teríamos entrado noutro mundo que não este engessado da intensidade do impossível. um sem lastro e que não começasse em fevereiro no dia sete às dezanove e dezasseis com uma refeição à espera, um vinho sobre a mesa, e a broa de avintes por cortar. um sem antídotos pós-utópicos e hipotaxes, um sem perguntas e frinchas, janelas que voam com cabeças reveladas, um descontextualizado até ao zero e com sequências de arte intransigindo para trás, um em que para amar não seja necessário esperar que a paixão acabe.
ensaio sobre as palavras no contexto poético
{pensando em antónio ramos rosa}
a formalidade subtil da poesia consiste em aproximar todas as suas palavras. todas elas, independentemente da sua colocação física, devem ser equidistantes, equi-importantes, equi-ausentes.
buenos aires
não haverá vontades ou actos linguísticos, nem contrários ou anti-contrários. nenhum ilhado de nuvens brancas sobrevoará a cidade hermética do meu lunfardo. tão-pouco haverá um orgulho cómico ou uma atmosfera em linha recta no mapeamento absoluto dos meus olhos. neste instante, nem piazzolla gerará inflamações num «volte sempre» e é seguro dizer que as decisões se medem com distâncias ocupadas por vazios que arrastam memórias livres. hoje não haverá vontades ou actos linguísticos, uma cor clara comove uma cor escura até que esta se dissolva, o amor deu a sua última volta, e a poesia planou na literalidade móvel de um roteiro interior. em breve, inextinguimos o tempo e o espaço que nos extinguiu a nós.
lendo Manoel de Barros
um certo encardido nas reminiscências entre poemas, permissão da sua infinitude absoluta. nos poemas, reminiscendos ou não, no seu movimento se situa o denominador comum dos seus placebos: todos se deslocam em busca de alimento.
alma mater
a arte relevante não tem como efeito o de tornar o artista imortal, mas sim o de lhe dilatar a ideia de morte.
uma casa em Beirute
"A sociedade só vive de ilusões. Toda sociedade é uma espécie de sonho colectivo. Essas ilusões tornam-se perigosas quando começam a parar de iludir." Paul Valéry
choramos como chuva maior, todas as cores adormecem no objecto exterior, todos os ecos são lugares de som. todo o objecto é exterior. toda a chuva é exterior. todo o exterior é interior. todas as casas da cidade são efervescentes, no mesmo nível exteriores e interiores, porque nada por dentro de nada e tudo sobre nada. e continuamos: choramos como chuva maior, rasgamos cronologias, recortamos ralos de cérebro, ouvidos de sonhos negros. o caminho para a hora zero produziu um desenho veloz e espião, lugar onde as cores adormecem no avesso desflorado do nosso pátio humano, nirvana de três patas, onde os braços derretem e depois dissolvem com o som, a cabeça, a arma, o fogo, a bíblia, e eternizam como efémero ilógico.
____________________ Sylvia Beiruteé natural de Faro, Portugal. Estuda cinema e teatro e nasceu em 10 de dezembro de 1984. Escreve poesia e teatro para mudar o seu mundo e diz-se a favor do Acordo Ortográfico na versão de 1945. Integra o grupo literário Texto-al e é autora do blogue Uma casa em Beirute. Tem colaborações dispersas em revistas literárias de Portugal, Espanha, Argentina e Brasil.