Nasce um otário a cada minuto
Ítalo Gustavo Leite




"Nasce um otário a cada minuto”, dizia P.T. Barnum, um empresário circense americano. Elisa leu na cadeia esta frase, numa edição velha da Revista Caras. Mas isto não significou nada para ela.  Conquanto não tenha dado importância, essa citação bem que poderia ser repetida por Elisa como um lema. 

Elisa Maria, apelido Preta, cabelos invariavelmente tingidos de vermelho, pode-se dizer que a vida lhe fora madrasta. Nunca lhe fora ofertada oportunidade alguma. Antes de ser presa pela primeira vez não tinha outras ambições a não ser sair daquela casa pobre de sua mãe na periferia de São Luís, cuja Santa Ceia decorava o primeiro cômodo. A irmã desde então a ignora porque casou com um PM. Dizia que o marido polícia tinha ódio de Elisa. A rigor, a irmã tinha medo de perder o marido para a irmã habilidosa, porém marginal. A mãe já esclerosada fora enviada para o interior do interior do Maranhão. Elisa, depois de sucessivos abortos, desistiu dos homens. Passou a focar no dinheiro. 

Era uma estelionatária conhecidíssima em São Luís do Maranhão. Aperfeiçoou-se em esquemas na internet destinados a reunir números de cartões de crédito e dados de verificação que ela então iria vender ao submundo comercial.

Foi presa pela primeira vez por vender motos alugadas como se fossem seus. Estava em parte inocente. Foi laranja. E jurada de morte por mais de uma dúzia de pessoas. Na cadeia fingiu estar grávida. Sensibilizou o juiz. Deu um golpe no besta do advogado. E sumiu por uns tempos. Afundou sem deixar traço.

Na cadeia continuou a fazer programa. Combinava um programinha barra-limpa à noite. A velharada ia buscá-la na porta do presídio. Eu tenho certeza que ela aplicava o “Boa Noite Cinderela” nesse povo. Nasce um otário a cada minuto.

Ao sair da cadeia entrou em contato com um pessoal do Pará e daí então passou a trabalhar com os golpes na internet. Fazia cadastros em sites de vendas virtuais. E tchau e benção.

Primeiramente, vendia para todo Brasil: computador, celular, mas sem ter computador, nem celular. Após receber o dinheiro, sumia. 

Elisa obtivera certa vez informações de muitas pessoas ao passar um e-mail para mais de dez mil pessoas que estavam nas carteiras de clientes de várias empresas. Os dados tinham sido roubados do computador da empresa por um hacker que fazia parceria com Elisa. O e-mail passado por ela dizia basicamente que as pessoas deviam entrar em contato com a empresa para fazerem um acordo extrajudicial. Para se ter uma idéia, ela chegou ao ponto de mandar mensagens para alguns clientes de uma empresa farmacêutica informando que a empresa concordou em indenizar todos os consumidores de um remédio contra a impotência porque este, segundo Preta, não tivera um resultado satisfatório.

Apenas cinquenta pessoas mandaram os dados. E foi o suficiente para conseguir pelo menos 10 mil reais.

Hoje, domingo de 2010, às 11h 46 min, está num presídio feminino em São Luís, Centro de Reeducação e Inclusão Social de Mulheres Apenadas, localizado no Olho d'Água,  chamado de  CRISMA. Já cumpriu um sexto da pena. Ficou em terceiro lugar no IV Concurso de Miss lá no xadrez.

Está de namoro com o faz-tudo do presídio. Conheceu, gostou e agora quer casar. Moça de sorte essa Elisa. Quem viver verá. Na cadeia muitos falam com maldade que ela se casará com interesse na progressão do regime, nos indultos e no livramento condicional. Faz questão de usar o nome do marido. Nem imagino para que ela faça tanta questão disto. Nasce um otário a cada minuto.


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Ítalo Gustava Leite nasceu em São Luís-MA. Morou por um tempo em Teresina-PI.É advogado em São Luís. Sua primeira obra artística, “Corredor Polonês”, foi encenada pela Companhia de Teatro Circo Negro. E-mail: igsleite@bol.com.br. É editor do blog http://notasjudiciosas.wordpress.com/



[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 5 - teresina - piauí - abril/maio/junho de 2010]

 

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