Regionalismo e Literatura Sul-Mato-Grossense na Fronteira Brasil-Paraguai

Paulo Sérgio Nolasco dos Santos - UFGD/Pesquisador CNPq[1]



RESUMO

Este artigo visa a divulgar uma pesquisa acerca da obra do escritor regionalista sul-mato-grossense Hélio Serejo. Trata-se de escritor regionalista cujo nome e obra mostram-se de significativa produtividade para os Estudos Culturais e para a região da fronteira Brasil-Paraguai. Originariamente, essas  reflexões  são, ainda,  resultados do  nosso projeto de pesquisa  institucional, intitulado “Regionalismos culturais:  trocas e  relações entre literaturas de  fronteira”, em desenvolvimento, e fazem parte  do livro Fronteiras do local: roteiro para uma leitura crítica do  regional sul-mato-grossense (2008), de nossa  autoria.  Sob esta perspectiva, nossa reflexão volta-se para a revisão do Regionalismo como renovada categoria trans-histórica, cujo conceito operatório torna-se validado, em sua análise, para explicar os atuais transladamentos culturais e ao que o discurso crítico latino-americano denomina “transculturação narrativa”.
Palavras-chave: Regionalismo; Hélio Serejo; Fronteira Brasil-Paraguai;  Região sul-mato-grossense


ABSTRACT

This essay aims to publish a research concerning the work of Hélio Serejo, a regional writer from Mato Grosso do Sul. It refers of the works of a regionalist writer whose name and work are shown to present a significant  productivity for the Cultural Studies and to the  frontier of Brasil-Paraguai’s region. Originally, these reflections are, also, results of our Project of Institutional Research entitled “Cultural Regionalisms: changes and relations between the frontier literatures” (in development) and make part of the book Local Frontiers: itinerary to a critical reading of the sul-mato-grossense’s  regional (2008), of our authorship. Under  this perspective, our reflection  goes back  to the revision of the Regionalism  as a renewed  trans-historical category, whose operative concept is validated, in this analysis,  to explain the current cultural translations and waht  Latin-American  critical speech denominates “narrative transculturation.”
Keywords: Regionalism; Hélio Serejo; Brasil-Paraguai’s frontier; Sul-mato-grossense’s region




Hélio Serejo – nenhuma dúvida – é o florão do regionalismo e do folclore do Estado de Mato Grosso do Sul. Ninguém o iguala nestes dois campos. É o “rei” que reina esplendorosamente e... gigantemente.  (Elpídio Reis).

1 – Na  fronteira “sulestemagrossense”

Iniciemos este artigo, que visa à abordagem  do regionalismo na literatura hoje, com duas citações. A primeira sobre a obra de Hélio Serejo, o nosso   regionalista sul-mato-grossense, da  fronteira Brasil–Paraguai,  e a  segunda sobre a  do conhecido escritor baiano  Jorge Amado, procurando extrair de ambas as citações o que elas põem em pauta, explicitamente ou como dado sugerido ao leitor  arguto, e sobretudo no que as duas implicam valoração da poética  de dois escritores situados num tempo-espaço relativamente diferenciadores: 

Já comparado a Jorge Amado para as letras nacionais, é Lenine Póvoas, o historiador e crítico literário,  quem destaca, em Hélio Serejo, o autor de  temas  regionais,  “mais importante do que Jorge Amado, porque escreve sobre uma das regiões sociologicamente mais importantes do país: a do ‘Melting-pot’ da fronteira Brasil-Paraguai.” (LINS, Apud SILVA; SANTOS, 2009, p.6). (grifo nosso).

Aí justamente Jorge Amado revelou-se mestre incomparável. [...] essa extraordinária capacidade de renovação [...] se exerceu sempre sobre a sua base regional, o recôncavo baiano, [...]. Residia no acervo lendário e folclórico (às vezes sociológico) da região que o escritor ofereceu à literatura, fosse o naturalismo de Jubiabá ou a prodigiosa invenção de Gabriela. Por isso mesmo, Jorge Amado constitui o caso limite do regionalismo brasileiro. (CHAVES, 2006, p. 38).

A primeira citação serve ao  propósito tanto de  Lenine Póvoas como meu, ao discorrer sobre o assunto, que é o de constituir um  espaço e  universo de discurso que, sem rivalizar com outras regiões e regionalismos, possa caracterizar um entorno comum ou locus de enunciação, a partir do qual a  região “sulestemagrossense”, fronteira Brasil-Paraguai, seja fruto  constitutivo de   uma voz e dicção própria e, grosso modo,  integrada as demais regiões e países do Cone-Sul.

Sob  esta perspectiva, daremos ênfase à ampla e copiosa, porem pouco conhecida e abordada, prosa regionalista de Hélio Serejo, elegendo-o, a despeito de tantos outros escritores sul-mato-grossenses, como, por exemplo,  Manoel de Barros, entre outros. Neste caso, a justificativa da seleção, além de natural, torna-se a própria “justificativa”, uma vez que tanto Manoel de Barros como Jorge Amado dispensariam, no panorama da literatura brasileira contemporânea,   maiores apresentações.


2 – A língua  crioja ou  crioulismo de Hélio Serejo   

Hoje não mais lamentamos o fato de as  obras de Hélio Serejo e  sua vasta produção, que se achava dispersa em sessenta volumes e praticamente desconhecida dos pesquisadores, pois que  toda sua   produção literária   foi recém-reunida e publicada, pelo Instituto Histórico e Geográfico do Mato Grosso do Sul,  em edição especial, organizada por Hildebrando Campestrini: Obras completas de Hélio Serejo, em 9 (nove) volumes, num total de 2.800 páginas, incluindo todos os livros publicados pelo autor, em sistematização e revisão final do próprio Campestrini (Cf. SEREJO, 2008).

Considerado o “nosso Catulo, o das paixões sul-mato-grossenses”, Hélio Serejo dedicou inumeráves páginas à sua cidade de Ponta Porã/MS, fronteira  seca com Pedro Juan Caballero/PY. Nascido  em 1º. de junho de  1912, na  Fazenda São João, no Município de Nioaque, Hélio Serejo faleceu  no dia 08 de outubro de 2007, em Campo Grande, aos 95 anos de idade. Cidade predestinada a sua, pois, segundo o abalizado escritor Elpidio Reis,  se houvesse um concurso “para saber-se qual a cidade do mundo que mais livros tem sobre si escritos, Ponta Porã – com as obras de Hélio Serejo – ganharia de corpo inteiro!” (LINS, 1996, p. 79).

Não era sem tempo a atenção que sua vasta produção reclama: se em cada uma das regiões do Brasil  encontra-se um relato constitutivo da região, aqui deparamos com a  formidável narração de um escritor antes de tudo conhecedor dos mais variados estratos da gente, da  formação étnica  e  do povoamento da região sul-mato-grossense. Em tudo e por tudo, a extensa obra de Helio Serejo –  cujas  composições literárias  são lendas, contos, poesias, narrativas ervateiras e evocações de imagens do sertão –,   é compêndio dos usos e costumes regionais e principalmente das tradições relacionadas com a  atividade ervateira.

É do próprio Hélio Serejo a caracterização mais adequada do locus de enunciação do que denominamos a sua variada produção de textos e o próprio lugar da cultura na qual se filiou, num emaranhamento resultante no contexto geral de sua prosa poética; em “Amor pelo crioulismo”, que abre o volume de Contos crioulos,  lê-se no primeiro parágrafo: “Desde meninote fui assim: um enamorado, em grau muito elevado, das paisagens sertanejas, portanto, dos ‘mistérios’ das coisas charruas. Fui – sem nenhuma dúvida – um trilhador de caminhos, um observador incansável, um perguntador de muito fôlego.” Continua o narrador,  falando da intensidade com que sorveu todos os momentos formadores de um “crioulismo embriagador”:

Sorvi, com muita sofreguidão, o selvático, o descampado, os cômoros, os brejos infindáveis, as croas, o vargeado de moitas clorofiladas, os pára-tudos chamadores de raios, a solitária lagoa de água azulada, os trilheiros dos bichos-do mato, o vento sulino anunciando chuva, a sinfonia das taboas nos alagadiços, a algazarra  ruidosa das ‘baitacas’ na roça de milho, as ‘canhadas’  onde as aves  diversas buscam o farnel apetitoso, as árvores desgalhadas, no espigão de pouca sombra, o chirlar festivo da passarada, o urro da fera  andeja que corta o despovoado sem rumo determinado, o barulho cantante da quebra d’água no coração das brenhas, e o luar que branqueja a vastidão. (SEREJO, 1998, p.35).

Ademais, em toda a coletânea de Contos crioulos registram-se alusões e referências mil à virtude de permanecer entontecido com os amanheceres e a magia do sol-se-pondo. Também o relato “Das coisas crioulas” é emblemático,  principalmente pela fixação do crioulismo e das experiências no mundo bruto da erva-mate, onde o crioulismo “impera, não só na vivência diuturna, mas também no falar, nas brejeiradas, nas manifestações de alegria, nas festanças e nas caminhadas exploradoras.”, pois que o crioulismo se manifesta em todo o  labutar do ervateiro:

O velho pilão, o catre mal trançado, o arreio cacareco, o gamelão, o maroto chapéu carandá, o poncho descolorido, soltando fiapos, a forma de rapadura, o ferro de brasa para passar roupa, a mariquinha, corote, o panelão de ferro desbeiçado,  o porongo guardador de água, a caneca de latão, o resto de cobertor para se defender do frio, o sapatão de couro de anta e centenas de outros pertences são marcas indestrutíveis do crioulismo. (SEREJO, 1998, p.145).

A presença do autor como narrador  e/ou personagem  é uma constante nos relatos de Hélio Serejo. Em muitos deles é a figura do próprio pai do escritor –  o furador de sertão Don Chico Serejo –, que, em companhia do próprio Helio Serejo, tornam-se desbravadores e criadores dos “Ranchos”, espécie de parada, morada que abrigava o ervateiro, freqüentemente  assentados em lugares tão ermos que eram batizados de “divisas com o inferno”, pois situados em região de dificílimo acesso onde a maleita não perdoava nenhum vivente. Atravessando as lonjuras da linha fronteiriça e  só  conhecendo uma estrada boiadeira, por ali  chegavam  levas guaranis, paraguaios que sofriam, derramando o seu suor no mundo bruto e selvagem da erva-mate, trazendo para os ervais da região sulina mato-grossense, muitas criaturas  excêntricas, algumas de hábitos verdadeiramente  anormais,  e  até denotadoras de demência  – como relata em “Tipos excêntricos dos ervais”. Tipos pertencentes a um mundo de amarguras, misérias e desgraças, como a personagem Zico do conto homônimo, dono de uma filosofia crioula,  que Serejo assim caracterizou: frangalho humano, açoitado rudemente pelo vento de todos os infortúnios, caladão e envelhecido, descrente e amargurado; e ainda como as personagens Palmira e seu filho, no relato de  “O conto”, que tinham uma  expressão de horror na face bexigosa e desenhados, nos próprios gestos vagos, o infortúnio e a dor. Tipos que concorrem e  resultam  da paisagem  aberta, vazia e distante,  formadora do variegado cipoal dos ervais;  e de músicas que ressumam amores perdidos, desditas, abandono e infelicidade, num mundo sem fronteiras, sem lei nem rei, onde velhos peões e guapos borrachos trançam passos em falso sob o compasso de um porno-forró.  Assim, a lida, a vida enfim, nos ervais, só era suportável  para um  peão do erval “guapo e calmo como  o Janjão”, “se não era da erva, o que veio fazer ali?”. Num lance de olho se reconhecia o peão que não entendia nada de erval: “barbacuá, tirú, nangarekuara, topuitá, mbureo, caácaigue, mensu, guaino, capataz, rancho, sapêco e ataqueio.” (Op. cit., p. 81). Peão bom era o Janjão: “O que carregava no íntimo, dia e noite, era a sua vivência sertaneja: o cantar do galo, madrugadão, o aboio do gado, queimada de campo, leiteação,  tropilha rumo à mangueira, carreta cortando o espigão, a passagem do ribeirão que a enxurrada esburacou e suas músicas tão do gosto dos moradores da região.” (Op. cit., p.56).

A história da gente mato-grossense  adensa-se  nesses “contos crioulos”, nascendo daí  as lendas da erva-mate e do urutau, um fabuloso registro folclórico e  de  glossários, além  da sua capacidade inventiva de recriação da linguagem:
Dia e noite, noite e dia,  eu me irrito e xingo, vendo esses pingos, pingo a pingo, caírem na calçada lamacenta. Pinga, pingando, vai o chuvisco pingando,  tamborilando no zinco, parece até que dizendo: um pingo, outro pingo: um pingo, outro pingo. E nesse pingar,  de pingos pingalhados, o homem pingando pensamento, embarafusta-se  no tédio e, sem ser pinguço, pensa na pinga. Pinga esquenta, encoraja, e traz pingo a pingo,  pingaços de lembranças ao coração!. (Op. cit., p.31).

Ainda, em tudo e por tudo a prosa regionalista de Helio Serejo pode-se traduzir naquele excerto do  Discurso do escritor, quando de seu ingresso na Academia Sul-mato-grossense de Letras, que eu reproduzi durante a sessão de  “Homenagem a Helio Serejo”, promovida pela Academia Douradense de Letras, no dia 10 de abril de 2005, e que vale  transcrever:

Eu sou o homem desajeitado e de gestos xucros que  veio de longe. Eu sou o fronteiriço que na infância atribulada recebeu nas faces  sanguíneas os açoites dos ventos  dessa região, vadios e haraganos, que, no afirmar da lenda avoenga, nascem nas terras incaicas, num recôncavo do mar,  varrem o altiplano boliviano, penetram o imenso aberto do Chaco paraguaio,  para depois, exaustos do bailado demoníaco, numa cólera e  estrupício de tormenta, arrebentar, cortantes e gélidos, nesta querida cidade de Ponta porã, a Princesa da Fronteira,  sentinela avançada das terrarias sul-mato-grossenses. Eu vim dos ervais, meus irmãos, do fogo dos barbaquás, do canto triste e gemente dos urus, dos bailados divertidos, dos entreveros dos bailados das  estradas, do mais hirsuto da paulama  seca, do pôr-do-sol campineiro, dos dutos, das encruzilhadas e  das distâncias perdidas.  Eu sou filho da jungle, sou gaudério de todos os pagos, apaixonado das querências e  cria de todos os galpões d aterra. Eu vim de longe, eu sou um misto da poeira da  estrada, de fogo de queimada, de aboio de vaqueiro, de passarada em sarabanda festiva no romper da madrugada, de lua andeja rendilhando os campos,  as matas, as canhadas, o vargedo. Sou misto também de índio vago,  cruza-campo e trota-mundo.  (SEREJO, Apud  SANTOS, 2006, p. 207-210).

Seja no famoso “Discurso de posse” à Academia, seja em  “Paisagem  de erval”, ou ainda também em  “Paisagem sertaneja”, vamos encontrar o  continuum significativo da  escrita e  da temática de Hélio Serejo,  que ele deixaria consagrado na seguinte passagem de “Paisagem sertaneja”:

Dentro de mim, como bênção do Senhor, viverá para todo o sempre a     fulgurante e evocadora paisagem sertaneja, formada pelo entardecer, raiar festivo das madrugadas, aboio comovedor do vaqueiro, tropel de xucros, fogo  dos pousos, silêncio aterrador da tarde  escaldante, vento sulão soprando desabridamente pelos campos e varjões, rechinar de  carretas, cantiga de andariego, tropilha em marcha cadenciada, marcação, pega, roça granando, colheita, soca de monjolo, estralidar de  galhos na tormenta, enxurrada, cantar melodioso do sabiaúna, vôo de seriema, cargueiros, fogo de galpão, queimada de roça, armadilha de caça sinuelo, junta de coice, pastorejo, festa de marcação, pega de baguais, floração campesina, redemunho de outubro, filigranas de luar, brilho das  estrelas, vento bandoleiro balançando as folhas das árvores, o azul do céu imenso e cantaria de pouso ao anoitecer. [...]. Desejo, sinceramente, morrer como um xucro, com os olhos embaciados, voltados para  essa paisagem. (SEREJO, 2008,  p.170-171).

Como autor de Surrão crioulo – uma coleção de cinco livros –, que levava em seu próprio surrão (embornal), Serejo  formatou a tradução da vivência de um povo, tornando-se ele mesmo uma espécie de mimetismo da cultura fronteiriça deste  extremo Oeste do Brasil Meridional. Sua obra constitui  manifestação literária das  mais importantes da região, e que de forma  mais completa se voltou  para  o registro  da história e da vida na fronteira Brasil-Paraguai. Com longa história de vida dedicada à observação da cultura regional, a obra do escritor é imenso painel  de análise de aspectos tão múltiplos quanto originais na abordagem das questões lingüísticas, literárias e culturais  a partir da convivência com os ervateiros, à época gloriosa da extração da erva-mate. Alguns dos títulos do autor, Os heróis da erva (1987), Vivência ervateira (1991),  No mundo bruto da erva-mate (1991), Fiapos de regionalismo (2004), Pelas orilhas da  fronteira (1981), entre outros,  hoje raros em edição original, felizmente recém-incluídos nas “obras completas”, ilustram a formação da região ervateira. Sua obra  dá conta e  constitui, por si só, o registro de uma das regiões culturais mais singulares do Brasil, ao abordar as origens e a fundação do povoamento e do desbravamento socioeconômico da nossa “hinterlândia” inóspita. Retrato de um período de grande empreendedorismo  que reuniu a região fronteiriça do Brasil, no Sul de Mato Grosso com o Paraguai e a Argentina.

Enfim, a obra serejiana  constitui o mais completo relato de fundação desta “hinterlândia”: O recente documentário, “Caá, A Força da Erva” (direção de Lú Bigattão e roteiro de Rosiney Bigattão, 2005), filmado nas   cidades da região de fronteira entre Brasil e Paraguai, é valioso documento que resgata o ciclo da erva-mate. Com sessenta minutos de duração, o documentário constitui-se do relato de mineiros, cancheadores, urus, gerentes, pequenos funcionários,  que contam suas experiências com o empreendimento da erva-mate. Responsável pelo primeiro ciclo econômico do sul do Estado, a erva-mate, explorada pela Mate Laranjeira, não só  foi responsável pela ocupação,  como inúmeras cidades, entre elas Ponta Porã, Rio Brilhante, Caarapó, Porto Murtinho, Iguatemi e Tacuru, nasceram durante a sua extração. (O Progresso, 05/04/06). Ainda, é Hélio Serejo quem traz, como legado para a literatura  sul-mato-grossense, sua sensível percepção da história deste imenso caldo de cultura, de uma região de etnias diferentes, com a alma de uma época e de um povo numa região distante, registrando os modismos, regionalismos, crendices e expressões típicas da fronteira.

Ao lado do relato de “Amor pelo crioulismo”, o conto “Isto também é crioulismo” constitui uma das manifestações literárias  mais importantes no registro  das peculiaridades da  vida na fronteira Brasil-Paraguai. É um compêndio de história natural e de  botânica, que resulta numa delicada  observação da cultura regional; constitui um  painel  de análise de aspectos múltiplos e originais de questões linguísticas, literárias e culturais, provenientes  da convivência do escritor com os ervateiros, à época gloriosa da extração da erva-mate. (SEREJO, 1998, p.163 - 166 ).

Retomando, assim, o elo de intermediação  desses relatos, faz-se necessário observar que, não só esses textos, mas também o expressivo conjunto  que constitui hoje os “nove” volumes da edição  Obras completas de Hélio Serejo (SEREJO, 2008), de Campestrini,  incluindo os sessenta títulos, voltam-se explicitamente para a abordagem de dois universos, caros à  poética do nosso escritor. De um lado, o registro microscópico, em efeito  zoom, de quem vivenciou a extensíssima  saga dos ervais, na região de  fronteira Brasil-Paraguai – o “sulestematogrossense”, como bem subintitulou seu antológico livro, Selva trágica: a gesta ervateira no sulestematogrossense, de 1959,  o escritor  “desses fatos trágicos”, Hernani Donato; de outro lado, e a nos  interessar de modo especial, os textos de Hélio Serejo atualizam as diversas e potentes vozes do “regionalismo” fronteiriço, o que nos leva a voltar a retomar o tema de nosso trabalho, sobretudo porque lemos agora, na prestigiosa Edição, os mais fulgurantes momentos de que a prosa serejiana foi capaz de elaborar num  discurso genuinamente “crioulo”, constitutivo  de um locus de enunciação específico. Em breve consulta sobre textos como “Paisagem de  erval”, “Paisagem sertaneja”, “Boicará” e “Tereré” entre outros, o olhar mais  arguto capta os  loci dessa  “vivência ervateira”,  das “orilhas da  fronteira”.

Se, em “Boicará” (SEREJO, 2008, p.170-171) o folclorista genial dá vida a um boi que nasceu nas orilhas da  fronteira, dando forma  escrita a esta  lenda do boi fronteiriço, que ”nasceu na orilha da  fronteira. [...]. Boicará  fronteiriço ainda anda por ai, varando os campos, os  cerrados e os atoleiros. Carrega na barriga, no pescoço, na testa e nos quartos, aquelas manchas brancas pequeninas que, dizem , são as  estrrelas que patrulham as  fronteiras.”,  em “Tereré” ele narra a história e os ritos envolvidos na prática comunitária em torno da roda de  tereré:

Disseram já, e é verdade, que o tereré, refrescante, é o abraço de quatro nações: Paraguai, o grande líder no uso, Uruguai,  Argentina e Brasil. Afirmativa  sem contestación. Esta bebida crioja, em qualquer um desses pagos, significa emotivamente: descanso, hora de meditação, amizade, troça, parceria para o trabalho, alegria e, algumas   vezes... troca de ideia para a fuga temerária. (SEREJO, 2008, p.197). (grifo nosso).

Sob esta perspectiva, o “tereré” como a língua guarani  destacam-se na posa do escritor, principalmente na obra  Fiapos de regionalismos, sobre a qual nos deteremos agora sobretudo pelo seu ineditismo, pois, só hoje publicada nas Obras completas (SEREJO, 2008, p.171-246). O livro, inédito, revela talvez o ponto mais alto da prosa serejiana, a partir do título o leitor depara a matriz  poética de um regionalismo bem formatado na região de fronteira entre Brasil e Paraguai. Já no início, o relato de “Peão paraguaio” prolonga magistralmente o topos referido  da língua guarani e sua amplidão a batizar com nomes a topografia e as “denominações dos acidentes geofísicos da República do Paraguai, parte da República Argentina e da República Federativa do Brasil” e revelando-se como sendo “a  alma de uma geração insubstituível, é a própria natureza da América Latina.”. Na realidade, este relato traduz uma originalidade perspicaz, cuja ideia é nuclear quando se considera a capacidade plástica de um narrador não somente sensível, mas  acima de tudo consciente  do caráter representativo, simbólico, da linguagem para a caracterização de sua região, do regionalismo que se tematiza na obra como um todo:  

As historicidades manifestadas por esta língua continuam sendo as mesmas de antes.  As  descrições tecidas pelas suas construções idiomáticas continuam sendo as mais encantadoras narrações. Nesta língua encontramos ideias onomatopaicas, acentos melódicos dos pássaros, das árvores, dos animais silvestres, das cascatas, dos mansos córregos, dos majestosos rios, dos campos floridos, o sibilar dos ventos, o barulho ensurdecedor das tormentas, a magnificência do pôr-do-sol, a  voz da natureza. (SEREJO. Op. cit., p. 178). 

Ao referir-se à região do estado de Mato Grosso do Sul, registra as denominações de nossos córregos, rios, cabeceiras, quedas, cerros, campestres, brejos, campos e matas, onde florescem em forma insubstituível os acentos guaranis:

As regiões de Mato Grosso do Sul, com  especialidade as do extremo sul, contam com as magníficas implantações literárias dos índios guaranis. E para uma justificação histórica, no município de Amambaí, no lugar denominado Pra-Jauy (água de peixe amarelo), ainda existem índios guaranis, naturalmente que com educação diferente. Eles têm aldeia. Falam a mesma língua. E sentem-se orgulhosos em poder afirmar que são índios guaranis. (SEREJO. Op. cit., p. 179).

Ainda, em Fiapos de  regionalismos, noutro  pequeno texto que vale a sua produção inteira, Hélio Serejo assim descreve a “Chuva fronteiriça”:

Tenho amor... amor grande pela  chuva fronteiriça da minha terra. Chuva que cai devagarzinho que nem dá para assustar a pombinha-rola que caminha, aqui e  ali, procurando o farnel que a chuvinha  sossegada espantou do esconderijo para buscar o trilheiro dos bichos. A chuvinha fronteiriça rega a terra para que a semente  da esperança brote e  cresça livremente, produzindo fartura, fartura que traz alegrias e põe brilho de fé nos olhos do vivente... vivente que, de mãos postas, agradece a Deus, porque a chuva criadora choveu na hora certa, por vontade do Pai Eterno, que vela sempre pelo seus filhos amados. (SEREJO, Op. cit., p. 242-243).

Um outro texto, digno de  destaque, é “Apresentação”,  assim intitulado, abre a   obra em análise,  projetando-a no universo do discurso sobre o regionalismo  sul-mato-grossense e marcando o registro peculiar dessas narrativas, ao recobrir  como um todo o livro  Fiapos de regionalismos:
   

Este livrote pode servir aos estudiosos do gênero em alguma coisa. O autor acredita que assim venha a acontecer.  A realidade  está nele espelhada. É vivência  nua e crua. Não há enfeites bombásticos, nem imagens literárias para impressionar o leitor. Homens entendidos das coisas do mundo da erva-mate e do idioma guarani manusearam os originais. Incentivaram de maneira franca o despretensioso escritor dos ervais. Daí a publicação. (SEREJO, Op. cit., p. 177).


3 –Transnacionalização e interculturalidade na região sul-mato-grossense

Impõe-se ressaltar que o processo de colonização no Sul do estado de MS é resultante  de uma  heterogeneidade cultural, que, como observa o historiador Jérri Marin (2004),  muito decorreu das uniões matrimoniais inter-raciais, cuja mestiçagem torna-se um conceito crítico adequado para a explicação do caldo de cultura que Lévi-Strauss  atribuíra às “ tradições brasileira, paraguaia, boliviana e argentina”, onde os elementos da indumentária eram de uso comum e alternado entre as diversas populações e etnias da região.  Ainda, como zona de interculturalidade, de hibridismo cultural,  a língua como elemento agregador  era, na  realidade, constitutiva de uma Babel linguística:

[...] a língua predominante  era o guarani, seguida pelo castelhano,     tornando a  região numa nova “Babel”. A língua portuguesa era pouco     empregada. De ambos os lados da  fronteira, após uma polca alegre, ouviam-se     aplausos bilíngues, trilíngues. Nas corridas de cavalo, o juiz de partida gritava a     ordem de largada em guarani e repetia logo após em português. (DONATO, Apud MARIN, 2004,  p. 327-329).

Neste sentido, o escritor regionalista douradense  Brígido Ibanhes, em recente depoimento sobre seu livro Silvino Jacques, o último dos bandoleiros, lançado no dia 30 de maio de  1986, já em quinta edição, também observa que,

[...] eu não queria um livro qualquer, mas um livro que fosse o retrato   da região sudoeste do antigo Mato Grosso;  registrasse o costume da época,     as lendas da fronteira, a violência gerada pelos coronéis na luta pelo domínio das terras, mas, principalmente, o linguajar aguaranizado, típico do mestiço da fronteira [...]. Através das polcas paraguaias, da chipa, do puchero, do locro, do tererê, do tôro candil, etc, o Paraguai carimbou suas tradições no Estado. Em várias cidades, inclusive na Capital, Campo Grande, temos colônias paraguaias, organizadas em associações. Essa penetração paraguaia se perde nas brumas do passando, anterior à Grande Guerra. A influência boliviana é mais recente e mais discreta, mas ela existe. É comum, nas praças públicas, das nossas cidades, se ouvir a flauta andina tocando músicas de inspiração espiritual, como era a visão da existência mística dos povos das altas montanhas. A ocupação de grandes áreas pelos imigrantes sulistas, nordestinos, mineiros e paulistas, agregou também valores culturais ao universo onde anteriormente só se ouvia o “jeroky” (dança) e o “ñembo´ê” (reza) ritualísticos. à taquara “takuapú” sagrada, com cadência, batida no chão seco, enquanto mantras são pronunciados em voz grave ao chacoalhar do “mbaraká”, se contrapôs a batida dura da bota, o tilintar das esporas, na dança das lanças dos gaúchos. De Minas, a Folia dos Reis. São Paulo, a Festa do Divino. Do nordeste, o forró e a carne de sol. Os centros de tradições, tanto gaúchos como nordestinos, reforçam os laços com o Estado de origem, ao mesmo tempo em que, neste Estado, se implantam idiossincrasias regionalistas. (Cf.  IBANHES,  2009).

Há que sublinhar, também,  a vitalidade do multiculturalismo na poesia do brasiguaio Douglas Diegues, como observa Kaimoti (2009) em “Douglas Diegues: ‘Las fronteras siguem incontrolábles”. Escrevendo num “portunhol salvage”, o poeta incorpora ao registro poético, na própria materialidade do texto, sua condição de hibridismo dos usos da língua na fronteira do brasileiro Mato Grosso do Sul com o Paraguai:

De acordo com Diegues, o “portunhol selvagem”, seria uma espécie de “lengua poética”, que “...brota de las selvas de los kuerpos triplefronteros, se inventa por si mismo, acontece ou non...” (Diegues, 2009, 2008). Para além do costumeiro “portunhol” da fronteira de Mato Grosso do Sul com o Paraguai, que mistura de maneiras variadas o português falado no Brasil com o espanhol paraguaio e o guarani dos índios da região e seus descendentes, Diegues afirma que sua versão dessa mistura resulta do acaso de encontros de diferentes identidades e discursos fronteiriços, considerando, nesse portunhol selvagem, que “...además del guaraní, posso enfiar numa frase palabras de mais de 20 lenguas ameríndias que existem em Paraguaylândia y el resto de las lenguas que existem en este mundo” (Diegues, 2009). Essa língua inventada remete à trajetória biográfica do poeta que o leva do centro à periferia e vice-versa: do Rio de Janeiro, onde nasceu, à Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, na divisa com o Paraguai, região original de sua mãe, filha de um imigrante espanhol e de uma paraguaia. (KAIMOTI, 2009).

Com efeito,  o escritor e poeta fronteiriço Douglas Diegues vem, desde  Da gusto andar desnudos por estas selvas, de 2003, marcando compasso com a interculturalidade existente na fronteira entre Brasil e Paraguai, cuja proposta político-linguística deixa-se entrever no próprio formato de suas obras, como a “a cartonera”, resultante da coleta de cartões ou papelão, em material reciclável. (Cf. DIEGUES, 2009).

Dentre as várias manifestações da cultura paraguaia na região de fronteira, incluindo a realização de Semanas da Cultura Paraguaia (Cf. Jornal “O Progresso”, 15, 16-17/05/09), um dos festejos tradicionais refere-se à homenagem a “Virgencita de Caacupé” [Caacupé: do vocábulo Caá – que significa erva, e Cupê – que significa atrás, a palavra Caacupé se traduz em “atrás da erva-mate”], cuja imagem remete a uma lenda indígena. Nesse contexto é que surge a manifestação do folguedo popular denominado “Toro Candil”, trazida ao Paraguai por espanhóis, na qual um boi, armado com estrutura de madeira e arame, tem seus chifres acesos com óleo diesel e passa a ser toureado por homens travestidos chamados “mascaritas”.  (Cf. Revista ARCA, 1993). Segundo Sigrist (2006, p.78-79), trata-se, antes, de uma “brincadeira”, mais do que uma dança ou folguedo,  feita com o touro (toro – em espanhol) e duas tochas acessas aos chifres do boi candeeiro (candil – em espanhol). A manifestação do “Toro Candil” concorre  com a celebração da Virgem de Caacupé, no dia oito de dezembro:

Fica evidente, nesse fato que, mantendo características do Paraguai, a  rincadeira assume alegorias e identidade local, com base em um processo  transculturativo e híbrido, podemos dizer que a brincadeira, por sua     popularidade e disseminação no lado brasileiro, já não é somente paraguaia,  mas é sul-mato-grossense também.  (TEDESCO ; NOLASCO, 2009).

De resto, consequentemente,  deve-se salientar que a percepção de transnacionalização da região, calcada sobretudo na  urbanização das cidades do antigo sul de Mato Grosso do Sul, aspecto para o qual chama a atenção o historiador  de  Nas águas do prata (2009); observa o autor que:

O movimento de populações no Cone Sul era uma via de mão dupla. Da mesma forma que paraguaios desciam o rio para trabalhar na Argentina e no Uruguai ou subiam para o Mato Grosso, também os brasileiros, os argentinos e os uruguaios se movimentavam em busca de melhores condições de vida e  trabalho. (OLIVEIRA, 2009, p.57).

Decorria deste fato a mescla da língua que, fertilizada pelos contatos interculturais, resultava na mistura do guarani com o castelhano carregada de “pitadas do regionalismo gaúcho”, despontando sobretudo devido  à “exploração  de madeira no Pantanal, nos ervais, nas fazendas de gado, entre outras atividades fronteiriças que utilizavam especialmente o trabalho compulsório de índios e paraguaios” (Op. cit.,56). 

Advém dessa ambiência fronteiriça o fato cultural que se traduz na tradição do “tereré”, o mate batido, com água fria ou gelada, tem a denominação de tereré,  como bebida compartilhada transnacionalmente, como bem observou Hélio Serejo,  nosso regionalista maior, em citação já anteriormente referida (SEREJO, 2008, p. 197).  Sob essa perspectiva, o relato “Tereré”, de Hélio Serejo, constitui viva manifestação e atualização das práticas interculturais no Cone Sul, e de modo especial em nossa região Centro-Sul  do estado de MS, do que é ilustrativo a recente iniciativa do governo do Estado que requereu tombamento  do tereré como novo bem patrimonial imaterial, atendendo um processo que fora deflagrado pela Prefeitura de Ponta Porã/MS. (Cf. Jornal “Correio do Estado”, 23/01/10).


Considerações finais

Bem ao encontro da ideia  de Walter Mignolo, em seu  Histórias locais / Projetos globais (2003), o percurso de nosso trabalho demonstra,  ao traduzir aspectos de interculturalidade e “saberes subalternos”,  o que o crítico latino-americano caracterizou em seu livro, intitulando-o “histórias locais”. Assim, nota-se desde a concepção guarani de família, que se firmara com tal força na sociedade paraguaia e também  entre seus colonizadores, que, quando a reforma cristã quis impor os padrões europeus, o povo, españoles, mestizos, criollos e indios, reagiu prontamente as mudanças de seus costumes e história local. (Cf. GONZALEZ, 1948, p.218). à guisa de conclusão, salientamos o interessante estudo em antropologia social que a pesquisadora Marcia Sprandel realizou como trabalho de campo: “Brasiguaios: conflito e identidade em fronteiras internacionais”. O que releva destacar, aqui, é o precioso levantamento bibliográfico que a estudiosa empreende, através de livros antigos e em livrarias conhecidas como sebos, deparando ao final com uma significativa literatura regional, onde constam autores como o nosso Elpídio Reis, o já citado Brígido Ibanhes, Lécio Gomes de Souza, Otávio Gonçalves Gomes, Francisco Bernardes Ferreira e Albino Pereira da Rosa, entre outros, que contam cada um à sua maneira a história do Mato Grosso do Sul através de suas cidades. Como chamou a atenção da autora e a nossa também, o livro de Brígido Ibanhes, Che Ru – O pequeno brasiguaio, a integração de um povo, traz em sua Apresentação, intitulada “Como é bom ser brasiguaio”,  por Elpídio Reis, palavras que vêm corroborar, concluindo nossa análise e abrindo espaço para a ampliação dessas reflexões, que se desdobram para outras vertentes de pesquisa:

Os brasiguaios são em geral, mais felizes que os filhos de outras regiões. Em primeiro lugar porque são, de saída, internacionais... [...] É só atravessar a rua em Ponta Porã e já se está no Paraguai, ou no Brasil. [...] em segundo lugar porque os brasiguaios têm orgulho de dizer que nasceram numa fronteira onde os dois povos não têm consciência de que vivem em países diferentes. Para eles – fronteiriços – as duas nações são como se fossem uma só. [...] Os brasiguaios autênticos têm, pois, dupla razão para uma felicidade mais ampla. São duplamente felizes. Têm duas casas, duas pátrias. (IBANHES, Apud SPRANDEL, 1993, p.82).

Concluindo, reportamo-nos àquelas duas citações inicias, a do historiador Lenine Póvoas e a do crítico Flavio Loureiro  Chaves, reconhecendo   originalidade e perspicácia na análise do primeiro,  sobretudo ao comparar a profícua literatura de Hélio Serejo,  escritor da fronteira Brasil-Paraguai, com a formidável escrita de Jorge Amado, que desenhara um vivíssimo  painel do regionalismo nordestino evidenciando um matizado  colorido da terra e  gente da região da Bahia. Para o crítico literário, de certo que a fortuna de um escritor não resulta tão somente das condições que garantiram o sucesso  e divulgação “universal” de suas obras,  para uma justa valoração das obras e autores diferentes, mais nos interessa verificar aquilo que os tornam originais e o vate de um lugar, um espaço, de uma civilização; assim, no caso de nossa literatura brasileira, fazendo ver como as diversidades regionais se articulam com o todo nacional e o constroem – lembrando que,  assim como a nação, a região é também uma tradição inventada. (Cf. SENA, 2003, p. 135). Interessa ainda ao crítico comparatista sublinhar que: a noção de região, considerada em seu processo de constituição e de acentuação de peculiaridades locais, aproxima-se à de nação, pois que adota idênticos procedimentos de construção e de afirmação. O regionalismo aparece na ficção, sublinhando as particularidades locais e mostrando as várias maneiras possíveis de ser brasileiro (CARVALHAL, 2003, p.144-145). (grifo nosso).

REFERÊNCIAS

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Matéria  de jornal não assinada
PRAÇA Paraguaia realiza torneio de malha. O Progresso. Dourados MS, 16-17 maio 2009.

CAARAPÓ realiza semana da Cultura Paraguaia. O Progresso. Dourados MS, 15 maio 2009.

TERERÉ é o próximo no processo de tombamento. Correio do Estado. Campo Grande MS, 23 janeiro 2010.


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[1] Paulo Sérgio Nolasco dos Santos é doutor em Literatura Comparada. Professor de Teoria da Literatura e Literatura Comparada nos cursos de Graduação e Pós-Graduação da  Universidade Federal da Grande Dourados. Autor  de Nas malhas da rede: Uma leitura crítico-comparativa de Julio Cortázar e Virginia Woolf (Editora UFMS, 1998),  O outdoor Invisível: Crítica reunida (Editora UFMS, 2006) e de  Fronteiras do Local: Roteiro para uma leitura crítica do regional sul-mato-grossense (Editora UFMS, 2008), entre outros.




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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 5 - teresina - piauí - abril/maio/junho de 2010]
 
 

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