, para muitos o grande fundador do cristianismo; Dante Alighieri, com referências saindo direto da idade Média; e James Joyce, escritor Irlandês que, em sua formação, conheceu os textos de Paulo e de Dante, com sua narrativa pertencendo mais diretamente ao mundo moderno.

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OS EXPERIMENTOS LINGUÍSTICOS DE SÉRGIO MEDEIROS COMO BORRAMENTO DAS FRONTEIRAS ENTRE GÊNEROS E ARTES

HENRIQUE DUARTE NETO

Sérgio Medeiros, professor de literatura da UFSC, crítico literário e entusiasta dos diferentes tipos de manifestação artística, é, na verdade, não apenas um poeta iconoclasta, radical, mas também um multiartista que, partindo da poesia, busca não apenas romper as demarcações desse gênero, mas, também, os limites entre as diferentes artes que o instigam a criar. Nesse sentido, sua obra de cerca de 25 anos, que vai de Mais ou menos do que dois (Iluminuras, 2001) até Porto do Pantanal (Iluminuras, 2025), é exitosa.

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“A BALSA” DE DA COSTA E SILVA

Mediação entre natureza e cultura

WANDERSON LIMA

O poema “A balsa”, de Da Costa e Silva, incluído em Zodíaco (lançado em 1917), costuma ser lido como uma evocação lírica da paisagem piauiense, marcada por um tom nostálgico e descritivo:

Esfolha-se a manhã em rosas de ouro,
Sobre o rio caudal de águas ligeiras,
A rolar em cachões nas cachoeiras,
Onde espuma rugindo como um touro.

Os barcos, a sonhar no ancoradouro,
Velas ao sol como asas e bandeiras,
Agitam-se às canções das lavadeiras
Que, pela riba, vão cantando em coro.

E rio abaixo, sobre as águas claras,
À superfície móvel da corrente,
Desce uma tosca embarcação de varas.

É a balsa – a leve habitação flutuante,
Simples e boa, que transporta a gente
Da minha terra, no sertão distante…

No entanto, essa leitura, embora pertinente, tende a permanecer na superfície imagética do texto, deixando em segundo plano a organização mais profunda que sustenta a construção simbólica do soneto. Com a ajuda do modelo estruturalismo de Claude Lévi-Strauss (2008), esse ensaio, se bem-sucedido, tentará mostrar essa organização mais profunda, buscando entrever, sob a bem arquitetada tessitura lírica, uma lógica de relações fundada em oposições e mediações.

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O TORMENTO DE LÁZARO

JOSÉ ELIAS

Água.
Fria demais.
Escura demais.
O corpo entra antes da decisão. Um passo em falso. O chão some. O peso puxa. O mundo vira baixo e cima ao mesmo tempo. O choque corta o fôlego.
Braços se agitam. Errados. Rápidos demais. A água entra na boca. Amarga. Dura.
Ele tenta subir. Não sobe.
As pernas chutam o vazio. Os braços batem em algo que não cede. Pedra? Madeira? Não importa. O ar não vem. O peito queima. Queima rápido demais. Não.
O pensamento não termina.
O corpo entra em pânico antes da mente entender. Ele se debate, gira, perde a noção de onde está a superfície. Tudo é peso. Tudo empurra para baixo. A água invade os ouvidos, os olhos, o nariz.
Ele tenta gritar. A boca abre.
A água entra.
O som morre ali.

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A ESCRITA E O SER

HERASMO BRAGA

No âmbito do tempo histórico, o cultivo e desenvolvimento da interação humana através da oralidade é muito maior quando comparado ao da escrita. Muitas tradições e concepções culturais continuam a ser transmitidas em maior número pelos percursos da oralidade, mesmo com toda relevância que a escrita ganhou nos últimos tempos na história humana. Em meio a essa maior compatibilização mediada pela linguagem oral, a escrita, por sua vez, realiza uma interface mais aprofundada dos indivíduos no âmago do seu ser.

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“SOBRE RILKE E COMO SE FAZ UMA POESIA”

ALBÉRIS ERON FLÁVIO DE OLIVEIRA

Demorei um pouco para pôr no papel o que eu queria desta vez. Pensando, só queria uma forma de começar. Tempo inquieto, eu inquieto.

O tempo não é uma coisa que podemos pegar com as mãos. Parece que ele passa por dentro de nós e, às vezes, rápido demais.

Pois bem. Encontrei um livro que havia comprado há alguns anos que, de algum modo, me fez escrever hoje pela manhã: “Cartas a um Jovem Poeta”, de Rainer Maria Rilke.

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TUDO É FALSO, MENOS A ARTE

HENRIQUE DUARTE NETO

Ricardo Lima brinda-nos com novo lançamento (Tudo é falso, Ateliê Editorial, 2025). Ele que é um dos poetas mais parcimoniosos e regulares que conheço no quesito publicação. Oito livros de poesia desde 1994. Nem pouco, nem muito. Publiquei há dez anos, um livrinho (As múltiplas faces do tempo na poesia de Ricardo Lima, Insular, 2016) de pouco mais de 100 páginas sobre o arco que vai de Primeiro segundo, seu opúsculo de estreia, até o sexto, Desconhecer, lançado em 2015. O mote dessa reunião era a questão do tempo e a intuição de que na verdade estava diante de um poeta que dilui a realidade, quase que da maneira dos surrealistas. Cheguei mesmo a sugerir um neossurrealismo do poeta, coisa que, passado um decênio, em virtude principalmente dos dois livros que saíram depois e mesmo em relação à própria mudança de interpretação minha do pequeno universo trabalhado, não faria mais.

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ÉDIPO, HAMLET E EU

ANDRÉ HENRIQUE M. V. DE OLIVEIRA

Se a tese de Freud está correta, a crença em homens “superiores”, isto é, em semideuses e heróis míticos, se assenta no inconsciente e remonta à desejos infantis; logo, remonta também a conflitos surgidos na relação com os pais, sobretudo especificamente com a figura paterna. Esta seria a razão de os mitos serem atemporais e de estarem presentes em todas as épocas e culturas.

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EXPURGO

ADRIANO ESPÍNDOLA SANTOS

Não paro de pensar no infortúnio de ser eu. Logo eu fui nascer em mim. Uma junção de pouco com quase nada. Uma imperfeição convencida da bizarrice. Nenhum jeito para escapar das trapaças do destino. Logo eu fui nascer assim, com tão pouca vontade de fazer diferente, com tão pouca vontade de viver. Com tão pouca vontade de ser feliz. Se bem que a felicidade é algo subjetivo, que nunca existiu em mim. Quando nasci, logo fui exposto à adoção, abandonado na porta de um orfanato, no centro de Salvador. Minha mãe largou, como qualquer coisa inútil, uma carta com profundo desgosto, dizendo que “o menino é muito doente, deve ter alguma anormalidade”.

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