Escárnio e eco consanguíneo Transversal entre equívoco e fidúcia Autômato do siso malabar em desuso Eu me pronuncio donde respiro Aceno ocioso o insulto Atento ante o próximo segundo Incisivo das mãos que trincham O corvo definitivo E do pó ao Sol e ao sono construo Este esmero esta coleção de nuvens Como um artefato um libelo o dia útil Desse tempo esse lugar meu vestígio
Um tostão nos dura um mês Um punhado chega a seis
Da fartura desta ninharia Ergui ciosa ceia e grei
Um tostão e vou além Um punhado e virei rei
A balbúrdia a carranca A usura a deletéria grei
Um tostão e eu nem sei Um punhado e até outra vez
Não há ocasião no dia Em que tudo não seja grei
De volta a glossolalia diária E a parafernália das linhas A loquaz maledicência faísca São farpas que saem dessa língua Milionárias flores sovinas Ressacas vívidas de meio-dia O sangue agita a própria fisga Do ilibado silêncio, qual política Desviro a casaca dessa lira Sou apenas lábios e acídia Mão, não mais carícia Rusga e cisma, nó e íngua Para descrer todo o enigma Becas e lobistas propinam Vangloriados vates de velharias A cambada rés-do-chão saliva O limite óbvio da estultícia É este dente que não cura e grita É este fósforo ao vento, a sigla Contra o corpo acorda a cobiça Insídia que todo Sol rapina
De volta a glossolalia diária E a parafernália das linhas O sangue agita a própria fisga São farpas que saem dessa língua
____________________ Danilo Bueno nasceu em Mauá, São Paulo em 1979. Publicou a plaquete Fotografias (Alpharrabio Edições, 2001) e os livros: crivo (Alpharrabio Edições e Fundo de Cultura do Município de Mauá, 2004) e Corpo sucessivo (Oficina Raquel, 2008).