A evolução da espécie
Das perdas
Leila Guenther



A evolução da espécie

O povo que habitava a norte de Tenotchitlán, no México, durante o período arcaico, comia cachorros. Não de qualquer tipo, mas o xoloitzquintle, hoje em vias de extinção e conhecido apenas como xolo, cachorro sem pelo cuja pele se assemelha à de um elefante doente. Eram cachorros vegetarianos e essa era a razão pela qual consideravam sua carne mais saborosa que a de outros animais. Possuem orelhas grandes e pontudas como a do chihuahua, também oriundo de terras mexicanas, e são tão dóceis e fiéis que, dizem, quem alguma vez teve um xolo de estimação, apesar do aspecto repugnante de sua pele, nunca mais deseja os afagos de outro bicho.

Foi por causa desse seu caráter terno que eles passaram de refeição a animais de companhia e, já no fim do arcaico, a ser enterrados com seus donos, numa prática que consistia em levar para o túmulo o que estivesse, de alguma forma, ligado ao morto, como instrumentos de profissão, alimentos, bichos de estimação e escravos preferidos – vivos –, uma vez que, para os pré-colombianos, a morte era a continuação natural da vida. Uma lenda curiosa assim refere a origem dessa raça de cães: o mais importante dos deuses, Quetzalcoátl, a serpente emplumada, teria ganhado suas penas mágicas do pássaro quetzal em troca da perda de pelos do seu irmão cachorro, o mensageiro Xólotl, que assentiu de bom grado, reconhecendo a supremacia absoluta de Quetzalcoátl. Assim, Xólotl, de condutor de almas da vida para Xebalbá, o reino dos mortos, passou a representar a abnegação e o desprendimento, sendo o único deus do vasto panteão pré-colombiano a quem não se faziam sacrifícios de sangue.

Depois da chegada dos espanhóis, os astecas que restaram, já cristianizados, recorreram a um interessante sincretismo. Continuaram, por exemplo, a festejar a morte, essa outra parte da vida, e, no Natal, não era o menino Jesus que punham na manjedoura no centro do presépio, mas um filhote de cachorro. Sem pelos.





Das perdas

Por alguns momentos, sentado num dos últimos bancos, ele teve a impressão de que o veículo tombaria, derrubado pelos ventos do temporal. Isso, aliado ao fato de pensar, com angústia, no que o aguardava, o impedira de dormir, por meia hora seguida. Sempre que os olhos estavam prestes a se fechar, ele sentia uma espécie de calafrio e um mal-estar que pareciam brotar do estômago para se estender até os nervos dos braços, fazendo palpitar o coração a ponto de julgar suas batidas perceptíveis ao vizinho do lado. Então voltava a se lembrar por que estava fazendo aquela viagem, depois de uma longa ausência. Julgara que o afastamento o colocaria a salvo da saudade, da dor, da impotência de resguardar tudo o que lhe era caro, quando ele na verdade só fazia despertar, de uma forma aguda e nas horas felizes, esses sentimentos de que um dia tentara se libertar. Talvez a paz de espírito tivesse estado perto de onde julgava mesmo estar o problema, ou talvez essa paz não fosse algo que ele, do jeito que era, achasse digno de atingir um dia, onde quer que estivesse.

Quando chegaram aos arredores da cidade, notou que tudo estava lá, em seu devido lugar, quase sem mudanças, mas definitivamente perdido. O mal-estar da viagem cessara. No lugar dele, veio uma dor mais concreta e palpável: o sofrimento de não conseguir vislumbrar o mundo sem algo muito importante. Um mundo – o seu mundo – amputado, ao qual faltava um pedaço impossível de ser refeito. Se ao menos ele acreditasse que haveria um depois, algo além, um deus, por assim dizer, ele estaria mais tranquilo, seria até capaz de suportar, mas ele tivera a infelicidade de herdar do pai, aquele pai estranhamente submisso, uma profunda falta de fé. O pai, ao menos, tentara. Esforçara-se para adquirir algo que não tinha, e nunca teria, e por isso ficou louco, murmurando sempre e apenas “por que me abandonastes?” não a deus, mas ao próprio filho. Mas ele nunca teria ido tão longe. O mais longe que fora não era distante de onde sempre esteve. E agora estava de volta.

O ônibus que o trazia chegou à rodoviária às 11h da manhã. A viagem tinha durado mais do que as dez horas habituais, por causa da chuva que caíra durante boa parte do percurso.

Ao desembarcar, trazia consigo uma pequena maleta, uma garrafa de água e um sanduíche que não conseguira comer. Sentiu-se perdido e, como sempre acontece quando nos sentimos perdidos, terrivelmente só. Apesar de toda aquela gente que movimentava o terminal, ele era incapaz de enxergar alguma coisa. E, mesmo se alguém lhe dissesse “eu o levo pela mão”, ele não poderia ouvir. Tudo lhe parecia abandonado, derruído. Resolveu se sentar um pouco num dos bancos, a fim de tomar força. Precisava de força, de uma coragem que ele não tinha tido, nem mesmo quando partira, há anos. Só hoje se dera conta de que ter ido embora dali não fora um ato de coragem, mas uma retirada desastrada de alguém que, na fuga, deixa cair da valise vários pertences pelo caminho.

Esteve a ponto de chamar um táxi. Tentou fazer um gesto, mas o que seria dele se perdeu no ar. Ficou olhando a fila dos carros, nos quais entravam pessoas cujo destino se ignorava, a quem talvez aguardassem provações mais penosas que a dele. Só ele não conseguia. Ele sabia que era diferente, não para o bem, mas para o mal: era apenas um feto frágil que não poderia nunca ter vindo à luz. Diversos táxis partiram levando passageiros, sem que ele se decidisse a tomar um. Voltou ao banco, chorou impassível como um espectador no cinema que se emociona, com certo pudor, com um drama alheio e fictício. Estava cansado. Não podia se mover. Os pensamentos cessaram e sua cabeça ficou pairando num estranho vazio durante muito tempo. Depois, quase recomposto, olhou o relógio, voltando a si. Já anoitecia. O enterro devia ter terminado. Com esforço, separou algum dinheiro, jogou na lixeira a garrafa de água, o sanduíche e a maleta, e dirigiu-se ao guichê para comprar uma passagem de volta.



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Leila Guenther nasceu em Blumenau, Santa Catarina. Formou-se em Letras pela Universidade de São Paulo a atualmente trabalha como revisora de texto em Campinas, onde mora. Em 2006 publicou o livro de contos O vôo noturno das galinhas (Ateliê Editorial). Com Paulo Franchetti, contribuiu com o conto “Inscrição” para o livro Quartas Histórias: contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa (Garamond, 2006). Em 2008, participou do livro Capitu Mandou Flores: contos para Machado de Assis nos cem anos de sua morte (Geração Editorial) com o conto “A outra causa”, uma releitura de “A causa secreta”. Desde o começo de 2009, mantém o blog na linha da vida.




[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 5 - teresina - piauí - abril/maio/junho de 2010]

 

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