bloco de notas






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[novo]
Representação e Identidade Cultural do Vaqueiro no Cinema Novo

Halan Silva
[Nova Alinça, 2010]

Arte engajada, Cinema Novo e Literatura, Função social e Compromisso pedagógico, são os temas básicos desse livro de Halan Silva, Representação e identidade do vaqueiro no Cinema Novo. Eu acrescentaria um tema recorrente, reiterativo, que envolveriam os demais temas: a função sacral da Arte. Na realidade, a Estética não admite essas separações, sendo que o desenvolvimento delas é prisma, um alvo, um amálgama do conhecimento artístico, seja no cinema ou no Romance.

Sarte, que andou defendendo a “arte engajada”, certa vez disse – após a era stanilista – que se a arte não for tudo, “não valerá nada”. É o que entendo por Compromisso. Então seria temerário separar escritores supostamente engajados socialmente de escritores experimentais esteticamente. A Estética não aceita isso nem precisa desses desvãos ideológicos: o que está intrínseco nela, na Arte, é o ser humano. Como disse Heidegger, há uma “originalidade irredutível da existência humana.”

Mas Halan Silva leva a cabo, com competência, o seu ensaio, com teses propostas, salientando o “compromisso pedagógico” do Cinema Novo – o fulcro dos seu estudo – a partir de dois filmes brasileiros emblemáticos, Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha e Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos. E o autor centraliza no homem – na sua individualização – a perspectiva pedagógica, quando na verdade mostra os recursos estéticos dos dois filmes em função do ser, no caso do indivíduo-vaqueiro. Assim, ele se afasta, estritamente, da camisa-de-força de um limitado cinema engajado ou supostamente pedagógico – o termo pedagógico, achamos, é reiterado no seu ensaio, mais como uma amplitude do conceito do que mesmo um reducionismo político. “O ente do qual temos que fazer a análise é aquele que nós mesmos somos”, disse Heidegger.

O ensaio de Halan Silva é bastante abrangente em relação ao Cinema e a Literatura, indo de um resumo histórico do primeiro à análise do Romance de 30, chegando ao Cinema Novo e à apreciação crítico-estética dos filmes em pauta, Centralizando ainda o seu estudo na década de 1960, Halan Silva chama a atenção para esse período de florescimento das artes no Brasil, o que sem dúvida redundaria num avanço cultural. Pedagogia é o vocabulário reiterativo de Halan Silva, o que leva, na intenção do autor, a Arte e Educação, tema muito problemático na escola brasileira, embora seja sempre salutar e progressista pensar nisso, mesmo se admitirmos, com Gregory Battcock, que “A arte é uma atividade anti-social”, mas produz, sem dúvida, em qualquer setor social, “um enriquecimento do tecido cultural.”

E podemos concluir esta nota com o pensamento de Beals/Holjer, que salientam a necessiade de expressão artística, e “os modos de satisfazer esta necessidade estão determinados culturalmente pela Educação.”
[Assis Brasil]



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[novo]
Roteiro da Poesia Brasileira - Anos 2000

Marco Lucchesi (org.)
[Global Editora, 2009]

Debruçar-se sobre a poesia contemporânea brasileira consiste num dilema para qualquer leitor. A enorme diversidade de poetas, versejadores e candidatos a poeta, aliada à inexistência de uma produção crítica eficiente, leva a um labirinto de oferta de versos e a necessidade de algum mecanismo que permita entender o momento poético (?) que vivenciamos (?) e, sobretudo, “separar o joio do trigo”, o beletrista do criador, o diluidor do mestre, para lembrar as categorias propostas por Ezra Pound e lamentar a ausência de um Mário Faustino que encarasse o desafio de apostar no talento imberbe e repudiar o diletante, de resgatar mestres e desmistificar equívocos.

É possível imaginar que, antes da inigualável seleção a ser imposta pelo tempo, como Cronos devorando suas crias, o público poderia realizar esse papel de, numa ampla massa de pretendentes a vate, eleger uns poucos que teriam seus versos aceitos e editados em plena consonância com a legitimação da crítica ou, no caso, do mercado. Mas a arte, sobretudo a poesia, sempre esteve com os pés distanciados dessa lógica. Não é o público consumidor que os seleciona, afinal, a quantidade de leitores de poesia é baixíssima, embora livros, revistas, coletâneas, livretos, fanzines, eventos, se multipliquem a cada ano (tendo leitores ou não), e com a internet, sobretudo com o advento dos blogs, é bastante improvável que se possa mapear um universo em constante e acelerada expansão. Trata-se do estranho caso de uma modalidade artística que parece contar com mais produtores que consumidores, pois a maioria desses escritores (ou candidatos a tal) não se apresentam como leitores da própria expressão artística que buscam realizar. Pois é justamente nessa “terra de ninguém” que Marco Lucchesi resolveu mergulhar na difícil tarefa de ensaiar uma antologia que pudesse dar visibilidade à produção poética brasileira de 2000 a 2006, “num país de tão vastas proporções e no seio de um presente que se mostra praticamente inabordável, num oceano de publicações reais e virtuais”, conforme nos lembra o próprio pesquisador. Trata-se do Roteiro da Poesia Brasileira – Anos 2000 (Global Editora, 2009), mais um exemplar da série que se propôs a antologiar a arte poética realizada no Brasil, contando nos demais volumes com o olhar de Ivan Teixeira (raízes), Antonio Carlos Secchin (romantismo), Ivan Junqueira (anos 30), André Seffrin (anos 50), dentre outros.

Com sua vasta experiência de poeta, ensaísta, tradutor e professor, Marco Lucchesi não foge do desafio, embora para lograr êxito talvez fosse preciso fazer uso dos cem olhos de Argos, o mitológico gigante que mantinha cerca de cinquenta olhos abertos mesmo quando dormia, exemplo mencionado no prefácio pelo próprio antologista. Buscando o olhar que possa separar a realização plena e a mera tendência versejadora, Lucchesi direciona sua varredura, verdadeira odisseia, através “dos grupos restritos, nas brenhas de suas tribos e língua, revistas, com seus nômades urbanos, punks, grafiteiros, anarquistas, anacoretas, músicos de rock e MPB, operações de multimídia, projetados no ciberespaço, na profusão de homepages e na espessura da blogosfera.” Mas quais seriam as vertentes da poética brasileira contemporânea? Para além do texto em si, é inegável que o afastamento entre o público em geral e os poetas agrava a situação. Isto é, qual a relevância de uma tendência (ou da identificação dessa), se se encontra restrita a um punhado de partidários, incluindo o pouco de crítica literária que daí possa advir e, quase sempre, permaneça restrita a trabalhos acadêmicos que igualmente não apresentam interação nem interesse pelo público não especializado. Difícil identificar quem ignora quem. Mas as consequências são visíveis e lamentáveis.

Lucchesi acredita que a necessidade imediata não seja o mapeamento de “linhas evolutivas”, análise da predominância de determinados grupos e consolidação de terminologias e conceitos, mas a divulgação dos melhores resultados obtidos, venham de onde vier, seja discípulo dos irmãos Campos, seguidor dos passos de João Cabral de Melo Neto, herdeiro da “marginalidade” setentista ou adepto da milenar tradição poética ocidental. Entretanto, descobrir essas vozes que possam elevar-se além do contexto em que foram elaboradas e tocar essa estranha experiência chamada Poesia tropeça em um outro problema, bastante curioso, por sinal, conforme observa Ranieri Ribas em A Crise da Poesia Brasileira Contemporânea, Considerações de um leitor cansado, ensaio publicado na revista eletrônica dEsEnrEdoS, em julho de 2009. Onde tantas vozes se apresentam, e por isso se identificariam inúmeras feições, Ribas preferiu ressaltar um ponto de contato, uma convergência que se instaura diante dos múltiplos olhos de Argos, como um claro enigma: “Os poetas se distinguem pela forma, pela preferência estética, porém, é como se a fala por eles proferida fosse oriunda de uma única forma de experiência da qual são escravos, títeres. (...) Por alguma razão que me é alheia, vivemos a época da falência da experiência da singularidade. Nossos poetas estão estéreis, repetem a si mesmos, desenganam-se em elaborações formais múltiplas porque se sabem impotentes para qualquer exercício de alteridade. (...) O fato é que há uma completa ausência de inflexão pública na poesia brasileira atual.” Diante desse diagnóstico, é impossível não relacioná-lo ao sintomático afastamento entre público e poesia. Também é imprescindível refletir acerca do próprio termo utilizado. Talvez por isso, Ribas, no mesmo ensaio, acrescente: “Denomino ‘inflexão pública’ toda poesia que possa ser testemunho ou porta-voz de um ethos, uma poesia que ultrapasse a esfera do íntimo, do privado, do conforto doméstico. Uma poesia que não esteja submersa e cega pela escuridão narcísica do cotidiano, pela egolatria da percepção.”

Concordando ou não com o diagnóstico de Ribas, é interessante conhecer mais um esforço para desvendar a produção poética atual. Mesmo que sirva mais para compreender a visão do leitor Marco Lucchesi do que um panorama avaliativo propriamente dito, os 45 poetas selecionados remetem a apostas e esperanças de um estudioso do verso, e confrontá-los com nossas próprias escolhas pode vir a ser lúdico para uns, cansativo para outros, mas o que mais se pode esperar de tempos tão “líquidos”? Das fragmentações estéticas de Delmo Montenegro e Ricardo Domeneck às intertextualidades cinematográficas em prosa poética de Alexandre Bonafim e ao estranho universo futebolístico de Luis Maffei (poema Copa do Mundo 2002, Rivaldo ato II: “... antes a máscara e o martelo e o palco / vagina aberta / e o quiasmo rijo como dentes em vitrine.”, para ficar somente com um exemplo), há pastiches e esforços de feição vária, inclusive a aprazível surpresa de uma piauiense, Joana Maria Guimarães, que estreou em livro aos 80 anos declamando em sua Poética que “toque de amor / me penetra”. Enfim, Carlos Manes nos lembra que “Os olhos são poucos / para o mundo” (Drummond diria “meus olhos são pequenos para ver”), mas acredito que estes dois versos de Flávio Corrêa de Mello, em Manifesto de Artaud, resumam melhor toda a questão: “(...) / o relógio de um tempo / gritando por algo de novo no front.”
[Adriano Lobão Aragão]


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Saber o Sol do Esquecimento

casé Lontra Marques
[Aves de Água, 2010]

Muitos são os modos de exílio. Os que escolhemos; aqueles nos quais nos atiraram, os que ficam fora ou dentro do país, fora ou dentro de nós, fora ou dentro da palavra; os de sabor doce, de aprendizado; ou amargo, de observação.

Há o exílio em que nos transportamos e o exílio em que mergulhamos em nome de um eu, um outro Eu, o da autenticidade da autenticidade, o da renovação que nos informa e nos constrói, porque não aceitamos, não podemos aceitar o que vemos. E há, ainda, enfim, o exílio da poesia.

Este é o desafio de Casé Lontra Marques: saber onde se encontra. No seu lugar de refúgio, enfrenta a busca. E não esmorece. Precisa estar consciente diante do “sol do esquecimento” na sua contrapartida: a do “chão do linchamento”. O caminho avança, de composição em composição, através de vôos que tocam suavemente em descobertas, com a certeza de que não se tem como descobrir: “Falo da medula que modula a inclinação do sol / sobre a irradiação / sanguínea, enquanto as pupilas / reunidas / em torno da pele retorcida / seguem / o seco silêncio que antecede a chuva”.

Impossível não reconhecer a qualidade da viagem que desce e sobe em vôos rasantes sobre o cotidiano das coisas. Logo se dirá: “ao / longo da colisão, a fratura / onde / implantar outra / expansão / pulmonar”. São composições que desnudam o universo que nos cerca, enquanto nos apaixonamos pela nossa própria capacidade de nos atordoar. A intensidade do estilo experimenta, colhe, aventura-se no material que se nos oferece, sem facilidades ou concessões: “regressando / de / um instante longínquo, / entre / insetos que / cegam / seus excessos”.

Interessante falar de excessos porque aqui, contidos pelo rigor da lucidez, não os há. Mesmo quando a prosa invade a narrativa, o faz como poesia. Não ignora o preço que por isso se deve pagar.

O mar de possibilidades se situa então nas entrelinhas, no que teria sido possível — e não foi. Desses infinitos diminutos Casé extrai a sua grandeza.
[Ronaldo Lima Lins]



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O Tempo da Curva

Alexander Nassau
[Aves de Água, 2010]

O tempo da curva ou a dicção da onda. Assim Alexander Nassau nomeia seu livro, oferecendo ao leitor sua arte poética. A plasticidade fixada no movimento da onda nos sugere um tempo suspenso no espaço de algo que ainda não se consumou e já se anuncia.

Pintura, música, a ponte entre tradição e modernidade, num instigante jogo intertextual, ali, harmoniosamente, se conjugam.

No poema de abertura, como se fora uma tela, tintas se transmutam em palavras: “plano espesso / fractal / dissolução de todo número / [...] ou não é líquida essa mão, / essa palavra?”

A água, elemento que tudo une, o tempo, traduzindo líquidas memórias, nos devolvem espaços, lugares, situações, sombras e cores. A fragilidade do poeta perante a fragmentação da experiência, ali se impõe: “nítidos círculos de / ausência / como se ausências / existissem”

A arte, enigma a desvendar, conserva, a um só tempo, a unidade e a contradição. Perguntas formuladas, sem a possibilidade de respostas apaziguadoras, conferem ao poema um tom metafísico, onde a vida e a morte, o ser e o nada tencionam o longo caminho a percorrer, enunciado na primeira epígrafe do livro — não por acaso um verso de Luisa Neto Jorge — “O poema ensina a cair / sobre os vários solos”. O da palavra seria um deles, como nenhum outro essencial: “na sede / em que seu corpo hospedava braços / já cansados de suster / tanta falha adiada / a dicção da onda / fica no mar / como na pele a marca de uma escrita / como enxergá-la, / matéria breve?”

Alexander estabelece um diálogo entre as palavras, entre os sentidos das palavras, entre os poemas, resgatando-os, atualizando-os. A existência e o ato da escrita, da criação estão em luta permanente: “vou escrever o que escribas / secretamente sonhavam / secretamente sangravam / musgos nas gretas / luscos / vou escrever e apagar / como quem lê”.

Em sua introdução sobre o erotismo, Bataille nos fala das angústias que afligem o ser humano. Segundo ele, em nossa origem, há passagens do contínuo ao descontínuo ou do descontínuo ao contínuo, indivíduos morrem isoladamente, mas temos a nostalgia da continuidade perdida. Não aceitamos bem a ideia que nos relaciona a uma dualidade de acasos, a individualidade perecível que somos: “Alguém pode sofrer por não estar no mundo como uma onda perdida na multiplicidade das ondas, que ignora os desdobramentos e as fusões dos seres mais simples”. Alexander o sabe. E isto se nos oferece por via de uma forma envolvente, rigorosamente trabalhada: “sem saber / ela não duvidava do mito / nem reparava que a grotesca colagem com o real / era tudo e falsa / pegou uma caixa de vidro / cortava as unhas e depositava as aparas ali: aquilo / era o tempo”.

Vozes da tradição e do contemporâneo estabelecem a ponte entre presente e passado. Como nos lembra André Topia, “cada vez mais o texto literário se inscreve numa relação com a multidão dos outros textos que nele circulam”. Vozes como as de Camões, Pessoa, Saramago, Chopin, Frida Kahlo ali se apresentam: “vim nesta hora aberta / alheio aos outros seres noturnos / azeitar as dobradiças do desamparo; [...] não sou / nem o nome de Frida Kahlo / (onde a coragem de / deitado / atear fogo na cama cortar a barriga / para olhar o dentro?)”.

O paradoxo acompanha os poemas de Alexander, sintetizando tudo aquilo que a vida guarda de contraditório: a inexorabilidade do tempo, a nossa estranha condição de “barqueiros do efêmero”; por outro lado, ali encontramos a busca incessante de um tempo que se quer atualizado, qualitativo.

A vida, metaforizada em gigantesca onda, tem em cronos, seu parceiro. Nessa pequena/longa viagem, a noção de finitude confere a Alexander um tom de profunda melancolia.  Delicadamente, por vezes desesperadamente, ele recolhe os resíduos, os detritos, as sobras que restam. É do fragmento que a busca pela totalidade, nesse ofício de permanência, expressa o absoluto: “ao fundo / o suborno dos poemas que criavam uma canção / para nunca ser cantada / sem dentro / timbre do mudo / canção anterior / abrindo caminho por espaços / improváveis / idéias morrem antes do poema se abrir”.
[Cinda Gonda]



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Preparação para o Exercício da Chuva

Alexandre Moraes
[Aves de Água, 2010]

A experiência da leitura de Preparação para o exercício da chuva, de Alexandre Moraes, é a do questionamento. Não apenas as perguntas que, de forma explícita, oferecem-se ao leitor, mas, como a narradora de A paixão segundo G. H., somos chamados ao exercício de busca por significado sob a força desorganizadora da água, “a água tomando o corpo / a água roubando o sentido” (p. 17).

Como forma de inserir-nos no já extenso universo poético do autor, perguntamo-nos sobre a importância da água em seus textos (não apenas no presente livro, mas também de forma intensa nos dois anteriores, A sequência de todos os passos e Paisagem sobre corpo em silêncio), partindo do título de um poema: qual a possibilidade da água? Seria ela apenas força destruidora que esmaga olhos, toma corpos e sentidos? Ou também aquilo que, ao desconstruir o existente, prepara para a construção, ou talvez seja melhor dizer, para o resgate de uma força, de uma potência construtora — como a nova e positiva barbárie proposta por Benjamin, que resulta da pobreza de experiência?

Na primeira parte do livro, “Sob a água intensa em corpos e objetos crus”, encontramos, por diversas vezes, imagens ligadas à recuperação, ao regresso, à reconstrução. Perguntamo-nos, mais uma vez: que procura recuperar o poeta? Talvez possamos vislumbrar um caminho de reflexão no poema “uma palavra”: “(o resgate / só poderá ser / do que / como / a fúria / permanece / intacto)” (p. 19). O que se busca é aquilo que resiste, intacto, à força destruidora, não apenas da água, mas da violência, compreendida, aqui, de forma muito ampla. E permanece porque é concreto, real. A poesia proposta é de resistência e combate ao roubo da experiência, da possibilidade de criação — uma poesia de afirmação: “saber-se no impossível, / saber o gosto mais ácido do que jamais / será / e ainda assim tenta mais uma vez, / como se poesia e imagem fosse” (p. 41), ou ainda: “verso é toda experiência que se esconde diante do tempo escorrido e multiplicado para sempre e sem infinito” (p. 52).

Outro dado que atrai o olhar são os poemas que se interrogam sob o método e a sistematização. Podemos voltar a pensar em Clarice Lispector, na procura de G. H. e na impossibilidade de voltar a uma “organização anterior”: em Preparação para o exercício da chuva, busca-se o método de construção do novo a partir de estilhaços (concretos) — já não há para onde retornar, ou o que recuperar: todos os espaços deverão organizar-se para a construção de uma nova língua, uma nova forma de existir e construir sentido, num mundo violentado e fragmentado. Em “descobrir-se sem método para existir” (p. 26), o desejo é reafirmado como potência construtora e a significação constituída de sobras.  Em tom imperativo, “os métodos deste desejo” (p. 35) impõem como forma de construção “consumir os resíduos, devorar os farrapos” e, assim, “estabelecer passagens”.

Os sujeitos poéticos de “métodos de sutura” (p. 23) buscam agarrar-se a “rostos, sentidos e palavras de uma língua particular”, apesar da consciência de nunca haver possuído “sequer um resíduo desses sólidos sentidos em farrapos de desejos que o tempo solidifica”. Sujeitos cuja única possibilidade é a procura decorrente da perda, que os obriga a arriscar-se, como o poeta, em busca da construção de algum sentido: “vivemos a inigualável tormenta de ter de sair do barco ainda que tudo esteja sobre o mar”.
[Rafaela Scardino]



filme________________


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[novo]
9 – A salvação

Shane Acker
[9, EUA, 2009]

Citar – isto é, aludir, parodiar, parafrasear, pastichar – é a regra de ouro de toda obra que queira parecer profunda. Uma pitada de referência mitológica, uma citação bíblica, uma piscada de olho para Homero: pronto, eis que surge uma obra densa, profunda! Raramente se pergunta pela qualidade e a adequação da citação. O simples fato de ali, naquele seriado preguiçoso ou naquele filminho vagabundo, ser notório uma alusão ao Gênesis ou ao Apocalipse é suficiente para se atestar a profundidade da obra.

Se eu pudesse apontar uma única falha nesse belo 9 – A salvação (2009) seria esta: a citação pseudoculta, vestida na retomada de um topos consagrado na literatura e no cinema – qual seja, a existência num mundo pós-apocalíptico, dominado por máquinas perversas. Em 9, a humanidade já foi pro beleléu, engolida pelas máquinas inteligentes gestadas, “para facilitar o progresso da raça humana”, por um cientista (advinha?) de bom coração mas... ingênuo, que não sabia do mal uso que fariam com sua engenhoca.  Antes de morrer, o nobre sábio constrói bonequinhos toscos, aos quais – a velha aliança entre ciência e magia – doa sua alma, na esperança de redimir seu erro e salvar uma porção da humanidade. O último desses bonequinhos que ganha vida é 9, e é ele o Redentor. Evito aqui relatar o enredo com detalhes, mas posso adiantar que nos nove bonequinhos que protagonizam o filme o diretor e a roteirista concentram notável galeria de arquétipos, através dos quais movem sem pejo um dilúvio de clichês: há o asceta covarde, modelado na fôrma nietzschiana, pregando sua moral de rebanho e disseminando seu ódio a tudo que é nobre e forte (embora, ao fim, ele se redima, num dos poucos lances de rebeldia do diretor com a rigidez dos topoi que ele põe em movimento); há o velho sábio, a femme fatale, o brutamonte idiota, os gêmeos gênios intelectuais, o inventor, o artista-profeta e, claro, o redentor de todos eles.

É preciso dizer que 9 surgiu de um magnífico curta homônimo, também de Shane Acker. Sem dúvida, o curta é infinitamente melhor que o longa, por dois motivos: mantém a mesma soberbia visual e explica pouco. O longa, ao querer explicar demais, mata a poesia por excesso de didatismo, se enrola em clichês, se perde em excessivas alusões (bíblicas, literárias, cinematográficas e até cabalísticas) cuja maior funcionalidade e querer dar um ar cult ao filme.

Na verdade, não vejo por que esse desejo de querer parecer cult. Implico com este fato porque considero que a pretensão desbragada do diretor e da roteirista acabou por abalar o equilíbrio da obra; as inserções cults e os subtextos políticos e metafísicos funcionaram, a meu ver, como ruídos. O que de fato é soberbo em 9 - A salvação é sua concepção visual, desde a constituição do cenário (fruto, não tenho dúvida, de acurada pesquisa histórica), passando pelo designer dos bonecos e máquinas, até a funcionalíssima fotografia, soturna, bastante integrada à atmosfera da obra.

Nunca é demais lembrar que Tim Burton foi o produtor desse filme, e é visível, para quem conhece seu estilo, o peso de sua mão da concepção da obra. Não só isso: Burton levou seu trilheiro favorito, Danny Elfman, que fez o trabalho musical à altura da fotografia e do cenário. Que esses dados, porém, não sirvam para tirar o mérito de Shane Acker; quem tiver dúvida, basta assistir ao curta que deu origem ao filme em discussão. Shane chegou para ficar; aposto minhas fichas em seu próximo longa, independente de quem o produza. Ficarei de olho também na Focus Features, que antes já produzira Coraline e o mundo secreto, uma das melhores animações da década.
[Wanderson Lima]



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Caché

Michael Haneke
[Caché, França/Áustria/Alemanha/Itália/EUA, 2005]

A imagem no cinema revela, desvela. Tudo o que aparece no enquadramento está posto a nu. E nos esquecemos de que o campo de visão na tela remete a um olhar, a um ponto de vista: o da câmera, antes de mais nada; uma máquina colocada em algum ponto daquele mesmo espaço físico, recortando-o e estabelecendo o que chamamos de espaço diegético. Mas o seu próprio corpo, logicamente, fica fora desse espaço “inventado”.

Assim, o que está caché ( = escondido ) é, em primeiro lugar, a própria câmera, a maior responsável pela existência não-velada do filme. A condição necessária para que mostre tudo é a de se esconder a si própria – e ao seu próprio ato. Há algo de vergonha nisso, da relação conflituosa entre pudor e fetiche. O ato da câmera é um ato de vouyerismo. Todas essas constatações são banais, mas por que as fazemos aqui?

Apenas para pensar um pouco na maneira como foi construída a narrativa fílmica de Caché (França / Áustria / Alemanha / Itália / EUA, 2005; dir.: Michael Haneke). Temos ali (o olhar de) uma câmera que invade a esfera da intimidade de uma família burguesa – por direito inviolável. O objetivo subentendido desse primeiro ato de violência é desmascarar a violência primeira que está na formação do indivíduo burguês (no caso, um apresentador de TV).

Para tanto, a própria câmera denunciante (assim como o seu pressuposto operador) não podem jamais se revelar. E isso o diretor leva muito a sério. No intuito de demonstrar sua tese e manter uma espécie de coerência poética, o filme não faz qualquer concessão às expectativas do (olha só o termo) espectador. Cachê é bastante naturalista, mas de um modo muito bem elaborado, sofisticado até.

A imagem da câmera de vídeo que espia e a imagem da própria câmera do filme de Haneke entram em indissociável amálgama nos momentos que podemos chamar de “estribilhos” do filme. Mais importante: o filme começa e termina por tal identificação. Sabemos, é claro, que ambas são manuseadas por alguém, por alguma subjetividade.

Mas, para criar na medida do possível o necessário o efeito de objetividade em relação a uma “verdade” descoberta, as subjetividades “sádicas” do terrorista e do próprio Haneke – respectivamente – precisam apagar-se. De que adiantaria Georges (o apresentador) saber que as imagens enviadas para ele foram produzidas por algum desafeto seu (ainda que com grandes motivos), ou ainda por algum psicopata estranho qualquer?

Desse modo, ele não seria posto em contato consigo mesmo, com as próprias e assustadoras verdades interiores que tentou reprimir mas que se manifestam livremente nos seus sonhos (onde mais?). E através desse mesmo “caché”, nós espectadores somos colocados na mesma posição que o protagonista, tornamo-nos cúmplices dele; com isso, podemos supostamente compreender melhor a sua situação.

Assim, o plano do artista (Haneke), o plano da narrativa (Georges) e o plano do espectador ombreiam-se na mesma coerência. Jamais descobriremos, (assim como Georges) a verdade factual, pois a única que interessa é das atitudes e pensamentos do próprio personagem. Para ser bem aproveitado, este filme requer anti-espectadores.             
[André Renato]





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/bloco de notas numero 5


[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/agosto/setembro de 2010]
 
 

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