Ismail Xavier formou-se em cinema pela
ECA (Escola de Comunicações e Artes da USP) em 1970. Fez mestrado em Teoria
Literária na USP, sob orientação de Paulo Emílio Salles Gomes e doutoradoem 1980, sob a tutela de Antonio Candido. Seu
pós-doutorado veio em 1986, na Graduate School of Arts and Science, da New York
University. É professor da ECA-USP desde 1971, tendo lecionado também em
universidades estrangeiras, entre elas a Universidade de Nova Iorque (1995), a
Universidade de Iowa (1998) e a Université Paris III - Sorbonne Nouvelle
(1999). Dentre suas obras, podemos destacar Discurso cinematográfico: a
opacidade e a transparência (1977),
Sertão Mar: Glauber Rocha e a estética da fome (1983), "A experiência do
cinema (org., 1983) e Allegories
of underdevelopment: aesthetics and politics in brazilian modern cinema
(1997). A presente
entrevista nasceu de após um contato de um dos entrevistadores (Alfredo Werney)
com Ismail em São Paulo. Acertou-se a base da entrevista e as perguntas foram
enviadas por e-mail. As respostas de Ismail Xavier denotam sua generosidade
intelectual, bem como uma capacidade ímpar de articular o conhecimento das
operações estéticas do cinema com os contextos de produção dos filmes.
ALFRED
HITCHCOCK
Alfredo Werney / Wanderson Lima
- Professor Ismail Xavier, comecemos a entrevista tratando de um assunto
polêmico: a questão da autoria no cinema. Quando observamos, por exemplo, uma
seqüência como a do assassinato de Marion Crane em Psicose (Alfred Hitchcock, 1960), a trilha sonora nos leva a sentir toda a
brutalidade do crime através das fortíssimas e agudas notas dos violinos em
sincronia com as punhaladas. Em grande parte, o sucesso da seqüência se deve ao
músico Bernard Herrmann, que se contrapondo a Hitchcock decidiu musicar o
momento mais violento do filme. Até que ponto o diretor é o autor de uma obra
cinematográfica?
Ismail Xavier - Vocês, na pergunta, sugerem, e
com razão: a rigor, o diretor não é autor pleno de um filme, dado que é obra de
colaboração. Por outro lado, ao longo da carreira de um cineasta, a crítica tem
encontrado marcas que se reiteram - um estilo, um talento, uma temática - e vão
construindo um núcleo que permite atribuir a ele grande parte da criação e dos
efeitos de sentido produzidos. O que tem convencionalmente gerado a atribuição
de autoria, por um jogo político de valorização dos diretores e por uma questão
de economia: ter um nome por trás do título facilita o trabalho da crítica, e é
mais justo que este nome seja o do diretor, pelo seu papel decisivo, do que o
do produtor (com exceções) ou o do roteirista (aí há polêmica, como sabemos),
ou mesmo o do fotógrafo. De qualquer modo, as responsabilidades diferem
conforme o tipo de produção, podendo ser maior ou menor, dentro de uma
ponderação sempre complicada: há autores que o são porque concentram tudo em
suas mãos, e há os que o são porque conseguem deixar forte marca mesmo em
situações de produção industrial. Para voltar ao exemplo de vocês, é claro que
muito do mérito da seqüência (assim com o de muitas outras) pode ser atribuído
ao compositor. Mas resta ainda ao cineasta a prerrogativa de ter sabido
escolher o colaborador ideal e ter sabido criar a situação para que este mostre
as suas qualidades. Cabe ao diretor conseguir o melhor resultado dos atores, do
fotógrafo, do montador, do compositor da trilha, do editor de som; cada um
deles é um co-autor. Mas se quisermos a figura do maestro da orquestra o
candidato mais forte é o diretor.
AW/WL
- Nas primeiras linhas de sua introdução à edição brasileira das entrevistas Hitchcock/
Truffaut, o sr. versa sobre o já citado assassinato de Marion Crane. Nesta
seqüência, observamos que a montagem deixa de ser tão-somente um processo de
encadeamento dos elementos da diegese, para desempenhar um papel central, de
grande expressividade. A violência das punhaladas no corpo da personagem como
o senhor bem ressalta na sua introdução nos é transmitida pela articulação
rápida e recortada dos planos. A montagem parece se transformar na própria
coisa representada. O senhor poderia falar mais sobre este tipo de montagem?
IX - A força das imagens está na sua
capacidade de sugestão, não no que efetivamente dão a ver de modo explícito.
Numa seqüência montada, a força das relações criadas entre as imagens, bem como
a síntese obtida no conjunto, definem o efeito e o sentido da representação. O
essencial é a capacidade de criar um fato que nunca está, explicitamente, na
tela. O fato se cria, não se mostra. Este é o princípio de um cinema de
montagem, embora haja também um cinema que vá em outras direções. Hitchcock, a
seu modo, é um cineasta da sugestão pela montagem, assim como Eisenstein é o
cineasta da construção gráfica de um discurso visual, pela montagem.
AW/WL
- Em 2005, o sr. gravou dois DVDs para os Grandes
Cursos Cultura na TV. Trata-se de cinco palestras em que o sr. discute o
cinema de Alfred Hitchcock. Sabe-se que muitos intelectuais norte-americanos
consideraram o diretor londrino um cineasta tecnicista, um realizador de truques
cinematográficos e de obras superficiais. Os críticos franceses da Cahiers
Du Cinema reclamaram do preconceito
contra o diretor de Vertigo.
Francisco de Almeida Salles, endossando a opinião dos franceses, afirmou sobre
Hitchcock: A sua obsessão não é o efeito formal, o ritmo, a mecânica do
filme, mas é o homem (...). Qual a sua
opinião sobre esta polêmica?
IX - Concordo com Almeida Salles e os
franceses, e acredito que hoje é muito raro alguém recusar a Hitchcock a
condição de um dos maiores autores da história do cinema. Ele reúne uma
reflexão sobre nossas disposições psicológicas mais fundas (que estão no centro
do jogo visual e sonoro que ele arma) com uma reflexão sobre o próprio cinema e
a ficção enquanto lugares de verdade, não no sentido de contar histórias reais,
mas no sentido de mobilizar as paixões mais intensas, fazendo de seus filmes
uma anatomia de certas obsessões quetrata de forma tão iluminadora quanto a melhor literatura. É de uma
coerência estilística exemplar, mas é preciso captar a sua ironia.
MÚSICA
E CINEMA
AW/WL
-. Na história do cinema, como se sabe, fomos brindados com parcerias
inesquecíveis de cineastas com músicos: Eisenstein/ Prokofiev, Hitchcock/
Bernard Herrmann, Sérgio Leone/ Ennio Morricone, Kieslowski/ Preisner, e, mais
atualmente, Spielberg/ John Willians, Inharritú/ Santaolalla para citar
algumas das parcerias mais significativas. Como o senhor compreende o papel da
música na construção do discurso cinematográfico? O sr. acredita que a música
pode ser decisiva na construção de sentido de uma cena?
IX - A música será sempre decisiva na
construção de sentido de uma cena, desde que esteja inserida num cinema que
pensa os vários canais de expressão da forma mais lúcida possível. Nem sempre
isto acontece, ora porque se pensa o som como algo adicional que vem depois da
imagem e não é tão importante (postura redutora),
ora porque não se consegue o bom diálogo entre diretor e músico, razão pela
qual, assim como acontece com a fotografia, e mesmo a montagem, os bons
diretores preferem parcerias que possam favorecer a convergência das criações.
Quando tudo se conjuga bem, criam-se as parcerias inesquecíveis.
CINEMA
DE RETOMADA
AW/WL
- Professor Ismail, se nos propuséssemos a fazer uma lista dos mais importantes
filmes brasileiros de ficção da atualidade, quais não poderiam faltar?
IX - Vou considerar atualidade o
período 1995-2008, a
da chamada retomada. E vou, com certeza, compor um elenco insuficiente que
exigiria acréscimos. É o risco de sempre.Terra estrangeira (Walter Salles), Assim nascem os anjos (Murilo Salles),
Um céu de estrelas (Tata Amaral), O invasor (Beto Brant), Baile perfumado
(Caldas e Ferreira), Estorvo (Ruy Guerra), Lavoura arcaica (Luiz Fernando
Carvalho), Miramar, São Jerônimo e Filme de amor (Júlio Bressane), A ostra e o
vento (Walter Lima Jr), Amores (Domingos de Oliveira), Dois córregos (Carlos
Reichenbach), Amélia (Ana Carolina), Cronicamente inviável (Sérgio Bianchi),
Bicho de sete cabeças (Laís Bodansky), Cidade de Deus (Fernando Meirelles),
Amarelo manga (Cláudio Assis), Desmundo (Alain Fresnot), Contra todos (Roberto Moreira), Cinema, aspirina e urubus (Sérgio
Gomes), O céu de Sueli (Karim Aïnouz), Corpo (Rubens Rewald & Rossana
Foglia), Canção de Baal (Helena Ignez) e um ou outro mais que me escapa no
momento.
CINEMA
DE ARTE X CINEMA DE INDÚSTRIA
AW/WL
- A partir das idéias inovadoras de Walter Benjamin, em A Obra de Arte na Era
de sua Reprodutibilidade Técnica,muito
se discutiu, e ainda se discute, sobre a relação entre Arte e Indústria, Arte e
Mercado. Fredric Jameson, em entrevista à Folha, afirmou que está desaparecendo
a fronteira entre a produção econômica e a vida cultural. Cultura é negócio, e
produtos são feitos para o mercado, disse o pensador. Na modernidade, observa
Jameson, lutou-se bravamente contra a mercantilização da cultura; a realidade
pós-moderna, porém, é inelutável: a cultura tornou-se mercadoria. Nesse
contexto, para o senhor, ainda faz sentido a bipartição (como muitos querem) do
cinema em cinema de arte e cinema de indústria?
IX - Esta bipartição teve origem nas
polêmicas da vanguarda no início do século XX e não pode ser tomada como um
absoluto. Tinham e têm razão os cineastas que apontam as fórmulas gastas e a
cautela da indústria em sua ansiedade pela comunicação (que muitas vezes
atrapalha a arte que não é propriamente comunicação, mas o ato de problematizar
a comunicação, questionar nossos automatismos). Mas têm razão os críticos que
recusam esta bipartição como separação entre o bem e o mal, pois o valor pode
estar dos dois lados da fronteira. Creio ainda ser útil a utilização destes
rótulos como apontadores de tendências, sem atribuição dogmática de valor só
porque um cineasta se proclama do lado do cinema de arte, pois pode se dar o
contrário. E também tendo consciência de que a menos de um segmento bastante
reduzido de filmes efetivamente
experimentais que buscam outros circuitos tudo é mercadoria, e cinema de
arte é uma estratégia de marketing como outras. A rigor não são categorias
estéticas; são armas de polêmica e fórmulas rápidas de situar um produto que
não dispensam a análise caso a caso.
ALEGORIAS
DO SUBDESENVOLVIMENTO
AW/WL
- Fredric Jameson, em Third World Literature in the Era of Multinational
Capitalism, aponta a alegoria como a forma que define a produção artística do outrora
chamado terceiro mundo, enquanto o pastiche, réplica pós-moderna da paródia,
definiria a produção do primeiro mundo. Em que ponto(s) sua concepção de
alegoria é convergente com a de Jameson e em que ponto apresenta diferenças?
IX - Em meu livro Allegories of
underdevelopment, publicado nos Estados Unidos, comentei a diferença entre a
minha posição e a de Jameson. No Alegorias, analiso a relação entre os filmes
brasileiros dos anos 60 e distintas formas de se entender a alegoria, seja com
referência aos gêneros clássicos, seja com referência ao evangelho, à alegoria
barroca (esta, sim, a partir de Benjamin) e à alegoria moderna. A alegoria
nacional faz parte do meu percurso e eu a vejo sendo praticada em diferentes
países (nos USA, na Europa, na Ásia, na América Latina). Jameson se preocupa
com este tipo de alegoria nacional quando a ficção que acompanhamos, ou seja, a
experiência das personagens, é referida ao contexto nacional, como
representativa de um estado de coisas na sociedade. Ele exagera e diz que nos
países do primeiro mundo tal alegoria não mais seria uma prática relevante,
sendo, portanto, uma característica da literatura e do cinema do Terceiro
Mundo. Minha resposta, e também a de Robert Stam, que escreveu sobre o assunto,
foi apontar a presença de alegorias nacionais no cinema e na literatura dos USA
e da Europa. Em verdade, a discordância é no uso que ele faz da idéia de
alegoria nacional (num sentido bem amplo) no seu diagnóstico da situação atual
da ficção.
INTEGRAÇÃO
DE LINGUAGENS
AW/WL
- Podemos afirmar que, em certo sentido, a qualidade estética de uma obra
cinematográfica resulta da integração e do equilíbrio formal de vários
elementos: som, luz, cenário, roteiro, atores, dentre outros. Dessa maneira, é
coerente se premiar fragmentos de um filme, como melhor música, melhor
fotografia, melhor roteiro, etc.? As premiações dos festivais, como o Oscar,
realmente atestam a qualidade artística de uma obra?
IX - Tenho problemas com premiações,
mas temos de reconhecer que foi uma função da crítica desde os festivais das
peças trágicas na Grécia antiga. Com todos os problemas, é uma forma de apontar
quem ou qual função contribui mais para a qualidade de um filme. O resultado
final depende da integração, mas há aspectos da obra que resultam mais felizes
do que outros.
GLAUBER
ROCHA
AW/WL
- Suas leituras de Glauber Rocha acentuam a dialética, presente no estilo
barroco dos filmes daquele cineasta, entre a metafísica religiosa e a idéia do
Homem-Sujeito da História.Esta tensão
dialética, porém, como apontam seus estudos, esmaece nos filmes feitos a partir
dos anos 70, quando a materialismo histórico é suplantado pela religião. A
partir daí o sagrado passa a dar o tom dos filmes e a esperança de revolução
advém prioritariamente da reorientação da tradição popular afro-brasileira, do
profetismo bíblico e do catolicismo rústico.Como essa reorientação filosófico-existencial repercutiu na qualidade
dos filmes do grande cineasta baiano? Como se explica o fato de Glauber ter
deixado, a partir de O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969), de
dar prioridade à idéia do Homem-Sujeito da História, já que neste momento a
questão do nacional se complexifica com o processo de urbanização? Basta
lembrarmos que Torquato Neto e Caetano Veloso, do movimento Tropicalista, neste
mesmo contexto, propõem uma neo-antropofagia.
IX - Na minha leitura, desde seu
primeiro longa, Barravento, Glauber
expressa esse movimento duplo de atribuir ao homem a condição de sujeito da
história e, ao mesmo tempo, armar o seu jogo de modo que a própria lógica da
história depende da força do que a própria religião do oprimido afirma, mesmo
quando este mostra seus limites. Deus e o
diabo proclama que a terra é do homem, mas todo o seu estilo afirma uma
teleologia da história que é de inspiração bíblica, de tipo profético, um mundo
em que a ação humana se encaixa num esquema que, por ser dado, permite
certezas. Em Terra em transe, temos o
drama barroco que é a expressão exasperada do desencanto provocado pela derrota
política, desencanto aliado à convicção de que tão cedo nada poderá acontecer
no teatro corrosivo da história dominada por forças indesejáveis. A partir de O dragão da maldade, o teatro da revolução
como promessa passa a ser trabalhado como algo que, estando presente e
evocado em seus filmes, está fora do centro da história. Está numa condição
marginal de que deve ser retirado. Ele passa a trabalhar a dolorosa crise da
história tal como antes concebida. Nesta crise, é preciso identificar as forças
vivas, o que tem potencial de transformação: o drama passa a opor a decadência
(pulsão de morte) dos poderosos à dignidade (pulsão de vida) dos oprimidos, o
que traz a religião popular para o campo da revolução, pois é vista como expressão
inconsciente da rebeldia. Aqui, embora em total acordo com a antropofagia como
método de criação, Glauber manteve sua postura reticente face ao universo
urbano, sem dúvida, mas sem nunca deixar de reconhecer o lado trágico desta sua
não reconciliação com a cidade, fonte dos aspectos mais dolorosos desse
sentimento de crise de longo prazo que dominou o seu cinema. É interessante
ver o seu olhar para a cidade de Roma no filme Claro, e seu olhar para Brasília em A idade da terra, obra que traz a imagem desta esperança camponesa
(de longo prazo) que se sabe soterrada por um monumental faz-de-conta das
elites, o qual ele desenha com muita ironia, mas nem sempre, neste filme, com a
força típica do seu cinema. A metáfora da cidade como pedra e túmulo é muito
expressiva; a elite local expõe seu jogo de máscaras de forma extraordinária.
Mas o espetáculo da religião que se justapõe a tal descalabro só encontra seu
ponto de articulação na voz do próprio Glauber que intervém para proferir o que
eu chamo de sermão do planalto, expressão corajosa da crise. Você me pergunta
sobre a questão da qualidade estética. Para mim, Terra em transe é a obra maior de Glauber, quando o movimento de
câmera, o gesto dos atores, a retórica dos discursos, a montagem vertical
som-imagem, o estilo indireto livre na composição da narrativa, tudo concorre
para a criação de um espaço cênico extraordinário: temos a criação de palcos
suspensos em que Glauber redefine o estatuto do teatro dentro do cinema e desenha
com muito vigor a sua visão barroca da história.
Alfredo Werney é arte-educador, músico e pesquisador, autor do livro Reencantamento do
mundo: notas sobre cinema (2008).
Wanderson Lima é poeta e professor, doutorando em literatura comparada pela UFRN, autor de Morfologia da Noite (2001) e Balé de Pedra (2006).