6 poemas de
         Sylvia Beirute





mundo


teríamos entrado noutro mundo
que não este engessado
da intensidade do impossível.
um sem lastro e que não começasse
em fevereiro no dia sete às dezanove
e dezasseis com uma refeição à espera, um
vinho sobre a mesa, e
a broa de avintes por cortar.
um sem antídotos pós-utópicos e hipotaxes,
um sem perguntas e frinchas, janelas
que voam com cabeças reveladas,
um descontextualizado até ao zero
e com sequências de arte intransigindo para trás,
um
em que para amar
não seja necessário
esperar que a paixão acabe.



ensaio sobre as palavras no contexto poético
{pensando em antónio ramos rosa}


a formalidade subtil da poesia
consiste
em aproximar todas as suas
palavras.
todas elas, independentemente
da sua colocação física, devem ser
equidistantes,
equi-importantes,
equi-ausentes.



buenos aires


não haverá vontades ou actos linguísticos,
nem contrários ou anti-contrários.
nenhum ilhado de nuvens brancas
sobrevoará a cidade hermética
do meu lunfardo.
tão-pouco haverá um orgulho cómico
ou uma atmosfera
em linha recta no mapeamento absoluto
dos meus olhos.
neste instante, nem piazzolla gerará
inflamações num «volte sempre»
e é seguro dizer que as decisões se medem
com distâncias ocupadas por vazios
que arrastam memórias livres.
hoje não haverá vontades ou actos linguísticos,
uma cor clara
comove uma cor escura até que esta se dissolva,
o amor deu a sua última volta, e a poesia planou
na literalidade móvel de um roteiro interior.
em breve, inextinguimos o tempo e o espaço
que nos extinguiu a nós.



lendo Manoel de Barros

          
um certo encardido nas reminiscências
entre poemas,
permissão da sua infinitude
absoluta.
nos poemas, reminiscendos ou não,
no seu movimento se situa
o denominador comum dos seus placebos:
todos se deslocam
em busca de alimento.




alma mater


a arte relevante
não tem como efeito
o de tornar o artista imortal,
mas sim
o de lhe dilatar
a ideia de morte.



uma casa em Beirute
"A sociedade só vive de ilusões. Toda sociedade é uma espécie de sonho colectivo. Essas ilusões tornam-se perigosas quando começam a parar de iludir."
                                                                                                                        Paul Valéry


choramos como chuva maior, todas
as cores adormecem no objecto exterior, 
todos os ecos são lugares de som.
todo o objecto é exterior. toda a chuva é exterior.
todo o exterior é interior.
todas as casas da cidade são efervescentes,
no mesmo nível exteriores e interiores,
porque nada por dentro de nada
e tudo sobre nada.
e continuamos: choramos como chuva maior,
rasgamos cronologias, recortamos ralos de cérebro,
ouvidos de sonhos negros.
o caminho para a hora zero produziu
um desenho veloz e espião, lugar onde as cores
adormecem no avesso desflorado do nosso pátio
humano, nirvana de três patas,
onde os braços derretem e depois dissolvem
com o som, a cabeça, a arma, o fogo, a bíblia,
e eternizam como efémero ilógico.



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Sylvia Beirute
é natural de Faro, Portugal. Estuda cinema e teatro e nasceu em 10 de dezembro de 1984. Escreve poesia e teatro para mudar o seu mundo e diz-se a favor do Acordo Ortográfico na versão de 1945. Integra o grupo literário Texto-al e é autora do blogue Uma casa em Beirute. Tem colaborações dispersas em revistas literárias de Portugal, Espanha, Argentina e Brasil.


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[revista dEsEnrEdoS - ano II - número 5 - teresina - piauí - abril/maio/junho de 2010]
 
 

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