bloco de notas






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[novo]
A Volta ao Dia em 80 Mundos
- tomos I e II
Julio Cortázar
[Civilização Brasileira, 2008]

Eis que Julio Cortázar nos apresenta seu inusitado A Volta ao Dia em 80 Mundos. Assim como Último Round, seu consequente desdobramento, trata-se de uma sucessão de ensaios, críticas, poemas, contos, fotos, desenhos, nos quais o cronópio Cortázar escreve sobre o que lhe viesse à mente: da máquina de ler O Jogo da Amarelinha ao seu gato Theodoro Adorno; de Jack the Ripper a Louis Armstrong, de Lezama Lima a Julio Verne, formando um caleidoscópio de textos e imagens, indiferente à coesão de temas e gêneros. E se alguém esperasse alguma unidade, uma forma mais séria e rígida que norteasse seus escritos, o autor responde ainda nas primeiras páginas utilizando-se de um questionamento parafraseado de um verso do poeta Ricardo Molinari: “Quem nos salvará da seriedade?” Bem apropriado para quem escreveu que o mais grave problema dos argentinos não era a ditadura, mas a falta de humor.

Escritos no final dos anos 60, somente agora se encontram disponíveis em tradução no Brasil, realizada por Ari Roitman e Paulina Wacht e publicada, em dois tomos bastante fiéis aos originais, pela Civilização Brasileira, que já havia editado, dentre outras obras de Cortázar, os fundamentais O Jogo da Amarelinha e Todos os Fogos o Fogo.

Acima de tudo, os textos de Cortázar desafiam os nossos sentidos, rejeitam as facilidades críticas e se alçam ao inusitado. Preocupar-se com os “porquês”, sobretudo as explicações racionais, é absolutamente desnecessário. Em “A Carícia mais profunda”, um conto, o autor não se preocupa em expor por que seu protagonista se afunda cada vez mais no solo, assim como Kafka não nos revelou por que Gregor Samsa, após sonhos intranquilos, acordou metamorfoseado em um enorme inseto. E que importa? Há coisas mais relevantes no próprio texto, que assim como a vida, não guarda tempo para as devidas explicações. É este aspecto, no qual a escrita de Cortázar encontra-se bastante influenciada pela literatura fantástica do século XIX, com Kipling, Poe e Verne, do qual subverteu o título de A Volta ao Mundo em 80 Dias. O argentino amarra o real e o fantástico, apresentando-os de maneira inusitada dentro das situações mais corriqueiras. Mas esse Cortázar encontra-se diluído nesse enorme caleidoscópio de temas e formas. Talvez por isso, pode não ser a melhor opção para quem quer começar a descobrir o escritor. E, efetivamente, não chega a constituir uma de suas obras essenciais, afinal, Julio Cortázar seria o mesmo com ou sem essas “voltas”.

Entretanto, se com O Jogo da Amarelinha Julio Cortázar antecipou o hipertexto, com A Volta ao Dia em 80 Mundos e Último Round, respectivamente em 1967 e 1969, o cronópio já fazia uso do que seria a típica estrutura dos blogs da internet atual. Quarenta anos depois, parece ser esta uma época bastante interessante para traduzi-los, editá-los, reeditá-los e constatar que o presente já existia há muito tempo.
[Adriano Lobão Aragão]



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[novo]
Renato Russo: O Filho da Revolução

Carlos Marcelo
[Agir, 2009]

O Brasil ainda está em processo de descobrimento (e redescobrimento) do potencial artístico de seu povo. Essa realidade abrange todos os segmentos culturais: música, literatura, artes plásticas, cênicas e aderentes. Por se tratar de um país que está aprendendo a se descolonizar, muitos dos ídolos nacionais são, na verdade, produtos importados das grandes potências – com clara referência para o universo norte-americano e europeu.

Entre tantas assimilações estrangeiras, a década de 1980 surgiu como um grito de identidade nacional, propagando a ideologia punk/rock n’ roll em nosso espaço sonoro. E a jovem capital da Federação – Brasília contava com pouco mais de vinte anos – foi palco de todas as mudanças ocorridas no conturbado período pré e pós abertura política (lembrando que a ditadura militar só viria a ruir em 1985). É com esse plano de fundo que surge a Legião Urbana, um dos maiores fenômenos musicais do país. Capitaneada pelo jovem Renato Manfredini Júnior, a banda mudaria o percurso sonoro, lírico e ideológico da juventude brasileira.

Renato Russo, como ficou conhecido o músico carioca radicado em Brasília, ganhou o status de lenda, tão grande é a notabilidade conquistada por ele como cantor e compositor. Um legado que atravessa gerações, mesmo depois da morte do artista, há cerca de quatorze anos atrás. No meio de várias biografias, ensaios e homenagens póstumas, o livro “Renato Russo: O Filho da Revolução” (Agir, 2009, 400 pág.), escrito pelo jornalista Carlos Marcelo, vem preencher a lacuna do material anteriormente lançado quando o assunto é a relação de Renato com Brasília, enfocando os passos juvenis daquele que, anos mais tarde, seria considerado peça-chave na consciência pop do Brasil.

Carlos Marcelo esmiuçou arquivos pessoais, fez o levantamento de entrevistas (algumas pouco conhecidas), coletou dados e informações valiosíssimas de quem conviveu com Renato Russo, bem como de fontes documentais da época (leiam-se jornais, revistas, programas de rádio e periódicos de todos os gêneros). Um dos pontos altos do trabalho é a exposição de um farto material do cantor, com fotos, cartas, registros de diários, rabiscos, ideias... Em síntese, a obra aborda o dia-a-dia do estudante de Jornalismo e professor de Inglês, filho da classe média e morador da quadra 303 Sul, que chegou a cogitar uma banda imaginária (a 42nd Street Band), usava o pseudônimo de Eric Russell e que, ao contrário do que pregam por aí, era um cara cheio de receios, dúvidas e indecisões, que ostentava uma voz empostada no palco e, fora dele, carregava um timbre quase infantil.

Seguindo a linha de toda biografia autorizada, consentida e/ou compartilhada, “Renato Russo: O Filho da Revolução” faz uso dos já conhecidos “floreios” para transcrever alguns fatos e omitir o deslancho de outros, como a homossexualidade do cantor, seus problemas com drogas e álcool e o nascimento do filho, por exemplo, fazendo do biografado um indivíduo cheio de virtudes, criado em uma família perfeita, seguro de si, absoluto na resolução de situações vexatórias e assim por diante. Não obstante, essas pequenas “licenças poéticas” não diminuem em nada a exatidão do texto, as informações adicionais pré-Legião, o período frutífero com o Aborto Elétrico e a rebeldia e pioneirismo da juventude brasiliense na cena punk rock brasileira. Destaque para a contextualização histórica de cada capítulo, trazendo à tona os sonhos de JK para a capital do futuro, os traumáticos anos de ditadura militar, o lento e reumático processo de abertura política/social e cultural.

Que Renato Russo foi uma mente fenomenal e que tinha completo fetiche por cinema, música, literatura e conhecimento, ninguém duvida. Que o líder da Legião Urbana possuía desenvoltura política, com um lirismo quase antropológico, também não é segredo. Mas, o plus da obra de Carlos Marcelo está justamente na riqueza de detalhes, na sutileza de um Renato Manfredini Júnior que poucos conheceram: uma criança esperta; um adolescente doente e acamado, mas que nunca deixou de sonhar; um jovem rebelde e que possuía muito sangue revolucionário nas veias e ideologia na cabeça; um adulto aclamado pela crítica como exponencial da cultura brasileira, representante da maior banda nacional, mas às voltas com a solidão, com amores não correspondidos, com o fantasma do HIV e problemas na relação bipolar com seu público.

Renato Russo formou sua própria Legião, com uma única diferença: ela segue forte e firme, por entre metrópoles, zonas rurais, planalto central, cerrado, caatinga, atravessando fronteiras, tempos e silêncios.
[Mara Vanessa]



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Led Zeppelin - Quando os gigantes caminhavam sobre a Terra

Mick Wall
[Larousse, 2009]

Em entrevista concedida em 1973, Robert Plant, vocalista do Led Zeppelin, declarava que: “estava na hora de as pessoas ouvirem outras coisas a nosso respeito, e que não comíamos as mulheres e atirávamos os ossos pelas janelas”. (p. 330) Em suas 527 páginas, a biografia Led Zeppelin – Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra (tradução de Elvira Serapicos), escrita por Mick Wall, pretendeu trazer à tona muitas “outras coisas” a respeito da banda; mas em se tratando do Led Zeppelin, seria impossível não permear o extremo hedonismo em que viviam fora dos palcos, a despeito do comentário de Plant. Mas para quem imaginar que o livro de Wall limita-se a uma série de episódios insólitos vividos por uma banda de rock que chegou ao limite de fama e dinheiro, é preciso acrescentar que o autor conseguiu ir além, compondo um retrato bastante franco de seus protagonistas, sua contribuição para a história do rock and roll e da cultura de massa do século XX, seu profundo impacto e influência na indústria do entretenimento, e as costumeiras polêmicas de plágio e ocultismo que acompanharam a trajetória da banda do guitarrista Jimmy Page.

As estripulias do Led Zeppelin nas turnês revelam-se as mesmas que diversas outras bandas promoveram, ainda que permeadas pelo exagero que sempre os caracterizou, como o grotesco episódio ocorrido na terceira turnê americana, em 1969, no hotel Edgewater Inn, em Seattle, quando uma groupie de 17 anos disse que gostava de ser amarrada e terminou com o nariz comprido de um peixe vermelho introduzido na vagina e a cabeça de um mud shark em seu ânus. O episódio transformou-se na canção “The Mud Shark”, que Frank Zappa lançou em seu álbum ao vivo de 1971, Fillmore East. Como diria o baixista John Paul Jones, “a turnê transforma você em uma pessoa diferente. Percebo isso quando volto para casa. Levo semanas para me recuperar depois de passar tanto tempo vivendo como um animal.” (p. 170) É conveniente lembrar que Jones é, incontestavelmente, o mais tranquilo e discreto membro do Led, e no auge da popularidade e hedonismo do Zeppelin, cogitou seriamente a possibilidade de deixar a banda, incomodado com o exagerado ritmo de trabalho e confusões. Curiosamente, parece que o baixista foi o único a escapar da série de tragédias que acompanhou a banda em seus últimos momentos, como se estivessem vivenciando uma maldição, o outro lado de sua meteórica ascensão.

O perfil pessoal da banda já poderia ser visto em seus primeiros dias, quando a jornalista Ellen Sander, da revista Life, acompanhou parte da segunda turnê americana, ainda em 1969 (embora preferisse estar com o The Who, banda bem mais famosa na época, também em turnê nos Estados Unidos naquele mesmo momento). “Page era ‘etéreo, efeminado, pálido e frágil’. Plant era ‘bonito de uma forma agressivamente obscena’. Bonzo ‘tocava bateria com fúria, quase sempre sem camisa e suado, como um gorila enfurecido’. Jones era o que ‘unia as coisas e ficava nas sombras’.”(p. 174) Ao final da turnê, vítima de uma agressão que poderia ter ser transformado em estupro, promovida pelo baterista John ‘Bonzo’ Bonham e alguns roadies, a jornalista foi salva pelo empresário Peter Grant e a matéria para a revista Life jamais seria publicada. No início de carreira, seria essa mais uma das diversas oportunidades de publicidade em larga escala perdida pela banda. Posteriormente, Ellen Sander escreveria sobre o incidente em seu livro, Trips: “Se você entra nas jaulas do zoológico, consegue ver os animais bem de perto, passar a mão no pelo e sentir a energia por trás da mística. Também sente o cheiro de merda bem de perto”. (p.175) Era 1969 e, ao longo da década seguinte, com o crescente sucesso e fortuna do Led Zeppelin, os excessos apenas aumentariam. E em relação a John, acrescente-se que “o baterista parecia ter dois lados: Bonham, o homem de família amoroso, generoso, que detestava estar longe de casa; e Bonzo, o bêbado, maluco e drogado que descarregava suas frustrações em quem estivesse na sua frente no momento. Uma espécie de Jekyll e Hyde, cuja personalidade se dividia mais depressa quando ele bebia.”(p. 340)

Entretanto, a relevância, tanto do livro quanto da banda, pode ser compreendida a partir de um depoimento de Mick Wall: “o Zeppelin ajudou a escrever o livro de regras do rock – o que você pode fazer: ser sempre colorido e inventivo, sempre ousando e usando seu talento elevado à máxima potência; e o que você não pode: as drogas não são uma ferramenta criativa, mas são uma força negativa de auto-destruição, por isso não se deve esperar até que seja tarde demais para perceber isso”.

O interesse de Jimmy pelo ocultismo revela-se um ingrediente essencial para a alquimia musical do Led Zeppelin. E neste ponto, o mergulho em forças ocultas do Led é muito mais orgânico e visceral que o trabalho de bandas como Black Sabbath e Iron Maiden, que vendiam uma imagem abertamente macabra, enquanto Jimmy imergia sua banda em elementos simbólicos da magia e do ocultismo, universos que, ao que parece, encara com ainda mais seriedade que sua própria música. Talvez, para ele, sejam até a mesma coisa; embora, no início dos anos 80, Jimmy estivesse mergulhado em heroína e consumido pela sua própria criação. O fato é que o misticismo do Led Zeppelin nunca foi teatral, mercadológico, mas ritualístico, e isso custou a eles diversas acusações de satanismo, incluindo a famosa controvérsia sobre tocar “Stairway to Heaven” ao contrário. Segundo Robert Plant, “você não encontra nada se tocar a música de trás para a frente. Eu sei, porque tentei. Não há nada lá... É tudo bobagem, essa coisa demônio, mas, quanto menos você dizia para as pessoas, mais elas especulavam”. (p.315) E segundo Page, “existe muita coisa subliminar ali. [Todos os álbuns] foram reunidos, há muita coisa deles – coisas pequenas que você não pega de primeira, às vezes até por muito tempo. Mas, quanto mais você presta atenção, mais você pega. E a ideia era mesmo essa, e isso é bom”. (p.313)

O voo do Led Zeppelin também se tornou essencial para diversas transformações nas relações empresariais do showbusiness, empreendidas sobretudo pelo seu obstinado e violento empresário, Peter Grant. Assim como o talento excepcional de Jimmy como músico e produtor, o carisma de Robert Plant, a agressividade de John Bonham e a eficiência discreta e exata de John Paul Jones, a presença de Grant garantiu ao Zeppelin as condições necessárias para que a ideia de Page em continuar um trabalho iniciado com os Yardbirds, então em processo de dissolução, pudesse ir muito além dos horizontes almejados.

Segundo Jimmy Page, cada álbum do Led Zeppelin deveria expressar o ponto em que estavam naquele momento. Assim, da urgência do primeiro disco e da ambientação folk de Led Zeppelin III ao depressivo Presence e o inconsistente In Through the out door, o livro de Mick Wall desvenda justamente as circunstâncias que definiram a musicalidade de cada faceta da banda, e torna-se mais interessante se a leitura for acompanhada pela audição dos respectivos discos.

Os plágios, releituras e apropriações indébitas, sua difícil relação com críticos e jornalistas (“Nada do que fazíamos agradava”, desabafa Page. p. 298), polêmicas que sempre acompanharam o Led Zeppelin também foram abordados por Wall, elucidando as fontes, honestas ou não, de diversos trabalhos, e como Jimmy Page recriava qualquer sonoridade que lhe consumisse a atenção, da canção de Jake Holmes, “Dazed and Confused”, que até hoje é indevidamente creditada a Page (e tida como um de seus principais hinos), a “When the Levee Breaks” (que embora fosse creditada originalmente como uma música de autoria do Led Zeppelin, tratava-se de uma releitura de uma antiga canção de ‘Memphis’ Minie e ‘Kansas’ Joe McCoy), com sua monumental bateria, um dos momentos mais grandiosos de John Bohnam, muito mais influente que em seu tradicional solo, “Moby Dick”. Definitivamente, a originalidade do Led não estava em suas composições, mas na intensidade com que as executavam; e justamente por isso, é este o seu principal legado.
[Adriano Lobão Aragão]



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Os Amores Difíceis
Italo Calvino
[6ª edição, Companhia das Letras, 1992]

Para que uma obra literária forme uma identidade robusta, realidade e ficção não precisam estar necessariamente, incomunicáveis. O escritor italiano Italo Calvino engrenou a fórmula “fábula com força realista”. Nascido em um subúrbio de Havana em 1923, Calvino se tornaria um dos maiores escritores do século XX, contornando com excelência as aventuras do cotidiano e o universo paralelo da literatura. Comunista ferrenho, o escritor participou do movimento de Resistência e atuou ativamente no Partido Comunista Italiano. Ainda no período em que desenvolvia atividades políticas, Calvino esboçava seus primeiros contos, tendo alguns deles publicados em revistas e periódicos da época, como L’Unità.

Os amores difíceis (Gli amori difficili, Companhia das Letras, 1992, 6° edição, 264 pág), conjunto de novelas originalmente agrupadas em 1958, subdivididas em duas partes, que narram as aventuras amorosas que explodem no cotidiano-nosso-de-cada-dia, transformando gestos casuais, situações tacanhas e palavras sem maiores pretensões em verdadeiras correntes sentimentais.

Como o jovem soldado permanecerá imune ao roçar da pele de uma desconhecida, provocando e incitando a imaginação dentro de um transporte público? O conto “A aventura de um soldado” narra, com maestria, as sutis investidas do jovem cabo; sutilezas estas que ora confirmam, ora retraem, a comunicação gestual.  No conto seguinte, adaptado para “A aventura de um bandido”, a cama de uma velha prostituta é o palco que une o velho oficial de polícia e o fugitivo.

Italo Calvino faz jus à alcunha de fabulador, oferecendo ao leitor contos inventivos, propostos pela própria realidade que o cercava. Destaque especial para “A aventura de uma banhista”, trama que se desenrola em torno do ataque de vergonha e pudor de uma burguesa em meio à praia lotada; “A aventura de uma esposa”, narrativa marcante sobre a sensação de adultério nutrida por uma solitária e desconfiada senhora em frente ao balcão de um bar e a sensacional “A aventura de um automobilista”, onde a corrida desesperada para acalentar uma relação – estremecida por uma briga – é a própria finalidade do amor; o meio que traga a existência do sentimento e o transforma em concretude.

Os dois contos que encerram o livro, “A formiga-argentina” e “A nuvem de smog” confirmam a destreza de Calvino em focar a realidade sob o prisma do imaginário, do fantástico, do epidérmico. “A formiga-argentina” traz a rotina de uma família que, após enfrentar uma mudança de vida, se vê às voltas com a casa infestada de pequenas, fedorentas e imperceptíveis formigas. A busca do narrador pela resolução dos problemas atravessa uma crise existencial velada, silenciosa. Já em “A nuvem de smog”, um jornalista desiludido assume novo emprego em uma cidade devorada por cinzas, que o faz repensar a própria lacuna de suas perspectivas e ambições.  O grande fabulador deu ao cotidiano muito mais do que um espelho: deu personalidade.
[Mara Vanessa]



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A Ordem do Discurso

Michel Foucault
[Edições Loyola, 2002]

Os discursos não circulam livremente, antes são submetidos a um conjunto de procedimentos de controle. Esta é simplificadamente a tese de Michel Foucault, em seu livro A ordem do discurso, umas das obras fundadoras análise do discurso.

Segundo Michel Foucault, para fazermos parte da “ordem do discurso” (FOUCAULT, 2002) não podemos dizer tudo o que queremos e onde queremos; temos que nos submeter a normas que disciplinam, limitam e em certas circunstâncias até interditam nosso dizer. O filósofo identifica três grandes grupos de procedimentos que permitem controlar os discursos: a) os procedimentos externos de controle, que dominam os poderes dos discursos; b) os procedimentos internos de controle, que conjuram as aparições dos discursos; c) os procedimentos que determinam as condições de funcionamento dos discursos e impõem aos indivíduos que os enunciam a submissão a um sistema de regras.
Aos procedimentos externos pertencem o tabu da palavra (exclusão por interdição que atinge principalmente os discursos da sexualidade e da política; indica que não se pode falar de tudo em qualquer situação, nem mesmo qualquer um pode falar de qualquer coisa), a segregação da loucura (a oposição razão e loucura implica a anulação do discurso daquele que é tido como louco, já que este não pode testemunhar na justiça, nem pode autenticar um ato ou um contrato) e a vontade de verdade (as práticas, para terem validade, devem se apoiar em um “discurso de verdade”; por exemplo, o sistema penal busca suportes e justificativas no direito penal, na psiquiatria, na psicologia e na sociologia, que são instâncias produtoras de “verdades”).

Os procedimentos internos também Foucault divide em três: o comentário, que limita “o acaso do discurso pelo jogo de uma identidade que teria a forma da repetição e do mesmo” (2002, p. 29), fazendo com que o texto-comentado se submeta ao texto-comentário; o autor, que “limita esse mesmo acaso pelo jogo de uma identidade que tem a forma da individualidade e do eu” (idem, ibidem); a disciplina (entendida como campo do conhecimento), que fixa os limites do discurso “pelo jogo de uma identidade que tem a forma de uma reatualização permanente das regras” (idem, p. 36); por exemplo, o discurso da medicina expurga toda forma de explicação de uma doença que não se valha do jargão médico, assim como expurga como crendice popular qualquer forma de remédio ou tratamento de doença que não estejam sistematizados nos postulados da ciência médica.A disciplina então age como uma “ ‘polícia’ discursiva que devemos reativar em cada um de nossos discursos” (idem, p. 35).

Já os procedimentos que determinam as condições de funcionamento dos discursos visam selecionar os sujeitos que falam e Foucault destaca três deles. O ritual é o que “define a qualificação que devem possuir os indivíduos que falam” (idem, p. 39), estabelecendo uma assimetria na interação discursiva, como se observa nos discursivos religiosos, jurídicos e terapêuticos.

A sociedade de discurso constitui-se daqueles que se agrupam com o objetivo de produzir ou conservar discursos, “mas para fazê-los circular em um espaço fechado, distribuí-los somente segundo regras restritas, sem que seus detentores sejam despossuídos por essa distribuição” (idem, ibidem).

Por fim, as “doutrinas” (religiosas, políticas, filosóficas), que “ligam os indivíduos a certos tipos de enunciação e lhes proíbe, conseqüentemente, todos os outros” (idem, p. 43); estas realizam uma dupla sujeição: “dos sujeitos que falam aos discursos e dos discursos ao grupo, ao menos virtual, dos indivíduos que falam” (idem, ibidem).

Foucault lembra ainda que, na maior parte do tempo, estes procedimentos de exclusão ligam-se uns aos outros e garantem “a distribuição dos sujeitos que falam nos diferentes tipos de discurso e a apropriação dos discursos por certas categorias de sujeito” (idem, p. 44). Portanto, a operação de separar estes procedimentos é abstrata e didática.
[Roselany Duarte]


 
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Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem

Marshall McLuhan
[8ª edição, Cultrix, 1996]

Hoje, o tirano governa não pelo cacetete e pelo punho; mas, disfarçado-se de pesquisador, ele conduz seu rebanho pelos caminhos da utilidade e do conforto,” Marshall McLuhan. Se o início do século XX ainda fosse vítima da sangria disseminada pelo Tribunal do Santo Ofício (Inquisição), Marshall McLuhan estaria fadado a uma morte exemplar: cremação em praça pública. Suas idéias, revolucionárias e proféticas, seriam consideradas frutos da “maquinação funesta de Satã”.

Mas, apesar de viver em meados do século passado e cercado de relativa modernidade, McLuhan gerou incômodo e angariou desafetos por conta de suas teorias futuristas. Segundo ele, o avanço tecnológico recria o espaço humano, tornando o ‘passado’ uma espécie de “antiambiente”, que fornece os meios para perceber o próprio ambiente (presente). Conceitos como aldeia global, o meio é a mensagem e impacto sensorial assumiram um caráter fixo para o filósofo.

Em uma de suas obras mais famosas, ''Os meios de comunicação como extensões do homem'' (Understanding Media), Marshall McLuhan delineou o resultado das implicações tecnológicas na sociedade humana e o plano de fundo dessa rede de comunicações. Dividido em duas partes e trinta e três capítulos, o livro atua como uma espécie de “Bíblia da Era Eletrônica”. Em um primeiro momento, o autor aborda as novas maneiras de conceber a informação e que diferenças práticas ela tem provocado nas relações humanas. Os próprios meios seriam “a causa e o motivo das estruturas sociais.” O meio torna-se a mensagem à medida que ele se transforma em argumento irrefutável para a aquisição da mesma. Ou seja: “o próprio meio passou a ser a principal atração, a informação”. Há uma consciência, cada vez crescente, da ação dos meios na vida do homem.

Um dos paradigmas defendidos por McLuhan consiste na teoria da Aldeia Global. Dentro desse conceito, o mundo estaria completamente interligado, interdependente e conectado, proporcionando a diminuição das distâncias e o uso dos meios de comunicação para unir sociedades inteiras, por maiores que sejam as diferenças. A televisão é idealizada como peça-chave desse processo, sendo, à época, o maior meio de comunicação de massa de nível internacional.

 A concepção linear e mecanizada do “mundo antigo” (Primeira Revolução Industrial) torna-se obsoleta frente a um mundo tribalizado e autônomo da Era Eletrônica. Os meios passam a ser extensões do homem, complementos dos seus sentidos. Assim como vestuário passa a ser extensão da pele, a roda do pé, o machado da mão, e assim por diante. Os objetos que, outrora, eram vistos apenas como auxiliadores (facilitadores) das atividades humanas passam a ser os próprios realizadores.

Marshall McLuhan apresenta um mundo não mais constituído de fragmentos, mas de configurações e estruturas. Tudo se altera constantemente. Não sobra tempo para a morosidade, para a espera paciente. O tempo-relógio impera. Ele é assessorado pela fluidez, pela rapidez. A compreensão humana está envolvida em uma espécie de narcose, de sonambulismo generalizado. Em Understanding Media, McLuhan faz uma citação brilhante ao mestre T. S Eliot, e sua prima-dona The Waste Land (A Terra Desolada). T. S Eliot apresenta uma cidade que segue os horários mecânicos, mas parece um conglomerado de zumbis:

“Cidade irreal,
Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,
Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,
Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.
Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas
Com um dobre surdo ao fim da nona badalada.”
(Tradução de Ivan Junqueira)

Outra grande abordagem do autor futurista é a idéia de que a tradição oral tem sido abandonada, dia após dia, dando lugar à escrita, ao visual. Os conhecimentos foram reduzidos a uma única forma. Começaram a ser vistos apenas em sua dimensão visual. Por um lado, a sociedade tornou-se dinâmica. Por outro, perdeu-se a oralidade, a ação, o “observar e repetir”. O simples fato de armazenar conhecimento já implica em sua transmissão, pois o que “está armazenado é mais acessível do que o que ainda vai ser colhido”.

A Era da Informação obrigou o homem a fazer uso de todas as suas faculdades, sem distinção ou dissociações do que é puramente entretenimento e do que é, essencialmente, conhecimento. Lazer e aprendizagem passam a estar associados. As particularidades passam a ser o todo. A “sinestesia” aparece como nova guia de formação e educação.

Marshall McLuhan, profeta do futuro, é a personificação de um universo tecnológico ilimitado. Seus registros são a prova de que há disposições multidimensionais ainda incompreendidas e prontas para serem descobertas.
[Mara Vanessa]



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[novo]
Moolaadé

Ousmane Sembene
[Moolaadé, Senegal, 2004]

O senegalês Ousmane Sembene, falecido em 2007, já foi comparado algumas vezes com Glauber Rocha. De fato, ambos propõem a produção de uma arte política mediada por requintes experimentais e conflitos ideológicos dilacerantes, esquivando-se da miséria (em todos os sentidos, especialmente o estético) que é a arte didática. Mas enquanto Rocha é épico desde o ponto de partida, Sembene, neste Moolaadé (2004), vale-se de outra estratégia: começa com os pés no chão, como quem fosse apenas contar a narrativa de uma mulher birrenta e, aos poucos, vai fazendo sua história crescer até adquirir dimensões épicas. Tecnicamente falando, a maneira como Sembene conduz este crescimento é quase irrepreensível. Impressiona como ele encontra símbolos e duplos na paisagem sem, aparentemente, precisar forçar a barra.

A história de Moolaadé situa-se num vilarejo africano afastado de qualquer cidade grande, num lugar onde prevalece o costume da “purificação” feminina, isto é, a tradição da excisão clitoriana como rito de passagem. Collé, a birrenta, é a única mulher deste vilarejo que não permitiu que sua filha fosse mutilada. Para tanto, invocou os poderes da “moolaadé”, algo como uma deprecação mágica que só pode ser quebrada por quem a invocou. Isto tem um alto preço: sua filha vira uma “bilakoro” (mulher impura) e pode por isso perder um casamento promissor; seu marido também fica desmoralizado. O conflito irá aumentar quando quatro meninas lhe pedem também a proteção de uma “moolaadé” com o fim de fugir à excisão e Collé, em atitude desafiadora, aceita o papel de protetora. Pronto, está armado o conflito que desembocará numa litigiosa reconsideração de valores culturais.

O conflito se intensificará quando duas mentes masculinas esclarecidas, alimentadas pelo manjar iluminista da cultura francesa, entrarem no conflito: o filho do líder da vila e o ambíguo comerciante (misto de usurário e humanista) apelidado de “Mercenário”. O que diminui, a meu ver, a força dessa “epopéia” de Sembene é sua inclinação, ainda que ambígua, ao discurso dos “iluministas”. Fica a impressão, demasiado forte, de um cinema de tese. E pior: como se trata de uma tese iluminada pelo ideário iluminista, a fé (islâmica, no caso) e as forças míticas tendem a se transfigurar em trevas, atraso, ignorância.

Claro, Sembene não se rende inteiramente ao credo iluminista, tanto que foi a “moolaadé”, isto é, uma força mítico-religiosa que desencadeou uma suposta consciência revolucionária. Mas a invocação parece ser (e espero que neste ponto eu esteja enganado, e tenha visto o filme de forma apressada) apenas uma tímida fagulha que vai ajudar as mulheres e alguns poucos homens (três, na verdade) a acenderem a luz da Razão. Ou seja: o senso épico do seganalês está sempre correndo o risco de ser dissolvido pela suposição da superioridade da ratio ilustrada, cujas premissas conduzem à redução de uma prática religiosa incomum à norma européia a mero ato de violência. Trocando em miúdos, ora o filme aponta para o épico, ora para o libelo protofeminista eurocêntrico. A questão é mesmo muito delicada e certamente existem antropólogos, religiosos e juristas infinitamente mais competentes do que eu para julgar a excisão ritual. Obviamente, nas condições em que vivo, mataria com três tiros na cabeça quem inventasse de praticar a excisão na minha filha. Mas, e se eu tivesse me criado naquela pequena comunidade no meio da África? Provavelmente, estaria imerso na “episteme” (Foucault) deles, e assim veria a excisão com outros olhos, dando-lhe o status de rito purificador. Ora, aqui é que reside o “X” da questão: Sambene é um senegalês que viveu parte da vida na França. Sem banalizar a dramaticidade da questão, isto explica muito o dualismo do diretor.

Na última cena do filme, a câmera deixa de enquadrar o ovo que repousava num cume da Mesquita situada na vila para concentrar-se numa antena de TV. Ou seja: as trevas da religião deram lugar às imagens do progresso devorador dos costumes arcaicos. Poderia ser mais agressiva a anunciação do nome dos vitoriosos? Glauber Rocha, o homem que realizou “O dragão da maldade contra o santo guerreiro”, deve ter, nesta hora, se remexido no túmulo.
[Wanderson Lima]



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A Festa da Menina Morta
Matheus Nachtergaele
[Brasil, 2008]

“A Festa da Menina Morta” (2008) é um filme que me surpreendeu em alguns aspectos. Mas, em geral, possui muitos problemas em sua construção. Um aspecto interessante é que o filme não busca se prender a uma narrativa e sim buscar uma ambientação poética através da fotografia e do registro (às vezes quase documental) da câmera, centrada na brutalidade e no comportamento doentio das personagens. Este sim é um aspecto notável da primeira obra de Matheus Nachtergaele: a tensão barroca entre um mundo extremamente realista/duro e um mundo quase fantástico e surreal. E Nachtergaele consegue trabalhar tais elementos com certa mestria.

É certo que há em seu filme certos vícios antipáticos e vazios do diretor Cláudio Assis (figura com quem trabalhou e de quem sofreu muita influência): cenas de animais mortos, de ataques histéricos de personagens afeminados, de brutalidade pela brutalidade, etc. Porém Nachtergaele – mais refinado que o amigo pernambucano - não entende o humano de maneira unilateral e nem concebe a religião como apenas um ópio do povo, uma alienação. Sua pesquisa é mais cuidadosa: parece que ele vê na religião e nos ritos ribeirinhos algo paradoxal, fenômenos ao mesmo tempo poéticos e irracionais, ao mesmo tempo significativos e vazios. Seus personagens não são tão bobos como os de Cláudio Assis. O homossexual não é mostrado de maneira pitoresca (como é o próprio Nachtergaele no insípido “Amarelo Manga”), nem a religiosa é mera caricatura de uma puta dissimulada, nem os homens são apenas toscos retratos da violência desvairada e da esquizofrenia.

Há, contudo, muitos problemas que me incomodam. A opção por uma câmera fixa e, muitas vezes, distante da narrativa, torna o ritmo do filme arrastado e incômodo. Não parece exprimir com clareza as intenções estéticas dos outros elementos do discurso fílmico. As metáforas construídas pelo processo de montagem empolgam no início, mas logo depois se tornam convenções enfadonhas. A opção por não utilizar música incidental (refiro-me a trilha sonora instrumental “de fundo”) torna algumas seqüências vazias. Penso que quando não há o apoio narrativo e poético da música incidental em uma cena, esta tem que buscar apoio estético nos sons ambientes, nos ruídos. Fica claro que Nachtergaele não se importou muito com a construção musical de “A Festa da Menina Morta”. O cineasta paulista recorreu, como muitos diretores nacionais o fazem, às canções prontas – estas que na maioria das vezes são utilizadas sem muita finalidade narrativa, mas tão-somente para fazer associações óbvias com as cenas. Não é muito de se admirar tal descaso, já que – para boa parte dos cineastas brasileiros – a música é apenas um mero adereço da imagem.

A meu ver, “A Festa da Menina Morta” não é uma obra-prima, mas não deixa de ser uma experiência estética proveitosa. Há algo de transcendental e epifânico em sua mise-en-scène. Há algo de original em sua maneira de filmar e em sua forma de nos mostrar certos aspectos da cultura brasileira, como os ritos ribeirinhos da Amazônia e as festas religiosas. Estou certo de algo: essa primeira experiência mostra claramente que Nachtergaele é um diretor talentoso (como ator sua qualidade é indiscutível) e que em breve nos trará grandes obras fílmicas.
[Alfredo Werney]



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Boca de Lixo
Eduardo Coutinho
[Brasil, 1992]

“Se eu definisse eu nem fazia, porra, eu não defino, não interesso em definir”. Esta foi a resposta que Eduardo Coutinho, o maior documentarista brasileiro em atividade, deu aos entrevistadores da revista Intermídias, quando lhe perguntaram como ele define documentário. Sob a aparente (ou nem tanto assim, a depender do tom de voz que usou) grosseria da resposta de Coutinho, subjazem traços de um programa estético dos mais conseqüentes, em se tratando de produção de documentários: documentar como uma aventura que inutiliza a noção de improviso, aventura que se constrói com o sujeito documentado e não sobre o sujeito documentado. Uma estética despida de esquemas rígidos, calcada na precariedade, na inconclusibilidade, na alteridade.

Abordo aqui uma interessantíssima obra menor de Eduardo Coutinho: Boca de lixo. Em 1992, com uma reduzida equipe de filmagem, sem pesquisa prévia – segundo dizem –, Coutinho chegou ao lixão de Itaoca, a 40 km do Rio de Janeiro. As primeiras abordagens com os trabalhadores do lixo não foram fáceis: pessoas tapavam o rosto, se afastavam e até davam demonstrações de agressividade. Até que uma criança negra, a cara descoberta, a postura petulante, pergunta: “Que é que vocês ganham com isso? Pra ficar botando esse negócio na nossa cara?”.

Dessa pergunta seriíssima Eduardo Coutinho nunca se esquivou. Ela remete, em última instância, à dimensão ética da postura do documentarista. A coisa mais fácil de ver, em casos de abordagens de grupos sociais como aquele, é o preconceito escamoteado de curiosidade sociológica e antropológica. Mostra-se “eles”, o modo de vida “deles”, o que “eles” comem – numa palavra, mostra-se a “Realidade” e se saí de mãos limpas; neutramente, cientificamente, num estado quase total de isenção moral. Coutinho demonstra outra postura; primeiro, como já dissemos, porque não cai na atitude algo desumana, em se tratando de situações como esta mostra em Boca de lixo, de traçar um plano prévio rigoroso, preferindo antes transformar os documentados em co-autores; segundo, porque não lhe interessa fazer glamour à custa da miséria alheia: a câmera de Coutinho não busca propositadamente o espetáculo da miséria, a beleza da feiúra. A música de Tim Rescala segue o mesmo ditame: inusitada e às vezes propositadamente irritante, foi produzida com material oriundo do lixo, coadunando-se rigorosamente à proposta “ética” do filme de não embelezar a visão da miséria.

Sob a ótica dessa estetização da dor alheia, seria interessante comparar a postura de Coutinho com a de diretores de filmes ficcionais do chamado “cinema brasileiro de retomada”. Pra não estender o paralelo, pensemos em Claudio Assis. O povo que aparece no cinema de Assis é a própria Besta Fera, imbecilizada, agressiva, sádica e masoquista. Claro está que nem o povo pernambucano nem de qualquer outra parte do mundo o é dessa forma, a não ser pela ótica do niilismo sádico de Assis. Em outras palavras, em filmes como “Amarelo manga” e “Baixio das bestas” o Outro – chame-se ele povo, ou qualquer outro nome – não fala; cortou-se todos os fios da alteridade e o que sobrou, como cinema, foi a beleza da miséria, miséria propalada por um Demiurgo senhor da verdade, pairando acima da situação.
O contrário dessa atitude de Claudio Assis seria a típica adulação esquerdista do povo, conivente com a máxima supostamente revolucionária de que “a verdade está com o povo”, esquecendo o alerta de um conhecido revolucionário: “Quanto mais o julgamento do povo é manipulado por todo o tipo de interesses, mais a maioria é apresentada como árbitro na vida cultural” (Max Horkheimer). Entre o anátema e a adulação do povo, há uma frincha que é onde se instala artistas da estatura de Coutinho. Para ele, a vivacidade da representação, a força da mímesis do cinema não-ficcional, está na negociação – tensa e difícil de atingir um equilíbrio – entre documentador e documentados.

Por esses fatores, o povo que emerge da obra de Eduardo Coutinho – no caso em comentário, os catadores de lixo – é pouquíssimo estereotipado. Digo pouquíssimo porque, particularmente, não creio muito numa representação do Outro que não seja, minimamente, mediada por “pré-conceitos” (Hans Gadamer) ou por “estereótipos” (Edward Said, Ruth Amossy). Moralmente falando, Coutinho descola, em Boca do lixo, o povo do ambiente: é o povo do lixo, mas não o povo-lixo – o vagabundo, o louco, o desocupado, o fraco, segundo a representação mental de nossa classe média que assiste ao jornal Nacional e lê a revista Veja. Sim, claro que há aquele tipo de gente lá no lixão, mas a situação não é tão simplória assim. Há gente ali por causas sociais; há gente ali por “fraqueza”; há gente por opção; há por insubmissão a outras formas de exploração que lhes parecem mais aviltantes; há até gente ali por desejo de experimentar as facetas do mundo (veja o caso do “viajado, “vivido” e sobretudo, na minha opinião, simpático senhor Enoch, vulgo Papai-Noel). Uma mulher diz: “Tem uma porrada de mulher aqui, uma porrada de homem… que trabalha aqui porque é relaxado, porque prefere comer fácil, porque aqui cai batata, porque aqui cai de tudo pra se comer, muita gente come porque quer"; ao que outra, noutro momento, retruca que está ali porque não quer sofrer humilhação como doméstica em “casa de família”.

Boca do lixo extrai sua força mimética de sua opção por uma estrutura aberta e co-participativa. Ali está um retrato humano e comovente, um drama lumpen rico porque enxuto e despido do intuito de legislar, moralizar ou consertar o mundo. Não que Eduardo Coutinho se isente de dizer; o que ele se isenta é de dizer sem ouvir.
[Wanderson Lima]



Anticristo






Anticristo

Lars Von Trier
[Anticrhist, Alemanha/Dinamarca/França, 2009]

A má vontade da crítica em relação a Anticristo deve ser creditada, em parte, às imposturas do encrenqueiro Lars Von Trier, mas nem por isso se trata de uma atitude justa. Anticristo é uma grande obra, possivelmente a maior feita Trier, e no entanto, no Brasil, a tônica foi falar mal do seu diretor ou elencar moralizações mal disfarçadas.

Vou aqui recorrer a uma argumentação diferente, na minha defesa da película de Trier. Direi o que o filme não é, baseado em opiniões da crítica com as quais não concordo.

1) Desarticulação do prólogo
Não, o prólogo não é desarticulado do restante do filme nem é um exercício esteticista estéril. Ele é uma síntese precisa do filme, articula praticamente todos os símbolos da narrativa e já mostra o entrelaçamento entre sexo, culpa e religião. Da mesma forma, já desvela a ambigüidade do sujeito feminino, mãe-fêmea. Se é preciso acusar o prólogo de algo, é de um excesso de controle racional (tudo na cena é símbolo, nada é objeto “natural”) e não de desarticulação, pois se tiver uma coisa ausente do prólogo é a gratuidade. A câmera lenta (recurso diabolizado por certos críticos) se junta à bela ária de Händel para criar uma atmosfera celebratória, onde o amor e a morte se entrelaçam como em um rito sagrado. Também o preto-e-branco ali é um agente produtor dessa atmosfera.

2) Terror mal realizado
Anticristo não é um filme de terror mal realizado simplesmente porque não é um filme de terror. Trier se vale de elementos do terror para criar um filme metafísico. A natureza do mal e sua relação com o feminino é o que interessa a Trier e não pregar sustos e chocar. Em segundo plano, temos uma das mais veementes sátiras às nossas modernas técnicas terapêuticas e à propalada segurança e racionalidade do macho. Trier nos diz que não há sublimação possível para o luto e o remorso, eleva a culpa a uma dimensão metafísica e, neste patamar, não há terapia ou psicanálise que possa ajudar. Resta à protagonista uma descida aos infernos, um retorno ao arquétipo da mulher-bruxa, que, como filha de Satã, não precisa mais temer sua casa, isto é, a Natureza (por isso, a personagem feminina, a certa altura, diz: “A Natureza é a igreja de Satã”).

3) Mal articulado, cheio de choques gratuitos
Assim como o prólogo, todo o filme é pensado a partir de uma lógica simbólica em que cada elemento está ali não para preencher o quadro, mas para concretizar uma idéia abstrata e exorcizar um fantasma interior do diretor. As sementes de carvalho que batem no teto; o simulacro dos Reis Magos representado pela raposa, o gamo e o corvo; o pesado objeto que é colocado na perna do protagonista; a estada deste no buraco da raposa e a mutilação genital, nada disto é mal articulado ou gratuito, ao contrário formam um tecido cerrado e denso, um discurso furioso sobre a fragilidade de nossa condição frente à experiência do Mal.

Sem dúvida, em alguns momentos o simbolismo chega a ser tão ostensivo que o enredo perde o interesse. Mas é preciso que entendamos o porquê dessa falha: quem dá o ritmo ao filme é a construção dos símbolos e não as peripécias do enredo.

4) Exorcizando fantasmas
Parte da crítica quis reduzir o filme a uma mera válvula de descargas dos fantasmas interiores do diretor. Proclamaram, com a ajuda de depoimentos imbecis do próprio Trier, que o filme era “fruto de dois anos de depressão”. Se fosse assim, eu cuidaria logo de ter quatro anos de depressão, pois assim, quem sabe, eu escrevia um bom romance! A questão mesmo é plasmar numa forma artística o sofrimento pessoal. Trier se aproxima da família de artistas como Bataille, Sábato, Genet e Céline – artistas que se salvaram (??) da loucura graças a capacidade de expressá-la na arte.

Na verdade, é possível que parte da crítica de cinema no Brasil não tenha recebido bem a Anticristo também por um déficit de formação intelectual. Eu mesmo confesso que, por não ter lido muita coisa de ocultismo e bruxaria, deixei de entender melhor algumas coisas ali. Não digo que o crítico deva ter lido tudo, visto tudo. Mas é estranho ouvir de críticos aparentemente cultos que o filme não tenha qualquer embasamento, sendo simples ato de confissão de uma mente perturbada. Não dava, pelo menos, para ver ali uma filiação a um “Repulsa ao sexo” de Polanski e a um “Cenas de um casamento” de Bergman?
[Wanderson Lima]



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Coleção Charles Chaplin Remasterizada

Charles Chaplin

Um chapéu, uma bengala, um sorriso. Não é difícil reconhecer o personagem mais aclamado do cinema. A vida do londrino Charles Spencer Chaplin (1889/ 1977) se confunde com a de seus personagens, daí o codinome carinhoso que carregou durante toda sua vida: “O Vagabundo” (The Tramp). Geralmente quando se fala em Chaplin, já se achega ao nosso imaginário as trapalhadas do vagabundo Carlitos. O fato é que as experiências de Chaplin estão muito além do humor mambembe que ele empreendera nos seus filmes. Ao mesmo tempo rigoroso e improvisador, o cineasta inglês construiu obras paradigmáticas. Em “Tempos Modernos”, por exemplo, Chaplin nos ensinou inúmeras lições de cinema: a expressiva montagem, utilizando planos metafóricos para representar a vida mecânica e circular da sociedade que a Revolução Industrial gerara; o cuidadoso trabalho com o som (embora Carlitos não fale) utilizando os timbres metálicos da orquestra e fazendo da ambientação sonora de uma fábrica uma verdadeira sinfonia. Sinfonia esta que nos transmite uma poderosa sensação de opressão.

Coadunado com tais experiências formais, ainda há de se observar a riqueza conteudística dos trabalhos chaplinianos. No já citado Modern Times, como já se sabe, o diretor faz uma dura crítica à sociedade capitalista que surgira com os avanços tecnológicos empreendidos pela Revolução Industrial, gerando pobreza, problemas psicológicos e sociais. Um dos momentos mais sugestivos da película: Carlitos se desestabiliza e é comprimido ferozmente pelas engrenagens da máquina. Decerto, uma metáfora visual muito forte do trabalho alienado e árduo da época. “O grande Ditador” - visivelmente um recado para o mundo e uma afronta a Adolf Hitler, que era vivo nessa época – trata-se de uma análise firme do que o abuso de poder e a falta de comunhão entre os seres podem gerar. “Transformar homens em bucha de canhão”, como diria o próprio Chaplin numa crítica veemente ao nazi-facismo. Em “O Circo”(1928) estamos diante de um humor mambembe cuidadosamente elaborado. O vagabundo entra, por acaso, num circo em crise e o transforma num palco de espetáculos de pura poesia. Este foi um dos ingredientes que Chaplin – influenciado pelo antecessor Meliés – trouxe para o cinema: a capacidade de fabular e fantasiar através das imagens em movimento. A capacidade de transcender a prosa cotidiana e nos apresentar um mundo centrado nas sensações primeiras. É importante dizer que em “O circo”, como em muitas películas do diretor londrino, ele compôs quase tudo: música, cenário, roteiro, personagem.

Facilidade é uma palavra que nunca permeou a vida de Charles Chaplin. O diretor teve uma infância muito pobre, além do que sua mãe tinha graves problemas mentais. Desde muito cedo demonstrou enorme talento para a dramaturgia e em 1912 foi para os Estados Unidos, local onde montou seu próprio estúdio. “O Garoto” (1921) não deixa de ser um filme autobiográfico. Se bem observarmos, a pobreza é um tema sempre presente na filmografia chapliniana.

Diversas animações recorrem aos paradigmas chaplinianos: O Pica-pau, O Picolino, Tom e Jerry. Cenas como “a dança dos pãezinhos” e a que Carlitos, num momento de fome, vê seu amigo como sendo uma galinha, vez por outra aparecem nos desenhos animados. O Pica-pau não deixa de ser uma espécie de Carlitos: um vagabundo atrapalhado que consegue conquistar as pessoas. E não se trata de uma empresa fácil: um vagabundo, figura tão repugnada por uma sociedade da técnica e do trabalho como é a nossa, fazer com que o público o aplauda e seja, de certa maneira, conivente com suas ações “maliciosas”. A dramaturgia brasileira também deve muito ao vagabundo.Há vários clichês estabelecidos por Chaplin no trabalho dos “Trapalhões”, sobretudo no personagem “Didi”. Além do que se observa em alguns programas televisivos de humor.

O trabalho do cineasta londrino pode ser apreciado para além das suas questões estritamente cinematográficas. O artista Charles Chaplin, muito mais do que um diretor de cenas, imprimiu em suas obras questões universais que marcam a vida humana - essa “aventura maravilhosa”. Dentre estas: o poder, a fraternidade, a felicidade, o amor e a beleza. 
[Alfredo Werney]



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Gran Torino

Clint Eastwood
[Gran Torino, EUA, 2008]

As reprimendas que posso fazer a Gran Torino têm antes relação com minha formação estética (em cinema) nos últimos anos do que com as opções formais de Clint Eastwood e com o modo que ele as operacionalizou. Implico por ser Eastwood um artista clássico, na acepção atemporal (como constante estética oposta ao romantismo) que Borges deu à palavra em um de seus ensaios. Uma das condições do artista clássico na acepção borgeana – e este é, aqui, o único traço que nos interessa – é a confiança na linguagem. Clint Eastwood confia na linguagem; ele conduz seus filmes como se ali a realidade fosse transposta em toda a sua transparência. Isto constitui o mérito e a fraqueza do cinema deste estadunidense. Mérito porque permite a ele ir direto ao assunto e explorá-lo com profundidade (evitando "firulas" vanguardistas e auto-reflexivas); mérito também porque dá a seus filmes uma fluência que os faz agradável de se assistir. Como Hawks, como Wyler, como Ford, o classicista Eastwood sabe produzir biscoito fino para as massas. Fraqueza porque livra o cineasta da pesquisa formal e do questionamento da transparência da representação cinematográfica.

Gran Torino conta a história de Walt Kowalski, um solitário e ranzinza veterano da guerra da Coréia, interpretado brilhantemente pelo próprio Eastwood, que vive em um bairro suburbano de Detroit. Desde as primeiras cenas fica clara a opção, bem à Eça de Queiroz, isto é, bem enquadradas num realismo classicista, elegante e irônico, de Eastwood: ao redor do protagonista um conjunto de figuras caricatas, sem vida interior, que servirão tão somente de suporte para a análise de uma psique excepcional. Kowalski, o protagonista, tem uma habilidade ímpar para ser grosseiro e intransigente, dono de tiradas ao mesmo tempo ferinamente concisas e sábias (veja-se bem, sábias em sua casmurrice). Os diálogos entre o protagonista e um jovem padre que tenta redimi-lo sintetizam o estruturalmente importantíssimo (porque cria um contraponto que a obscura história de remorso do protagonista) humor mal humorado, estilo Seu Lunga, de Kowalski.

O nacionalismo xenófobo de Walt Kowalski, demonstrado em miríades de signos e hábitos do protagonista no decorrer da narrativa, acumula especial desprezo contra os “chinas”. Pois eis que justamente um asiático, incitando por uma gangue, é induzido a roubar o Gran Torino ano 1972 do protagonista. Em tempo: este carro é o signo-síntese não só do nacionalismo de Kowalski, que repugna um dos filhos por ter um carro japonês, como, de certa forma, constitui a encarnação de parte de sua história pessoal. O roubo é frustrado, mas a relação de animosidade e xenofobia entre o protagonista e seus vizinhos – esqueci de dizer que Thao, autor do roubo frustro, é vizinho do protagonista – cresce mais e mais, ao ponto de imaginarmos uma eminente tragédia futura envolvendo ambos os lados.
E, de fato, a tragédia acontece, mas de modo diferente do que previsivelmente esperávamos. Kowalski, afastando-se cada vez mais de sua família, e tendo salvo de gângsteres, por duas vezes, seus vizinhos, acaba se aproximando mais e mais desses asiáticos, especialmente de Thao e sua irmã Sue. Thao, que tentara lhe roubar o carro, significará para Kowalski a chance de redimir-se duplamente: dos horrores que ele cometeu na guerra (ele matou asiáticos e agora pode representar a redenção para um jovem asiático sem pai) e da paternidade que ele cumpriu mal (seus dois filhos não revelam afeto por ele). O jovem precisa de um pai, o veterano de guerra de um filho; aquele precisa se inserir no presente (lidar com o mundo, arranjar um emprego), este precisa apagar o passado. Eastwood, contido, e a custo do senso de humor acutíssimo do protagonista, impede que essa amizade entre diferentes se dissolva em pieguice.
No decorrer da história, assistimos repetidamente a figura do padre a tentar em vão converter o protagonista. Aqui, Eastwood, raposa velha em matéria de cinema e de vida, aproveita para explorar a dicotomia entre o conhecimento teórico do mundo (mediado, no caso, pela fé) e conhecimento prático do mundo (mediano pela dolorosa experiência da guerra). No desfecho do filme, que me poupo de narrar, pois de fato é um dos melhores vistos nos últimos anos, as duas pontas dessa dicotomia se amarram, e o protagonista se oferece num rito expiatório para redimir os mesmos “chinas” que outrora ele desprezou.
Simbólico, significativamente simbólico, é o fato de, no seu testamento, o protagonista deixar o Gran Torino não para os seus familiares, mas para Thao (lembre-se aqui que, linhas acima, afirmei que este carro era um símbolo de nacionalismo bastante evidente na película). Eastwood, em Gran Torino, constrói uma apologia da experiência que só mesmo alguém no ápice de sua experiência poderia tramar tão bem; nesta apologia, ele vislumbra a possibilidade de uma ética da alteridade impor-se contra a intolerância entre etnias. Mas, que fique claro: Eastwood não é um multiculturalista de carnadura fraca e miolo mole. No desfecho, o testamento do protagonista, numa ironia deliciosa de roteiro, repete uma série de estereótipos que a turma do politicamente correto reprovaria. É Eastwood a nos dizer que nenhuma redenção é completa e que o mundo sem atrito é uma fábula descarada – e mais prejudicial que inútil.
Deixo de lado, assim, minhas reprimendas fundadas num gosto estético um tanto anti-clássico (eu, que faço minhas libações a Kiarostami e a seu estilo auto-reflexivo de cinema) e fico ansioso, ansiosíssimo, para saber qual será o novo passo de Clint Eastwood.
[Wanderson Lima]



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Julie & Julia

Nora Ephronlint
[Julie & Julia, EUA, 2009]

Logo no início da trama, dois núcleos já são divididos. O da fabulosa Meryl Streep e  o da (pode-se dizer) aqui decadente Amy Adams. As duas brilharam juntas em Dúvida e aqui dividem as telas novamente, mas não com a mesma intensidade. Não mesmo. Ainda mais que o filme é salvo apenas pela excelente atuação de Streep, que ao que tudo indica receberá sua 17ª indicação ao Oscar e sua 3ª estatueta. Ela é Julia Child, que em 1948 muda-se para Paris com o marido (Stanley Tucci, um pouco ofuscado, mas bem interpretado) e busca uma distração para seus momentos de ócio, encontrando na culinária seu talento. Adams é Julie Powell, vive no século XXI e não se sente nada feliz com seu emprego como telefonista de uma agência de seguros. Como forma de escapar de uma vida chata e fútil, tem a ideia de testar todas as receitas do livro da Julia e publicar suas experiências em um blog. Não há muito o que dizer do filme. O roteiro responsável pela ala de Julie foi muito mal construído, servindo apenas para provar que ela é uma personagem que não foi bem arquitetada. O que é um déficit horrível para a diretora, pois são duas longas e desgastantes horas de filme, em que metade poderia ser facilmente descartada. Quem sabe um filme só sobre Julia Child seria mais prazeroso de assistir...
[Victor Ribeiro]



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Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da rua Fleet

Tim Burton
[Sweeney Todd, EUA/Inglaterra, 2007]

O reino de Tim Burton não é deste mundo, mas mantém um compromisso rigoroso com ele. A apologia da fantasia presente em seus filmes não é uma forma de alheamento do mundo, nem uma forma passiva de acomodação às circunstâncias; pelo contrário, é uma estratégia de leitura às avessas do mundo: o mundo paralelo que ele cria dá a medida do que nos falta aqui, ou do que aqui temos mas não precisaríamos. Burton tem uma fórmula de base, que se repete ao longo de sua filmografia: rasgar o cosmo em dois mundos e pô-los em confronto, conferindo ao trânsito entre um mundo e outro a condição sine qua non da individuação (Jung), do crescimento interior das personagens.

Essa transição entre um mundo e outro lembra o tema da viagem, daquelas que alçam à condição de rito, por implicarem transformação interior do indivíduo, passagem de um status a outro. Assim, se quisermos reduzir o cinema de Burton a um elemento estrutural comum, podemos dizer que este é a encenação de ritos passagem. Ritos que implicam sempre dilemas éticos.

Para habitar este mundo dilemático, Burton criou uma galeria de personagens que trazem inscritas em si, no corpo e nos gestos, as marcas desse mundo prenhe de contradições: os feios de alma nobre; os mortos mais ativos e humanos que os vivos e miríades de inadaptados sociais. Tais criaturas, sejam monstros ou humanos, são, em maior ou menor grau, reedições do Corcunda de Notre-Dame, figura que sintetiza a fusão, preconizada pela estética romântica, entre o sublime e o grotesco. É difícil não se render a figuras grotescamente sublimes como Edward (o Mão-de-tesouras) ou Vitória (a noiva-cadáver). Mas se Edward e Vitória representam facetas cativantes de Burton, o que dizer da personagem Sweeney Todd?

Sem dúvida, o filme Sweeney Todd (2007), visto sob o ângulo da construção estética, é obra claramente da lavra burtoniana; desta vez, a fusão entre o sublime e o grotesco se encarna num musical com elementos do gênero gore (a explosão incontida de sangue) cuja evolução, como em outros filmes do diretor, depende menos do enredo (mais uma vez, a encenação de um rito) do que da “produção” do ambiente, isto é, a mise-en-scène é que se encarrega prioritariamente dos simbolismo e das sutilezas. Mas neste filme o dilema ético debatido nos deixa órfãos de uma catarse que estávamos acostumados a vivenciar nos filmes de Burton. Era fácil nos identificar com Edward, com Jack e com Vitória: feios, deslocados e esquisitos – mas todos senhores da razão, todos com propósitos edificantes, todos, em maior ou menor grau, vítimas. Sweeney Todd, encarnado pelo impagável John Deep, não permite esta catarse fácil. É bem verdade que as fábulas de Burton sempre foram cruéis, no sentido de não afastar o feio e a dor do seio das relações amorosas ou familiares, mas Sweeney Todd acresce a esta crueldade um ceticismo implacável, pois agora a viagem não cura nem melhora: é a vingança que dá o último grito.

Van Gennep, em Os ritos de passagem (1978), aponta que o rito de passagem constitui-se de três momentos básicos: separação, margem e agregação. Deslocando a idéia do antropólogo para o nosso foco de interesse, podemos simplificadamente dizer que, em muitos dos filmes de Burton, testemunhamos inicialmente a desagregação do herói de seu mundo habitual (separação); após isto, vem uma fase de isolamento e purgação do indivíduo em outro espaço (margem); por fim, o herói se reincorpora ao seu mundo inicial com um novo status (agregação). Ora, esse período de marginalidade do herói, nos filmes de Burton anteriores a Sweeney Todd, era de uma purgação positiva para o protagonista. Jack, ao retornar da Cidade do Natal para a Cidade do Hallowen, cresceu interiormente; o mesmo se diga de Vítor, depois da visita ao Mundo dos Mortos. Em relação ao personagem Sweeney Todd não se pode dizer o mesmo; depois de 15 anos longe de Londres e de sua amada, graças aos desmandos de um juiz prevaricador, ele volta cheio rancor e com sede de sangue.

Em Sweeney Todd, Burton não mostra como foi a experiência do herói na “margem”. Este detalhe é significativo se lembrarmos que em filmes como O estranho mundo de Jack, A noiva-cadáver e A fantástica fábrica de chocolate, a margem onde o herói purgava – o “outro mundo” que a viagem lhes proporcionava – era indispensável ao desenvolvimento das histórias. Jack precisava comparar seu mundo ao do Papai Noel; Vitor precisava comparar o Mundo dos Vivos ao dos Mortos; Charlie sua pobre casa à encantadora fábrica de Willy Wonka. E por quê? Porque é este confronto de mundos que propicia a individuação dos personagens. Se Burton não filmou o “outro mundo” em Sweeney Todd duas ilações podem ser tiradas: 1) como já dissemos, o personagem Sweeney Todd não amadureceu lá, ao contrário, tornou-se uma pessoa pior; 2) não é possível estabelecer uma contraposição entre os dois mundos – Inglaterra e Austrália –, pois ambos são mundos degradados. Apenas nas memórias de Todd, quando este ainda vivia ao lado de sua amada, e no sonho idílico da senhora Lovett é possível estabelecer um contraste com este pesadelo monocrático que é a Londres que Sweeney habita (contraste este que a fotografia representa brilhantemente).

É bem verdade que, no desfecho, salvam-se a criança (Toby) e o casal de apaixonados (Anthony e Johanna). Mas o sacrifício que Toby faz para salvar-se, de alguma forma, macula sua pureza. Resta a possibilidade de redenção por meio de um amor jovem entre escombros, amor que Sweeney, mais por conta de sua hybris que por maldade dos homens, foi incapaz de sustentar. O vermelho de Sweeney não é o da paixão, não “vem do coração”, mas salta em jatos espetaculares das jugulares de suas vítimas, rompendo o monocromatismo que é a marca exterior daquela Londres e o selo interior de seus mesquinhos habitantes. Apenas quando Sweeney corta a garganta da “mendiga” Lucy Barker, sua esposa que fora tomada pelo juiz Turpin, e que ele julgava morta, não se assiste ao espetáculo de jorro de sangue. Afinal, é aqui que a vingaça volta-se contra o vingador, destrói o destruidor, transforma o ódio em puro remorso.
[Wanderson Lima]




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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 4 - teresina - piauí - janeiro/fevereiro/março de 2010]
 
 

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