Perspectivas polifônicas no romence O Encontro Marcado, de Fernando Sabino
Florita Dias da silva[1]
 




 

RESUMO Esta pesquisa propõe-se a analisar como se realiza  o processo de formação da autoconsciência do herói Eduardo Marciano no romance O encontro marcado de Fernando Sabino. Segundo os princípios teóricos de M. Bakhtin (2003, 2006), buscou-se observar como a narrativa sabiniana constrói um espaço discursivo, através da dualidade do protagonista construída com base na oposição entre dois polos: materialismo versus fé. Dentro desta perspectiva, buscou-se, também, evidenciar a imagem de Eduardo pelo olhar de outros personagens, além da própria interiorização dos discursos do outro em um só indivíduo, pois, através dos monólogos interiores, em que o outro é o polo organizador, Eduardo evoca vozes que não se perderam em sua consciência. Ainda, no que concerne aos procedimentos de análise, a partir de um estudo analítico-descritivo, observou-se episódios nos quais o protagonista apresenta-se na sua relação com outras personagens, com vozes-ideia que se confrontam ou se conformam numa arquitetura polifônica constituída por fios discursivos que sustentam o processo de tomada de consciência da personagem.

 

Palavras-chave: O encontro marcado.  Polifonia. Autoconsciência.

 

 

ABSTRACT : This research aims to examine how is the process of formation of self-consciousness of the hero Eduardo Marciano in the romance The encounter marked, by Fernando Sabino. According to the theoretical principles of M. Bakhtin (2003, 2006), we attempted to see how the narrative constructs sabiniana a discursive space through the duality of the protagonist built on the opposition between two poles: materialism versus faith. Within this perspective, we attempted to also highlight the image of Eduardo through the eyes of other characters, besides the internalization of the other speeches in a single individual, therefore, through the interior monologues in which the other pole is the organizer, Eduardo evokes voices that were not lost on his conscience. Still, as regards the analysis procedures, from an analytical descriptive study, we observed episodes in which the protagonist is presented in relation to other characters, with voice-idea face or conform in architecture polyphonic consisting of wires that support the discursive process of awareness of the character.

 

Keywords: O encontro marcado . Polyphony. Self-consciousness.


 

 

1 Introdução

 

                 A publicação do romance O encontro marcado (1956)[1], objeto de análise do presente estudo, projetou o escritor Fernando Sabino[2] no cenário dos grandes nomes da literatura brasileira no século XX. Além de romancista, Sabino foi, inicialmente, renomado cronista, sendo um dos mais lidos no país até hoje. Escreveu mais de cinquenta livros, entre eles os romances: O grande mentecapto (1979)[3], O menino no espelho (1982) e Movimentos simulados (2004); os contos reunidos no livro O homem nu (1960)[4] e as crônicas reunidas em Deixa o Alfredo falar! (1979). Compõe também a sua obra a autobiografia O tabuleiro de damas (1988); as cartas que trocou com os escritores Mário de Andrade, Clarice Lispector; a recriação literária Amor de Capitu (1988).

                 A partir da leitura da obra-prima de Sabino, propomos a seguinte questão de análise, de caráter abrangente: como se manifesta a polifonia no romance O encontro marcado, enquanto leitura de uma visão plural de mundo? Partimos da hipótese de que para a apropriação de significados nas relações discursivas do romance de Sabino, o processo de polifonia é central para a análise, pois está imbricado na narrativa e ainda suscita outras concepções de análise como pressuposto importante para apreender as vozes sociais que se expressam na narrativa O encontro Marcado.

                 É preciso ressaltar o conceito de polifonia para entendermos o processo de construção do romance de Sabino. A polifonia, termo oriundo da música, é o encontro de várias vozes, música que tem duas ou mais partes (ou vozes) soando de forma simultânea. Metaforicamente, empregado por Bakhtin (2006), o conceito literário de polifonia consiste na multiplicidade de vozes plenivalentes num concerto dissonante, ou seja, essas vozes são modos de presença no mundo. Bakhtin (2003, p.349), na análise da narrativa de Fiodor Dostoiévski, não emprega o termo voz, apenas na acepção de altura, diapasão, timbre, mas também na acepção de ideia, pontos de vista ou visão de mundo personificada em vozes. Uma vez que Bakhtin concebe que “o homem entra no diálogo como voz integral, participa dele não só com seus pensamentos mas também com seu destino”.

             Na análise que Bakhtin (2006) fez da obra de Dostoievski, um dos elementos polifônicos apontados é o tipo de tratamento que o autor dá às personagens, conferindo-lhes uma “relativa liberdade e independência [...] de sua voz em relação ao outro’’ (p. 46). Este elemento constitui uma característica fundamental do romance polifônico. Bakhtin ressalta que as personagens interessam ao romancista “enquanto ponto de vista específico sobre o mundo e sobre si mesma”, e não como um “fenômeno da realidade, dotado de traços típico-sociais e caracterológico-individuais definidos e rígidos, como imagem determinada” (Id., Ibid.). Trata-se, portanto, de uma particularidade de princípio da personagem, já que, enquanto ponto de vista, concepção de mundo e de si mesma, a personagem requer métodos específicos de revelação e caracterização artística. Assim, o que deve ser caracterizado pelo autor não é a imagem acabada da personagem, mas a palavra da personagem sobre si e sobre o universo que a permeia, como aponta Bakhtin “não são os traços da realidade – da própria personagem  e de sua ambiência – que  constitui aqueles elementos dos quais se forma a imagem da personagem, mas o valor de tais traços para ela mesma, para a sua autoconsciência” (2006, p. 47).

                  No romance polifônico, toda a realidade se torna elemento da autoconsciência da personagem, o autor inclui tudo no foco de visão da própria personagem. Todos os elementos dos quais se forma a imagem da personagem, citados por Bakhtin – as qualidades objetivas estáveis, a sua posição social, a tipicidade sociológica e caracterológica, o habitus, o perfil espiritual e a aparência externa – tudo de que se serve o autor, para criar uma imagem estável da personagem, torna-se objeto de reflexão da personagem. O próprio herói se autodefine, a realidade da própria personagem, o mundo exterior que a rodeia e os costumes se inserem no processo de autoconsciência.  Tais componentes não se encontram no mesmo plano com a personagem, por isso não podem ser fatores determinantes da personagem, pois ela focaliza a si mesma de todos os pontos de vista possíveis. Mas Bakhtin expressa que a personagem necessita de uma outra consciência que esteja ao seu lado como múltiplas vozes constituintes da tessitura polifônica:

 

ao lado da autoconsciência da personagem, que personifica todo o mundo material, só pode coexistir no mesmo plano outra consciência, ao lado  do seu campo de visão, outro campo de visão, ao lado da sua concepção de mundo, outra concepção de mundo. À consciência todo–absorvente da personagem o autor pode contrapor apenas um mundo objetivo – o mundo de outras consciências isônomas a ela (2006, p.49). 

 

Para Bakhtin (2006), a autoconsciência, enquanto dominante artístico da construção da personagem, não pode se situar em concomitância com outros traços de sua imagem, uma vez que ela absorve esses traços como matéria sua e os priva de qualquer força que dá um acabamento à personagem. A autoconsciência da personagem vive do seu caráter de imagem inacabada, em eterna formação. Contrapondo-se a outras consciências, atinge a maturidade de refletir sobre si e seu mundo, através de um processo dialógico, sem, contudo, chegar a respostas prontas ou fechadas, mas à percepção dialógica da verdade. Para Bakhtin, Dostoievski, criador do romance polifônico, “buscava uma personagem que tivesse toda a vida concentrada na pura função de tomar consciência de si mesma no mundo” (2006, p. 50).

                Desta forma, este artigo, inicialmente, busca analisar no romance O encontro marcado, a imagem da personagem como ser inconcluso que se constitui na interação com o outro e se renova no processo de formação da autoconsciência.

 

2 A imagem de Eduardo pelo olhar do outro

 

 Eduardo Marciano pode ser percebido como um ser tomando consciência de si e do outro no mundo. O protagonista Eduardo apresenta-se no seu limiar, na fronteira do olhar do outro. No episódio em que a personagem Mauro propõe celebrar um encontro casual, entre ele, Hugo e Eduardo, questionando até quando estariam os três juntos, Mauro diz que esta era até então apenas a verdade: “ninguém sabe, a verdade é esta” (SABINO, 2006, p. 85). Hugo questiona uma idéia única de verdade: “o que você pensa que é verdade talvez não seja o que eu penso” (Id., ibid.). Para Hugo, o ser humano é traduzido em palavras, mas “as palavras não querem dizer nada, servem só para formar uma verdade comum a todos, que afinal não é de ninguém” (Id.,ibid.). Mauro propôs que fossem verdadeiros, dizer cada um a sua verdade: “Dizer o que pensamos uns dos outros e de si mesmo. Dizer no duro, sem contemplações” (Id.,ibid.). O que Mauro propõe é uma percepção dialógica da verdade, não uma observação silenciosa, mas sem contemplar, sem dar algo como reconhecimento. Mauro pergunta a Hugo se ele aceita dizer cada um a sua verdade, mas Hugo diz que não sabe, já que, para ele, “há certas verdades que eu não digo nem a mim mesmo” (Id.,ibid.).

É necessária outra consciência coexistindo ao lado da consciência de si mesma no mundo. Eduardo aceita o desafio, desde que se comprometam a não protestar e, ao fim, esquecer. O que seria impossível, pois os três se “haviam feito graves, sérios. Sentiam no ar a ameaça, o perigo da experiência, sentiam medo” das “verdades” que poderiam ouvir e absorver. Coube a Mauro, pelo sorteio, iniciar. Eis a fala de Mauro “ – Bem: primeiro, o que eu penso de mim. Antes de mais nada, sou um sujeito inteligente, bastante inteligente. Mas de uma inteligência intuitiva, nada lógica, feita de iluminações, de clarões... Não sei se vocês estão me entendendo” (SABINO, 2006, p. 86).

Mauro em seu discurso se autodefine como um sujeito que tem uma percepção da realidade independente de qualquer processo de raciocínio; possui uma inteligência dotada de profunda visão. Ele interrompe o seu discurso perguntando aos amigos se estão lhe entendendo, como que para convidá-los a fazer parte do diálogo. Ao continuar, Mauro declara que sua inteligência é de poeta: “Sou um poeta. Agora: sou um desajeitado para viver. Não sei comprar uma camisa. Sou grosseiro, vulgar, suado, me sinto proletário, emigrante, pesado, sujo. Amo as pessoas e as coisas...” (SABINO, 2006, p. 86). Mauro é interrompido por Hugo, que deseja ouvir sobre ele e Eduardo. Mauro inicia por Hugo:

 

– Você, Hugo, é um sujeito bom. Sua maior qualidade. Mas, como todo sujeito bom, é um fraco. Talvez influência da saúde, você é fraco e doentio, um sujeito que morre cedo. Não sei explicar... Você não tem mau caráter: tem caráter fraco, é isso. Indeciso, medroso. E como todo medroso, capaz de rasgos de coragem, subir no Viaduto, fazer um discurso em praça pública – Eduardo jamais fará um discurso (SABINO, 2006, p. 86).

 

Eduardo o interrompe para dizer-lhe: “não sou orador, sou escritor”. Mauro prossegue em sua tentativa de definição de Hugo, não cria uma imagem sólida, fixa, mas revela contradições inerentes ao ser humano – Hugo é um sujeito bom, não tem mau caráter, mas tem caráter fraco, ao mesmo tempo que é indeciso e medroso é capaz de rasgos de coragem, como “subir no viaduto, fazer um discurso em praça pública e capaz de ‘’surpreender com um rasgo de heroísmo, mas também capaz de nos surpreender com um rasgo de mesquinharia”. Mauro também fala da inteligência de Hugo, como cheia de maliciosas insinuações e ironias, o que, para Mauro, “não é bom sinal, pelo contrário: serve para a perfídia, a maledicência, a traição....” (SABINO, 2006, p. 86).

Mauro é interrompido por Eduardo, que se incomoda com o discurso do amigo ao dizer “chega”, “eu agora”. Mauro inicia o retrato de Eduardo:

 

– Ao contrário de mim, você é mais capaz de se fazer amado do que de amar. Sua lógica é irresistível, mas impiedosa, irritante. É desses remédios que matam a doença e o doente. Você tem sentimento poético, e muito – no entanto é incapaz de escrever um verso que preste. Por quê? Sei lá. [...] Sua compreensão de mundo, da vida e das coisas é surpreendente, seu olho clínico é infalível, mas você é um homem refreado, bem comportado, bem educado, flor do asfalto, lírio de salão, um Príncipe de Gales, como diz o Hugo. (SABINO, 2006, p. 87).

 

No discurso de Mauro, surge a pergunta “por quê?”, que pode ser de Eduardo, quando Mauro diz que ele “tem sentimento poético, e muito – no entanto é incapaz de escrever um verso que preste”, de imediato a resposta “Sei lá”. Mauro fala apenas que há qualquer coisa que o contém, que o segura, como uma mão. Nesse bloco dialógico, Hugo manifesta o seu mal-estar com a brincadeira, mas fala de si incorporando a voz de Mauro, ao dizer: “Sei que sou um fraco, um vendido, um covarde”. Hugo compara sua inteligência à de Mauro e Eduardo: “minha inteligência não é capaz de iluminações, nem de distribuir justiça, como a de vocês. (SABINO, 2006, p. 87). Eduardo responde como o vê: “– Em suma, outro pobre-diabo”. Hugo se refere a Mauro como um “poço de contradições”, e profere idéias que para Mauro soam como xingamentos. Hugo absorve a voz de Mauro para falar de Eduardo:

 

– E, você, Eduardo. Você, o puro, o intocado, o que se preserva... Seu horror ao compromisso porque você se julga um comprometido, tem uma missão a cumprir, é um escritor. Você e sua simpatia, sua saúde...Bem sucedido em tudo, mas cheio de arestas que ferem sem querer. Seu ar de quem está sempre indo a um lugar que não é aqui, para se encontrar com alguém que não somos nós. (SABINO, 2006, p. 88). 

          

Eduardo após ouvir sobre a sua imagem, se recusa a continuar:

 

– Se nós mesmos, que nos conhecemos mais do que ninguém, somos de tal maneira precários no julgamento de cada um, é porque não sabemos nada, não somos donos de verdade nenhuma, temos de buscá-la fora de nós. A consciência é inútil, sem uma convicção adquirida. Isso que estamos fazendo é inútil, é masoquismo. Não temos importância, somos apenas três coisas largadas, desarvoradas, aflitas. Está acima de minhas forças dizer alguma coisa mais... (SABINO, 2006, p. 89).

 

Mauro e Hugo se acham conscientes, mas oscilam em suas contradições. A consciência está ofuscada e sem uma verdadeira convicção não há uma consciência plena. No plano das personagens, ao exporem seus pontos de vista sobre si mesmo, as três personagens não esboçam traços típicos-sociais e caracterelógicos individuais fixos, formando uma imagem de si e do outro como ser acabado, mas há um questionamento que gera conflitos, a partir da relação do homem com outras consciências.

Observa-se que Sabino, na construção do romance O encontro marcado, tece fios dialógicos, mantendo seu “excedente mínimo de visão" [5] aquele que é necessário para compor o todo da obra, que tem como dominante artístico a autoconsciência de Eduardo Marciano, esta personagem que “focaliza a si mesmo de todos os pontos de vista possíveis” (BAKHTIN, 2006, p. 48).

Bakhtin (2006a) expressa que o herói dostoievskiano – e por extensão o herói polifônico –, nunca coincide consigo mesmo, por conter o outro dentro de si.  A autoconsciência de Eduardo vive de seu caráter de coisa inacabada, em eterna formação, ao lado de consciências isônomas, legitimamente iguais a ela. De acordo com a perspectiva polifônica, o processo de tomada de consciência é fundamental, pois Bakhtin enfatiza que “a personagem de Dostoiévski é toda uma autoconsciência” (2006, p. 50). E o interessante é que esse processo se dá de forma dialógica, uma vez que existem várias vozes e elas dialogam entre si em busca de uma verdade, mas uma “verdade da própria consciência do herói”. (2006, p. 55)

As personagens Mauro e Hugo configuram-se enquanto duplos[6] de Eduardo, representantes de facetas de sua própria consciência, que aparecem enquanto vozes para mostrar ao herói sua própria inconclusibilidade e auxiliá-lo no processo de tomada de consciência de si, dos outros e do mundo – traço este fundamental na formação do romance polifônico. Os traços utilizados por Mauro e Hugo, para formar a imagem de Eduardo, não podem concluí-lo ou fechá-lo, construir-lhe a imagem integral, ou seja, determinar quem é ele, pois Eduardo, ao absorver todos os possíveis traços estáveis da sua imagem, torna-os objeto de reflexão e toma consciência da própria realidade. A partir da idéia de que a autoconsciência da personagem por si mesma já basta para quebrar o monologismo do romance, Bakhtin enfatiza que 

 

a personagem se torna relativamente livre e independente, pois tudo aquilo que no plano do autor a tornaria definida, aquilo que a qualifica de uma vez por todas como imagem acabada da realidade, tudo isso passa agora a funcionar não como forma que conclui a personagem mas como material de sua autoconsciência (2006, p. 51).

         

A obra O encontro marcado, pois, apresenta a formação da autoconsciência de Eduardo, ou seja, uma tomada de consciência de sua realidade que só se dá através do diálogo com outras consciências, através de uma percepção dialógica. Essa autoconsciência é adquirida pelo olhar de outras consciências que lhe dão acabamento estético por formar o todo integral da personagem, mas do ponto de vista interno, esta autoconsciência permanece inacabada, tendo em vista as contradições inerentes ao ser humano; a personagem permanecerá numa eterna tomada de consciência. A autoconsciência manifesta uma inconclusibilidade ao existir no limiar de outras consciências, que se entrecruzam em dissonância ou concordância, por um processo dialógico, mas em perspectivas diferentes.

Sabino renuncia o seu “excedente essencial" [7] para que as personagens sejam relativamente livres e independentes, mas conserva um excedente mínimo para criar a obra, como “aquele mínimo indispensável de excedente pragmático, meramente portador de informação, necessário para levar a história adiante”, de que nos fala Bakhtin (2006, p. 73). Desta forma, encontra-se intrincado no contexto polifônico o conceito de “excedente de visão”. Sabino utiliza o narrador na terceira pessoa para levar ao conhecimento das personagens aquilo que não está ao alcance de suas consciências. O autor não reserva para si um excedente essencial do autor, mas coloca face a face a verdade de Mauro, Hugo e Eduardo a constatar-se dialogicamente.

Como duplos de Eduardo, Mauro e Hugo são reflexos que não podem fundir-se, pois o discurso dos duplos é divergente de si mesmo, as vozes se confrontam e se opõem, mas ao mesmo tempo podem se revelar em consonância, uma vez que são desdobramentos de Eduardo, cuja imagem se dá pela incompletude e não pelo acabamento. Conforme Bakhtin (2006), é preciso buscar essa consciência no “eu-para-outro”, que pode dar-lhe apenas um acabamento estético de sua imagem integral; assim, é preciso buscar a revelação da verdade de forma dialógica no outro e não no “eu-para-mim”. Entre Mauro, Hugo e Eduardo e seus mundos existem relações dialógicas, nas quais as personagens se entrelaçam e intercambiam suas “verdades”, estão de acordo ou em desacordo, dialogam entre si. Sabino, ao retratar as crises e reviravoltas na vida de Eduardo, representa a sua vida no limiar, por isso o protagonista fica internamente inacabado, corroborando a concepção de Bakhtin segundo a qual a “autoconsciência não pode ser acabada de dentro” (2006, p.73)

Mauro e Hugo procuram em Eduardo apenas uma definição material, das emoções e dos atos definidos. O autêntico Eduardo permanece à margem do julgamento deles, ele será juiz de si mesmo. Bakhtin explicita que “a autoconsciência enquanto dominante da construção de imagem do herói requer a criação de um clima artístico que permite à sua palavra revelar-se e auto-alucidar-se” (2006, p. 64). Segundo Bakhtin, “nenhum elemento de semelhante clima pode ser neutro: tudo deve atingir o herói em cheio, provocá-lo, interrogá-lo, até polemizar com ele e zombar dele, tudo deve ser sentido como discurso acerca de um presente e não a cerca de um ausente [...]” (Id., ibid.).

Essa imagem de Eduardo é a representação do herói. Bakhtin, ao se referir ao herói polifônico, afirma que “após escolher o herói e o dominante da sua apresentação, o autor já está ligado à lógica interna do que escolheu, a qual ele deve revelar em sua representação” (2006, p. 65). A lógica da autoconsciência admite apenas certos métodos artísticos de revelação e representação. Revelar e representar o herói só é possível interrogando-o e provocando-o, mas sem fazer dele uma imagem predeterminante e conclusiva. A personagem Eduardo luta contra essas definições de sua personalidade, feita por outras pessoas; ele escuta, incomodado, todas as palavras reais e possíveis dos outros a seu respeito e procura antecipar todas as possíveis definições de sua personalidade pelo outro. Quando Mauro diz que ele seria incapaz de fazer um discurso, ele antecipa que não é um orador, mas um escritor.  Eduardo olha-se nos reflexos de seus duplos, conhece as refrações de sua imagem, até sabe a sua própria definição em relação a si e ao outro, que é realmente neutra, pois prefere considerar o ponto de vista de fora, do outro e não de si mesmo. Contudo, as apreciações não lhe concluem a imagem, porque ele sabe que lhe cabe a última palavra sobre si mesmo.

No ensaio “Reformulação do livro sobre Dostoievski”, Bakhtin, ao se referir à posição do autor em relação à personagem, expressa que

 

não se trata de fundir-se com o outro, mas de manter posição própria na distância e no excedente de visão e compreensão a este relacionamento [...]. Esse excedente nunca é utilizado como emboscada, como possibilidade de chegar-se a atacar pelas costas. Esse é um excedente aberto e honesto, que se exprime em discurso voltado para alguém e não à revelia. Todo o essencial está dissolvido no diálogo, colocado cara a cara (2003, p. 355).

 

Ao lado da consciência de Eduardo, coexistem, no mesmo plano, outras consciências, como se observa no episódio em que Eduardo convida Mauro a ir à Pampulha para se distraírem. Ao tomarem o ônibus Eduardo propõe “experimente olhar a cidade com olhos de turista. Olha aquela casa ali, que esquisita. Estamos em Beirute. Olha a cara das pessoas. Todo mundo tem dois olhos para ver, que coisa estranha. É preciso ver a realidade que se esconde além, onde a vista não alcança” (SABINO, 2006, p. 72).

No romance O encontro marcado, nada permanece exterior à consciência de Eduardo, tudo se reflete nela em forma de diálogo. As apreciações e os pontos de vista sobre sua personalidade, o seu caráter, as suas idéias e atitudes são levadas à sua consciência, que dialoga com personagens – Mauro, Hugo, Monsenhor Tavares, Antonieta, Toledo, Frei Domingos, Germano e outros – cujas visões de mundo se entrecruzam com a sua visão. Aquilo que Eduardo vê e observa é inserido no seu discurso, proporcionando respostas às suas perguntas e novas interrogações, às quais ele contesta ou confirma. Temos, desta forma, o múltiplo em um só indivíduo.

3 Interiorização do múltiplo em Eduardo Marciano

 

No romance O encontro marcado encontra-se diálogos do herói Eduardo Marciano com ele mesmo, com os discursos externos e com a realidade que o cerca. Estes diálogos são chamados por Bakhtin (2006) de diálogos interiores, monólogos interiores ou ainda microdiálogos. Diante de questionamentos a respeito da vida, a conversa de Eduardo com si próprio flui de tal forma que ele emerge em seu mundo interior, adquirindo consciência diante do mundo que lhe é apresentado.

Os trechos dialógicos expostos serão analisados tendo em vista a “unidade da auto-enunciação monológica do herói” e a “unidade da narração”. Estas unidades, conforme Bakhtin, integram junto com a “unidade do diálogo entre as personagens”, as unidades composicionais do romance (2006, p. 205). Na unidade da auto-enunciação monológica de Eduardo, encontram-se os diálogos interiores, nos quais iremos nos deter a partir deste item para observarmos a interiorização dos múltiplos discursos em Eduardo que os leva a uma reflexão da sua posição no mundo. O discurso interior de Eduardo se desenvolve dialogicamente em relação a si mesmo e em relação ao outro.

Neste item, a análise do discurso indireto livre será efetuada fora dos limites de análise deste tipo de discurso, o que nos interessa aqui são os diálogos interiores de Eduardo e a voz narrativa. Atenta-se, assim, para a orientação dialógica da narração voltada para Eduardo, considerando-se que nestes discursos, observa-se um choque e dissonância de acentos de vozes (BAKHTIN, 2006, p. 227).

Nos diálogos interiores, Eduardo chama vozes de outras personagens, lançando uma mirada para seu interlocutor ausente, mas presente no discurso. Ao chegar ao Rio de Janeiro à procura de Antonieta, o herói é assediado sexualmente, ainda no trem, por um homem; e temendo sobre o que pensariam a seu respeito, ele inicia um processo de repetição das palavras tendo como objetivo refletir sobre a palavra do outro:

                                 

– Estava preocupada, já telefonei para tudo quanto é hotel. E daí? Jamais o encontraria. Nem sequer garantiria a sua vinda, viera sem mais nem menos, de trem... o professor Leitosa. Não, isso não: que diria Antonieta, se soubesse? Sílvio Garcia era possível que risse. Aceita laranjada com gim, e ainda diz que é bom. (SABINO, 2006, p.100-101). 

 

A fala de Antonieta com travessão, a do poeta Silvio Garcia, que acabara de conhecer (“Aceita laranjada com gim e traçar essa admiradora ainda hoje”), seria uma pequena amostra do mundo sórdido do qual Eduardo não tinha certeza que participava, na sua eterna contradição. Essa “mirada para o discurso social do outro” (BAKHTIN, 2006, p.208), ou seja, sobre o que Eduardo está falando  no seu discurso, sobre  a idéia social desse outro, sobre o próprio Eduardo. Este discurso determina também a maneira  de pensar e sentir, de ver e compreender a si mesmo e o mundo que o cerca, levando Eduardo a uma autoconsciência. Para Bakhtin,

 

a atitude do herói face a si mesmo é inseparável da atitude do outro em relação a ele. A consciência de si mesmo fá-lo sentir-se constantemente no fundo da consciência que o outro tem dele, o “eu para si” no fundo do “eu para o outro”. Por isso o discurso do herói sobre si mesmo se constrói sob a influência do discurso do outro sobre ele (2006, p. 208).

          

No romance O encontro marcado, a autoconsciência de Eduardo Marciano revela-se no interior da consciência socialmente alheia, através do ponto de vista e da visão social de outras consciências sobre ele. A busca de si mesmo ecoa como uma polêmica velada que Eduardo trava sobre si mesmo com um outro, mas é um interlocutor ausente ou estranho:

 

Que significava o casamento para ela? A gente casa é para isso mesmo: ter filhos e tocar o barco para a frente. Constituir uma família. Quem não pensar assim que não se case. E ele próprio? Afinal, que fizera de seu casamento senão um campo aberto às acomodações, e a todas as transigências, ludibriando, burlando a vigilância de Deus? – Mas escuta aqui, Eduardo Marciano, você acredita mesmo em Deus? – ele se interrogava ao espelho, fazendo caretas. Basta de interrogações. (SABINO, 2006a, p.217).

 

Este microdiálogo é intercalado com voz narrativa, à voz da personagem e outras vozes na sua consciência. Após tentar se aproximar de sua esposa, Antonieta, e de ser rejeitado por ela, Eduardo inicia uma série de reflexões acerca do casamento, enquanto instituição, uma exigência social; observa-se no seu discurso, “Quem não pensar assim que não se case”, uma alusão aos ensinamentos do apóstolo Paulo (I Coríntios 7:11); interroga-se ao espelho repetindo a pergunta do Monsenhor Tavares (“Você acredita em Deus?”), questionamento que o acompanhará até o final da narrativa, e que Eduardo ainda não sabia responder. Eduardo tem consciência do impasse pelo qual se desenvolve a sua relação com o outro: ao mesmo tempo em que ele quer participar das exigências da vida, ele sente uma necessidade de fluir espiritualmente. Ele está sempre oscilando entre dois mundos, andando em órbita. Precisa encontrar-se a si mesmo para encontrar o outro; está em Eduardo, como lhe dissera Hugo, “a chave que abre todas as portas” (SABINO, 2006, p. 88).

Pela relação com a consciência do outro se mantém uma perpétua polêmica interior do herói com o outro e consigo mesmo, um diálogo inacabado, no qual uma resposta suscita outras e vai-se tecendo fios dialógicos. O monólogo a seguir é introduzido pelo narrador, mas a voz de Eduardo aparece nas interrogações: “Escolhido por quem? Para quê? Desígnios de Deus?”. A sua voz está voltada para a voz eclesiástica do padre (“você acredita em Deus?”), a do experiente mas fracassado escritor Toledo (“O fruto que apanhava ainda verde, deixava apodrecer na mão”), a voz conservadora do pai (“Você vive muito depressa), a voz  social caricata de Mauro, a voz de Hugo sobre a efemeridade das coisas e, também,  para a própria voz otimista do narrador: “por que não podia parar um pouco, descansar, não dar mais um passo?” (SABINO, 2006, p 143):

 

[...] Você não soube escolher - lhe dissera Toledo: foi escolhido. Escolhido por quem? Para quê? Desígnios de Deus? Lembrava-se do diretor do ginásio, séculos atrás: você acredita em Deus? . Você vive muito depressa, era isso, depressa demais. Essa ganância de viver. Gostaria de ser um homem sereno, comedido, um escritor como Machado de Assis. O fruto que apanhava ainda verde, deixava apodrecer na mão. [...] Mauro fizera um poema e ele não sabia, Hugo lhe mandara um telegrama , apenas um telegrama lhe mandara Hugo.(SABINO,2006, p.143).

 

Eduardo toma a palavra em primeira pessoa – “não posso responsabilizar ninguém pelo destino a que me dei” –, dando seqüência ao seu monólogo dialogado:

 

Sozinho: sozinho no mundo com uma mulher. O que significa isso? Não sou um homem? Um marido, não sou? [...] a literatura não adianta, e os livros na estante e o cinzeiro cheio de cinza e a luz da cozinha acesa, poderia fazer um café, Antonieta dormindo, quero ser reto, quero ser puro, quero servir, pois vai trabalhar, moço, deixa de vaidade, tu és muito pretensioso, uma missão a cumprir, ora vejam, perdulário que tu és [...] (SABINO, 2006, p.144).

 

Eduardo utiliza um “discurso com evasiva” que, segundo Bakhtin, é o recurso usado pelo herói para reservar-se a possibilidade de mudar o sentido último e definitivo do seu discurso” (2006, p. 236). Eduardo trava no seu interior uma polêmica velada com o outro. Há uma tensa relação com a consciência do outro, como também um tensa relação dialógica consigo mesmo. Ao fazer indagações, Eduardo mergulha no seu mundo interior, registrando as divagações a respeito de si mesmo e das pessoas ao seu redor. Mas qual a atitude de Eduardo face a si mesmo, ao seu diálogo interior consigo mesmo? Eduardo não se liberta do poder que a consciência do outro exerce sobre ele, ainda não reconhece esse poder, mas luta contra ele, e nesse mundo submerso em que se encontra, o seu diálogo interior se entrelaça e se combina com o outro. Desta forma, ele vai adquirindo consciência de sua realidade, registrando suas emoções e ideologias diante do mundo que lhe é apresentado.

Esse monólogo interior, que se realiza após o casamento com Antonieta, soa como uma confissão, como representação de um acontecimento que se desenrola no limiar da autoconsciência de Eduardo. A intriga do romance O encontro marcado se fundamenta na tentativa de Eduardo de encontrar-se com o outro, e nesta procura ele encontra a si mesmo.  A voz de Eduardo se funde à voz do narrador, como se a narração estivesse dialogicamente voltada para o próprio Eduardo, soando aos seus ouvidos como uma voz que leva adiante suas palavras e idéias. No final desse monólogo, aos ouvidos de Eduardo, soa a voz otimista do narrador:

 

 De tudo ficaram três coisas: a certeza de que ele estava sempre começando, a certeza de que era preciso continuar e a certeza de que seria interrompido antes de terminar. Fazer da interrupção um caminho novo. Fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro (SABINO, 2006, p.145).

 

              A relação de reciprocidade entre Eduardo e a consciência do outro difere nesse outro monólogo. O diálogo consigo mesmo permite substituir, com sua própria voz, a voz de outra pessoa. Aparece aqui a função propriamente dita do diálogo consigo mesmo – substituir a segunda voz. Eduardo trata a si mesmo como a outra pessoa. Acalma e anima a si mesmo com o tom de um homem mais velho e seguro, um ser que chegou a consciência de si, de sua dualidade. Neste monólogo, surgem duas vozes, a primeira voz de Eduardo, insegura, tímida, e a segunda tranquila e auto-suficiente. Segundo Bakhtin, “o diálogo não pode transformar-se num monólogo integral e seguro” (2006, p. 215). Assim, a segunda voz difere da primeira e se sente independente; nela ecoa tons provocantes, em vez de tons tranqüilizadores. A segunda voz de Eduardo substitui o seu reconhecimento pelo outro, o que lhe falta. Eduardo deseja levar a vida sem esse reconhecimento, porém esse “consigo mesmo” assume a expressão “nós tínhamos um encontro”, proferida no final do romance, encontro marcado consigo mesmo para reconhecer o outro, ou seja, o  consigo mesmo assume a forma plural e dialógica:     

 

E pôs-se conversar consigo mesmo, mãos nos bolsos, cadenciando os passos:

– Antes de mais nada: para onde você vai agora?

– Você não pode estar tão bêbado assim.

– O que pretende fazer?

– Você, personagem de romance.

– Então era o caso de telefonar para o romancista e perguntar: e agora, o que é que eu faço?

– Pela última vez: você acredita em Deus?

– Acredito – respondeu com firmeza, e prosseguiu a caminhada.

– Cuidado com o automóvel. Com que você conta?

– Eu me conheço, mas é só.

– É pouco.

– Conto com minha experiência. Não sou inocente.

– Experiência... E o mundo ao seu redor? Olhe só quanta injustiça, quanta miséria, tanta gente sofrendo.

– Demagogia (SABINO, 2006, p.280).

 

A segunda voz de Eduardo, a voz que se integra a esse discurso do outro com a pergunta: “Você acredita em Deus?”, soa constantemente e está em relação recíproca marcante com o discurso de Eduardo, dando o mote para a intriga e construindo o romance O encontro marcado com base no embate entre os valores humanos e a fé cristã, embate cujo ponto alto se encontra na continuidade do trecho supracitado:

 

– Seu católico de merda.

Sorriu e apressou o passo.

– Você é muito inteligente, mas vai preso assim mesmo.

Dobrou a esquina, relanceou os olhos em torno, pôs-se a recitar:

– Creio em Deus Padre, todo – poderoso, criador do céu e da terra, em Jesus Cristo, um só seu filho...

Não sabia terminar. Inundado de alegria, começou a dançar no meio da rua:

– Acabou, acabou, acabou.

Depois se deteve, dedo em riste:

– Dizer o indizível? O silêncio é a linguagem de Deus. A linguagem do homem é difícil, retorcida, suja, atormentada. Tudo que se escreve é apenas uma parodia do que já está escrito e ninguém é capaz de escrever. Tudo que se vê é apenas uma projeção do que não se vê, sua verdadeira natureza é substância. Basta olhar para as minhas mãos para sentir que elas ocupam o lugar das mãos de Deus... (id., ibid.)

 

Tais relações discursivas são referidas pelo poeta Carlos Drummond de Andrade em o Encontro (1986)[8], poema segundo o qual  o romance de Sabino apresenta uma luta entre o humano e o divino:

 

No encontro malogrado

Entre a vida e Marciano

(destrói o vento a haste

sem que à flor cause dano)

Deus murmura de lado

Entre divino e humano:

– Comigo é que o marcaste.

 

A ideia que perpassa o romance de Sabino, é a do homem como ser imerso na angústia que gera a necessidade de escolha, como ser lançado ao mundo sem um núcleo essencial pré-elaborado, o homem como ser que abre seu próprio caminho a partir das escolhas que realiza. Neste caso, de uma escolha como a necessidade de pré-determinar o lugar de Deus (ou o seu não lugar, no caso de uma afirmação de um Cosmo como fruto do acaso) como requisito para uma ação afirmativa no mundo.

Com relação ao romance, podemos afirmar que todas as circunstâncias e acontecimentos nele são representados para impulsionar as vozes interiores, atualizando e aprofundando o conflito interior de Eduardo Marciano, que se encontra tomando consciência de si e do outro. A intriga se desenvolve nos limites da autoconsciência do protagonista Eduardo Marciano. Os episódios revelam o desejo de Eduardo de passar sem a consciência do outro, sem ser reconhecido pelo outro, ou seja, ele desejava evitar o outro e afirmar a si mesmo.

Nesses microdiálogos, há uma intensa dialogação interior. Ele se dirige a si mesmo, tratando-se frequentemente por tu/você, como se falasse com outro, e tenta persuadir a si mesmo, ao perceber que a vida, para ele, se resume a dois pólos: materialismo e fé cristã.  Eduardo se tortura e se interroga, o seu diálogo interior está repleto da palavra de outros, numa relação de intensa polêmica. Com isto, ocorre uma interiorização de múltiplas vozes em Eduardo, como se a sua consciência estivesse sendo construída com um mosaico de vozes. 

Cada personagem que aparece em seu campo de visão surge em seu monólogo interior como uma voz-ideia pertubando-o, confrontando-se umas com as outras. Desde o inicio, a voz conservadora entra no campo de visão de Eduardo, incorporando-se ao seu diálogo interior. Eduardo trava uma luta ideológica, mas acaba por ocultar de si mesmo aquilo que sabe e está diante dos seus olhos. O herói sente que precisa encontrar sua voz, combiná-la ou contrapô-la a outras vozes. Desta forma, os fenômenos examinados, produzidos na consciência e no discurso da personagem Eduardo Marciano pela palavra do outro, em O encontro marcado, são apresentados numa visão do discurso de um sujeito dual. 

 

4 A dualidade do sujeito na narrativa 

 

O romance O encontro marcado apresenta alguns elementos que permitem inseri-lo dentro da concepção polifônica descrita por Bakhtin, entre eles está a autoconsciência do herói Eduardo Marciano e a representação do sujeito em sua dualidade: o herói Eduardo é marcado pela dúvida, sempre numa dualidade em que se acentua uma visão de mundo dividida entre dois pólos: materialismo x fé “Eduardo já resolvera o seu problema, exatamente como no sistema terrorista: o problema existia, não existia era a solução. Haveria de arrastar, vida afora, o seu dilema, oscilando entre “as exigências da vida e sua ânsia de pureza” – como dizia num verso” (SABINO, 2006, p. 69).

A personagem Eduardo não admite ser definido socialmente, angustia-se ante as exigências sociais e o seu ascetismo. Indefinido socialmente, ele procura os deveres da vida como uma defesa. Eduardo tem sede de vitória e de criação, quer ser o primeiro em tudo; ser romancista é uma de suas ambições que não chega a concretizar-se, mas torna-se escritor de um jornal, no qual escreve sobre técnicas do romance. A sua trajetória é permeada por estas duas visões de mundo, com as quais ele convive como um sujeito inacabado.

A imagem de Eduardo é construída em torno da dualidade que envolve valores materiais e sua ânsia de pureza. Procurando a afirmação de sua voz, considera-se sujo, impuro, e é empurrado por uma força que o leva a várias contradições. Ao mesmo tempo em que não se considera burguês e se irrita com esta definição, suas atitudes o levam a isso: casa-se com a filha de um ministro e aceita um emprego na prefeitura, arranjado pelo sogro. O herói discute com essas vozes – materialismo e a fé cristã – que cindidas na voz de Eduardo, criam em seu discurso uma dissonância e uma dualidade interior. Assim, toda a vida de Eduardo se resume à procura de si mesmo e da sua voz não-cindida por essas duas perspectivas que nele se inserem.

Sobre essa dualidade de Eduardo funda-se toda a sua imagem, que lhe determina as ideias. Ao discurso sobre si mesmo, se entrelaça o discurso ideológico que está voltado para um maniqueísmo, no qual o mundo está dividido entre o bem e o mal. Sua visão de mundo se desenvolve nas formas do diálogo, seja através de monólogos interiores dialogizados, ou na forma de diálogo composicionais, nos quais vozes se fazem ouvir com uma força extraordinária.

                  Os heróis dostoievskianos e, por extensão polifônicos, na concepção de Bakhtin, são oniscientes e “se limitam a fazer sua opção dentro de uma matéria plenamente significativa” (2006, p. 252), ou seja, toda a realidade semântica é levada à consciência do herói na forma de vozes.  Contudo, segundo o crítico, esses heróis “ocultam de si mesmos aquilo que em realidade já sabem e veem” (id., ibid.). Ao ocultar de si  mesmo a realidade que o cerca, Eduardo escolhe como centro dos seus diálogos apenas aquilo que lhe é significativo. Esta ocorrência se manifesta nas “ideias duplas” que caracterizam os heróis polifônicos; enquanto uma ideia é evidente a outra se manifesta de forma velada, mas determina a construção do discurso, lançando sobre ela a sua sombra.

Transpondo estas considerações para o romance O encontro marcado, observamos que essas idéias duplas se manifestam em duas visões de mundo, dois polos no qual Eduardo se encontra sempre no limiar. Estes polos marcam o processo de formação da autoconsciência de Eduardo, a estrutura da narrativa reúne dois elementos de antítese: um Eduardo voltado para os valores materiais e outro para o ascetismo. Estes contrários se encontram no discurso e nas atitudes de Eduardo, se olham mutuamente, refletem-se um no outro.  Sobre esta questão, Bakhtin enfatiza que uma pessoa não pode passar sem outra consciência, o homem nunca encontrará sua plenitude em si mesmo. Os opostos vivem em plena fronteira, olham-se e se compreendem (2006, p. 180).

O discurso com evasiva torna o herói polifônico ambíguo, pois a evasiva deforma sua atitude em face de si mesmo. Ele não sabe que missão tem a cumprir, fala de uma vocação, mas qual? Ser escritor? Construir um mundo com conhecimentos e entregar-se a ele, para conscientizar a sociedade das suas próprias mazelas, adaptando-se às hipocrisias de uma sociedade sem rumo? Não, Eduardo nunca se adaptará, e o narrador expõe isto com muita clareza:

 

O que pretendia? Vamos com calma: e quais eram mesmo as suas convicções? Errar não tinha importância, desde que não pactuasse com o erro, endossando-o, justificando-o. Não, ele não justificava nada. Errar todo mundo erra – em determinadas circunstâncias todo mundo erra, é natural, é compreensível. O que se dizia ser a parte frágil, o lado humano. E o outro lado? Isso é que os outros não viam, o outro lado. Então só faltava erigir dessa oscilação entre o bem e o mal, uma nova moral feita ao sabor do acaso, instável como a própria vida, uma ética de ocasião para justificar o erro – não, isso ele não faria. (SABINO, 2006, p.206-7).

 

Eduardo, para afirmar-se, deve percorrer um longo caminho, uma longa procura – e dessa procura ninguém sai indiferente, fica-se marcado para sempre. A luta ideológica travada por Eduardo é uma luta pela escolha de meios de significação, ele quer ser um escritor reconhecido, casar e constituir família. O processo de formação da consciência ocorre sob um diálogo dual. Eduardo busca uma solução para o problema: Quem sou eu? E percorre um longo caminho para encontrá-la e perceber a principio sua vontade de ser escritor e ser bem sucedido financeiramente, ser o primeiro em tudo, ser reconhecido como tal e, posteriormente, suas atitudes de protesto contra o regime ditatorial, seu desejo de fluir espiritualmente são fatos que impregnam o seu discurso e, ao mesmo tempo, estão em ligação ideológica diante do mundo. Ou seja, a formação da autoconsciência de Eduardo, representada no romance O encontro marcado, é um processo de reconhecimento para si e para os outros, de algo que, no interior, ele já sabe e que permanecerá em sua dualidade.

                 As vozes conservadoras do Monsenhor Tavares e do frei Domingos vão, interiormente, persuadindo a voz de Eduardo. Vozes estas que Eduardo ao mesmo tempo em que as oculta de si mesmo, trava com elas uma polêmica aberta ao diálogo, posto que, mesmo quando ele diz que acredita em Deus, o faz dialogicamente, em sua voz ou na voz de seus desdobramentos, exatamente porque não deseja perceber este mundo oposto. O fato de acreditar ou não em Deus não é a grande questão para o protagonista, mas a prática e a convivência com a fé cristã.

Segundo Bakhtin, as vozes que se fundem, mesmo nos limites de uma consciência, “não podem ser um ato monológico, mas pressupõem a incorporação da voz do herói a um coro” (2006, p. 254). Assim, no plano do romance O encontro marcado se desenvolve uma polifonia de vozes em luta e interiormente cindidas. A voz de Eduardo cindiu-se entre uma voz ascética e outra materialista. A combinação dissonante dessas duas vozes penetra em seus discursos, tornando-se a voz de Eduardo numa voz dual. Uma voz o reconhece puro, austero e a outra o absolve para a realização natural de sua vida. Eduardo perceberá que é a sua própria consciência que o persegue e o leva a certa ambiguidade nas relações e que a dualidade presente no seu interior é desdobramento dele mesmo, um ser fragmentado. Na sua imagem, o que prevalece é o seu caráter de criatura dual, agindo como se não soubesse o que queria, sempre oscilando em suas decisões.

É interessante observarmos homologias entre este caráter dual do protagonista e a estrutura do romance O encontro marcado que está dividido em duas partes: A procura e O encontro. Verifica-se nesta divisão a própria dualidade de Eduardo. Na primeira parte, Eduardo passa de menino a um jovem literato que tem no pai não apenas o seu apoio, mas uma voz chamando às suas origens provincianas. Além do pai, Eduardo convivia com seus amigos, que também eram fascinados pela literatura e cheios de ideias: Mauro, expressão paródica da voz dos oprimidos, e Hugo, encarnação do discurso metafísico sobre a inconsistência das coisas do mundo. Ambos são personagens que existem, não apenas, para fazer existir Eduardo, como uma espécie de desdobramentos ou duplos, de tal forma que o que é dito por um, os outros poderiam dizer, no entanto, possui cada um a sua própria voz que se cinde em vozes de Eduardo. Todas as personagens, como é comum no romance polifônico, exceto o protagonista, estão à margem de qualquer participação real na intriga que se desenvolve completamente nos limites da autoconsciência do herói. Conforme Bakhtin, elas “oferecem apenas a matéria bruta, como se lançassem o combustível necessário ao intenso trabalho dessa autoconsciência” (2006, p. 216).

Pontes (1960), ressalta que “na segunda parte, acima do aspecto documentário social, nota-se o drama de um tipo autêntico rodeado de fantoches-drama não menos documentário, porém de caráter íntimo” (p. 151). As ações de Eduardo nas diversas circunstâncias são expostas em seus diálogos interiores ou nos diálogos com Germano, uma voz paradoxal e cristianizada; frei Domingos, voz eclesiástica; além do diálogo com um homem misterioso com ares de literato ou autor-criador, personagens que surgem por força do diálogo impresso pela própria estrutura do romance.

Pelo modo de ação do romance, que está centrado na dualidade do sujeito, Eduardo acaba por tornar-se um herói inacabado, pois ao mesmo tempo em que ele é capaz de adentrar nas múltiplas situações do seu mundo e do mundo do outro, e em cada uma das situações ir tomando consciência de sua realidade, ele não consegue sintetizar as diversas vozes que lhe atravessam numa cosmovisão minimamente clara e estável, “eis afinal o que Toledo lhe quisera dizer e não conseguira. Numa idade em que os outros mal começam a existir, sem perceber atingia vorazmente a parte mais definitiva de si mesmo” (SABINO, 2006, p. 283), ao encontrar-se com o outro.

Dentre os episódios dessa segunda parte, temos o reencontro de Eduardo com seus amigos, a separação da esposa, o filho abortado. O herói resolve se despojar de tudo: dos amigos e bens materiais e aceita o convite de frei Domingos para passar uns dias no convento. No entanto, conforme analisamos, esta solução não nos parece definitiva. Esta observação pode ser, ainda, endossada pelo pensamento do crítico Temóscles Linhares:

 

Ninguém dirá, creio, que Eduardo Marciano, o herói principal, venha a ser uma personagem definitiva. Conquanto nele se concentre o maior esforço do autor, nem assim seria lícito tachar a sua criação de completa, a ponto de não precisar o criador fazer outra coisa senão segui-lo, nada mais que segui-lo e surpreendê-lo em seus movimentos interiores, em suas ações e sentimentos.  (LINHARES, 1978, p.37)

 

Conforme Carlos Faraco, o “herói polifônico é um ser relativamente livre e autônomo que vê seu mundo, e tem consciência de si mesmo nesse mundo, ou seja, um certo excedente de visão que lhe vem pela interação tensa com o olhar dos outros sobre ele” (2008, p. 47). O autor-criador, por vezes, representa Eduardo de um ponto exterior de observação, dando-lhe certo perfil sócio-caracteriológico, através da própria narração, ou da voz de outras personagens, mas principalmente faz o próprio herói construir sua imagem a partir do seu próprio campo de visão, fazendo refletir-se em sua autoconsciência como um ser dual.

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

                  Esta  leitura analítico-interpretativa possibilitou a análise dos principais aspectos que norteiam a narrativa O encontro marcado, no que se refere a um processo de construção através da polifonia, enquanto categoria teórica. Em outras palavras,  a polifonia, que foi utilizada como uma leitura plural de mundo em O encontro marcado, foi explorada pelo autor ou organizador de um “grande diálogo”, do qual fazem parte fenômenos plurivocal (jogo polifônico) e pluriestilístico (jogo com vários estilos), que por sua vez é perpassado por enunciados paródicos, estilizados, citados em estilo direto e indireto livre, polêmica velada, monólogos dialogizados, recursos estes que mantêm estreitos laços com a utilização do discurso de outrem.

Ressaltamos que em O encontro marcado, Eduardo encarna a visão de mundo do jovem escritor, desarraigado e sem perspectiva, um intelectual que para criticar a ditadura faz-se boêmio como protesto às imposições sociais, enquanto os que seriam a voz da autoridade – representada pelos pais, delegado, ministro e o padre – são a representação da voz da sociedade. O mundo de Eduardo é construído a partir de referências constituídas nas interações com duas esferas discursivas: a literatura e a religião. Assim a consciência de Eduardo vai apresentar um núcleo de sua formação social, de sua ideologia, o que seria resultado das interações sociais com o “outro”, interações estas que se confrontam ante a autoconsciência do herói.      

              Em suma, podemos constatar que o romance O encontro marcado, revestido de perspectivas polifônicas, preserva a liberdade e o não-fechamento do sujeito, cuja expressão oscilante de um olhar tumultuado e inquieto torna-se cada vez mais lúcido pelo olhar do outro. Nesse sentido, analisamos o romance de Sabino, vendo-o como uma narrativa dialógica e polifônica, na qual ecos de vozes que se harmonizam, se enfrentam e se contradizem, posto que a consciência do sujeito de sua própria existência humana e de sua realidade lhe é dada pelas relações dialógicas com o outro.




REFERÊNCIAS

 

ANDRADE, Carlos Drummond de. In: SABINO, Fernando. O encontro marcado. 52 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986.

 

BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. São Paulo: HUCITEC,1998.

 

______. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

 

______. Problemas da poética de Dostoievski. Rio de Janeiro: Forense – Universitária, 2006.

 

BÍBLIA SAGRADA. Antigo e Novo Testamento.  Trad. João Ferreira de Almeida. Revista e atualizada no Brasil; 2 ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993. 

 

FARACO, Carlos Alberto. Autor e Autoria. In: BRAIT, Beth. (org.). Bakhtin: conceitos-chave. 2 ed. São Paulo: Contexto, 2008. p.37 -60.

 

 

LINHARES, Temóscles. Diálogos sobre o romance brasileiro. São Paulo: Melhoramentos, 1978.

 

 

PONTES, Joel.  O aprendiz da crítica. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura: Instituto Nacional do livro, 1959.

 

 

SABINO, Fernando. O encontro marcado. 50 ed. Rio de Janeiro: Record, 1986. (Edição comemorativa de trinta anos).

 

 

______. O encontro marcado. 82 ed. Rio de Janeiro: Record, 2006. (Edição comemorativa de cinquenta anos).

 

 

______. Obra reunida. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.





______________________ 

[1] Florita Dias da Silva é Mestra em Letras pela UFPI, professora da SEEDUC /MA.

 

[2] Publicado também em outros países: Holanda, Alemanha, Espanha, Portugal e Inglaterra. No Brasil, após 54 anos de seu lançamento, O encontro marcado está na octogésima segunda edição e já foi adaptado para o teatro no Rio de Janeiro e em São Paulo.

 

[3] Vencedor do Prêmio Cinaglia do Pen Club do Brasil com o livro de crônicas A mulher do vizinho, (1962); do Prêmio Jabuti com o romance O grande mentecapto (1980); do Prêmio  Golfinho de Ouro na categoria de Literatura (1981); e ainda, em 1999, recebeu o maior prêmio literário do Brasil, o “Machado de Assis”, pelo conjunto de sua obra.

 

[4] Este livro serviu de argumento para o filme com o mesmo nome, dirigido por Oswaldo Caldeira e com Diogo Vilela no papel principal. O filme O grande mentecapto foi premiado, em 1989, no Festival Internacional de Gramado e, em 1990, no Festival Internacional de Cinema em Washington.

 

[5] Livro que reúne diversos contos de Sabino, entre eles o que dá título ao livro foi adaptado para o cinema duas vezes: a primeira, em 1968, pelo diretor Roberto Santos; e, em 1997, por Hugo Carvana.

 

[6] Bakhtin (2006), explica a nova posição do autor do romance polifônico que passa a ter um excedente mínimo de visão necessário para conduzir a história, deixando suas personagens relativamente livres. Se no romance monológico o autor detém  todo o excedente de visão, na obra polifônica os personagens entram no diálogo tomando consciência de sua própria realidade.

 

[7] Ao analisar o romance O sósia Bakhtin (2006) trabalha a ideia de duplo, como “desdobramento de personalidade” (p. 217). Apontando que “quase toda personagem central de Dostoiévski tem seu duplo parcial noutra pessoa e inclusive em várias outras” (p.218).

 

[8] A renúncia ao “excedente essencial de significação do autor” que nos propõe Bakhtin, (2006, p.73), permite que as personagens sejam relativamente livres, uma vez que o excedente de visão do autor finaliza a imagem da personagem sem permitir-lhe que participe do grande diálogo do romance.

 

[9] Este poema, encontra-se nas edições comemorativas de 30 e 50 anos de publicação da obra O encontro marcado, sem indicação de página. Optou-se pela referência à edição de 30, por conter o título do poema.

 




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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010] 
 

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