entrevista

 "Sou um artesão e Edições Nephelibata é o nome que designa de forma genérica o artesanato que eu faço."

Uma entrevista com Camilo Prado

 

por Adriano Lobão Aragão

 

 

 

Camilo Prado (1969) nasceu no litoral da província de Santa Catarina; depois de diversas ocupações e ofícios normais, tais como bancário, servente de pedreiro e professor, criou em 2001 as Edições Nephelibata, especializada em edições de livros artesanais. É também tradutor, do francês e do espanhol, e autor de alguns livros de contos: Nefas (2004), Uma Velha Casa Submarina (2005), Pulcritude (2006). Encontra-se às vésperas de defender doutorado em Literatura, na Universidade Federal de Santa Catarina, com tese em tradução da obra Tribulat Bonhomet de Villiers de L’Isle-Adam.



Adriano Lobão Aragão - Por que Nephelibata?

 

Camilo Prado - Foi sugestão de um amigo. Na época — uns dez anos atrás — em que comecei com a idéia de editar livros, eu mencionava muito essa palavra porque estava lendo poetas simbolistas como Emiliano Pernetta, Ernani Rosas e B. Lopes. Alguns deles eram chamados de nefelibatas; era um termo um pouco depreciativo no século XIX. Para variar, vindo da França, onde o termo era usado para depreciar os decadentes e simbolistas de lá. Depois passei a usar a palavra na grafia antiga, com ph no lugar do f, isso acentuou a direção em que quero levar as Edições: o século XIX.

 

Adriano - Em que aspectos o século XIX direciona seu projeto editorial?

 

Camilo - O século XIX me parece ser uma fonte inesgotável de boa literatura. Não creio que antes, e menos ainda depois, houve tantos bons autores escrevendo juntos em um curto espaço de tempo — e um tanto limitados geograficamente, uma vez que o cérebro do Ocidente no século XIX era a França. Até mesmo Hoffmann e Allan Poe ganharam e influenciaram o mundo a partir de lá. Mas também a parte mais rica de nossa pobre literatura nacional para mim está no século XIX, ou tem a cor e o sabor do século XIX. Já que no Brasil parece que o século XX tardou um pouco para chegar. E então, pelo fato de eu gostar desse “passado”, tenho publicado alguns autores desse período — como Xavier Marques, João do Rio, Sá-Carneiro, Rodenbach, D’Annunzio, Baldomero Lillo, Adolfo Bécquer, Villiers de L’Isle-Adam, Pío Baroja — e pretendo ampliar mais o número deles, que, como você pode notar, estão próximos da estética simbolista e decadente, os nefelibatas. Além disso, a idéia mesma de fazer livros artesanais veio de um poeta que morreu no início do século XIX, William Blake. Também as pequenas tiragens eram bastante comuns entre os simbolistas e decadentes. A concepção de um livro que não é feito para a multidão, mas para alguns leitores, é uma concepção que herdei deles. Gosto de lê-los, e como são muitos, sempre encontro uma novidade. E procuro editar alguns para aqueles leitores que, como eu, possuem o bizarro desejo de ler uma velha e boa literatura, que infelizmente, ou felizmente, já se tornou raridade.

 

Adriano - A divulgação e distribuição consistem um grande desafio para quem se propõe a editar livros, mesmo com a popularização da internet?

 

Camilo - Não creio que seja um grande desafio no momento. Já foi. Hoje a internet nos possibilita alguma igualdade na divulgação e distribuição. Tanto é que tenho vendido livros para várias cidades diferentes em quase todos os estados do país. Qualquer pessoa no Rio Grande do Sul, Piauí ou no Maranhão pode, via internet, adquirir com a mesma facilidade um livro da Cia. das Letras, por exemplo, quanto um da Nephelibata. Há vinte anos atrás isso não seria possível, mas hoje é inevitável. Em qualquer livraria que você entra, o funcionário vai direto ao computador e, normalmente, responde: “Não temos na loja, mas em duas semanas chega”. Creio que as livrarias irão desaparecer em breve. Porém, eu tenho um pequeno problema com vendas à distância por conta dos livros serem artesanais. Normalmente as pessoas imaginam alguma coisa mal feita. É curioso. Por séculos os livros foram feitos artesanalmente e apenas algumas décadas nas mãos das máquinas bastaram para que as pessoas se tornassem desconfiadas da qualidade de um livro artesanal. Por conta disso retirei da página a informação de que é artesanal, e algumas pessoas ao receberem o livro e descobrirem que é artesanal, que é numerado, etc., ficaram um pouco emocionadas e me escreveram elogiando. Isso é gratificante. Se elas tivessem comprado o livro em uma livraria nunca me teriam escrito para dizer que gostaram do “material”.

 

Adriano - A Nephelibata edita diversas traduções. Como tem sido a receptividade desse tipo de edição?

 

Camilo - No geral é bem aceito. Tive a sorte de contar desde o início com bons tradutores e de poder publicar alguns títulos inéditos no país. E tanto em poesia quanto em filosofia. Na verdade, sempre tive o apoio de alguns amigos que são também tradutores: Celso Braida, Jaimir Conte, que depois se afastou justamente quando vieram outros dois: Miguel Sulis e Gleiton Lentz. Os dois primeiros são professores na universidade federal aqui do estado, assim como o Selvino Assmann, tradutor de Foucault. E além de professores são tradutores, com traduções em diversas editoras, ou seja, são pessoas pelas quais já se tem respeito. Sulis e Lentz também possuem um bom histórico de traduções, apesar de serem mais jovens; o primeiro sobretudo com traduções do grego, o segundo do italiano e do espanhol. E depois, a presença de Floriano Martins que veio enriquecer ainda mais as edições. E atualmente está no prelo uma tradução de Gregory Corso pelo Márcio Simões e outra de H.P. Lovecraft pelo poeta português Nicolau Saião. Curiosamente serão os primeiros poetas de língua inglesa a serem publicados na Nephelibata. Até então o inglês, que dizem ser a língua mais traduzida, estava ausente das edições. Publiquei obras traduzidas do italiano, do alemão, do espanhol, do francês, do grego antigo e do moderno, e até mesmo do turco, e nada do inglês, salvo alguns ensaios de David Hume que já saíram do catálogo faz alguns anos. Enfim, creio que a boa aceitação das traduções se deve aos bons tradutores que o acaso tem aproximado da Nephelibata, aos quais sou muito grato.

 

Adriano - Como é definida a linha editorial da Nephelibata?

 

Camilo - Não há exatamente uma linha editorial definida, para além do objetivo de publicar literatura e filosofia. Procuro apenas publicar textos de qualidade, confiando nos autores e/ou tradutores. Mas isso no fundo é muito relativo. Como se sabe, os gostos estéticos e filosóficos são muito diversos. Por algum tempo a Nephelibata teve uma “comissão editorial”, mas não funcionou muito bem. O fato dos livros serem artesanais e de ser eu sozinho que os faço tornou a coisa inviável. Tenho uma relação muito íntima com os livros. Eu os manufaturo um a um, é impossível pensar a coisa como uma editora, ou seja, como uma empresa onde haja reuniões e decisões de conjunto. Não tenho o menor ânimo de ficar costurando 50 exemplares de um título que me desagrade só porque irá vender ou porque uma “comissão”, mesmo que composta por amigos, chegou à conclusão de que é algo bom. Sou criticado por isso, mas não me importo. É fácil dizer o que se deve fazer quando não é você quem faz. Mas apesar das críticas creio que na diversidade de títulos publicados até agora pode se entrever alguma linha mais ou menos definida. E por outro lado, demonstra bem o quanto posso ser eclético e elástico. Mas não descarto a possibilidade de qualquer dia me decidir, para dar razão às críticas, a transformar a Nephelibata em uma editora exclusivamente dedicada aos mortos do século XIX.

 

Adriano - Em que aspectos seu trabalho como escritor mistura-se com o de editor?

 

Camilo - Eu diria que em todos os aspectos. Por publicar meus próprios livros e traduções tenho sido motivo de críticas constantes. Dizem-me: “é fácil publicar um livro quando se tem uma editora!”. Mas a coisa é inversa. É por escrever, por traduzir que comecei a fazer livros. Há dez anos atrás tentei formar um grupo, queria criar uma editora. Mas acabou não dando certo. Não desisti da idéia; os amigos, mesmo continuando a me apoiar, tomaram certa distância e então fiquei sozinho. Tudo o que eu tinha era uma caixinha de papelão com dez disquetes e a cabeça cheia de sonhos. Meu primeiro computador eu ganhei cerca de três anos depois. Viam-me, com alguma razão, como um lunático que sonhava com uma editora mas que não tinha nem uma folha de papel para escrever. Eu digitava os futuros livros na casa de amigos, em laboratórios de informática na universidade; os primeiros livros foram em xérox; depois a mãe de um amigo custeou a compra de uma impressora, mas como eu não tinha computador, ia até a casa dele para trabalhar: três ônibus para ir, três para voltar. Enfim, eu agia como um Dom Quixote. Comecei a fazer livros entre o riso e a caridade dos outros. E o que me mantinha e me mantém ainda é a literatura, minha escritura e minha traduções — por pior que as considerem — não a “editora” ou a “publicação”. Mais recentemente fui, faustianamente, vender minha alma para a universidade em troca de uma bolsa de estudos. Foi o que me possibilitou adquirir o mínimo necessário para manter a Nephelibata viva nos últimos quatro anos: um melhor computador, impressoras, uma guilhotina. Na verdade, é somente agora, neste ano de 2011, que começo a poder trabalhar com um mínimo de material necessário para a manufatura de livros dentro da minha casa (alugada). E, no entanto, foi em péssimas condições de trabalho e com material ruim que consegui dar a Nephelibata o respeito que tem atualmente, inclusive no chatérrimo meio acadêmico. Então, toda a persistência — e resistência às intempéries da vida — deve-se ao fato de eu gostar de literatura, de escrever e traduzir autores que me agradam e querer transformar isso em livros. Que eu publique o livro de outros é conseqüência disso. Alguém já me perguntou, sarcasticamente, qual era a diferença entre a Nephelibata e eu. E a minha resposta não podia — e não pode — ser outra: “a Nephelibata é uma obra minha”. É isso, talvez, que a diferencia das editoras. E eu não me canso de repetir: “a Nephelibata não é uma editora”, “eu não sou uma empresa”. Sou um artesão e Edições Nephelibata é o nome que designa de forma genérica o artesanato que eu faço. E isso faz parte do universo literário que vivencio diariamente, de meus fantasmas, de minhas leituras etc.

 

Adriano - E quais os próximos passos da Nephelibata?

 

Camilo - De imediato é lançar alguns títulos que estão no prelo há algum tempo. Grecidade de Giánnis Ritsos e Vênus em peles de Sacher-Masoch, ambos traduzidos por Miguel Sulis; um conjunto de 15 entrevistas com Jorge L. Borges, traduzidos por Floriano Martins e uma Antologia poética de Gregory Corso, que já me referi, traduzida por Márcio Simões, que sairá pela coleção O Começo da Busca, organizada pelo Floriano; e um livro de poemas de Lovecraft, Os fungos de Yuggoth, tradução de Nicolau Saião, que espero confirmar para breve. Ritsos, Masoch e Borges irão sair em volumes capa-dura. Que é um outro passo da Nephelibata que há tempos venho ensaiando e que agora irá se realizar. Além desses, está no prelo também um segundo livro de Celso Braida. Chama-se Exercícios de desilusão. Aqui temos o Celso em alta estima, seu primeiro livro, o Scismas, que foi também o primeiro título da Nephelibata, segue sendo manufaturado desde 2001. Seu novo livro servirá simbolicamente de comemoração aos dez anos da Nephelibata. E o Celso está de posse também de um autor muito interessante de ficção científica, E. Morgan Forster, e traduziu uma novela que se chama A máquina pára, que espero possa sair junto com outras nos próximos meses. É uma obra cult de ficção científica que permanece inédita no país e que, possivelmente, será a Nephelibata que trará à luz pela primeira vez. De minha parte, tenho a coleção Arquivo Decadente, que a julgar pelo número de pessoas que me perguntam sobre ela, poderá gerar algum interesse. Estão prontos dois títulos que logo estarão à disposição dos raros: Noite de insômnia de Marcello Gama e Eu amo a noite de Fagundes Varella. A novidade dessa coleção, para além dos autores — praticamente não mais publicados em lugar algum —, é o fato das edições serem na grafia antiga, na grafia em que o poeta escreveu, salvo raras exceções. Na seqüência, em grafia antiga, virão Cesar de Castro, Pedro Kilkerry, Francisco Mangabeira, Junqueira Freire, Wencesláu de Queiroz, entre outros. E por fim há a contribuição dos inesperados. Continuamente surge alguém me propondo um livro interessante, seja tradução ou de autoria própria, como foi o caso do livro de Carlos A. Casotti, Impulsos & convulsões, um dos melhores títulos da Nephelibata. Um próximo objetivo então, e espero estar plenamente preparado para isso no ano que vem, será reservar um espaço permanente para publicar jovens autores, obviamente dentro dos limites humanos possíveis de minhas mãos.

 

 

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Adriano Lobão Aragão é poeta e professor. Autor de Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra, Yone de Safo e as cinzas as palavras. blog: Ágora da Taba


 [revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano III - número 9 - teresina - piauí - abril maio junho de 2011]

 
 
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