de Poemas e de Poesia
Cinco perguntas para cinco poetas

entrevistas com Alfredo Fressia
Casé Lontra Marques
Danilo Bueno
Maiara Gouveia
Paulo Franchetti

por Adriano Lobão Aragão, Sebastião Edson Macedo e Wanderson Lima




 

O poeta é um ser acossado pelo demônio da auto-indagação, mesmo aqueles que não o fazem publicamente ou os que dizem que refletir muito sobre poesia atrapalha a criação. O motivo desse impulso, certamente não o único, é o lugar problemático – para os mais radicais, o não-lugar – que poesia ocupa na atual configuração social. Não que o poeta, na sua radicalidade, necessite de algo mais que esse impulso interior, batizado de mil nomes, que o leva a criar (para alguns) ou produzir (para outros); porém, quem deseja criar/produzir ou apenas para seus pares? Que mythmaker de sã consciência pode se gabar de criar para o nada? Seguem cinco indagações ligadas a esse lugar problemático da poesia e do poeta. Convidamos cinco poetas para pensar sobre elas e partilhar suas perplexidade conosco. Acreditamos que o leitor encontrará, nas respostas dadas por eles, um amplo material para reflexões. O confronto de idéias (lembramos, porém, que nenhum poeta viu as respostas do outros), nos mostra menos o caos em que supostamente estamos perdidos do que múltiplas linhas de fuga, múltiplos modos de justificar a persistência numa prática deliberamente arcaica.

 

Adriano Lobão Aragão

Sebastião Edson Macedo

Wanderson Lima

 


 

dEsEnrEdoS - Considerando a dimensão do país, os problemas de acesso às obras e a dificuldade de se mapear amplamente os autores que estão escrevendo neste momento, como você encara a denominação "poesia brasileira"? Existe tal coisa que acaso unifique a poesia inscrita nos limites políticos desse país além da própria denominação catalográfica?

 

Danilo Bueno - "Poesia brasileira" é um termo utilizado para denominar a complexa e extensa produção poética de nossos dias. Primeiramente, seria conveniente questionar se realmente se trata de poesia o que se produz maciçamente hoje, uma vez que poetas cada vez mais assolam as prateleiras e as revistas eletrônicas, enquanto a qualidade de bons poemas é inversamente proporcional ao número de poetas. Além dos limites geográficos e lingüísticos - esse último sempre tão diverso em casa região do país - pouco ou nada unifica a cultura miscigenada do Brasil. Muitos livros são lançados quase em segredo em pequenas edições e em locais diversos do país: Piauí, Rio Grande do Sul, Minas Gerais etc. Cada um com um interesse próprio e uma tentativa de diálogo particular. Creio, no entanto, que isso não seja um fenômeno estritamente brasileiro. No meu ponto de vista ocorre em todos os lugares. Não se pode também falar de poesia argentina ou francesa etc. A poesia do terceiro milênio ainda não inventou seus parâmetros. A explosão informática propiciou uma (enganosa) democratização que torna evidente quem está realmente interessado em progredir e em escrever melhor e quem está somente interessado em se divertir ou aparecer. Novas formas de escrever surgirão a partir desse desgaste e dessa saturação. O distanciamento e a aproximação humana provocada pela revolução tecnológica dos últimos quinze anos talvez seja um caminho interessante para a discussão de uma nova forma de encarar essas denominações. A poesia (a boa, a forte) há de reescrever e desprezar todas as distinções. 

 

Paulo Franchetti - Creio que é sempre difícil falar em “poesia brasileira”. Desde o Romantismo “brasileiro” é um objetivo, um projeto, mais que uma determinação. A “poesia brasileira”, tal como descrita usualmente, termina por ser preferencialmente a poesia que circula no eixo Rio-São Paulo, em volta de algumas editoras ou instituições culturais que congregam e promovem poetas. A amostragem disponível para quem quiser elaborar um panorama da “poesia brasileira” é sempre escassa, por conta da dificuldade de acesso a livros e revistas. Daí que esse tipo de denominação não tenha propriedade descritiva e termine por ser simples atribuição de valor, uma seleção do que tem o direito de se denominar poesia e reivindicar representatividade nacional.

 

Maiara Gouveia - Mesmo se eu desconsiderasse a dimensão do país, os problemas de acesso às obras e a dificuldade de mapear amplamente a produção dos autores nascidos aqui, diria que a denominação “poesia brasileira” apenas supõe reunir a poesia inscrita nos limites políticos desse espaço (histórico e geográfico). Mas, em razão de limites políticos que vão muito além da delimitação de fronteiras, essa denominação, muitas vezes, não se apresenta como simples índice catalográfico ou do território de origem de quem a escreve. Para fins didáticos (e, portanto, ideológicos) ainda se discute uma suposta brasilidade – que teria se misturado às influências europeias e se radicalizado na década de 1920, deixando a necessidade de portar uma dessas vozes talvez emblemáticas e levar adiante o projeto de uma literatura nacional. A ideia de nacionalidade que se tem em larga escala ainda é uma forma de afirmação do que seria nacional a priori, do que seria constitutivamente nacional. Suponhamos, no entanto, que a existência de qualquer país, como a existência de qualquer unidade relativa, exija uma coleção de territórios arbitrariamente reunidos em função de um poder – também, ou, sobretudo – ideológico. Principalmente no caso de países mais novos, “menos tradicionais”. Partindo dessa hipótese, encaro a denominação “poesia brasileira” da mesma forma que encaro a delimitação de fronteiras de um território: historicamente, mostrou-se como resultado de violência; expatriação de outros habitantes do local etc. – tudo submetido a interesses políticos específicos em relação grupos situados no poder, em determinada época. Tornou-se, ainda assim, o modo mais eficaz de organização do espaço, o estabelecido. E mais não falo (pois precisaria escrever um ensaio, defender uma tese, desmistificar o inventário). Em suma: somente aquilo que serve a uma ordem determinada a priori pode ser unificado, e isso exige a supressão de tudo o que é singular e, portanto, mais caro à poesia. Esta, quando é poesia de fato, fica sempre fora dos quadros oficiais – ou por inteiro, ou porque transborda.

 

Alfredo Fressia - Tudo depende do ponto de vista, querido poeta, do distanciamento que tu tomes na hora de falares de “poesia brasileira”, ou ainda de “poesia hispano-americana”, ou de “poesia latino-americana” e até “post-colonial”. Funciona como a árvore de Porfírio, ou como certas setinhas que a gente costuma ver nos labirintos -no metrô ou na internet- que vão do geral ao particular. Sim, a “poesia brasileira” tem um significado, ainda que ele se revele difuso quando contemplado, por exemplo (mero exemplo, mas não inocente), por um poeta em crise com as estéticas dominantes numa ou várias regiões do país. “Poesia brasileira” aponta para um língua, uma história (e de várias naturezas: nacional, mesmo continental e, claro, literária), num jogo tenso de hegemonias e periferias, de fidelidades e de rupturas. Insisto: é só um lance de ponto de vista, não “unifica” nada, menciona um objeto contemplado a partir de uma certa distância e, no labirinto, pode ser muito útil.

 

Casé Lontra Marques - Acredito na possibilidade de uma experiência de linguagem singularizada, não exatamente unificada, por um complexo de obras que se originam numa mesma matriz linguística, originando, por sua vez, outras matrizes compositivas. Não creio que produções poéticas se deixem, por exemplo, classificar geograficamente, exceto quando a geografia — quando o que assim se chama — propicia a construção de territórios de subjetividade; são precárias, neste sentido, as catalogações, pois se furtam à imprevisibilidade.

 

 

 

dEsEnrEdoS - Já se tornou corriqueiro para o brasileiro assumir nossos profundos e perpetuados problemas de ordem varia na esfera macropolítica, social, bioeconômica, midíatica, e outras, mas sempre pareceu escapar desse conjunto problemático não só a produção artística quanto à inteligência critica que a legitima. Até que ponto o que chamamos nosso legado artistico-cultural também faz parte de um complexo sistema de dominação neocolonial senão mesmo o duplicando na esfera da representação simbólica? O que você pensa sobre essa hipótese?

 

Alfredo Fressia - Tudo bobagem. Eu te concedo que há certos dispositivos ideológicos herdados da colonização. Por exemplo, faz parte da construção da identidade nacional não se sentir parte do continente -falar dos “latinos”, como se fôssemos iorubas ou escandinavos, uma espécie de recusa a nos aceitarmos como sociedade latino-americana, e imaginar por aí uma espécie de originalidade nacional (que existe mas em outros níveis), etc. Enfim, não passa disso, não vejo maiores seqüelas desse sarampo nacional.

 

Danilo Bueno - Muito da poesia que se produz hoje provém da falta de discernimento e de bom senso, antes mesmo de pensarmos em aculturamento. No entanto, o aculturamento é cada vez mais voraz. Assimilamos sempre o pior: a paixão pelo entretenimento, a pressa pelo consumismo e o amor pelo banal. Quem consegue assistir meio minuto de MTV sem querer morrer? Os filmes arrasa quarteirão são cada vez mais óbvios, feitos para calarem o pensamento e a imaginação. Os livros mais vendidos são em sua maioria discursos de acomodação, enfraquecem o espírito crítico, servem para nada, são folhas amenas para esperar o sono. Decerto que isso reflete na poesia. A boa poesia sempre se insurgiu contra qualquer espécie de dominação. Infelizmente o que se vê, na maioria das vezes, são meias vozes mal digeridas de dicções alheias e, pudera, "internacionais", perdidas, sem razão de ser, incapazes de construírem algo que seja realmente comovente e intenso, sem propriedade e sem enraizamento. Os poetas mal conseguem refletir sua própria condição material e política, sempre com o temor de resvalarem na ideologia e no bordão e  deixarem de ser os conhecedores supremos do idioma, de ferirem a artesania do poema, protegidos pela idéia de que forma e sentido se espelham e escudam e isso basta; mas esquecem que antes do poema existe um ser que olha para a cidade destruída, um pai escorraçado do trabalho, o dinheiro de pinga de cada dia. Pensar em poesia em termos políticos não é baratear o intenso labor nem os interesses individuais de pesquisa, muito menos o amor à poesia, isso é um preconceito um tanto ingênuo. Não é propaganda, mas contrapropaganda, informação efetiva, transformadora, uma questão estritamente política. A poesia política precisa ser reinventada, senão somos apenas digitadores de "belezas" e "verdades" e seremos afogados pelo aculturamento. Cada vez mais me interessa um retorno ao real, como algum modernismo brasileiro e a poesia marginal, como a poesia portuguesa reivindicou nos anos 80, os beats nos anos 50/60, o cinema italiano nos anos 40 etc. Não se trata de mero realismo ou resgate de estilemas românticos, ou de naturalismo cru, mais sobretudo da certeza de que precisamos reagir com inteligência à banalização e à indiferença, e, para isto, talvez seja interessante pensarmos de onde viemos e para onde queremos ir, sem condescendência e de olhos bem abertos. O poeta precisa voltar a ser a antena da raça e deixar de ser o apaziguador, o conformado, aquele que escreve completamente adstrito à "etiqueta" literária, à mediania técnica. Algo há de ser restituído, um entendimento maior, um olhar severo, uma noção mais generosa de humanismo.

 

Paulo Franchetti - Não sei bem por onde começaria a responder a essa questão. Não posso querer discutir os pressupostos, para não escrever um artigo; tampouco responder simplesmente, ignorando-os. Tenho mesmo dificuldade em pensar a cultura e a arte como “legados”, preferindo pensar que o passado é sempre apropriado pelo presente, a partir de seus interesses. Assim, o próprio “legado” é efeito de uma seleção a partir de um enredo. Cumpriria, antes de discutir o legado, discutir o enredo, a história que se conta sobre o que seria ou teria sido o Brasil e sua cultura, e qual a relação que os lugares de poder onde essa história se elabora e se afirma mantêm com a ordem dos interesses políticos e com um projeto de país. Sem essa tarefa prévia, é pouco provável que a discussão avance.

 

Casé Lontra Marques - Podemos notar, às vezes sem grande esforço, a reafirmação de uma série de discursos codificados, de modo a sustentar um patrimônio simbólico que se deixa sempre coagir. Mas há, também, o que disso se difere, não porque recusa, mas porque transforma tanto os recursos quanto os parâmetros recebidos. Claro que as vozes mais perturbadoras serão anuladas. Não raro, a legitimação dessas vozes é o que as anula — a legitimação que se estabelece com a imposição de um programa interpretativo que solidifica a fala.  

 

Maiara Gouveia - Penso que é exatamente isto: nosso legado artístico-cultural também faz parte de um complexo sistema de dominação e, na maior parte das vezes, o duplica na esfera de representação simbólica. Não há o que retocar. Deixo em suspenso o “neocolonial”, que embute discussões mais espinhosas nessa questão. O limite dessa reprodução desenfreada de modelos equivocados é a reflexão sobre a própria educação que a legitima. Costumo dizer que a educação formal, quase sempre, não passa de adestramento. É o que incute na mentalidade, desde cedo, os valores de uma época, de forma quase invisível, oferecendo esses valores como verdade. A educação – em vez de estimular o pensamento – o enquadra. Em nosso caso, como resultado de um progresso que teria culminado em determinada ordem, melhor do que a anterior. Dividimos a literatura, por exemplo, em seções muito bem definidas, relativas à época e a princípios formais que fariam parte dessa ou daquela escola estética. E, obviamente, paira no ar a ideia de que a escola mais recente supera a anterior, resolve seus problemas. O ideal de artista que enxerga problemas nunca antes observados e rompe os laços com o establishment, é, sem dúvida, um estereótipo que provoca menos desconfiança do que deveria, e torna tudo mais tragicômico. A mentalidade de nossa época dá continuidade àquilo que se pregava no século XVIII: as luzes da razão, o positivismo (e tudo o que vem com ele), o conhecimento enciclopédico etc. Poucos assumem que o método; a elitização do racional (em oposição à valorização de um comportamento mais conduzido pelas emoções – considerado popular, obtuso); a vinculação do intelectual às academias etc. fazem parte de uma construção embasada em interesses específicos de certos grupos, obviamente atrelados ao poder. Outros o assumem de forma tímida, cheios de panos quentes. Existe, ainda, quem se apegue ao extremo oposto, numa espécie de afirmação pela ênfase do contrário. Refletir não significa negar radicalmente, sem pesos ou medidas. Refletir é considerar, questionar, matizar. Refletir sobre “nosso legado artístico-cultural” é mergulhar nesse universo, saber de que modo se transforma, dentro de quais estruturas. Deixei em suspenso o “neocolonial” não porque ele não seja verdadeiro. É porque ele direciona o olhar para determinado aspecto, subordinado àquele que me parece principal: em qualquer tempo, em qualquer sociedade, existem sistemas de dominação ideológica, que têm a ver com a necessidade de conservar determinadas funções, manter o estado de coisas num nível controlável.

 

 

 

dEsEnrEdoS - O livro impresso continua sendo o veículo fundamental da poesia?

 

Maiara Gouveia - Na verdade, o livro impresso nunca foi o veículo fundamental da poesia. Foi (e ainda é) um veículo de extrema importância para compilar determinada produção, para levar a poesia aos redutos da educação formal, a grupos maiores etc. Por outro lado, também se tornou um fetiche de erudição, de dominação intelectual. É ótimo ter a possibilidade de reunir em estantes exemplares do que há de melhor no conhecimento (seja da arte poética, da filosofia, da medicina ou da botânica). Melhor do que isso é reconhecer a experiência que precede a compilação (sempre direcionada por motivos políticos) e buscá-la em toda parte. Mas, voltando à pergunta, o livro impresso é bem posterior ao surgimento da poesia. A poesia nunca dependeu e nunca dependerá dele para existir. Da mesma forma que a música não depende dos discos de vinil, das fitas K7 e dos CDs. Os suportes são apenas isto: suportes. Sem dúvida, a forma de reprodução de determinada arte influencia o modo como ela se apresenta (e o contrário também é verdadeiro: o modo como a arte se apresenta contamina a forma de reproduzi-la), mas o que fica, no fim das contas, é o que será transportado pelos meios disponíveis.

 

Paulo Franchetti - Em certo sentido, sim. Talvez mesmo por conta da falta de boa crítica literária no país. Por isso, apesar da maioria dos livros de poesia serem financiados pelos seus autores, as editoras com bom catálogo têm funcionado, para o bem ou para o mal, como filtro ou fiança de qualidade. O que não parece razoável. Mas é tão ruim a crítica de poesia, feita ou por pessoas despreparadas ou com base na política do compadrio, e é tão grande a quantidade de coisas postadas na internet ou em publicações precárias, que o livro impresso por uma editora respeitável continua sendo extremamente valorizado. É uma falsa, porém chamativa, garantia de importância e permanência.

 

Casé Lontra Marques - Vemos que a poesia se dissemina por diversos meios, de diversos modos. Acho que múltiplos podem ser os caminhos; não me entusiasma, portanto, a substituição de um veículo por outro. Sabemos que as páginas virtuais apresentam vantagens significativas. Mas ainda se resiste a compreender, por exemplo, o livro digital como obra, ao contrário do que ocorre, evidentemente, com o livro impresso — que eu, aliás, lamentaria não ter mais em mãos.

 

Danilo Bueno - De certa forma sim, mas a difusão eletrônica também é fundamental, não há que se ter  preconceito. Ainda mais em um momento que se tem apenas dois ou três editores disponíveis para o diálogo. A publicação eletrônica, com os blogs, permite queimar a etapa  de "apreciação crítica" de um editor que muitas vezes é despreparado para qualquer discussão. Há que se ver ainda que existem coleções de poesia com interesses meramente mercadológicos, criadas para agilizarem as necessidades de bienais, feiras de livro, saraus, casas de cultura, premiações e lauréis de toda sorte, espelhando o tempo terrível em que vivemos. Algunas poetas são como celebridades, circulam inofensivamente pelo circuito de difusão literária. Perdem mais tempo divulgando seus poemas do que levaram para escrevê-los. Um amigo sempre brinca que um livro desse feitio é possível ser escrito em três dias! Não possuem artesanato, nem  incisão, nem força, nada. Qual amor, então, eles podem suscitar? Que poesia é essa que não propicia uma metamorfose profunda no leitor? Esses poetas são mastigados pela lógica terrível do consumismo. Hoje vende-se muitos livros mas continuamos sendo incultos e cada vez mais pobres (em todos os sentidos).

 

Alfredo Fressia - O livro nunca foi “o” veículo da poesia. A poesia, a diferença da narrativa – a esta altura –, e do ensaio, nunca precisou do livro. A poesia existe numa página de jornal, num cartaz, numa parede às vezes, em cópias mimeografadas (estarei traindo minha idade?), em cópias à mão, na internet, ou nesse puro e nada simples suporte chamado memória. Tudo é suporte para a poesia, ela nunca esteve restrita ao livro, aliás, é por isso que “poesia não se vende”. Não se vende em todos os sentidos, mas também no sentido de não ser um objeto de mercado. Por que eu compraria um livro de poesia, se eu posso achá-la instalada em tantos lugares... Tudo bem, a gente acostumou com o livro, a gente chegou –pergunte ao Mallarmé- a certa estética de poema-no-livro, a gente sente-se obrigada a ordenar os poemas por temas, ou por tropismos, ou por manchas temáticas no livro. De acordo. Mas o hábito não nos obriga a continuar usando do livro como apoio. A unidade da poesia é o poema (quando não é o puro e simples verso), e não o livro. Por isso o livro não é fundamental para ela. É nosso privilégio, o privilégio dos poetas.

 

 

 

dEsEnrEdoS - Atualmente, o poeta deve necessariamente ser um teórico, um crítico de poesia? E até que ponto a preocupação teórica influencia sua produção literária?

 

Alfredo Fressia - Não só atualmente. A poesia exige sempre a reflexão sobre a linguagem, permanente, e sempre vigilante. Isso é constitutivo da própria natureza do trabalho poético. Não existe poesia “inocente”. Pode se fingir de espontânea, mas todos sabemos que cada poema tem uma pré-história de reflexão, às vezes em camadas da consciência que nos escapam. Taí um negócio que me irrita em certos grupos de poetas, que acham que foram os inventores da reflexão crítica na poesia, ou que os poetas foram todos tontos até chegar do cosmos insondável o astronauta Mallarmé, ou os formalistas russos. Tenham a santa paciência.

 

Casé Lontra Marques - Não me interessa a poesia que não seja uma meditação sobre a linguagem, o que significa dizer, também, uma meditação sobre o mundo. Toda criação — segundo compreendo — pressupõe uma crítica tantos aos paradigmas quanto às possibilidades criativas. Isso, no entanto, não exige, do poeta, o domínio de linhas teóricas específicas. Sem reflexão, a palavra, em todo caso, não chega a ser poética, pois não constitui uma forma de fundação do real.    

 

Paulo Franchetti - Não acho que haja necessidade. Um bom poeta (como qualquer artista, aliás) reflete sobre a sua poesia e faz, de uma forma ou de outra (mesmo que apenas com a sua própria obra), a crítica da poesia do passado e se posiciona criticamente no presente. Mas não há ligação necessária entre uma atividade profissional de crítico ou de teórico e a prática da poesia. No que diz respeito a mim, acho que a preocupação teórica e o exercício acadêmico da crítica absorveram a maior parte da minha energia criativa. Mas não saberia dizer de que outra forma isso teria influenciado a minha produção literária. É provável que tenha, pois uma coisa se comunica com a outra. Mas não creio que comigo, por ser professor de literatura e crítico literário, as coisas se passem de forma diversa de como se passam com outros autores. Apenas a instância de manifestação da crítica e da reflexão teórica é outra.

 

Maiara Gouveia - Vou desconstruir a pergunta, primeiro: existe tanta relação entre poesia e teoria quanto entre peixes e gatos. Gatos engolem peixes, se os peixes estiverem fora d’ água. Os peixes surgiram muito antes, quando nem existia a probabilidade de haver gatos. Isso, é claro, pensando em teoria literária, em crítica de poesia. Porque existem outros tipos de teoria, por exemplo, a filosófica, que tem tanta relação com a poesia como a letra c e a matilha de cães do mato. Quero dizer, não existe relação necessária entre a poesia e absolutamente nada. A relação é posterior, tem a ver com o repertório e a necessidade de cada poeta. Se os críticos de poesia fossem também poetas (e não o contrário), haveria menos imposições extraliterárias misturadas à produção artística. Um poeta pode ser teórico ou crítico de poesia, e talvez seja dos bons, mas também pode ser ator ou diplomata ou jornalista ou herdeiro de uma empresa milionária (o que é raro). A preocupação teórica não influencia minha produção literária. Na verdade, a teoria, pra mim, ocupa um espaço muitíssimo reduzido em relação à leitura das próprias obras das quais ela extrai (ou não) vitalidade. Mas falando em outro tipo de teoria, a teoria filosófica ou de outras ciências humanas, como a etnologia, creio que é muitíssimo importante para o poeta, pois faz com que veja o próprio pensamento em perspectiva e questione a escolha de formas e temas etc., além de ser leitura prazerosa quando o autor assume a escrita propriamente dita como algo que vale a pena ser enfrentado.

 

Danilo Bueno - A preocupação teórica serve para nada. A não ser que ela atravesse uma reflexão maior, que exceda e dilate a percepção do poeta no sentido de questionar a própria recepção técnica de todos seus aparatos e o alerte para o fato da materialidade do dizer sempre estar a se refazer e a se refutar. Nem sempre um poeta saturado de erudição é capaz de fazer um bom poema, trata-se de uma relação enganosa. Pensar o poema a partir de teorias é reduzi-lo em sua capacidade revolucionária e imaginativa, e, por conseguinte, visionária. Nem sempre um poeta sabe expor criticamente suas idéias e não há mal algum nisso, desde que seus poemas prestem contas por ele. Nem tudo precisa ser racional. Existem muitas coisas que não podem ser explicadas no processo de criação. As explicações metodológicas na maioria das vezes cercam um objeto mas não o atravessam nem o elucidam completamente, e o poema continua o mesmo assombro antes do convívio da leitura. Digo isso sem qualquer preconceito com a academia ou com os críticos, pois eu mesmo desenvolvo pesquisas acadêmicas e sempre procuro me informar sobre as teorias e as tendências, mas sei das limitações e das intenções de cada discurso. No entanto, o próximo poema ainda não sabe qual alicerce o sustentará, e talvez a teoria não possa ajudar em nada. Diante do próximo poema somos todos principiantes, ou pelo menos deveríamos ser. O bom poema está longe do macete, do automatismo e da acomodação.

 

 

 

dEsEnrEdoS - O fato de a poesia ser pouca lida (em comparação com gêneros como o conto e romance) é um fator positivo ou negativo à criação poética? 

 

Casé Lontra Marques - Se o compromisso da criação poética não for com a realidade a ser criada, não há poesia — pelo menos não a poesia com que convivo. Em momentos avessos à intensidade, a palavra poética costuma ser ainda mais necessária; por isso, costuma ser ainda mais repelida. Por oferecer não obediência, mas ameaça, a poesia não é lida, quer dizer, não é aliada: contra a anemia dominante, suas potências alimentam-se do silêncio de que não se alheiam.  

 

Paulo Franchetti - Difícil responder a essa questão. O público pressuposto pela poesia hoje poderia ser um estímulo à criação poética. Ela estaria condenada a um público diminuto, mas em troca disporia de leitores qualificados. Minha impressão, porém, é que esse público, hoje, reduz-se praticamente ao próprio conjunto dos produtores de poesia. Talvez venha daí a impressão que me dá boa parte da poesia publicada no Brasil que tenho lido nos últimos tempos: a de que o autor não tem de fato nada a dizer, e que lhe basta afirmar ou demonstrar a filiação a esta ou aquela forma especializada de escrever – e a sua proficiência nela. Talvez por isso, ao ler o que encontro nos livros contemporâneos ou nas revistas, tenha frequentemente a impressão de estar assistindo a um shadow boxing.

 

Danilo Bueno - O tempo de assimilação da poesia é diferente de outros discursos, demanda mais atenção e mais dedicação, além do próprio embate com a linguagem que se auto-implode sucessivamente e se refaz das ruínas e das alturas do dizer. Os revisionismos do século XX estão aí para mostrarem quanta gente foi ignorada em suas épocas. E com isso não defendo qualquer estigma de gênio incompreendido, longe disso. É da poesia a predileção pelo silêncio e pela meditação. O leitor de poesia sabe que tem que esperar para entender determinado verso, que pode pintar do nada, em uma hora qualquer. Nesse momento se restaura a harmonia entre vida e poesia. Basta de leitura técnica, burocrática. Se for para ser lido assim, melhor permanecer inédito. O lado positivo disso é exatamente a outra face do que escrevi anteriormente. Se soubermos de antemão que a poesia não serve para autopromoção nem para alavancar trocados em casas de cultura, já sabemos demais. Basta esperar através da reescritura contínua que o próximo poema se termine ainda que isso demande anos a fio, ainda que morramos loucos de tentar. A poesia ainda pode ensinar a paciência e a verdadeira respiração ao homem atropelado pelas exigências impiedosas do mundo.

 

Maiara Gouveia - O fato de a poesia ser pouco lida (em comparação com gêneros como o conto o romance) tem a ver com a própria forma – menos apta a se transformar em simples entretenimento. A poesia exige uma entrega do leitor – mas não é uma entrega capaz de preencher uma hora entre o trabalho e a consulta com o dentista. A poesia modifica a relação com o tempo. Em um verso, se concentra enorme quantidade de relações, de experiências. Por isso, a poesia não é capaz de entreter, simplesmente. “E os maus versos?”, podem perguntar. Também são ineficazes quando se trata de servir à distração, pois, seja como for, a poesia é sempre uma linguagem condensada, que não se presta a preencher uma sequência temporal linear, mesmo quando é ruim. Em relação à criação poética, nenhum fator é positivo ou negativo. O juízo de valor deve ser aplicado a cada caso, nunca a priori. A música, por exemplo, tem um enorme potencial de entretenimento, e há artistas que usam essa característica para introduzir, em larga escala, elementos estéticos capazes de matizar formas muito cristalizadas e muito ligadas a valores culturais difíceis de trazer à tona, para que possam ser submetidos à reflexão. A poesia, sendo underground, teria, supostamente, uma independência maior em relação aos paradigmas culturais de uma época ou lugar. No entanto, costuma acontecer com ela o que acontece com partidos menores, em eleições: para ter alguma inserção fora dos próprios limites, isto é, angariar eleitores que não estejam em seu pequeno raio de influência, exotéricos, alia-se a partidos maiores, que possam sustentar a reprodução e distribuição de seus panfletos. Resumo da ópera: a exposição mais discreta da poesia será fator positivo ou negativo de acordo a habilidade e as intenções de cada poeta.

 

Alfredo Fressia - Sei não, mas eu não acho que ela seja pouco lida. Volto ao tema do livro e dos outros suportes. Em todo caso, faço questão de defender o direito de a “arte difícil” existir. Com que direito eu baniria o Valéry, ou antes, o Mallarmé da república das letras? Há poesia para todos os leitores.

 

 

 

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Alfredo Fressia (Montevidéu, 1948) reside em São Paulo desde 1976. Destacado poeta hispano-americano, Fressia criou uma sólida obra poética, traduzida a muitas línguas. Integra as melhores antologias do Continente. É também tradutor e cronista, autor do recente Ciudad de papel, Montevidéu, julho 2009.

 

Casé Lontra Marques nasceu em 13 de novembro de 1985. Publicou: Saber o sol do esquecimento (Aves de Água, 2010); A densidade do céu sobre a demolição (Confraria do Vento, 2009); Campo de ampliação (Lumme Editor, 2009); Mares inacabados (Flor&Cultura, 2008).

 

Danilo Bueno nasceu em Mauá, São Paulo em 1979. Publicou a plaquete Fotografias (Alpharrabio Edições, 2001) e os livros: crivo (Alpharrabio Edições e Fundo de Cultura do Município de Mauá, 2004) e Corpo sucessivo (Oficina Raquel, 2008).

 

Maiara Gouveia nasceu em 1983, em São Paulo. Publicou ensaios, poemas e artigos em revistas virtuais e impressas do Brasil e de outros países. Na Universidade de São Paulo (FFLCH - USP), desenvolveu trabalho de pesquisa acerca da obra de Cesário Verde. Trabalha no mercado editorial há algum tempo, oferecendo serviços como preparadora de textos e leitora crítica, sobretudo de material didático e livros infantis. Em 2006, foi finalista do Prêmio Nascente − USP, com o livro de poemas O Silêncio Encantado. A obra inaugural sofreu alterações e hoje se chama Pleno Deserto (Edições Rumi/Nephelibata).

 

Paulo Franchetti é professor titular do Departamento de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É mestre em Teoria Literária pela Unicamp (1981), doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (1992) e Livre-Docente pela Unicamp (1999). Desde 2002, dirige a Editora da Unicamp, cujo Conselho Editorial preside. Publicou a novela O sangue dos dias transparentes (2002), o livro de haicais Oeste (2008), o livro de sátiras Escarnho (2009) e o livro de poemas Memória futura (2010).

 



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Adriano Lobão Aragão é poeta e professor. Autor de Entrega a Própria Lança na Rude Batalha em que Morra, Yone de Safo e as cinzas as palavras
blog: Ágora da Taba


Sebastião Edson Macedo
é poeta e ensaísta, autor de: para apascentar o tamanho do mundo (Oficina Raquel: 2006); e cego puro sol (UFRJ/FL: 2004). Nasceu no interior do Piauí em 1974. Atualmente mora no Rio de Janeiro, onde se tornou Mestre em Estudos Literários Portugueses pela UFRJ. 



Wanderson Lima
é poeta e ensaísta. Professor de literatura da Universidade Estadual do Piauí – UESPI e doutorando em Literatura Comparada pela UFRN. Autor, entre outros, de Reencantamento do mundo: notas sobre cinema (amálgama, 2008), em co-autoria com Alfredo Werney.
blog: O Fazedor

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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010]
 

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