3 poemas de
Flávio Ferreira
o deus-paquiderme Immo, per imum
Ad immortalitatem
Om
sobre os galhos retorcidos
de emaranhado sentimento
pousa os pés El-iludido
atrás do fruto dum alento
que procura sempre altivo
todo o real conhecimento
todas coisas escondidas
do baixo chão ao alto céu
fazem juntas toda a vida
e a gruta fria onde deus
brota limpo em água-viva
do teto pinga em grade o fel
na gruta pousam os galhos
que do chão sustentam estrelas
três tempos emaranhados
pingando do céu como tetas
onde o homem em frangalhos
vai a este amor que o rejeita
quando enfim a teta agarra
pousa os pés na onírica abóbada
com um arco ele amarra
todas as coisas de resposta
e a seta do peito traga
e a aponta para o deus de alcova
com este amor estelar
todo o ar para a gruta assopra
para a flecha carregar
ao deus-baleia donde brota
todo céu e todo mar
e a seta que o acerta de volta
Ardhanari
centenas de rios na estepe indecisa
circundando-se em si como uma sina
do mar correm rubros de amor e cinza
para elevar no centro uma colina
tomando os céus de estrela cristalina
e os seus céus abraçam a terra prima
engolfando-a e levando-a mais acima
até no âmago a estrela atingida
chorar suas lágrimas de sal inda
chacinando da estepe toda lida
quando a montanha em vulcão convertida
vomita aos céus a branca lava anímica
cuspo de fora de mim minha vida
para cair no chão morto sem sina
e elevar novamente minha pira
O deus silente
ribomba um deus aos ouvidos do chão
travestido de homem arrefece
tropeça um viajante na solidão
e o segredo de estar ali el comete
o meio da estrada
na estrada aparece
interrompe-se um passo
um outro acontece
outras vias abrem
plos membros sem prece
o que fazem os pés
numa dança inerte
entorno do paquidérmico homem
a multidão aglomera a atenção
e seus pés inchados que tanto somem
descansam seu peso em travessão
a via envia a cisma
el cisma sua sina
flutuam seus pés
flui a via a alquimia
que vem vai ao revés
da boca que silencia
que lhe devoram
vários seus pés
do horizonte longínquo vêm-lhe reis
do horizonte longínquo o sol na tez
perguntas ao deus estendem ao som
dos ouvidos à boca nadas vão
runas vão à língua
p’las mãos do sábio pai
o anseio da poesia
cobrem com treva os ais
qu’ as runas prometem
ao jovem deus revelar
o alto sol qu’ el se faz
são a treva que será
u’a assoada da tromba d’ el revelada
revela aos homens que tanto ‘speravam
junto d’ el paquiderme tombam todos
silentes qual deus ao que mandam rogo
O deus demente
vinde vinde à lunar dança
despe-te a face de fel
‘tão lança-te qual pujança
de ver vil o deus no céu
ó fausto fausto
ó claro raio
vinde ao pé ao pé de mim
queime sangue e rasgue enfim
ó. ó. ó. ó!
cô céu rubro vesti-me junto
ao deus longo de ruído junco
dançai comigo a fauce rota
lançai rios em minha boca
de mel, leite e fel
de vindo vinho réu
seja eu teu velamento
seja eu teu cru intento
eia eia!
cavalguemos as feras mortas
dancemos as trevas postas
carne langue e sangue
embriaguemo-nos daqui em diante
carne langue e sangue
eia!
seja eu teu velamento
seja eu teu cru intento
n’altivo festim
corta a carne
os dentes o sangue
clareia marfim
a terça parte
: o que vem adiante
eia eia!
carne langue e sangue
carne langue e sangue
divididos os dois o terceiro plange
carne langue e sangue
carne langue e sangue
carne langue e sangue
ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha-haa-haaaa
ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha-ha-haaaaaaaaaa
domar à unha o bravio toiro
adornar dentes cheios d’oiros
meter na fauce o ventre
e o leite de corvos
dançai à tarde o fogaréu
sacrificai-me qual um réu!
(à cova crua
à gruta abrupta
um bode dança
montado às ancas
e espia a via
morrente do sol,
e faz-se a si)
seja eu teu velamento
seja eu teu cru intento
ah…
gira a terra a terra gira
gira andança na dança vira
célere célere
célere célere
do chão levanta a bruma
de molhadas cinzas cruas
breve cedo molha a grua
rápido rápido
rápido rápido
corta o vento seus espasmos
nos trilhos gira em pedaços
queima o corpo em laço lasso
lança aos ventos os teus braços!
bem-aventurados os que aventam a ventura
rechaçados plos suspiros de amargura
dos ventos a comer as carnes
cortando-as parte a partes
pouco a pouco até que suma
ah ventos frios de morte inconclusa
passai por mim dentro divina cura
ah gigante de gelo
de norte enlevo
dilacerai minha carne toda
enquanto danço em vossa boca…
célere célere
célere célere
gira gira!
rápido rápido
gira até que suma
gira até a espuma
borbulhar da boca suja
gira até que suma
gira até que suma
eia eia!
levanta até a altura
logo cedo a compostura
pisa a face d’amargura
gira até que suma
pisoteia a partitura
gira até que suma
gira até que suma
gira até que suma
gira até que suma
gira até que suma…
……………………………………………
……………………………………………
já morto jazem aos pedaços
os infindos largos passos
que na terra sempre afundam
onde unidos tais se fundam
num só passo gasto
com p’gadas n’espaço…
ai de mim
ai de mim!
que morro sempre enfim
na dança rubra de fogo
pisando sangue jasmim
na terra lanço rogo
na terra lança posto
encrava e fere pedra
difere e infere perdas
uh, uh, ah…
uh, ah, uh…
uh, uh, uh…
ah, ah, ah!…
deito em cama de prego
parafuso revelo dentro
danço em brasas reto
queimo o corpo e morro certo
deum dementem deuro
runamal
amarfunhado n' estriadas ondas
de lençóis aquosos de meu leito
afundo num mar ungüento e deito
cegado pela areia das tontas
horas tolas rotas que me perco
cavalga em mim eqüina fera
cuja monto em devaneio
de trilhar os ventos d' eras
com seis patas sem arreios
mas puxando o céu inteiro
vem da mente a minha boca
marcar na língua o segredo
bestas mortas todas todas
deus montado nelas vejo
após cum beijo d' anjo belo
meus pés descansam o desejo
que volta a mim o imenso seio
conduz-me areia prum castelo
que não sei se permaneço
enfim a fera morre em terra
voltando as vistas vale infausto
é de novo o que antes era
piso o céu de pé descalço
memória
aqui el faz um frio desgraçado
um frio qu' o cobertor não 'squenta
e o vento que p'la minh' alma venta
é o que tem no meu olho alquebrado
mariprismas das ondas do passado
que por mim ondeiam e que rebenta
quilha – e o mastro do céu alcançado –
mas éolo só ventos do norte venta
olha lá! já vai longe o peixespada
pr' outro lado longe de mim e minha
harpa! o qu' ora farei sem mi'a caça?!
ah volte a cortamares em mi'a 'spinha
volte e me consagre esta t'a 'spada
para qu' eu corte d' horizonte a linha!
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Flávio Ferreira (1987) é carioca e, além de poeta, é professor particular e estudante de letras na UFRJ.
contato: flcferreira@gmail.com
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Burtonland, de Wanderson Lima
Five, de Kiarostami, e a crise da representação, de Wanderson Lima
bloco de notas
[revista dEsEnrEdoS - ano II - número 5 - teresina - piauí - abril/maio/junho de 2010]