Foi-se o que era alegre e lindo e veio o que é triste e torvo. Veio e ficou, frio infindo como um nunca mais de corvo.
Mas o que existe de infindo? De nunca mais? O estorvo pior também se vai, fugindo como nas asas de um corvo.
E eis que o que é alegre e lindo exorciza o triste e o torvo. Mas também não é infindo, como um nunca mais de corvo.
E assim faz-se a vida: indo tanto em penugem de corvo como em alegria abrindo manhãs no que era torvo.
E quando, um dia, for findo o prélio entre o lindo e o torvo, tudo será mesmo infindo, mais que um nunca mais de corvo.
(De Sob o céu de Samarcanda. Bertrand Brasil/FBN, 2009)
soneto do nome
A noite vem do mar cheirando a cravo.
Sosígenes Costa
A noite vem do mar e traz teu nome, que há muito tempo já não pronuncio. Sonoro, ele revoa no vazio de mim, sobre meus lábios. O teu nome
vem do mar nesta noite e me consome mais uma vez. Reinventa, em chama e frio, uma cidade em que nada é vazio, pois em tudo há o perfume do teu nome.
E agora a lua vem beijar-me o rosto, e é também teu perfume, que consome a treva em minhas velas de sol-posto.
Sob esta luz o mundo inteiro some: só há o luar compondo em mim teu rosto, e o mar, que arde no aroma do teu nome.
(De Sob o céu de Samarcanda. Bertrand Brasil/FBN, 2009)
soneto do quintal
Para Matilde e Mario, em Monte Gordo, março de 91
Ao recordar a moça, eu me comparo ao cão que vejo a interrogar a brisa. O que é mal comparar: bem mais precisa é a mensagem de odores que o faro
decifra. E então medito sobre o claro ser desse cão, e invejo essa precisa vocação de existir. E ausculto a brisa, e nada nela encontro. Nada. E paro
de lembrar e pensar. Há mais profícuas ocupações. Exemplo: só olhando estar: Cão. Nuvens. Ramos. E, dormindo,
um gato. E essas formigas — três — conspícuas, vestidas a rigor, deliberando em torno de uma flor de tamarindo.
(De Memória da Chuva, 1996)
____________________ Ruy Espinheira Filhonasceu em Salvador, Bahia, em 1942. Poeta, prosador e ensaísta, recebeu diversos prêmios literários, entre eles o Prêmio Nacional de Poesia Cruz e Sousa, em 1981, pela obra As sombras luminosas. É mestre em Ciências Sociais, doutor em Letras e professor de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Vernáculas do Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia.