7 poemas de
Franz A. Silva





sublinho uma canção de cacos

Sublinho uma canção de cacos
uma canção aos trapos
- ruga em riste!

Sublinho as olheiras da aurora
onde Homero e o ogro sujo
tramam
os fios da falta de história.

ab ovo
o óbvio da história
é trapo de epopéia
tão sem dono
tem sem domus

a que se diz: acaso!



lição de cacos


Uma lição de cacos é súbita e delicada:
encoste o rosto na aurora
e sorva as primícias do solo.

Ai, Sombras! A vida é inteira!
Não se colhe a cor da aurora
e a musa do tempo
exibe o aleijo
das horas mortas.



teu dorso tonto no campo de papoulas

Minério e rosa jorram
do teu umbigo:

teu dorso tonto
teu lento amplexo
na tarde de cavalos e emas!

Aqui neste arquipélago
ao sol e a ti
as papoulas curvam
e as velhas carpas
rompem
com o diapasão das horas.

(Habito teu centro
e calo os mitos
do desencontro)



uma passagem pela água

Encontrar uma passagem pela água
com um súbito eliminar de unhas.
Assim o tempo se repete,
as nuvens elaborando suas tetas
e o gosto azul do sal.
Minha amada entre geleiras!
De onde vem as quatorze asas de teu rosto,
por que me alavancas sobre a luz dos edifícios egípcios,
onde a qualidade do ar rivaliza com o aroma dos teus seios?
Desçamos dos castelos proscritos
como meninos que viram abutres a qualquer custo!
O Tempo está sedoso nas espinhas de tuas costas
e a vida tranquila
à margem esquerda do Letes.



ruga

Um súbito
piscar
e o mundo
já é de outro tempo:

- assim também
a eternidade do beijo
cabe numa ruga.



& outros

Ao lado de muletas
assisti sem ser visto
os esgares desta terra estéril:

habitei o seio nenhum
& outros livros
no largo beco dos ninguéns:

e esta noite
estrelas anti-horárias
vou cimentar
com minhas sementes.



um surto

Sopro no átrio dos elefantes
trânsfuga nos montes da Nigéria
ouvi um Homem que desfaz os meios:
é preciso não haver caminhos
é preciso o machado o punhal
é preciso a carne antes da fome

Amanhece em minha orelha
o ar salgado dos tornassóis!



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Franz A. Silva nasceu no Piauí. Em Brasília fez Publicidade e Filosofia. Mora atualmente em Buenos Aires, onde ministra aulas de Português e faz traduções. Prepara seu primeiro livro de poemas, a sair em edição bilíngüe.

 


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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010]
 
 

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