3 poemas de
         Ruy Espinheira Filho





reflexões ao crepúsculo


Foi-se o que era alegre e lindo
e veio o que é triste e torvo.
Veio e ficou, frio infindo
como um nunca mais de corvo.

Mas o que existe de infindo?
De nunca mais? O estorvo
pior também se vai, fugindo
como nas asas de um corvo.

E eis que o que é alegre e lindo
exorciza o triste e o torvo.
Mas também não é infindo,
como um nunca mais de corvo.

E assim faz-se a vida: indo
tanto em penugem de corvo
como em alegria abrindo
manhãs no que era torvo.

E quando, um dia, for findo
o prélio entre o lindo e o torvo,
tudo será mesmo infindo,
mais que um nunca mais de corvo.


(De Sob o céu de Samarcanda. Bertrand Brasil/FBN, 2009)




soneto do nome

A noite vem do mar cheirando a cravo.
                                        Sosígenes Costa


A noite vem do mar e traz teu nome,
que há muito tempo já não pronuncio.
Sonoro, ele revoa no vazio
de mim, sobre meus lábios. O teu nome

vem do mar nesta noite e me consome
mais uma vez. Reinventa, em chama e frio,
uma cidade em que nada é vazio,
pois em tudo há o perfume do teu nome.

E agora a lua vem beijar-me o rosto,
e é também teu perfume, que consome
a treva em minhas velas de sol-posto.

Sob esta luz o mundo inteiro some:
só há o luar compondo em mim teu rosto,
e o mar, que arde no aroma do teu nome.


(De Sob o céu de Samarcanda. Bertrand Brasil/FBN, 2009)



soneto do quintal

Para Matilde e Mario,
em Monte Gordo, março de 91


Ao recordar a moça, eu me comparo
ao cão que vejo a interrogar a brisa.
O que é mal comparar: bem mais precisa
é a mensagem de odores que o faro

decifra. E então medito sobre o claro
ser desse cão, e invejo essa precisa
vocação de existir. E ausculto a brisa,
e nada nela encontro. Nada. E paro

de lembrar e pensar. Há mais profícuas
ocupações. Exemplo: só olhando
estar: Cão. Nuvens. Ramos. E, dormindo,

um gato. E essas formigas — três — conspícuas,
vestidas a rigor, deliberando
em torno de uma flor de tamarindo.


(De Memória da Chuva, 1996)



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Ruy Espinheira Filho
nasceu em Salvador, Bahia, em 1942. Poeta, prosador e ensaísta, recebeu diversos prêmios literários, entre eles o Prêmio Nacional de Poesia Cruz e Sousa, em 1981, pela obra As sombras luminosas. É mestre em Ciências Sociais, doutor em Letras e professor de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Vernáculas do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia.

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[revista dEsEnrEdoS - ano II - número 5 - teresina - piauí - abril/maio/junho de 2010]
 
 

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