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Orgulho e Preconceito

Jane Austen
[2ª edição, Civilização Brasileira, 2006]


Jane Austen nasceu em uma paróquia de Steventon no condado de Hampshire, Inglaterra. Sua família pertencia a uma classe latifundiária da Grã-Bretanha (os gentry). Esta classe social era formada por pessoas sem muitas posses, mas, em termos de títulos nobiliárquicos, estavam logo abaixo dos nobres aristocratas. Foi nesse ambiente puritano e fechado que a romancista encontrou material suficiente para elaborar personagens que transcenderam a rotina limitada a qual estava submetida.

O clássico Orgulho e Preconceito (Pride and Prejudice, 1797) não só introduz Jane Austen na galeria dos maiores fenômenos da literatura inglesa, como também retrata as principais ideias da mulher que interpretou temas cotidianos à luz da universalidade. Com uma observação cirúrgica da realidade que a cercava, Austen retratou a limitação da aristocracia rural em personagens ‘transgressoras’ (guardadas as devidas proporções), irônicas, fortes, visionárias e rigorosamente convictas.

É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa.” Com essa introdução, a romancista irrompe na peça-chave que permeava a sociedade da época: casamento e dinheiro.

Orgulho e Preconceito foca suas atenções na saga de Elizabeth Bennet, a segunda filha em um lar de seis mulheres e um único varão – o patriarca –, o que simbolizava, segundo a lei da época, que o espólio iria para o parente do sexo masculino mais próximo na árvore genealógica.

Para se manterem, as mulheres precisavam arranjar bons casamentos, com homens que vivessem de renda e que pudessem lhes proporcionar uma vida confortável em termos financeiros. Com a chegada de Mr.Bingley, um gentleman que dispunha de quatro ou cinco mil libras anuais, a casa dos Bennet entrou em alvoroço, com a Mrs. Bennet solicitando ao marido uma visita ao novo locatário de Netherfield Park. A partir desse ponto, a história se desenrola em longos e inteligentes diálogos, demonstrando toda a capacidade da autora de contrapor os hábitos da sociedade aos verdadeiros sentimentos e paixões que guiavam suas heroínas.

Com Elizabeth (Lizzy) não foi diferente. Ao travar o primeiro contato com o amigo de Mr.Bingley, o insociável e taciturno Mr. Darcy, a protagonista diz uma das frases que nortearam o rumo do tempestuoso relacionamento que brotaria dali: “Eu poderia facilmente perdoar o seu orgulho, se ele não tivesse mortificado o meu”. Diferentemente de suas irmãs, Lizzy Bennet é um espírito indomável, guiada por questões existenciais complexas.

No decorrer da trama, Jane Austen descortina relações de poder, alpinismo social e a estratificação de condutas e comportamentos, onde, muitas vezes, a figura feminina era renegada ao mero estado de obrigação. Acima de tudo, o livro caracteriza a veia central de todos os trabalhos da autora, onde a força dos pré-julgamentos reverbera no que, segundo informações biográficas, distinguiram sua própria vida: o fato da mulher assumir uma posição autônoma dentro da sociedade, podendo decidir o rumo do destino que almejava seguir. Jane Austen cria outros mitos de ascendência feminina – temperada, claro, com muita contenção, o que viria a ser outra marca registrada – em Razão e Sensibilidade, Mansfield Park, Emma, Abadia de Northanger e Persuasão.

Através da obra Orgulho e Preconceito, a autora inglesa imortaliza o drama que, séculos depois, permanece sempre atual: posição e poder nas relações interpessoais. Na edição nacional, lançada pela editora Civilização Brasileira (2006, 2° edição, 430 pág), o livro conta com a tradução do renomado escritor, jornalista e dramaturgo Lúcio Cardoso.

Como escreveu David Cecil, autor do retrato-biografia ‘A Portrait of Jane Austen’: Jane Austen “permanece para mim – sem dúvida como ela teria desejado – sem intimidade, apenas uma conhecida.
[Mara Vanessa]



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Pleno Deserto

Maiara Gouveia
[Edições Rumi, São Paulo, 2009]


Tessitura de música e imagens e, ao mesmo tempo, negação do esteticismo, Pleno Deserto devolve a linguagem à sua foz e à sua nascente: o corpo. Embora o trabalho formal venha sublinhado em alguns belíssimos poemas de cunho imagético, como “Poliedro”, “Alba” e “Onírico”, entre outros, sua poética se enraíza no mito fundador, em um domínio telúrico, anterior às palavras, e que confere sentido ao mundo. Porque primeiro houve o toque, uma extensão da vista; houve o movimento, a percepção de tempo, espaço. Muito antes de ser dito, o mundo foi tocado, apreendido; captado, antes de ser inteligido em estruturas.

Por mais que estejamos diante de poemas que muitas vezes aspiram se bastar em sua própria enunciação, há na poesia de Maiara aquele saudável horror à literatura, o medo de se ver “confinada em uma sala de poetas”. Os poemas, desse modo, sempre refluem para alguns núcleos de sentido que escapam ao campo estritamente literário: o sexo, a morte, o sagrado, a inocência ou outra zona que ilumina a linguagem, sem circunscrevê-la. O antigo tema grego do amor como união de pobreza (penia) e recurso (poros) é aqui retomado, pois cabe a toda poesia erótica e amorosa fazer da carência volúpia, da volúpia, drama, do drama, linguagem, e, desta, redenção. Assim, o seu mergulho é especular: perde-se a dimensão da consciência de si, morre-se para o mundo das formas, mas recupera-se este mundo com a intervenção da poesia, espelho que nos devolve à singularidade. O processo que engendra a criação é o mesmo daquele deus que, do “lado de fora”, por ventura nos contemplasse; perceberia a eterna transformação de “fios de cores, de formas, de seres”, um a um desenlaçados, “a pele areia, areia nuvem, nuvem deserto, deserto rasgo”.

Reencenando o tema gnóstico do estrangeiro, a postura assumida pela poeta, em Pleno Deserto, é a do desterro. Em sua primeira acepção, a do deserto-exílio, o olhar é oblíquo, de fora, e é exatamente por isso que se gera a tensão, o atrito existencial, pois o ser habita o mundo, aspira fundir-se a ele, mas retorna sempre sobre si mesmo, à opacidade intransponível de sua própria impossibilidade. Por isso, é central a ênfase dada ao amor, em todos os seus matizes, desde o carnal e erótico ao passional e subjetivo. Pois ele plenifica a falta e preenche todos os poros de areia do corpo com a assunção do desejo e, assim, com a transformação da falta em potência. Da perda ao estado de queda, da totalidade que me é vedada à redenção por meio do amor, assumido em sua fratura primeira: esse parece ser o itinerário harmônico, o leitmotiv do sol crescente destes poemas. E, talvez em virtude da propriedade com que o tema é encarnado, Pleno Deserto é uma das melhores expressões da temática erótico-amorosa na poesia brasileira contemporânea.
[Rodrigo Petronio]




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A Paixão pelos Livros

Júlio Silveira e Martha Ribas [org.]
[Casa da Palavra, 2008]


Há quem diga que vender o amor é tarefa quase impossível. Também há quem defenda a imaterialidade de sentimentos elevados, intensos, que se sobrepõe à nossa própria lucidez. E por último, mas não menos importante, há nesta mesma terra de paixões desenfreadas e amores imaculados uma espécie de contubérnio; uma atividade prazerosa, viciante, colérica, arrebatadora, terna, compreensiva e quantos mais adjetivos couberem aqui. Como protagonistas de tal vida incomum estão os livros.

A Paixão Pelos Livros traduz com expressividade todas as afirmações mencionadas. Trata-se de uma coletânea de contos, crônicas e depoimentos de quem descobriu na leitura a própria alma. Autores nacionais e estrangeiros revelam, cada qual a seu modo, a intimidade que desenvolveram com os livros e a importância dos mesmos na trajetória de suas vidas.

Não existem destaques ou melhores textos. Tudo entra em consonância com o principal objetivo do livro: acionar o leitor atual sobre como a paixão literária pode transformar o dia-a-dia de homens comuns.

É inegável a paixão que o poeta Drummond exala no depoimento "O Sebo"; a observação sagaz do filósofo e físico francês D'Alembert em "Bibliomania" (quando trata, com muito humor, da diferença entre os reais amantes dos livros e os pseudos-intelectuais); da irreverência devota do ensaísta Montaigne quando descreve a necessidade de isolamento para praticar o hábito da leitura; sem mencionar a declaração visceral do russo Varlam Chalámov (do qual me tornei fã depois da leitura de seu depoimento/crônica) e ainda do escritor americano William Saroyan (que me fez imaginar Fante). Isto apenas para citar.

No livro também estão inseridos textos de Castelo Branco, Doyle (bibliófilo), Flaubert, Franklin (cientista e impressor), Lacerda, Milton, Mindlin, Petrarca e o músico Veloso.

Outro adicional da edição é o papel 'encorpado' (impresso em Chamois Bulk) e belíssima arte interior, que contrasta gravuras ora em branco, ora em preto, com um ardente fundo vermelho (na capa e no miolo, respectivamente). A fotografia, que retrata a biblioteca londrina bombardeada em 1940, é uma das imagens mais tocantes que vi em toda a minha vida. É simplesmente magnético!

A Paixão Pelos Livros é o tipo de obra que te faz amar ainda mais o que você é, o que você sente, o que você faz e todo o seu desprendimento em prol da literatura.
[Mara Vanessa]





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Órfãos do Eldorado

Milton Hatoum
[Companhia das Letras, 2008]



Uma palavra que pode resumir a obra de Milton Hatoum é hibridismo.  O estilo de Hatoum execra unicismos e corteja a impureza, a complexidade, a multiplicidade – cultural e étnica –, o amálgama entre história, mito e memória.

Órfãos do Eldorado (2008) é o mais condensado dos livros de Hatoum, mas nem de longe é um livro simples. Simples, sim, na linguagem: clássica, casta, sintética, precisa ao ponto de nada poder ser retirado ou acrescido. Poderia citar várias passagens que comprovam o domínio que Hatoum tem de seu instrumento, mas ficarei numa só: “Até hoje recordo as palavras que me destruíram: Tua mãe te pariu e morreu” (p. 16). Esta frase sintetiza a saga de uma reconciliação impossível entre pai e filho, fato que destruirá muitas vidas. Esta simplicidade na linguagem – que acredito ser fruto não de uma concessão qualquer, mas de um labor incessante sobre a ferramenta de trabalho – é a base sólida para a construção de um labirinto (palavra ao gosto de Borges, uma das muitas fontes deste escritor onívoro, que revela também ser leitor atento de Machado, Rosa, Faulkner, García Márquez e tantos outros) que tem várias entradas. Uma entrada é o mito, a história de um paraíso submerso no rio Amazonas; a outra é a história, o esplendor e a decadência de Manaus durante o ciclo da borracha; a outra é a memória desse híbrido de Riobaldo e Bentinho que é Arminto Cordovil, o narrador-personagem dessa história em que mito, delírio pessoal e documentação histórica se conjugam numa harmonia singular, sem necessidade de uma síntese forçada.

Se, guardadas as proporções, Arminto é o Bentinho manauara, a história também não deixa de ter sua Capitu – esta inexplicável Dinaura, meio mito meio gente, meio mulher meio delírio do narrador. Dinaura, criatura complexa e escorregadia como o próprio texto de Hatoum.

É preciso que se diga: o livro tem pouco mais de cem páginas e foi escrito sob encomenda de uma editora estrangeira, que pedia uma história sobre mitos amazônicos. Milton Hatoum fez muito mais e – o que não surpreende quem conhece outras obras do autor – jamais precisou fazer “macumba pra turista”, diluindo a densidade dos mitos no caldeirão do pitoresco.

Arrisco dizer (e não o digo sozinho) que Órfãos do Eldorado é uma das mais belas narrativas de decadência (individual e social) da literatura brasileira, devendo figurar ao lado de Fogo Morto, de Lins do Rego.
[Wanderson Lima]




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Babel

Alejandro González-Iñárritu
[Babel, México/EUA, 2006]


Desde Amores Brutos (2000), Alejandro Iñarritú e seus colaboradores têm demonstrado uma clara vocação para uma concepção fatalista do destino humano. Eventos aparentemente desconexos ligam destinos de forma irrevogável, independentemente do querer humano. Em Babel, este fatalismo atinge uma dimensão cósmica, envolvendo pessoas de diferentes países e culturas, irmanados apenas pela miséria da condição humana, impotente diante de um Destino (com D maiúsculo) que se afirma. Porém, por trás desta plataforma cósmico-arquetípica, o filme de Iñarritú sonda os desencontros do mundo global e pós-moderno. Assim, além de ser um filme sobre o Destino, Babel é também, como alude o título, um filme sobre a incomunicabilidade, tanto das nações (no plano macro) como das famílias (no plano micro).
México, Japão, EUA e Marrocos compõem esta paisagem desumana e árida em que se desenrola o drama cósmico de Babel, protagonizado por uma galeria de infortunados lançados num mundo onde não se sabe falar o esperanto.

O mundo de Babel é o do excesso e do contraste. Aqui, saímos de um deserto com cabras para uma agitada partida de vôlei. Ali, saímos de uma paisagem deserta e triste para um casamento popular e turbulento. A câmera em Babel move-se nestes ambientes não para buscar o espetacular, o profundo – mas para representar cada lugar de um ponto de vista diferente. Verdade é que, por essa intenção, e por necessidade de economia de tempo, o diretor recorre inevitavelmente a estereótipos com que identificamos as nações que aparecem no filme; neste caso, porém, o valor do estereótipo é antes didático do que preconceitual.

Iñarritú mostra-se bastante cuidadoso na composição do ritmo e da duração das cenas. O ritmo da montagem é condizente com cada cultura: planos rápidos e estonteantes para representar a agitada vida do Japão (ocidentalizado e capitalista); pouco movimento de plano e pouca atividade rítmica da música para representar a vida rural do Marrocos. Os contrastes que se repetem e se reforçam em nível de imagem podem também ser observados em nível de som. O diretor e o compositor argentino Gustavo Santaolalla (vencedor do prêmio BAFTA e do “Oscar” pela trilha de Babel) optaram, na maior parte da obra, pelo uso da música diegética (isto é, da própria cena) com função espaço-temporal. Em outros termos: a música, incidental ou não, é quem localiza os países e etnias que nos são mostrados. Bandas latinas tocando cumbies, tex-mex, mariachis e boleros tradicionais como “Tu me acostumbraste” – identifica México; Uso do oud – instrumento oriental de cordas possuidor de sonoridade e técnica parecida com a do alaúde e do violão – identifica o Marrocos; o universo sonoro dos sintetizadores das boites ocidentais – aponta o Japão. Notemos que em tais associações o Japão possui uma localização musical atípica, possivelmente para mostrar como o processo de globalização tem modificado as referências etnomusicológicas deste país.

Caótico no desenvolvimento, Babel fecha-se com a sugestão de que nem tudo é babélico assim, pois que ainda pode haver, ao menos no núcleo familiar, uma tênue possibilidade de diálogo.  Tudo em Babel se encaminhava para um fim trágico, até que um discreto deus ex-machina começa, no seu silêncio onipotente, a montar para nós um quebra-cabeça no qual vislumbramos talvez um sorriso, talvez mesmo um aperto de mão. Nesta manipulação flagrante do desfecho, é possível vislumbrarmos mais que um erro de roteiro: Alejandro, possivelmente, ainda crê nos homens. E não quer abrir mão dizê-lo. Decida o espectador se é fraqueza ou não do diretor.
[Alfredo Werney e Wanderson Lima]




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Canções de Amor

Christophe Honoré
[Les chansons d'amour, França, 2007]


Elaborar um roteiro é uma árdua tarefa. Se for um roteiro musical torna-se ainda mais difícil. E criar um com músicas que já existem é um alvo fácil para críticas ácidas. Prova disso são os recentes Across the Universe (de Julie Taymor, 2007) e Mamma Mia! (de Phyllida Lloyd, 2008), que não alcançaram o sucesso estimado. Mas a partir do que é cantado em um dos musicais acima, “com todos os erros devemos estar sempre aprendendo”, Canções de Amor comprova que realmente aprendeu. A história de dor e redenção seria facilmente esquecida se tivesse caído em mãos erradas. Mas com o diretor em ascensão Christophe Honoré (Em Paris e A bela Junie), o filme ganhou novos ares. Pode-se até dizer que há dois protagonistas na tela: Ismaël e Jeanne, vividos respectivamente por Louis Garrel (Os sonhadores e A fronteira da alvorada) e Chiara Mastroianni (dubladora de Marjane Satrapi, na premiada animação Persépolis). Ambos não sabem conviver com a perda de uma pessoa em comum, mas enquanto ele persiste em continuar vivendo sua vida com novos amores, ela encontra-se sem conseguir avançar nem retroceder. O filme, que esteve na lista especial do Festival de Cannes de 2008, proporciona momentos únicos e originais, os quais impressionaram muitos críticos, desde a melancólica abertura, que mostra as ruas movimentadas no crepúsculo de Paris, até os créditos, com a conveniente música da cantora francesa Bárbara, Ce Matin (“eu fui ao bosque para colher amoras para ti, meu amor, para ti”). Mas, melhor do que as atuações, as locações e o enredo intenso, as músicas de Alex Beaupain funcionam muito mais do que só para completar diálogos. Transpõem sentimentos que, por vezes, a simples conversa não é suficiente. Enfim, essa fórmula bem-elaborada (que conta com competentes direção de arte, fotografia e montagem), consegue atingir seu objetivo: fazer um filme simples, mas com uma mensagem bastante profunda. Cabe apenas a cada um descobrir qual é essa mensagem.
[Victor Ribeiro]




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Abraços Partidos

Pedro Almodóvar
[Los Abrazos Rotos, Espanha, 2009]



Pedro Almodóvar, a cada filme, mantém os mesmos ingredientes, mas os vai lapidando, corrigindo e aprofundando. Estes ingredientes, desde A flor do meu segredo (1995), incluem traços como a metalinguagem, a ficção dentre da ficção (mise en abyme), a citação intertextual e o uso ambíguo do melodrama (entre a adesão e a revisão irônica). Mas mesmo com este repertório estilístico, tão ao gosto de certo cinema pós-moderno, avesso à densidade e vacinado contra a vida fora da tela, Almodóvar não abdica da vocação investigativa do cinema, isto é, do cinema enquanto instância de investigação da “alma humana”. Cinéfilo inveterado, Almodóvar filma com paixão, mas, mais que isto, filma a paixão, a obsessão, o gosto vivo de criaturas, em geral do universo underground, por algo ou alguém. A Almodóvar só interessam os obstinados; como o profeta bíblico, ele arroja os mornos com desprezo.

O encanto do cinema de Almodóvar advém desta dupla mirada, ora no cinema enquanto representação da vida, ora na vida aceita como paixão e desafio. Dizer que os personagens de Almodóvar são, por isso, transgressores é óbvio e insuficiente. Sem dúvida, Almodóvar, homossexual assumido e ex-punk, já namorou a arte panfletária, mas seu amor incondicional ao cinema, antes de qualquer coisa, sempre o livrou da arte-propaganda.

Abraços Partidos exorciza qualquer laivo panfletário (ainda visível, por exemplo, em Má educação) e
mostra um Almodóvar mais depurado e rigoroso, às vezes (e aqui vai uma das poucas reprimendas que faria ao filme) beirando o óbvio na construção simbólica do espaço. No entanto, parece-me, esta obviedade pode ser uma ironia do diretor que não absorvi plenamente. O filme, por suas inúmeras nuanças e por seu intrincado enredo, é destas películas que precisamos assistir repetidas vezes. As muletas do melodrama e da comicidade – que Almodóvar manipula tão bem e as usa como chamariz do grande público –  ficaram bastante esmaecidas neste novo trabalho. Diria que este é provavelmente o menos digestivo dos filmes de Almodóvar – não só pela ausência das aludidas muletas, como também por um conjunto de citações funcionais à economia do filme, e que passam por Hitchcock, Rosselini, Michael Power e... pelo próprio Almodóvar, numa auto-paródia de Mulheres à beira de um ataque de nervos.

Evito aqui empobrecer um enredo ao mesmo tempo tão ramificado e tão bem tramado, que se move entre dois tempos e é assentado sobre as desventuras de um cineasta que ficara cego depois de um acidente em que morrera sua amada. Nesta história de superação – mas que não se confunde com essas pílulas baratas de auto-ajuda do tipo de à procura da felicidade –, remontar um filme tem o preciso sentido de resgatar uma vida. Para o Almodóvar de Abraços Partidos, o cinema redime a vida. A última frase do filme, portanto, não poderia ser mais emblemática: “Las películas hay que terminarlas, aunque sea a ciegas”. O espectador atento compreenderá a duplicidade deste “a ciegas”, e o que ele custou ao protagonista.
[Wanderson Lima]




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Nome Próprio

Murilo Salles
[Brasil, 2007]



Esse Nome Próprio, de Murilo Salles, é mais um exemplo de certo sintoma recorrente em diversas produções recentes da cinematografia brasileira; o “filme de ator”. São essas produções que, ancoradas no eficiente trabalho de um determinado ator, relevam todos os outros aspectos a um segundo plano, não tendo muito mais o que oferecer ao público quando concluída a película. De Se eu fosse você (leia-se “Tony Ramos e Glória Pires”) a Divã (leia-se “Lílian Cabral”), os exemplos são muitos, inclusive no circuito independente. Em outras palavras, o verdadeiro “nome próprio” desse filme chama-se Leandra Leal, em uma soberba atuação onde direção, roteiro, fotografia, montagem, coadjuvantes (com raríssima exceção) não cumprem função nem relevante nem eficiente, apenas servem para a atriz desenvolver seu talento de forma ousada e marcante. Mas sem um roteiro que justifique tamanha entrega de uma atriz, até a personagem de Leandra, a junkie egocêntrica Camila, também se apresenta irrelevante. É só mais um folhetim de garota underground sonhando desenvolver seu suposto talento e buscando seu lugar no mundo, em meio à sexo, álcool e o que mais aparecer. Enfim, roteiro convencional, personagens mal construídos, direção fraca, produção modesta e uma atuação magnífica que extrapola os frágeis limites da película.
[Adriano Lobão Aragão]





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Quem quer ser um milionário?

Danny Boyle
[Slumdog millionaire, EUA/Inglaterra, 2008]


A pergunta do título no Brasil é bem fácil de responder. Um pouco mais complexo é entender por que esse filme ganhou o Oscar. Dentro do universo criado pela obra artística, querer que acreditemos naquela história é exigir demais. Na ânsia de “mostrar a realidade”, tudo em Quem quer ser um milionário? revela-se construído in vitro. A começar pelo excesso de efeitos e jogos de câmera que talvez fiquem interessantes em um video-clipe, mas numa narrativa cinematográfica apresentam-se absolutamente desnecessários. Aliás, como um diretor como Boyle, que filmou o interessantíssimo Trainsppoting, pôde cometer tantas cenas repletas de efeitos vazios, sem significação nenhuma para a narrativa?
[Adriano Lobão Aragão]






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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano I - número 3 - teresina - piauí - novembro/dezembro de 2009]
 

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