Realismo "versus" Liberdade na Arte Dentro de uma Perspectiva Analítica das Literaturas Russa e Inglesa

Newton de Oliveira Lima - UFRN[1]






RESUMO

A arte feita com o fim de realismo social pode ser instrumento da ideologia política. A manipulação realista da estética é o sinal da dominação total da sociedade por uma cultura petrificada e sem criatividade, apenas realista.
Palavras-chave: realismo estético; cultura realista


RESUMÉ

L´art fait à des fins de réalisme social peut être um instrument de l`ideologie politique. La manipulation de l'esthétique réaliste est le signe de la domination totale de la société par une culture pétrifiée et non créative, juste réaliste.
Mots-clés: réalisme esthétique; culture réaliste





1 INTRODUÇÃO
 

A arte deve representar a realidade de um modo transfigurador, esteticamente significativo. Enfim, transmudar em objeto estético os objetos real ou psicológico.

Essa função de representação estética concretiza-se através da liberdade, enquanto faculdade de apreensão de significações do real intrínseco e extrínseco ao homem. Assim, partindo do pressuposto da liberdade como fator de criação artística, pode-se concluir que a arte somente se desenvolve quando o espírito pode livremente buscar na representação a modificação do conteúdo real ou psicológico e transformá-lo em arte.

Os gregos antigos, por seu turno, foi o povo de espírito mais universal que já houve, erigindo a cultura mais humanista que existiu exatamente por se inserirem, com seu idealismo, nos escopos perenes e nas disposições espirituais imorredouras da humanidade. A objetividade do povo grego foi a matriz de toda a cultura ocidental, por causa da radicalidade apreensiva do humanismo universalista que desenvolveram, realizando a universalização de tudo o que é humano (apreensão objetiva que fizeram da essencialidade do humano em geral).

Daí serem mestres nas diversas modalidades de arte, pois concebiam-na como possibilidade de expressar em suas variegadas modalidades tudo o quanto fosse humano. Por isso, o ideal de Atena, supremo ideal de arte grego, que propugnava pela expressão do homem em si em sua simplicidade e naturalidade, é o mais objetivo, geral e simples ideal artístico, e que jamais foi efetiva e completamente concretizado, tal qual assertou Friedrich Nietzsche (1991, p.76).


2 AS LITERATURAS RUSSA E INGLESA EM COTEJO

O literato russo é predominantemente o “homem real”, o “homem social”. A tríade característica da literatura russa é a ligação básica entre indivíduo, sociedade e consciência. Fiodor Dostoieviski, talvez o maior nome literário russo, é a síntese dessa configuração do fundamento espiritual das letras cirílicas. Ele é eminentemente um escritor social, concreto, que almeja uma transformação radical de sua sociedade.

Se em Tolstoi e Dostoieviski a tendência realista já estava presente, sob a patrulha ideológica do stalinismo o realismo estético russo atinge níveis absurdos para a arte. Substitui-se arte por política ou lê-se a estética sob um viés de cunho político. Pasternak é uma das personalidades que foram perseguidas pela intransigência stalinista.

O realismo literário como o russo feito durante a era stalinista representa, pois, a morte da arte como já previra Hegel em sua filosofia estética. A era do fim dos valores aproxima-se e a degradação do espírito humano pelo materialismo mais exacerbado com a vitória do capitalismo global configura-se notória: o fim da experiência e a destruição da subjetividade são as expressões conseqüentes de tais fenômenos sócio-histórico-culturais.

A politização em arte também está presente caso se use os estudos culturais, por exemplo, para discriminar campos estéticos possíveis, onde de antemão se demonize as produções estéticas ‘masculinas’, ‘ocidentais’, enfim, que eventualmente seja produzidos por agentes ‘dominantes’ e não por “dominados” ou que se inspiram em fontes de caráter politicamente dominante (‘temas autenticamente burgueses’).

Somente atingindo o cerne do ser subjetivo numa livre captação da problemática não de um indivíduo, não de um povo, não de uma época, mas de todos os homens em todas as épocas; apreendendo a subjetivização pura do centro metafísico e transcendente da existência humana, é que o literato pode expressar o simples e o universal componentes da espiritualidade do homem em si, aproximando-se do ideal de Atena proposto pelos gregos (NIETZSCHE, 1991, p. 89).

O ideal artístico de liberdade de concepção e de escolha de um objeto estético aferrado a essa atividade livre é o que uma acepção idealista axiológica da arte apregoa, o que está em consonância às correntes estéticas que pregam uma pureza de conteúdo (ALDRICH, 1969, p.29), sem a intromissão de fatores determinantes e tirânicos sobre aquele, fazendo da arte, e em especial da literatura, um meio expressivo da política, da moral etc, enfim, subordinando a atividade e o valor artísticos a outras facetas espirituais humanas.                  

A arte literária inglesa talvez seja a de caráter mais universal e livre que jamais existiu. Liberdade de expressão, de construção de um conteúdo artístico isento de “tiranias” pré-determinadoras, aliada à liberdade das formas, pela ampla experimentação de estilos e técnicas composicionais, sintetizam o direcionamento e a estrutura da literatura anglo-saxã.

Uma literatura livre, feita por um povo livre, ainda que um povo extremamente empirista, mas que preza mais do que qualquer outro por sua liberdade. Shakespeare, maior nome da literatura inglesa, apesar de viver no Século XVII, e estar bastante arraigado numa estruturação social característica como a corte elisabetana, erigiu uma obra de alcance universal, idealizadora e perscrutadora da condição humana, que não se prende somente ao fator social, mas também a todos os outros: o político, o religioso, compondo um painel vastíssimo de tipos e situações existenciais, de modos personalísticos e históricos os quais refletem não somente sua época, mas buscam apreender as amplas possibilidades existenciais humanas, no que elas possuem de “abjeto” e ‘grandioso’, retratando a condição humana total.

Essa inquirição ideal e metafísica shakespeareana à vida humana buscando depreender suas camadas significacionais mais profundas possui na boca de Hamlet, ”Príncipe da Dinamarca”, seu dizer mais cabal: To be or not to be, ist the question!

A colocação do problema do Ser em Shakespeare faz dele um dramaturgo de alicerce metafísico, que atinge pela dramaticidade a profundidade de uma espiritualidade que revela o mais íntimo que a arte literária pode descortinar: o drama como conflito metafísico do ser humano, a possibilidade do ser-aí, para usar uma linguagem sartriana,  distinguida por Hamlet em suas duas formas, a do choque do ser consigo mesmo, na dubiedade e dialeticidade da existência (drama da situação de lutar contra os assassinos de seu pai e desprezar, em função desse objetivo existencial, a própria morte), e a compreensão da existência como correlacionada com um plano bem mais alto (a possibilidade de uma Justiça divina e a presença da memória do pai como repositório moral que o leva a enfrentar a morte), o metafísico-religioso, onde todas as possibilidades do existir humano sempre se revelam aquém da plenitude existencial que podem vir a ter e da relação delas com o ser em si: o ser ideal dos valores transcendentes com a qual se ligam. Assim, Shakespeare deu um tratamento impar para a mais importante questão metafísica da história humana.

Shakespeare, em cuja obra se resumem e plenificam as conquistas de toda a literatura inglesa, exprime o que os habitantes da ilha britânica fizeram de mais relevante na arte das letras: a liberdade de construção de formas, que transcendeu as formas tradicionais de se organizar o arranjo do texto teatral e a caracterização dos personagens; a própria existência rica e autônoma dos personagens, que parecem serem em si e não construídos artísticos; o significado profundo dos textos, que separam nitidamente a questão histórica, política etc, local da inserção dessas mesmas questões e das idéias complementares e agregadas num plano significativo mais profundo, mais universal, que retém significado enquanto arte e como cosmovisão válidos para toda a humanidade; a linguagem clara, sóbria, simples, que facilita a apreensão do texto e do contexto histórico subjacente ali descrito e refletido.

Um artista como Shakespeare, que abstrai a realidade para depois reencontrá-la, reformulá-la e repensá-la no espírito estético subjetivo, pode volver a ela de uma forma exuberante, completa, transcendente, enfim, punjantemente expressiva de toda a sua potencialização estética e transfiguradora de seu ser inespecífico.

Assim, Hamlet, Macbeth, Tito Andrônico, Lear, nos dão significações mais amplas que quaisquer outros personagens e pela idealização de seus dramas, transcendem os próprios contextos cênicos, psicológicos e assomam a uma estatura significacional universal, atingindo os píncaros do drama e imiscuindo-se na consciência humana com força e profundidade mais do que quaisquer outros personagens literários, como asserta Harold Bloom (2000, p.45).  


3 CONCLUSÃO                  

O mal do “realismo estético” stalinista ou do “realismo social’ como ‘bandeira política” fere a compreensão artística livre de tais condicionamentos históricos ou ideológicos.

O que se quer esclarecer, em síntese, é que a idealização da realidade e a abertura criacional proporcionadas paradigmaticamente pelo drama shakespereano sem o realismo imediato, sem pré-determinismos de conteúdo de qualquer ordem, sejam políticos ou sociais.

A literatura inglesa é empiricamente aberta a novas sínteses de expressão e formalidade, com possibilidade de alargamento da significação de conteúdo, sem cair, no entanto, na banalidade nem na irracionalidade de supressão das formas. Nela se fazem presentes todas as vertentes de escrita desenvolvidas no mundo Ocidental:

Um romantismo rico de nacionalismo(Byron), de idealismo(Wordsworth), de temática social(Dickens), de individualismo(Colerigde), de simbolismo(Yeats), de intimismo(Wilde), de purismo(Melville); um classicismo pluralista com Pope, Swift, Defoe; um barroco poderoso com Shakespeare, Dryden; um modernismo amplíssimo com Maugham, Joyce, Wolf, London, Hemingway, Faulkner; um realismo diversificado nas variantes fantástica(Sterne), social (Shaw) e política(Orwell).

 

REFERÊNCIAS

ALDRICH, Virgil. Filosofia da Arte. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1969.

BLOOM, Harold. Shakespeare: a invenção do humano. São Paulo: Objetiva, 2000.

GOLDMANN, Lucien. A Sociologia do Romance. 3. ed. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.

NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiadamente humano. In: Os Pensadores. Trad. Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Nova Cultural, 1991.

ORTEGA Y GASSET, José. A rebelião das massas. s/e, 1964.

SCHELER, Max. Da Reviravolta dos Valores. 5. ed. Trad. Marco Antônio dos Santos Casa Nova. Petrópolis: Vozes, 1994.


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[1] Newton Oliveira Lima é professor de Filosofia do Direito da UFPB. Mestre em Direito pela UFRN. O presente escrito constitui uma versão modificada do artigo ‘Realismo e liberdade’ publicado originalmente na revista amálgama em 2004.



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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 5 - teresina - piauí - abril/maio/junho de 2010]
 

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