Interdiscursividade pictórica no espaço estético[1]
Sônia de Fátima Elias Mariano Carvalho
Resumo: Neste
estudo buscamos observar a instauração da interdiscursividade pictórica no
espaço estético da obra de arte por meio dos operadores visuais que provocam a
construção de efeitos de sentido, muitas vezes, pelo movimento das pinceladas,
pela colocação das camadas de tinta ou pelo jogo de cores, luzes, sombras, etc.
A imagem é apenas sugerida, implícita a partir do jogo de elementos que
previamente foram oferecidos pelo sujeito-esteta. Tais elementos funcionaram
como índices, desencadeadores do processo enunciativo pictórico. Por um efeito
ideológico, a interpretação se apaga no momento de sua realização, dando-nos a
ilusão de que é transparente, de que o sentido já existia como tal. Essa
transparência é uma ilusão, na medida em que o fato de o sentido ser um e não
outro é definido pelas condições de produção em que se dá o movimento da
interpretação.
Resumen: Este estudio objetiva
observar la instauración de la interdiscursividad pictórica en el espacio
estético de la obra de arte por medio de los operadores visuales, los cuales
provocan la construcción de efectos de sentido, por el movimiento de las
pinceladas, por la disposición de las capas de tinta o por el juego de colores,
luces, sombras, etc. La imagen es solamente sugerida, implícita en el conjunto
de elementos que el sujeto-esteta ofrece previamente. Estos elementos actúan
como índices desencadenadores del proceso enunciativo pictórico. Por un efecto
ideológico, la interpretación se borra en el momento de su realización y da la
ilusión de que es transparente, de que el sentido ya existía como tal. Esta
transparencia es una ilusión pues el sentido es definido por las condiciones de
producción en que se da el movimiento de la interpretación.
Considerado
no espaço da arte como um dos mais proeminentes pintores do século XIX, Vincent
van Gogh (1853-1890) provoca efeitos de sentido múltiplos sobre aqueles que são
interpelados por sua obra, justamente pela singularidade no uso da cor.
Tinha
uma maneira peculiar de voltar seu olhar para o mundo e para as criações que a
natureza lhe oferecia em profusão de cores e movimentos. Sua história é repleta
de períodos que se alternam entre a passividade, a prostração bem como os de
efusão, seguida de uma quase furiosa vontade de ação.
Nesses
períodos se apoderava de suas telas como um terreno fértil, que ele
engenhosamente adubava, arava sob a interpelação, provocada pela natureza e
pelas cores. Para ele as cores eram como sementes, que jogadas na espacialidade
da tela, gerariam outras espécies, ou seja, outras cores, combinações outras entre
elas.
Dessa forma, um pintor ao pincelar uma tela,
cria uma linguagem outra, produzindo outros sentidos à representação que ele
dispõe no espaço da tela. O espaço estético de uma obra plástica é a expressão
do mundo num espaço reduzido, bidimensional, sob a configuração de forma, cor,
movimento, textura, traço, dimensão, movimento, ponto e linha.
Van
Gogh semeia o campo, pinta com cores e instantaneamente o que visualiza à sua
frente, sofrendo a interpelação da natureza como um acontecimento discursivo
que precisa se materializar no espaço da tela. Nós, sujeitos apreciadores de
sua materialidade pictórica, nos rendemos, iniciando à colheita do que foi
semeado.
A interdiscursividade no espaço
estético pictórico
Com
base nos pressupostos teóricos da Análise do Discurso Francesa (AD), utilizamos
para esta análise os conceitos de Michel Pêcheux de interdiscurso, sujeito e
sentido. Para abordar o espaço pictórico, lançamos mão da reflexão
teórico-filosófica de Michel Foucault sobre o espaço, por intermédio das noções
de heterotopia e utopia.
No escopo teórico da AD, o discurso é
produzido em determinadas condições sócio-históricas e ideológicas, sendo,
portanto, o lugar de materialização do processo enunciativo pictórico. Nos
discursos buscam-se os sentidos os quais não existem por si mesmos, mas sim
constituídos em relação às condições de produção em que estão inseridos.
Dessa
maneira, entendemos que no discurso pictórico os sentidos não são fixos, são
produzidos frente aos lugares que o(s) sujeito(s) ocupa(m) em dialogia. Já que
no discurso os sentidos não são estáveis, logo serão produzidos de acordo com
os lugares que os sujeitos ocupam, ou seja, uma obra plástica poderá ter
diferentes significações de acordo com o lugar sócio-histórico-ideológico
daqueles que tecerão o gesto de interpretação.
Ao
entendermos os sentidos sendo produzidos na dialogia, é necessário aceitar que
não há um sentido original, tudo já foi dito antes e faz parte de nossos
conhecimentos adquiridos, ou seja, pré-construídos, e que com o tempo são
esquecidos. Dessa maneira emerge o interdiscurso, designando o espaço
discursivo e ideológico no qual se desenvolvem as formações discursivas.
Nessa
perspectiva, os discursos que atravessam uma dada formação discursiva (FD) não
se constituem independentes uns dos outros para depois serem postos em relação,
mas se formam de maneira regulada no interior do interdiscurso. Assim a relação
interdiscursiva, estruturará a identidade das FDs.
Pêcheux
(1997, p. 149) enuncia que “não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem
ideologia”, portanto, o sujeito é, desde sempre, constituído pelo inconsciente
e interpelado pela ideologia.O sujeito
não é fonte do sentido, se forma por um trabalho de rede de memória, acionado
pelas diferentes formações discursivas, que vão representar, no interior do
discurso, “diferentes tomadas de posição, resultante das contradições, das
movências, dos deslocamentos e de pré-construídos” (PÊCHEUX, op. cit., p. 162).
Dessa
maneira, no espaço estético pictórico temos uma instância enunciativa
sujeitudinal esteta (IESE), em constante alteridade no interior desse processo
enunciativo. Para explicitar o processo enunciativo, tomaremos a noção em
Santos (2009), de instância enunciativa
sujeitudinal, a partir da qual ocorre uma alteridade de instâncias sujeito no interior de um
processo enunciativo, ou seja, no decorrer de uma realização dialógica temos
sujeitos heterogêneos pertencentes a um grupo social e atuantes em uma
constitutividade dialógica.
Os
sujeitos se encontram circunscritos em práticas sociais, em ações
inter-relacionadas no processo enunciativo. Para Santos (ibidem, p.87) uma instância enunciativa sujeitudinal,
(...) se configura, por condições de atribuição e de
finalidade. Na instauração de um processo interpelativo, ela revela processos
identitários dos sujeitos, decorrentes de uma inserção em um lugar
sócio-histórico. Além disso, uma conjuntura ideológica as configura enquanto
influência de valores referenciais e polifônicos dessas manifestações-sujeito
que se instauram.
Portanto,
ao considerarmos a instância enunciativa
sujeidutinal como alteridade de instâncias sujeito no interior de um
processo enunciativo, também poderemos direcionar nosso olhar para a instância enunciativa sujeitudinal esteta,
que atua no interior da instância enunciativa sujeidutinal.
No
espaço estético plástico temos uma instância enunciativa sujeitudinal esteta, em
constante alteridade no interior do processo enunciativo pictórico. Para
Carvalho (2009, p. 63), sob esse viés é possível falarmos de uma autoria
manifestada
por
meio do processo de tessitura pictórica, indo além dos domínios que lhe impõem
as responsabilidades sócio-histórico-ideológicas, como também as
responsabilidades do conhecimento teórico, técnico e prático do domínio da
linguagem imagística.
Logo, se essa instância
enunciativa sujeitudinal, consegue agrupar discursos, “como unidade e
origem de suas significações, como foco de sua coerência”, tem-se um autor como
ressalta Foucault (1992, p.26).
Prossegue a autora dizendo que a denominação sujeito-esteta é “o sujeito autor de uma
obra de arte, no caso van Gogh, atuando enquanto função-autor de obras
plásticas” (2009, p.36).
Nessa
perspectiva, podemos remeter a função autor foucaultiana em relação à pintura,
isto é, existem representações postas na tela por meio de cores, traços,
formas, etc. que são elementos materialmente visíveis, e que podem distinguir
um autor, ou seja, só teremos um autor, se tivermos uma obra que possa de maneira
consistente ser associada a um autor; fato semelhante pode ocorrer com a
pintura.
Dessa
forma podemos enunciar que o sujeito-esteta
é uma posição que o sujeito assume a partir de suas inscrições discursivas,
atravessadas pelo interdiscurso e traspassada pela memória discursiva e pelas
condições históricas que a constituem.
Sobre os espaços em Foucault
Em
seu texto Outros Espaços, escrito
para uma conferência no Círculo de Estudos Arquitetônicos, na Tunísia em 1967,
Foucault trata da importância do espaço na sociedade, é um texto curto, porém
carregado de sentido e de grande relevância para a atualidade.
Ressalta
então a importância do espaço com ênfase na sociedade contemporânea, não como
um espaço morto, estagnado, mas um espaço que adquire sentido.
O
autor procura conceituá-lo, afirmando que o até o século XIX, o debate que
predominava era sobre a História, e o que estaria profuso na sociedade atual é
a época do espaço, diferentemente do que prevaleceu no
século dezenove. Estaríamos, contudo, vivendo numa época de espaços
heterogêneos, complexos e justapostos que se entrecruzam em algum ponto.
Para
o autor estamos na época do simultâneo e da justaposição. Entendemos que o
homem moderno vive essa dualidade entre estar num ponto do espaço e num ponto do
tempo. Um espaço que é simultâneo, porém, constituído pela justaposição em
forma de camadas, por uma diversidade de espaços.
Um
espaço múltiplo onde estar próximo ou distante torna-se conceito relativo, de
modo que podemos estar próximos estando distantes ou estar distante e,
simultaneamente, estar próximos.
Sendo
assim o espaço é perpassado por uma intensa produção de efeitos de sentido.
Nesse sentido, Foucault nos provoca a pensar num espaço heterogêneo,
desafiando-nos a perceber as múltiplas camadas da subjetividade que envolve
sonhos, paixões, frustrações e que forma um emaranhado entre o espaço de dentro
e do de fora, de maneira que nunca sabemos onde está a dimensão externa ou
interna do espaço.
Foucault
nos diz que o foco das análises sociais deveria direcionar para as relações
humanas contidas nestes espaços diferenciados, que ele denomina de Heterotopia, em oposição à Utopia (espaços irreais, sem lugar real/fixo). São
espaços de tensões, conflitos podendo ser mítico e real ao mesmo tempo.
O
autor define assim as utopias,
São posicionamentos que mantêm com o espaço real da
sociedade uma relação de analogia direta ou inversa. (...) essas utopias são
espaços que fundamentalmente são essencialmente irreais (2006, p. 414-415).
Os
espaços que criamos com o objetivo de fazer um mundo diferente no qual vivemos,
ora mais organizado, ora hierarquizado, ou projetar um caminho diferente que
nos prendem a um contra-lugar. O exemplo citado é o espelho, que ao mesmo tempo
é utópico (é um lugar sem lugar) e heterotópico (ele existe na realidade).
Dessa
forma, Foucault sugere a criação de uma heterotopologia,
com o objetivo de analisar as manifestações sociais ocorridas nesses espaços
diferentes, podendo transitar entre o "mítico" e o "real".
Assim nos apresenta cinco princípios[1]:
1º princípio:
Toda cultura produz heterotopias e estas podem ser: heterotopia de crise,
característica das sociedades primitivas, lugares reservados às pessoas que
estariam em situação de crise, por exemplo, mulheres grávidas, idosos. Dentro
dos padrões sociais da época.
A
heterotopia de crise deu lugar a heterotopia de desvio, que seria uma substituição a de
crise, e se caracteriza por comportamentos de desvios dos sujeitos em relação a
normas de condutas impostas pela sociedade, como exemplo, podemos citar as
casas de repouso, asilos, casas psiquiátricas e prisões.
2º princípio:
De acordo com o contexto social, cultural a heterotopia passa por transformações.
O cemitério
é exemplo citado pelo autor. Este espaço une vários lugares da sociedade,
tornou-se uma outra cidade, com o passar do tempo, a partir da mudança de
mentalidade, que antes era cristã, e agora, ateísta. ´
Para
Foucault, o cemitério é onde começa a heterotopia para o sujeito. O cemitério
seria um lugar em que há perda da vida, no entanto, o sujeito não deixa de se
manifestar, não se apaga.
3º Princípio:
As heterotopias têm o poder de justapor num lugar vários espaços. São espaços
que vão agregar outros espaços. Um exemplo dado por Foucault é o jardim, neste
caso, seria um "microcosmo", que carrega uma heterotopia universal
(desde a antiguidade, Oriente) que se mantém vivo até hoje.
4º princípio:
As heterotopias podem funcionar na relação com o tempo, o que ele define como
heterocronias. São heterotopias crônicas. A morte seria um exemplo, um rompante
com o tempo, mas que acontece de forma complexa esta relação entre heterotopia
e heterocronias.
As heterotopias são acumulativas do tempo, como as bibliotecas e museus, que são eternas
e indefinidas no tempo. Outro aspecto são asheterotopias de festival, ou seja, passageiras,
efêmeras, transitórias, marcada pela temporalidade. Os exemplos são as colônias
de férias, feira, circos.
5ºprincípio:
São as heterotopias que possuem um sistema de abertura e fechamento que as
isolam do espaço do entorno. Mostra um conflito. Os casarões brasileiros, por
exemplo, abertos e ao mesmo tempo fechados.
Por
fim, paradoxalmente Foucault afirma que um navio se constitui um lugar sem
lugar, que flutua no espaço, aberto e fechado ao mesmo tempo, por isso é uma heterotopia em sua plenitude, mesmo transitando por
diversos lugares distintos.
O
autor traz o espelho metaforicamente que seria o espaço da perda da linguagem,
da afasia. Logo, entre utopias e heterotopias existe uma experiência mista, a
do espelho que seria o espaço da atopia.
Por
conseguinte, acreditamos que a produção pictórica
viabiliza possibilidades para o espaço como uma heterotopia. A obra imagística
tem como ponto de partida imagens representadas em um espaço heterogêneo
provocador de efeitos de sentido que conduz a um deslocamento,
experimentado na tessitura do gesto de interpretação.
Cada
artista, a seu modo, sabe ou soube construir suas imagens do espaço em “uma
espécie de contestação simultaneamente mítica e real do espaço em que vivemos”
(Foucault, 2006, p. 415).
O espaço na pintura é semelhante ao espaço da narrativa, teremos
plasmado na superfície da tela fatos que podem ser ficcionais ou não e estarão
inseridos na emergência da localização que lhes dá suporte e sentido.
O espaço da tela não se resume a pura e simplesmente à
distribuição dos operadores visuais[2] no seu interior, mas pode
ser vista como uma forma de manifestação histórica, ideológica, filosófica e
política. É por isso que cremos que a pintura se manifesta num movimento
continuum entre as utopias e as heterotopias.
Esquematicamente no interior de um espaço teríamos esta
movimentação:
Este
é um dos muitos estudos que van Gogh fez do semeador em campos de trigo. A
temática o acompanha desde suas visitas aos museus em Paris quando durante
horas a fio se encantava com trabalhos de Millet, Corot e Daumier. Utilizou
diversas técnicas (esboços em tinta e pena, desenhos a carvão e pintura a óleo)
principalmente no tocando aos quadros de Millet dos quais ele fez algumas
reproduções com uso sem medo de muita cor.
Van
Gogh tinha uma grande admiração por Millet (1814-1875) que, para ele,
representava sua inspiração na pintura, segundo seus dizeres “o pintor da
Humanidade” e “o pintor essencialmente moderno que abriu horizontes” (Carta a
Théo p. 429- 455).
O
trabalho agrícola para ele era simbólico, representando o papel do homem na
revelação da generosidade da terra de Deus. O semeador trabalha tendo a cidade
de Arles ao fundo, com um forte contraste de cores entre céu e terra.
Descrição
Neste
óleo sobre tela, o sujeito-esteta representa o trabalho do semeador. A
espacialidade da tela é pequena como podemos observar pelas dimensões (32 cm
x 40 cm) dadas. Em primeiro plano
temos a figura do semeador e do tronco de uma árvore, ambos com vigorosas
pinceladas em preto sendo suavizado por tons de verde, cinza e vermelho. O solo
no qual o semeador lança as sementes, tem a cor azul e violeta, com maior
dominância para o azul, salpicadas aqui e ali temos indícios de amarelo, cinza,
verde e preto. As pinceladas são curtas, ora verticais ora diagonais, sugerindo
uma dinâmica. Ao fundo incide sobre o céu em tons de verde, um enorme sol com
generosa camada de amarelo em movimentos circulares mescladas de vermelho,
proporcionando tons mais alaranjados.Ao
fundo à direita um bosque com uma casa detrás do campo de trigo.
Esboçando uma análise
Visualizamos
a representação social de uma anterioridade histórica de fins do século XIX,
interpelando o sujeito-esteta. As mudanças sócio-econômicas daquele momento são
expostas pelo pincel do artista, em que o mesmo valoriza o trabalho rural em
desidentificação com o surgimento de valores sócio-culturais de uma nova
sociedade tecnológica que emergia. Assim, o sujeito-esteta se inscreve em uma
formação discursiva sócio-ideológica ao lado do homem do campo, pois tinha
respeito e consideração por estes trabalhadores.
O
sujeito-esteta faz uma reconstrução do espaço de fora (campo de trigo) ao
trazê-lo para o espaço interno da bidimensionalidade da tela. Preenche os
espaços da tela com cores vivas que incomodam e inquietam e ao fim se
heterotopizam.
Os
campos de trigo provocam no sujeito-esteta uma espécie de utopia, pois é neste
espaço que ele se acomoda e conforta-se, no entanto rompe com ele ao levá-lo
para o espaço em branco da tela, criando assim uma dimensão heterotópica do
campo de trigo e do semeador.
A
opção foi por representá-lo não da maneira convencional que faria um pintor
realista, por exemplo, com o trigo em tons de verdes com pitadas de ocre, um
céu azul e demais elementos que compõem uma paisagem. A tensão interpelativa de
plasmar toda a luz em sua beleza e esplendor do campo de trigo leva o
sujeito-esteta a romper com o estabelecido da técnica de pintura clássica e
instaurar uma dialogia outra entre as cores.
Observamos que a dialogia se estabelece no momento em que
o sujeito-esteta monta sua paleta. Ele mantinha uma paleta básica com
vermelhos, amarelos e azuis. A partir do diálogo que se instaura entre elas é
possível estabelecer discursos outros, obtendo cores outras e com múltiplos
graus de intensidade e efeitos de sentido.
O
semeador e o campo de trigo é um indício de interdiscurso, pois há a existência
de um diálogo entre discursos da ordem da interioridade e da exterioridade por
meio da memória discursiva. O interdiscurso
se interpõe como evidência de uma significação que é retomada num processo de
re-significação de manifestações imaginárias.
O sujeito-esteta inscreve-se numa formação discursiva
religiosa ao simbolizar o semeador, re-significando o semeador bíblico fazendo
referência à parábola. O semeador anuncia a vida nova, numa simbologia de
eternidade da Natureza tal como é vivida no campo.
O trabalho de semeadura é importante, no entanto a
identidade do semeador é silenciada tal qual na história. Um semeador sem rosto
podendo ser qualquer um. Nisso há uma identificação do sujeito-esteta por esta
figura que mesmo sem reconhecimento no espaço do campo faz a diferença.
Concluímos que o espaço estético pictórico é utópico na
medida em que acolhe e acomoda uma representação de um lugar real e ao mesmo
tempo se converte em um espaço heterotópico quando o sujeito-esteta preenche
este espaço em branco com cores, rompendo com o que se apresentava perfeito.
A tela se torna heterotópica na medida em que inquieta,
em que desfaz a convencionalidade, abrindo caminhos outros para inúmeros mundos
fragmentários, que são justapostos.
O espaço vazio da tela suporta ao mesmo tempo todos os
lugares e nos coloca frente a frente com a idéia de justaposição. O
sujeito-esteta revela por meio das cores e das formas, revelando também o grau
das heterotopias que ele experimenta nos espaços imaginários, justapostos com
espaços reais.
A existência desses dois lugares é uma relação tensiva,
um batimento entre o lugar da imagem e a imagem do lugar. O espaço da paisagem
real sob o olhar intenso do sujeito-esteta que procura ir além e descobrir
cores outras. Heterotopia que coloca próximos lugares diferentes. Por meio dos
operadores visuais há sempre a possibilidade de um novo espaço, criando
justaposição de diferentes espaços.
Cada
vez que a instância sujeito se inscreve em uma formação discursiva, esta é
constituída de tensões multidirecionais, isto é, o sujeito pode se constituir
em qualquer lugar neste espaço. Por meio das cores o sujeito-esteta pinta sua
fala, subjetivando-se ao fazer o movimento de identificação ou desidentificação
com seus medos, pressões, e ele se apropria dela, materializando-a em suas
telas num movimento de catarse. Convertendo suas sensações em expressões de
vida, de transcendência e perpetuação.
Referências
CARVALHO, Sônia. F. Elias Mariano. A Dialogia estética em Vincent van Gogh.
Dissertação de Mestrado (2009). Universidade Federal de Uberlândia. Uberlândia,
2009.
DONDIS, D. A. Sintaxe da linguagem visual. Trad. Jefferson L. Camargo. 3ª ed. São
Paulo: Martins Fontes, 2007.
FOUCAULT, Michel. Outros
espaços. In: Estética: Literatura e
Pintura, Música e Cinema. Trad. Inês Autran Dourado Barbosa. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2006. (Ditos e Escritos III).
PÊCHEUX, M. Semântica e discurso – uma crítica à afirmação do óbvio.3ª ed. Campinas: UNICAMP, 1997.
SANTOS, J. B. C. A instância enunciativa sujeitudinal. In:
SANTOS, J.B.C. (org.). Sujeito e Subjetividade: Discursividades
contemporâneas.
Uberlândia: Edufu. 2009. pp. 83-101.
VAN GOGH, V. Cartas a Théo.
Trad. Pierre Ruprecht.Porto Alegre: L&PM Pocket, 1997.
[1]
Estes princípios fazem parte do capitulo 2, item 2.3.3: Metadiscursivização sobre o processo de interpelação, p. 104, da
dissertação: A Dialogia estética em Vincent van Gogh, 2009.
[2] Denominamos operadores visuais os
elementos básicos que compõe todo discurso pictórico: o ponto, a linha, a
forma, a direção, o traço, o tom, a cor, a textura, a dimensão, a escala e o
movimento (DONDIS, 2007, p.51).
[3] Esta obra se encontra exposta em
Amsterdam: Van Gogh Museum. Site: http://www.vggallery.com/painting/p_0451.htm
rredio
e avesso mesmo às convenções sociais, era Vicente do tipo dos homens
que não compreendem a amizade como encontro extrínseco e ocasional, mas
sim como forma de identidade e de comunicação, própria de quem sabe que
“o amor amplia e abre espaço para a existência da pessoa amada”, por ser
“o desejo da onipresença do ser amado”.
Em
ninguém encontrei tão forte o senso da intersubjetividade como nesse
estudioso que sabia se ensimesmar no silêncio criador da solidão, ávido
de ouvir e de trocar ideias, sempre com agudo e penetrante
discernimento, sempre atormentado pela ideia de que, com a acabrunhadora
e massificante uniformização da civilização técnica, “a vida está
perdendo assunto”.
O desaparecimento prematuro do autor de Exegese da ação
faz-me pensar quão distintos podem ser os significados de uma “obra
completa”. Pode esta representar o balanço de uma cultura ou a parábola
de uma existência conclusa, assim como ser equivalente a um esboço que,
embora válido em si e por si mesmo, valha também como meio para
permitir-nos intuir a projeção de uma trajetória interceptada. As
páginas reunidas do Autor dão-me a impressão de uma árvore derrubada
pelo raio, com os seus ramos já delineados, prestes a proporcionar a sua
defesa forma à força desveladora das raízes.
Essa
imagem das raízes que ocultam poderes projetantes casa-se bem, a meu
ver, com o espírito do filósofo, cujas meditações se vão meditar, pois o
seu pensamento, a partir de sua primeira obra fundamental (Elementos de lógica matemática,
1940, o primeiro livro de logística escrito no Brasil) assinala uma
preocupação crescente com as raízes do homem e das coisas, com as forças
que se escondem na infraestrutura da personalidade ou condicionam
misteriosamente os entes projetados nos limites insuperáveis de sua
liberdade possível.
Daí
planar a sua inteligência na linha de especulação que dos
pré-socráticos se estende até Heidegger, passando pelos neoplatônicos,
os místicos medievais, o maestro Eckhart, Böhme, Novalis, Schelling,
Kierkegaard, Nietzsche, Hölderlin, Rilke etc., a intuição filosófica e a
poética em permanente e fecunda unidade, sem, no entanto, serem
olvidados os horizontes da unidade racional concreta, tão frequentes as
referências a Hegel, o interlocutor oculto de tantos diálogos
filosóficos de nossa época, mesmo daqueles que aparentemente dele mais
se distanciam.
Ao
desaparecer, em 1963, aos 47 anos incompletos, vitimado por brutal
acidente rodoviário, seu pensamento já anunciava todo o peso de seu
significado, como a mais original e poderosa contribuição brasileira à
crítica da “filosofia da subjetividade”, a começar pelas matrizes
cristãs do Ocidente.
No pensamento ferreiriano não encontramos o eu como o eu abstrato dos idealistas, ou seja, abstraído de seus atos espirituais e de suas circunstâncias; e nem mesmo apenas o eu concebido à maneira de Husserl, como plenitude do ser pessoal, o eu
que concretamente toma posição, pensa, quer, age, realiza, sem jamais
se desligar do substrato condicionante de sua sensibilidade
intransferível; porque o eu para
Vicente Ferreira da Silva é isso tudo, mas na linha de uma projeção
emergente do mundo original das significações objetivamente válidas, na
“dimensão dos poderes projetivos desvelantes” que constituem o domínio
do Ser: “o eu, escreve ele, depois de escolher um cenário de
desenvolvimento, passa a ser função e parte desse mundo criado e a se
compreender a partir desse complexo de objetividade”, sendo, porém,
tanto o eu como as suas objetividades tributários de uma “instauração
meta-histórica”, de “um campo de realidades que sobrepujam e esmagam as
decisões da criatura finita”.
As
objetivações que implicam um divórcio entre o pensamento e a existência
humana, eis o que há de mais alheio às teorias de nosso autor, para
quem, por exemplo, “o traço eminentemente transcendente e transensorial
do pensamento platônico, o realismo das ideias, formou uma barreira
muito séria a uma exata conceituação do fazer artístico”. Crítico
impenitente de toda posição filosófica fundada no pressuposto da díade
“sujeito-objeto”, repele ele tanto a subjetividade que se verticaliza em
si mesma, como a objetividade que se desliga das tensões existenciais,
rompido o elo com as fontes originais do Ser. É essa a crítica acerba
que ele faz à cultura do Ocidente que, a seu ver, quanto mais desenvolve
os impulsos da subjetividade pretensamente ordenadora do real, mais
estende sobre a realidade viva e autêntica a capa espessa de uma
objetividade postiça, fruto de esquemas operacionais e de formalizações
técnicas uniformizantes e deformantes, com perda irremediável de verdade
e de beleza.
Segundo
Vicente, sob “as instâncias opacas e contingentes do real, do fato
bruto, de um mundo objetivo, impermeável à iluminação espiritual” −
mundo esse captável apenas exteriormente mediante “uma linguagem
cifrada” −, oculta-se o absoluto, pois “o ente nada mais é do que o sugerido
pela magia projetiva do Ser”. Basta folhear estas páginas para se
perceber como Vicente é um pensador telúrico e noturno, com aptidão
especial para penetrar na fluidez dos momentos germinais, forjando os
termos que lhe parecem mais adequados à interpretação da vida e do
cosmo, não por ostentação verbal, mas por imperiosa necessidade de
fundir a realidade e a palavra, na fusão cálida e irradiante dos mitos
mais do que na estática cristalização dos conceitos. Isto, não obstante,
apesar de sua resistência ao conceitual, ver-se-á que a sua linguagem
filosófica é de uma plasticidade rigorosa, tendo ele sabido enriquecer o
nosso pobre instrumental linguístico de palavras e de problemas, que
vieram alterar o nosso hábito de filosofar, inclusive pelo propósito de
pensar a partir de si mesmo e da própria experiência originária, como a
única via do pensar autêntico. Ninguém menos acadêmico, menos jungido
à filosofia como puro remoer de textos, e, no entanto, bem poucos no
Brasil terão sabido viver as ideias alheias na intimidade de seus
sentidos e na compreensividade indeformável de seu todo, como algo
recebido jovialmente como momento indispensável a seu autorrevelar-se.
Caberia aqui repetir a afirmação de Novalis por ele mesmo lembrada: “Um
sistema estranho é um estímulo para o sistema próprio”.
Nada
foi indiferente, como efeito, à sua curiosidade perquiridora, e é nisso
que o seu pensamento se mostra aliciante, ainda mesmo quando dele
divergimos, recusando acompanhá-lo em sua análise desconsolada e trágica
das estruturas do mundo contemporâneo, em sua condenação veemente das
formas de cultura a que pertencemos. O seu anti-historicismo radical,
que, no fundo se resolve num anseio de proto-história, aguça e desafia,
mais do que dissolve, o nosso sentido de historicidade.
Seria
errôneo, contudo, julgar que quando o pensador paulista condena as
implicações pré-formadas da mentalidade técnico-científica está ele
pensando em fugir da realidade. O que lhe parece, ao contrário, é que a
realidade captada pelos esquemas “categoriais” das ciências é uma
realidade incompleta, como incompleta é toda a esfera da “mundanidade”
ou do vivido quotidiano, da Lebenswelt
“pré-categorial”, impondo-se transcendê-las para atingir-se a Fonte
projetante que dá sentido e plenitude às formas de pensar e de querer,
de contemplar e de fazer. Longe, pois, do homem perder o mundo mediante a
epoqué fenomenológica, para conquistá-lo graças à captação universal de si mesmo, como quer Husserl em suas Meditações cartesianas,
o que Ferreira da Silva afirma, superando o âmbito da filosofia da
subjetividade, é a primazia do Mito sobre o Logos, do cognoscível sobre o
conhecer, pois “os desempenhos profanos ou utilitários promanam de
formas rituais e propriamente criadoras e procuram adequar-se aos
cânones revelados pelos poderes transcendentes”.
Há
outro ponto da obra de Vicente que não desejo fique sem alusão nestas
breves notas introdutórias: refiro-me ao seu humanismo, como interesse
compreensivo e desvelado amor pelo significado pleno da existência
humana, do que é exemplo magnífico o seu belo livro Dialética das consciências,
o mais perfeito ensaio em língua portuguesa sobre os problemas da
intersubjetividade e da alienação, onde demonstra que a atuação do
espírito se dá na forma do encontro e da comunicação existencial,
remontando às fontes primordiais da socialidade como concreção e
concreação: “Em todo comércio do espírito que se propõe um alcance
existencial”, esclarece ele, “está implícito, ao mesmo tempo, um
respeito fundamental pela índole e peculiaridade do outro, um
incitamento à sua autorrealização”.
Daí
Vicente, que já atingira o plano existencial, após ter superado o
fascínio das formalizações linguístico-matemáticas, parte para atingir a
terceira e derradeira fase de sua atividade especulativa, a qual se
pode datar 1951, quando se torna definitivo o seu surto a uma
compreensão poético-religiosa da história e dos cosmo.
“A vida humana, escreve ele, é um minus em relação ao plus do
prodigiosa vida dos deuses. Essa vida transcendente e em si nos foi
confiscada pela perspectiva ocludente do atual período histórico.
Devemos voltar a encontrar na existência transcendente e meta-humana dos
poderes e das figuras numinosas o ponto de partida para uma compreensão
exaustiva dos processos históricos”.
Eis
aí traçado o programa de meditação a que se manteve fiel nos últimos
doze anos de sua vida, ofertando-nos ensaios esparsos, como intuições
poderosas, numa linguagem que se tornou cada vez mais apurada e pessoal,
e às vezes enigmática, que lembra a do último Heidegger, mas que com
ela não se confunde.
O
humanismo deixa de ter como base a subjetividade, para ser visto como
derivação da Fonte primeira realidade, oculta à filosofia tradicional,
pois “o saber da Fonte não é um saber feito-pelo-homem, não é um
querer-saber da criatura finita, não é a filosofia”.
Ao
contrário do que se mostra no âmbito da filosofia “intramundana”, que
se subdivide em múltiplas perspectivas, distintas ou contrapostas, como
as do idealismo, realismo, materialismo etc., poder-se-ia dizer que, do
ponto de vista radical aceito por Vicente, só há duas direções
filosóficas fundamentais: uma que se propõe o problema do homem e das
coisas a partir do homem mesmo; outra que pensa o homem e as coisas a
partir de Deus, pondo-se o pensador ousadamente na perspectiva original
do divino. É nesta segunda posição que se situa o mestre paulista,
sobretudo a começar por dois trabalhos intencionalmente incisivos, como a
Carta sobre o humanismo de Heidegger: refiro-me a Ideias para um novo conceito do homem, de 1951 e a Teologia e anti-humanismo, de 1953.
Com
esses dois estudos Vicente supera, sem a eliminar, como já observei, a
“dialética das consciências” (a cujo estudo dedicara, em 1950, a sua
obra mais sistemática, aquela que assinala o apogeu de seu pensamento na
fase intermediária, ainda inspirada por motivos da metafísica da
subjetividade), para elevar-se às fontes projetantes e condicionadoras
da intersubjetividade, concluindo que, na base da liberdade individual
do eu e do tu, em seu jogo dialético condicionado, está o Ser como
liberdade que funda e institui o espaço de manifestações do homem e de
suas possibilidades históricas contingentes. O segundo Heidegger, cujas
obras ninguém soube interpretar melhor que ele no Brasil, propicia-lhe o
encontro de suas perspectivas originais, o que, diga-se de uma vez por
todas, para prevenir críticas superficiais, nunca o impediu de viver
intensamente os problemas brasileiros, como o demonstrarão os seus
penetrantes estudos sobre política, educação ou sociologia.
O
certo é que Vicente Ferreira da Silva concebe, na derradeira fase de
seu pensamento, a filosofia “intramundana” como momento da filosofia
“transmundana” ou Filosofia da Religião e da Mitologia, ou, para sermos
mais precisos, da Filosofia da Religião como Mitologia, à qual
corresponde um novo humanismo, não apenas teocêntrico (referido a Deus),
mas teogônico (como projeção do divino), pois, consoante com a diretriz
essencial de Heidegger por ele aceita, “o homem não é senhor do Ente,
mas o pastor do Ser”, que “arrasta e determina cada condição ou situação
humana”. Poderíamos dizer, nós que aceitamos o processo histórico como a
realidade humana única e irreversível, que, a essa altura, a filosofia
já se converteu em poesia, mas Vicente retrucaria, mais uma vez com uma
advertência de Novalis: “quanto mais poético, mais verdadeiro”.
O
seu anti-historicismo leva-o, como se vê, a uma nova concepção da
história e da gênese do processo gnoseológico, valendo a sua crítica do
Ocidente menos como repúdio do que como forma de interpretá-lo, no
desespero de salvá-lo, salvando-o paradoxalmente de si mesmo, o que não
poderá ser aceito por quem permaneça adstrito a pressupostos lógicos que
excluem a priori que se possa
falar em “possibilidade” de uma outra história que não seja atual, com
todos os seus descaminhos e deficiências, tão certo como a categoria da
“possibilidade” implica necessariamente a da “realidade”.
Sua
preocupação pelas origens e o valor do infra-estrutural, quer na raiz
da personalidade, como o demonstra o ensaio intitulado “Uma
interpretação do sensível”, quer no evolver das ideias, como o revela a
sua nota sobre Heráclito ou o estudo sobre a origem religiosa da
cultura, tem, com efeito, o alcance de uma “historicidade
transcendente”, de uma volta às origens, para dar começo a um diverso
ciclo da história, diferente desse em que o homem estaria divorciado da
natureza e das fontes do divino; para um retorno, em suma, ao ponto
original donde emergem todas as possibilidades naturais espontâneas,
libertas das crostas opacas do experimentalismo tecnológico assim como
das objetivações extrínsecas platônico-cristãs.
Até
que ponto esse pensamento, que se abebera nas matrizes mais puras da
filosofia ocidental, é um reflexo de nosso modo de ser no mundo, de um
Brasil aberto às instâncias da magia e da poesia instauradora da
história, como já se quis interpretar, eis um problema inquietante a
assinalar a presença inamovível de um pensador definitivamente inserido
no processo da autoconsciência filosófica nacional, que é tanto capaz de
cultivar os valores da Filosofia das Ciências, como de penetrar nos
domínios da Metafísica.
Foi
a essa altura, porém, que repentinamente nos vimos privados de sua
poderosa força perquiridora, e ficamos nós, os seus companheiros,
vinculados à magia de um diálogo jamais maculado pela polêmica estéril,
sob a decisiva impressão de um pensamento cuja virtualidade é estímulo e
desafio ao ainda minguado grupo dos que em nossa pátria não se limitam a
repetir o pensamento alhures.
Quantas
perguntas, no entanto, ficaram em suspenso! A que ficou reduzido o
significado de seus estudos de lógica matemática no contexto de sua
compreensão mítico-existencial? Como superar essa ruptura entre o
conceito e a vida; a razão, a crença e a arte? Perseveraria ele em sua
tese, certa vez exposta, sobre a logística como simples jogo do
intelecto entregue às certezas que constitui, dotadas de validade
extrínseca e instrumental, não para a compreensão da existência, mas
para a reformulação das coisa? Ou tentaria, ao contrário, a grande
síntese postulada pela unidade do espírito, ainda que síntese aberta,
vislumbrando antes nas virtualidades do futuro a “fonte” instituidora da
história, ao invés de situá-la no preâmbulo da história? Como admitir,
por outro lado, a possibilidade de outro processo histórico se o que
estamos vivendo só é projeção do homem enquanto simples trânsito de um
querer divino que o transcende? à desconsolada traição dos homens
juntar-se-ia a “diabólica” traição dos deuses?
__________ Sônia de Fátima Elias Mariano Carvalho – pesquisadora, integrante do Laboratório de Estudos Polifônicos (LEP/UFU). Mestre em Estudos Linguísticos da Universidade Federal de Uberlândia – MG. Email: soniafelias88@gmail.com
[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro novembro dezembro de 2010]