“Se tivesse sido possível construir a Torre de Babel sem precisar subir por ela, sua construção teria sido permitida.” Franz Kafka, Aforismos
Refletindo-se, desacreditado, desorientado, entrou-se no mato pra caçar formiga saúva. Descascou a terra destemido: à unha. Mas nada de formigas ou desova; encontrou-se à metade do buraco que escavou, e só. Passou a mão na cabeça, riu-se. Nesse instante um sujeito desconhecido chegou à borda do buraco. O que houve?, a voz desconhecida. Desencontrei das formigas, disse-se. Equívoco. Grande moléstia! Desabafou a terra à toa. Trate de cobrir o buraco e cava outro e foi-se embora.
Volto-se a cavar, só que ao contrário. Terminado, seguiu-se mata adentro à procura das formigas saúvas. Malditos bichos, por que procura, afinal?, questiona-se no plano de fundo. Procuro: isso me basta., respondeu-se. Então encontra um sujeito curvado armando alçapão na toca de um tatu. Viu alguma formiga por aí? Procuro por elas, pergunta-se. Não, só tatu, responde-se. Mas desde quando tatu cai em alçapão?!, reclama-se. Pois já peguei trinta e dois só na parte da manhã!, responde-se. E cadê?; Ora essa! Que despautério! Devolvi no buraco. O que iria fazer com trinta e dois tatus? Hã?, e furioso pra cima de Sobernal que, com medo, fugiu-se. Tão logo a voz do outro sumia-se Sobernal pensou-se: Sujeito de sorte!.
Cavou-se sete buracos quase infinitos de tão fundos e nenhum rastro das formigas. Quando iria começar o oitavo, o sujeito daquele buraco antigo aparece. Nada?, pergunta-se. Nada, responde-se. Precisa-se de isca, rapaz! Não compreende? Isca!, e foi-se pra longe. Não teve-se tempo de colher detalhes sobre que tipo de isca: viva? morta? sintética? ; encafifou-se.
Ia-se no rumo de uma montanha, meio à esmo, talvez esperando tropeçar naquilo que procurava. Não tropeçou. Sentiu-se cheiro de chuva. Acima dele nuvens escuras apinhadas, amardo-se. Era o descontentamento total. Andava agora no meio de um pasto ralo, rente ao chão. Os primeiros trovões e os pequenos relampejamentos tricotavam o céu; um vento dobrava-se sobre às arvores grandes e pequenas da mata que ia pra trás no ritmo dos passos desconsolados de Sobernal.
Então caiu uma formiga na ponta do nariz. Apanhou-a cuidadosamente. Prendeu entre os dedos evitando que a ansiedade esmagasse a cabeça da pequenina. Trouxe a certa distância, confortável ao olhar; dispôs-se a contemplar cada detalhe do bicho: desinquieto, remexia as presas. Girou-a, observou às pequenas antenas, às patas movendo-se. Abriu um sorriso. Caiu outra formiga no seu braço. Duas na testa. Três na cabeça. Olhou ao redor e viu que elas caiam sem parar. Centenas, milhares. O chão estava infestado. Um tapete de meio metro de altura formara-se em questão de segundos; uma névoa espessa à sua frente. Vinham montadas no vento. Enxergar? Cegara-se. E, enquanto algumas começaram a comer as vestes, outras já puseram-se a roer às orelhas. Tentou abrir a boca pra gritar: afastar os lábios um do outro: foi o bastante para o tucho invadir sua boca. Nada pode-se ver ou ouvir desde então. Exceto o ruído de formigas trabalhando detrás do silêncio sereno de Sobernal. Encontrou-se as formigas, pensou o caçador de tatus escondido no seu buraco, com o alçapão debaixo do braço aguardando a estiagem: Sujeito de sorte!.
___________________ Marcos Vinícius Almeida nasceu no ano de 1982, romancista, publicou seu primeiro romance, "Inércia" (em julho de 2009) pela editora carioca Multifoco; a publicação lhe rendeu o convite para se tornar Editor do selo Terceira Margem. Marcos Reside em Luminárias-MG. Em 2008 participou do III Concurso de Contos da UFSJ com o conto Ao pé da Serra, selecionado para publicação. Esse mesmo conto foi selecionado para compor a Antologia "Livro de Ouro do Conto Brasileiro", da Câmara Brasileira de Jovens Escritores, em junho de 2009. No mês seguinte do mesmo ano, foi selecionado para Antologia "Beco do Crime - O melhor do Conto Policial", com o conto: "Como se fosse da Família" e na antologia "Novos Talentos do Conto Brasileiro - Edição 2009", novamente na Câmara Brasileira de Jovens Escritores, com o conto "Pinóquio e a Menina-de-Lata". Publicou textos em revistas e portais de literatura, como Cult, Observatório da Imprensa e Cronópios. Atualmente trabalha no seu próximo romance e num livro de contos. É calaborador da Revista Bula(Goiânia-GO) editor do blog Bicho de Se7e Cabeças.
[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 5 - teresina - piauí - abril/maio/junho de 2010]