Semente para S. Bernardo

Marcos Falchero Falleiros - UFRN
 



 

RESUMO:  O velho Cordeiro, amigo de Graciliano Ramos durante sua permanência no Rio de Janeiro, entre 1914 e 1915, pode ter sido a inspiração para o personagem de Seu Ribeiro, em S. Bernardo.

PALAVRAS-CHAVE:  Graciliano Ramos, S. Bernardo,  Seu Ribeiro, biografia e literatura.

 

ABSTRACT:  The old  Cordeiro, friend of Graciliano Ramos during his permanence in Rio de Janeiro, between 1914 and 1915, might have been the inspiration for Seu Ribeiro's character, in S. Bernardo.

KEYWORDS: Graciliano Ramos, S. Bernardo,  Seu Ribeiro, biography and literature.






O “velho Cordeiro” prova ter sido, pela menção carinhosa nas cartas, um dos poucos conhecimentos do jovem Graciliano Ramos que o cativaram no período de sua primeira experiência no Rio de Janeiro, entre 1914 e 1915, de tal modo que se pode presumir seu reaparecimento em S. Bernardo, sob a forma de Seu Ribeiro, o empolado senhor encontrado por Paulo Honório em Maceió, “chupando uma barata [: sendo logrado] na Gazeta do Brito”: “Via-se perfeitamente que andava com fome”. Despertada sua simpatia, sem que apresente explicações, Paulo Honório contrata Seu Ribeiro como guarda-livros e, dando-lhe alguma confiança, ouve a história do personagem cujo nome traz a ressonância de uma facúndia caudalosa. Dezessete anos antes, em  janeiro de 1915, ao comentar com o pai o ambiente do jornal em que trabalhava, Graciliano lamenta um semestre de intriguinhas naquele meio, mas ressalva “alguns companheiros que parecem bons”:

 

Entre eles, conheço um velho, um português paupérrimo com quem trabalho sempre, boa criatura com quem me entretenho sempre em longas palestras e que lamenta que indivíduos mais ou menos preparados como nós (é amável e não é modesto) vivam na miséria, enquanto se empregam uns boçais...Pensam que eu vivo na miséria, porque ganho pouco. (1994, p. 45)

 

O detalhe aparentemente banal torna-se relevante ao contextualizarmos o “autor-ator” (PINTO, 1962) no seu percurso biográfico extensivo, sob cujas condições subjacentes da memória é conduzido o momento específico de 1932 em que se iniciou definitivamente a construtura do romance, articulada pela dialetização estética entre a situação pessoal e a avaliação histórica para a fantasia do enredo.

            Cavar, cavações, trepar são os termos constantes não só desse período mas de toda a obra, que flagram o autor na condição pequeno-burguesa de candidato à ascensão, como membro de uma camada que, afinal, “não vive na miséria”, mas cujas tarefas se prismatizam em: superar-proteger o pai em suas erradas – fazendeiro falido em Buíque inescapavelmente reposto ao balcão – submeter-se-rebelar-se frente às expectativas patriarcais dele, atender-driblar os valores que coagem a ambos na teia social e, enfim, a infra-estrutura: sustentar e educar muitos filhos.

            O caráter de autocrítica genética, atribuível a Infância, comprova-se pela sondagem que a obra realiza em busca das razões de sua literatura, sob cujo espectro se abrem os polos da psicologia individual e do contexto social e histórico, terreno seco de onde vem o brotamento do estilo e a sementeira temática das futuras produções estéticas, ali palmilhadas retrospectivamente à saciedade, como, por exemplo, na descoberta, pelo menino, do pai do homem. O menino desperta para a consciência das diferenças do mundo quando vê o contraste entre o gibão enfeitado do pai e os trajes esfarrapados dos empregados na fazenda “Pintadinho”, de Buíque, que a avó materna havia recomendado ao genro adquirir (RAMOS, 1979, p. 24), como caminho decente para vencer na vida, acima da mediocridade muito mixa do balcão. Antes que as nascentes sequem e que o gado se fine no carrapato e na morrinha, não ocorre ao filho que o poder possa estar fora do pai:

 

Vi-o arrogante, submisso, agitado, apreensivo – um despotismo que às vezes se encolhia, impotente e lacrimoso. [...] Se ele estivesse embaixo, livre de ambições, ou em cima, na prosperidade, eu e o moleque José teríamos vivido em sossego. Mas no meio, receando cair, avançando a custo, perseguido pelo verão, arruinado pela epizootia, indeciso, obediente ao chefe político, à justiça e ao fisco, precisava desabafar, soltar a zanga concentrada. (1984b, p.30)

 

            Tal será a condição do escritor, que experimentará os temas ficcionais, gradativamente em descenso, sob as condições possíveis de sua origem, exacerbando-se na vitória de Pirro de Paulo Honório ou, encolhendo-se, “major” Graça aquém do coronel, mais ainda para baixo, indo da condição mediana sempre na corda bamba à falência rural definitiva em Luís da Silva. Aqui já se pode pressentir o rebaixamento de suas origens familiares, principalmente da arrogância latifundiária pelo lado materno, depreciada através do lado paterno, no enredo, pelo espelhamento enviesado do Luís da Silva sem mãe: uma degradação que vai do longo nome do avô tresloucado Trajano Pereira de Aquino Cavalcante e Silva para o pai inerme, espírito de literato, leitor de Carlos Magno, reduzido a Camilo Pereira da Silva. O Diretor da Imprensa Oficial, enquanto recebia as visitas de Benon Maia em 1930, ficava “a olhar, sob um telheiro próximo, um homem que enchia dornas e uma mulher que lavava garrafas” (1985a, v.1, p. 57), visão obsessiva transferida para a Rua do Macena, perto da usina elétrica, onde mora o funcionário submisso Luís da Silva, inventado na residência da Praia de Pajuçara pelo Diretor da Instrução Pública, em 1935. O Major Graça, da posição privilegiada de autoridade do governo, concede um olhar compreensivo para baixo, onde encontra a si mesmo, na prefação de Infância carregada no rebaixamento. O estilo autoritário e duro, sertanejo, asseverativo, não se dá o direito à autocomiseração, revertida em diagnóstico da desgraceira universal do humano sob a desigualdade, e o decoro antichoramingas enfrenta o mundo para criar a expressão de um estoicismo nordestino. Como indica a carta a Ló, de março de 1935, a casa do funcionário miserável Luís da Silva, na Rua do Macena, é a mesma do Diretor da Instrução Pública, na Praia de Pajuçara:

 

Acabo de almoçar e, como é natural, bebi um bocado de aguardente.Vou dormir. Em seguida retomarei o trabalho interrompido há cinco meses. Julgo que continuarei o Angústia, que a Rachel acha excelente, aquela bandida.[...] Escrevi ontem duas folhas, tenho prontas 95. Vamos ver se é possível concluir agora esta porcaria. [...] No quintal procurarei escrever a continuação do romance, que se passa num fundo de quintal, como v. sabe. (1994, p. 140-141)

 

            Depois da prisão, Graciliano escreverá, do Rio, ao primogênito Márcio, em 22 de agosto de 1937, preocupado com a necessidade de tratamento da epilepsia do filho predileto (cf. RAMOS, 1992b, p. 133), que havia sofrido aos 19 anos desequilíbrio psíquico grave com a prisão do pai – e sofreria outro, dramático e fatal, levando-o a assassinar gratuitamente um colega e, depois de uns dias, suicidar-se, entre final de agosto e início de setembro de 1950 (cf. RAMOS, 1979, p. 98, 219-223) [i]. Graciliano confessa, em camaradagem de pai cheia de confidências, temor com a desgraça eventual de ter que voltar para Alagoas. Garante que está vivo e que os salvadores da pátria não contavam com sua resistência física, reclamando zombeteiro por pagar agora casa e boia, que eram de graça e melhor no ano passado, sem contar a mulher da pensão, muito mais exigente que o diretor da cadeia. Sobrevive, entretanto, bem remunerado pelo governo que o encarcerou, com uns trabalhos rápidos para o Ministério da Educação, que ele prefere chamar Ministério da Providência. Sobre a escrita do futuro Vidas secas[ii], diz Graciliano a seu primogênito:

 

Julgo que Afrânio Mello tem medo que me torne Julião Tavares. Diga a ele que não há perigo. Continuarei com os Silvas. Os meus cachorros e matutos são inteiramente Silvas, Silvas até os ossos, mais Silvas que o outro, o funcionário. Censuraram-me porque só me preocupo com proprietários e classe anexa. Salto para o extremo oposto e ofereço ao respeitável público almas de cachorros e outros bichos semelhantes. (apud RAMOS, 1992a, p. 169-170)

 

Atinge finalmente a saída de si como autor-ator, na sondagem do outro, através de Fabiano e família, quem sabe auxiliado pelo primeiro aprendizado, “obrigado a participar do sofrimento alheio” com o moleque José, no episódio de Infância, quando, sinhozinho, enxerindo-se a ajudar o pai no castigo do moleque, o castigo do pai se voltou para ele (1984b, p. 88). Carlos Alberto dos Santos Abel comenta a necessidade que Graciliano tem da experiência concreta para a elaboração ficcional (1999, p. 289-293), desde detalhes pessoais aproveitados para o “efeito do real” até “o fator econômico do romance” (cf. RAMOS, 1980, p.253-259)[iii], que o materialismo dialético de Graciliano formula, revelando sua atilada coerência entre a prática da construção estética e a reflexão ensaística. É o que lembra a declaração de Graciliano, em Viagem, a respeito da sugestão, que ouvira há anos, de utilizar os camponeses do Nordeste num romance:

 

Apesar de sertanejo, achava-me incapaz de fazer isso, e antes de viver com esses homens na cadeia, dormindo nas esteiras podres e dividindo fraternalmente os percevejos, não me arriscara a aceitar o conselho. (1984c, p. 134) (cf. PINTO, 1962, p. 174; REIS, 1993, p. 62-73)

 

O tema atravessa Memórias do cárcere sob variados aspectos, como a percepção de que suas “prerrogativas bestas de pequeno-burguês” tinham acabado, quando o tenente vingativo veio prendê-lo, ou quando o estivador Desidério repele cortante suas propostas (1985a, v. I, p. 48, 157, 251, 321). Entretanto, sabemos que pôde aprender a sensibilidade dos desvalidos desde a infância, sempre segregada do aconchego dos pais, substituído pelo acalento das figuras populares dos empregados, como José Baía e o vaqueiro Amaro (cf. RAMOS, 1979, p. 24-25), figuras recorrentes na obra, espelhadas por personagens fictícios ou mencionadas pelo nome. José Baía canta para Luís da Silva (2000, p. 142 e 188) o que canta para o menino de Infância (1984b, p. 12), que é o que canta Casimiro Lopes para o filho sem mãe de Paulo Honório (1985b, p. 136):

 

Eu nasci de sete meses

Fui criado sem mamar

Bebi leite de cem vacas

Na porteira do curral.

 

Mas o mais significativo em relação ao sobe-desce no experimento das classes, que ele resume em três, de acordo com a disposição marxista – o burguês, o pequeno-burguês e o proletariado, e com elas esgota sua ficção, é o depoimento a respeito da formulação de Vidas secas, quando indica a origem de Fabiano, Sinha Vitória e os dois meninos – além de Baleia, inspirada na cachorrinha Piaba, cuja morte o menino impressionável testemunhou na fazenda de Maniçoba, dos avós maternos:

 

Transformei o velho Pedro Ferro, meu avô, no vaqueiro Fabiano; minha avó tomou a figura de Sinha Vitória; meus tios pequenos, machos e fêmeas, reduziram-se a dois meninos. (apud RAMOS, 1979, p.25 e 124)

 

            Assim, o lado materno, o mais poderoso da família, que humilha Sebastião Ramos, oprimido também pelos próprios parentes sempre vigilantes de seu desempenho, é rebaixado radicalmente por Graciliano, de modo a causar estranheza à filha, ciosa dos brios antepassados, incrédula de que na ficção experimentem a relatividade histórica a que o pai os submete, animado pela crença revolucionária de que o mundo fixo possa ser revirado:

 

Não vemos maneira de concretizar o louvável desejo de descender do herói de  Vidas secas, e comprimir na pele desassossegada de Fabiano esse avô grande e próspero, “o olho azul perdido na capoeira familiar”, sereno tanto no inverno quanto no verão, porquanto proprietário de terras em abundância, açudes e bois difíceis de juntar, espalhados na caatinga. O mais provável é que a personalidade realmente férrea de Pedro Ferreira Ferro tenha contribuído para a confecção de Fabiano com caracteres físicos e sua terrível resistência, entrando Amaro com a maioria restante.

 

Clara Ramos indica a genealogia do autor: pelo lado materno, prósperos criadores de gado, seu avô Pedro Ferro é o patriarca que conserva a propriedade e a autoridade na família, e, pelo lado paterno, senhores de engenho arruinados (1979, p.24), o avô Tertuliano, natureza sensível e recolhida, com quem o neto sem saber aprendeu a fazer romances, vendo o seu fabrico caprichoso, rústico e pessoal de urupemas, a que se refere em Infância[iv]. Aí, Graciliano relembra a mudança para Viçosa, onde o pai continuava a esforçar-se demais por “aguentar-se e trepar”. Com vertigens e síncopes, desacordava, e os filhos se alarmavam, chorosos:

 

Levantava-se e revivia, continuava na faina de subir, nivelar-se aos parentes enraizados na lavoura. Alguns iam visitar-nos, duros, tesos. Findas essas cerimônias, meu pai caía num abatimento profundo. Às vezes se deitava, enrolava-se nos cobertores, desalentava-se, em tremuras, anunciava aos gritos que ia morrer. Vinha o Dr. Mota Lima, dava-lhe um vomitório de substância, encorajava-o pregando-lhe os óculos grossos de míope. O doente se envergonhava daquele barulho – e horas depois lisonjeava os proprietários, colaborava na política. (1984b, p. 173-174)

 

            A condição primitiva do capitalismo brasileiro não abranda a qualificação insultuosa à atividade de literato como “indecente meio de vida” (RAMOS, 1980, p. 194), ainda que aí pragmatismo e pulso vencedor impostos pela ideologia burguesa do trabalho estejam restritos a uma geografia mais próxima do bucólico no país dos bacharéis que da exploração de mais-valia na indústria. Entretanto, exemplo mais forte que o governador Álvaro Paes, divulgava-se pelo sertão a figura lendária de Delmiro Gouveia (cf. RAMOS, 1976, p. 113-116), que, fora da regra, levara de maneira arrojada a industrialização para o interior alagoano: dentro da verossimilhança possível a Viçosa, foi certamente o modelo para a elaboração do personagem Paulo Honório e da fazenda com movimentação de “presépio animado” (PINTO, 1962, p. 71), organização agroindustrial quase impensável para o tempo e o lugar, se não fosse a proximidade do contraexemplo geométrico e autoritário de Delmiro Gouveia.

            O demissionário desajuizado, que se dá ao luxo de repulsa à burocracia autoritária do novo regime e o direito a encrespações éticas contra o mundo maleável do cavador Evaristo Barroca, de Caetés, volta desempregado da Diretoria da Imprensa Oficial no raiar de 1932, de Maceió para Palmeira dos Índios, sob os olhares do sogro, do pai e da esposa grávida de uma talvez Clara: pai de família de quatro filhos do primeiro casamento e das duas crianças deste, Ricardo e Luísa. Sempre vacilante quanto a abandonar o chamado magnetizante para a literatura, deixara de vez, como tinha prometido nas cartas, seu vício para o “indecente meio de vida” ao voltar fracassado do Rio em 1915. Depois, viúvo, com as escapadas para o jornal O Índio em 1921, acabara por entregar os pontos pelos idos de 1924.

Agora, recolhido à sacristia da igreja do padre Macedo, ocorre um curto-circuito significativo entre a biografia e a estética da criação literária. Ele procura um modo de vencer na vida: como escritor – um interdito, que quer transgredir e compensar pelo renome. Contra a irresponsabilidade improdutiva, condição intensificada pela presumida falência do primeiro romance ainda empacado com Schmidt, o literato fantasia o pragmatismo de Paulo Honório, que tem muito do seu estilo, para atender literariamente a cobranças contra a literatice, como a que o governador Álvaro Paes lhe fazia em 1930, referidas à Ló em meio à revolução e ao aprimoramento de Caetés, em 10 de outubro: plantar mamona: “Se eu não fosse tão burro, já estaria esgaravatando a terra e criando porcos”(1994, p. 116). A personalidade generosa do amigo governador, dinâmica, empreendedora e incansável, que “aumenta a produção, abre estradas magníficas, povoa regiões desertas”, é homenageada com simpatia em crônica de 1930, com seu nome no título:

 

Às vezes Álvaro Paes encontra no sertão alguns sujeitos pedantes, abominavelmente sabidos, [...] em leituras inúteis. Não se perturba. Fala em Anatole France, em Renan e na Grécia. Depois, com sagacidade, vai metendo na conversa, em doses adequadas às circunstâncias, agricultura, pecuária, bancos e açudes. (1980, p. 90)[v]

 

O ex-prefeito, cuja temporada pragmática provou bem sua capacidade empreendedora, confessaria depois de consagrado como escritor que essa espécie em que ele se degenerou só é capaz de fazer alguma coisa no papel: “Diante do papel é tudo: pinta o sete, mata, esfola. Tirem-lhe a pena e o tinteiro – desarmam-no”(1980, p. 102)[vi]. Na recaída literária canalizou a ação de sua dinâmica administrativa para o tom dos relatórios, tom que Paulo Honório repete dois anos depois, praticamente ipsis litteris, através do estilo fazedor de “o resto é bagaço” (1985b, p. 77-78): afinal, nada mais que o estilo de Graciliano Ramos, que rompe com a empolação bacharelesca atendendo às exigências pragmáticas da modernidade burguesa e carregando nisto sua antítese contra as brumas mistificadoras do capital.

O período de inoperância será providente para a realização da obra, antes que um novo interventor, Capitão Afonso de Carvalho, mistura de militar e literato (cf. RAMOS, 1979, p. 85), cometesse a nomeação dele para Diretor da Instrução Pública em 1933, um “disparate administrativo”, segundo Graciliano, “que nenhuma revolução poderia justificar” e, certamente, a ponte definitiva para levá-lo à prisão em março de 1936, pois seu novo acesso de pragmatismo conduziria o Estado às raias de uma revolução educacional, modestamente circunstante mas inédita no país (cf. RAMOS, 1979, p. 84-89).

Da sacristia da enorme matriz de Palmeira dos Índios, em 1932, virão as conversas, na capela de S. Bernardo, entre Paulo Honório e, às vésperas do suicídio, Madalena. Clara Ramos procura entender como das mãos lisas e longas do pai nasceram aquelas peludas e calejadas do narrador. Alude a uma meia-noite inconfessável do lado sombrio dos antepassados e a tendências culposas como a da morte de sua primeira mulher (1979, p. 76-77). Graciliano confessa no depoimento “Paulo Honório”, em 10 romancistas falam de seus personagens, que, de volta da cirurgia em Maceió, retomou a escrita em sua casa na rua do Pinga-Fogo, em Palmeira dos Índios:

 

ouvindo os sapos, a ventania, os bois de seu Sebastião Ramos. Às vezes meu pai me visitava carrancudo, largando uns monossílabos. A carranca e fragmentos de velhas narrações dele combinaram-se na edificação de Paulo Honório.(apud RAMOS, 1979, p. 79)

 

Mas em “Alguns tipos sem importância” tal contribuição é ligeiramente denegada:

 

É possível que esse sujeito reflita alguma tendência que no autor existisse para matar alguém, ato que na realidade não poderia praticar um cidadão criado na ordem e acostumado a ver o pai, homem sisudo e meio-termo, pagar o imposto regularmente.(1980, p. 195)

 

            A adesão aos valores capitalistas, entretanto, opera-se com o fingimento ficcional sob a forma da literarização, que simultaneamente procura atender no enredo à cobrança da ascensão, imposta pelo oposição cavador x literato, com a fantasia compensatória que encarna em Paulo Honório. O viés modernista da retórica do seco é antinômico, tanto quanto é capciosa toda a limpeza do ornamental imposta pela arte moderna. É um golpe de adesão e recusa que a autoria pratica, compondo num romance do futuro a projeção hipotética que percorre marxistamente os bastidores escabrosos do heróico avanço modernizante, nos termos da apologia do progressismo burguês no Manifesto comunista. Com isso cumpre a tarefa de realizá-la para catarticamente livrar-se dela, pelo prognóstico de seu fim, percorrendo o caminho antevisto do processo, graças à condição periférica que acredita na repetição dos esquemas históricos europeus.

A ambiguidade dialética do romance está em que o “fazedor”, figura da clareza simpática ao progressismo burguês, vitorioso contra a estagnação acanalhada da “literatice”, simultaneamente repassa pela literatura a escuridão das sombras de Fausto, a repulsa culposa e catártica às barbaridades daquele progresso. Não à toa, após ter escrito o capítulo XIX e durante a cirurgia em Maceió, Graciliano queria que lhe cortassem uma metade sua, podre, chamada “Paulo”, “essa estupidez” delirante que, em circunstâncias imprevistas, o prisioneiro elaborou sob forma de conto, quatro anos depois, na oficina de encadernação da Sala da Capela (1985a, v. II, p. 207-212).

            O conhecimento do velho Cordeiro dezessete anos antes de S. Bernardo levaria o literato a ir buscá-lo para a formulação de Seu Ribeiro, simbolizando, com a companhia e o consolo do senhor pobre e gentil, uma época falida, mas reduto perdido de humanidade acolhido pelo fantasma autoral do narrador, seu ex-companheiro e confidente de misérias nas salas de revisão do Rio: era o velho português que, recebendo, agora nesta inversão sugestiva, grata retribuição ficcional com um emprego decente, havia lhe arranjado lugar como revisor permanente em A Tarde. O fulcro do romance para a condução de Paulo Honório ao abismo são as escorregadas sistemáticas e contínuas da sensibilidade: o autor, enquanto supera e corrige o pai, fugindo da seca e sabendo escolher um local fértil como o da propícia Viçosa, faz uma fazenda que preste, ao mesmo tempo em que toma partido do lado paterno, pela delicadeza inútil do avô Tertuliano, que lhe ensinou a fazer, com estilo próprio, romances rústicos e fortemente articulados. Assim o “literato” desencaminha a trajetória pretensamente direta de sua outra metade dura, “pragmática”, a uma simpatia inexplicável e nostálgica pelo velho e empolado Seu Ribeiro, admonitória do destino trágico da ascensão capitalista, cuja crueldade havia solapado com precisão e indiferença aquele mundo antigo: “Para quê?” – pergunta Paulo Honório no último capítulo.


 

REFERÊNCIAS     

 

ABEL, Carlos Alberto dos Santos. Graciliano Ramos – cidadão e artista. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999.

 

CRISTÓVÃO, Fernando Alves. Graciliano Ramos: estrutura e valores de um modo de narrar. Rio de Janeiro: Brasília/Rio, 1977.

 

FELDMANN, Helmut. Graciliano Ramos – reflexos de sua personalidade na obra. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará, 1967.

 

LIMA, Yêdda Dias e REIS, Zenir Campos (coords.). Catálogo de manuscritos do Arquivo Graciliano Ramos. São Paulo: IEB, Edusp, 1992.

 

MERCADANTE, Paulo. Graciliano Ramos - o manifesto do trágico. Rio de Janeiro: Topbooks, 1994.

 

MORAES, Dênis de. O velho Graça. Rio de Janeiro: José Olympio, 1993.

 

PINTO, Rolando Morel. Graciliano Ramos – autor e ator. op. cit. Rolando Morel Pinto: Graciliano Ramos – autor e ator. Assis: Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, 1962.   

 

RAMOS, Clara. Cadeia. Rio de Janeiro: José Olympio; Secretaria Estadual de Cultura, 1992a.

 

––––––. Mestre Graciliano – confirmação humana de uma obra. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979.

 

RAMOS, Graciliano. Angústia. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 2000.

 

––––––. Caetés, Rio de Janeiro: Record, 1984a.

 

––––––. Cartas. Seleção das ilustrações, edição e apresentação de James Amado. 8 ed., ampliada. Rio de Janeiro: Record, 1994.

 

––––––. Infância, Rio de Janeiro: Record, 1984b.

 

––––––. Linhas tortas. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 1980.

 

––––––. Memórias do cárcere. 2v. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 1985a.

 

––––––. São Bernardo. Rio de Janeiro: Record, 1985b.

 

––––––. Viagem. Rio de Janeiro: Record, 1984c.

 

––––––.Viventes das Alagoas. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, Martins, 1976.

 

RAMOS, Ricardo. Graciliano: retrato fragmentado. São Paulo: Siciliano, 1992b.

 

REIS, Zenir Campos. Tempos futuros. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros. n. 35. São Paulo: USP-IEB, 1993.

 

SANT’ANA, Moacir Medeiros de. Graciliano Ramos antes de Caetés. Catálogo da exposição biobibliográfica comemorativa dos 50 anos do romance. Maceió: Arquivo Público de Alagoas, 1983.

 

 

 

___________________ 

Marcos Falchero Falleiros é professor de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, autor da tese de doutorado Ingenuidade e brasileirismo em Manuel Bandeira (USP, 1995).

[i]Ver também a aproximação de Márcio ao filho mais velho de Vidas secas em: MERCADANTE, Paulo. A morte de Baleia, 1994. p. 87.

[ii]Segundo a lenda, título sugerido por Augusto Frederico Schmidt, embora a obra ainda corresse o risco de um título trocadilhado, que chegou a figurar nas provas tipográficas, suprimido a tempo, com o trocadilho esvaziado pelo contexto específico ao nomear somente o penúltimo capítulo, em referência às aves de arribação: “O mundo coberto de penas”: cf. RAMOS, 1979, p. 129. Há outra versão sobre o título da obra: “Augusto Frederico Schmidt sugerira Vidas amargas, Graciliano pensara também Fuga, mas seria de Daniel Pereira, irmão de José Olympio e responsável pela editoração, o palpite vencedor.” (MORAES, 1993, p. 165)

[iii]Em Linhas tortas, publicado como “O fator econômico no romance brasileiro”. O título do manuscrito, porém, é significativamente universal, sem o adjetivo “brasileiro”(cf. LIMA; REIS, 1992, p. 153-154).

[iv]Ver em Helmut FELDMANN (1967) a subdivisão bifurcada do capítulo sobre a infância de Graciliano: 1. O Ideal do Patriarca na Figura do Avô Pedro Ferro; 2. O Ideal do Artista na Figura do Avô Tertuliano.

[v]Em Linhas tortas publicado sem indicação de data. Moacir Medeiros de SANT’ANA (1983, p. 33)  indica a data de 12-6-1930 para a publicação da crônica no Jornal de Alagoas, assinada com G. R..

[vi]Em Linhas tortas publicado sem indicação de data. A data do manuscrito, no IEB, “Jornaes”, é 16-9-1937 (cf. LIMA; REIS, 1992, p. 143).



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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 7 - teresina - piauí - outubro/novembro/dezembro de 2010] 
 

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