a música do êxtase: 4 poemas de San Juan de La Cruz Tradução de Wanderson Lima
noite escura Canções da alma que goza de haver chegado ao alto estado da perfeição, que é a união com Deus, pelo caminho da negação espiritual.
Em uma noite escura com ânsias de amores inflamada Oh! Ditosa ventura! Saí sem ser notada, Tendo minha casa já sossegada.
às escuras, porém segura, Pela secreta escada, disfarçada, Oh! Ditosa ventura! Na escuridão, velada, Tendo minha casa já sossegada.
Na noite tão ditosa, Em segredo em que ninguém me via, Nem eu olhava qualquer coisa, Sem outra luz ou guia Além da que no coração me ardia.
Aquela luz me guiava, mais ardente era que a do meio-dia Aonde me esperava Quem eu bem já conhecia, Num ponto onde ninguém aparecia.
Oh! noite, que me guiaste! Oh! noite, amável mais do que a alvorada! Oh! noite, que juntaste Amado com amada, Amada no amado transmutada!
Em meu peito florido Que, inteiro, para ele só guardava, Ali quedou-se, dormido, E eu lhe regalava – com o leque de cedro ar lhe dava.
Da ameia a brisa amena, Quando eu os seus cabelos esparzia, Com sua mão serena Em meu colo feria, E todos meus sentidos suspendia.
Esquecida, quedei-me, O rosto reclinei sobre o Amado: Cessou tudo – e deixei-me Deitando meu cuidado Entre as açucenas, olvidado.
noche oscura
Canciones del alma que se goza de haber llegado al alto estado de la perfección, que es la unión con Dios, por el camino de la negación espiritual
En una noche oscura con ansias en amores inflamada, ¡oh, dichosa ventura!, salí sin ser notada estando ya mi casa sosegada.
A oscuras y segura, por la secreta escala disfrazada, ¡oh, dichosa ventura!, a oscuras y encelada, estando ya mi casa sosegada.
En la noche dichosa, en secreto, que nadie me veía ni yo miraba cosa, sin otra luz y guía sino la que en el corazón ardía.
Aquesta me guiaba más cierto que la luz de mediodía, adonde me esperaba quien yo bien me sabía, en parte donde nadie parecía.
¡Oh, noche que guiaste! ¡Oh, noche amable más que la alborada! ¡Oh, noche que juntaste Amado con amada, amada en el Amado transformada!
En mi pecho florido, que entero para él solo se guardaba, allí quedó dormido, y yo le regalaba, y el ventalle de cedros aire daba.
El aire del almena cuando yo sus cabellos esparcía, con su mano serena en mi cuello hería y todos mis sentidos suspendía.
Quedeme y olvideme. El rostro recliné sobre el Amado. Cesó todo y dejeme dejando mi cuidado entre las azucenas olvidado.
glosa ao divino Sem arrimo e com arrimo sem luz, às escuras vivendo tudo em mim se vai ardendo.
A minha alma está despida de toda coisa criada e sobre si levantada numa saborosa vida só em meu Deus arrimada. Por isso já se verá a coisa que mais estimo que minha alma se vê já sem arrimo e com arrimo.
Inda que em trevas padeça na minha vida mortal não é tão imenso meu mal porque, se de luz careço tenho vida celestial; porque o amor dá tal vida quanto mais cego vai sendo que tem a alma rendida sem luz, às escuras vivendo.
Fez tal obra o amor depois que eu o conheci que, se há bem ou mal em mim tudo faz de um só sabor e a alma transforma em si; e em sua chama saborosa que a mim está vencendo apresta sem restar cousa: tudo em mim se vai ardendo.
glosa a lo divino
Sin arrimo y con arrimo, sin luz y oscuras viviendo, toda me voy consumiendo.
Mi alma está desasida de toda cosa criada, y sobre sí levantada, y en una sabrosa vida solo en su Dios arrimada. Por eso ya se dirá la cosa que más estimo, que mi alma se ve ya sin arrimo y con arrimo.
Y, aunque tinieblas padezco en esta vida mortal, no es tan crecido mi mal, porque, si de luz carezco, tengo vida celestial; porque el amor de tal vida, cuando más ciego va siendo, que tiene al alma rendida sin luz y a oscuras viviendo.
Hace tal obra el amor después que le conocí, que si hay bien o mal en mí, todo lo hace de un sabor y al alma transforma en sí; y así, en su llama sabrosa, la cual en mí estoy sintiendo, apriesa, sin quedar cosa, todo me voy consumiendo.
coplas ao divino Após amoroso lance, e não de esperança falto, voei tão alto, tão alto, que lhe dei, à caça, alcance.
Para que eu alcance desse àquele lance divino, tanto voar foi preciso que de vista me perdesse; e, contudo, neste transe no meu do vôo quedei falto; mas o amor me foi tão alto, que lhe dei, à caça, alcance.
Quando mais alto subia deslumbrava-se-me a vista, E a mais forte das conquistas em escuro se fazia; mas, por ser de amor o lance, dei um cego e escuro salto, e fui tão alto, tão alto, que lhe dei, à caça, alcance.
Quanto mais alto chegava deste lance tão subido tanto mais baixo e rendido e abatido me encontrava. Disse: Não há quem alcance; e abati-me tanto, tanto, que fui tão alto, tão alto, que lhe dei, à caça, alcance.
Por uma estranha maneira mil vôos passei de um só vôo, porque a esperança do céu tanto alcança quanto espera; esperei só este lance e na espera não fui falto: pois fui tão alto, tão alto, que lhe dei, à caça, alcance.
coplas a lo divino
Tras de un amoroso lance, y no de esperanza falto, subí tan alto tan alto, que le di a la caza alcance.
Para que yo alcance diese a aqueste lance divino, tanto volar me convino que de vista me perdiese; y, con todo, en este trance en el vuelo quedé falto; mas el amor fue tan alto que le di a la caza alcance.
Cuando más alto subía deslumbróseme la vista, y la más fuerte conquista en oscuro se hacía; mas, por ser de amor el lance, di un ciego y oscuro salto, y fui tan alto tan alto que le di a la caza alcance.
Por una extraña manera mil vuelos pasé de un vuelo, porque esperanza del cielo tanto alcanza cuanto espera; esperé solo este lance y en esperar no fui falto, pues fui tan alto tan alto que le di a la caza alcance.
Cuando más cerca llegaba de este lance tan subido, tanto más bajo y rendido y abatido me hallaba; dixe: «No habrá quien lo alcance». Abatime tanto tanto que fui tan alto tan alto que le di a la caza alcance.
chama de amor viva Canções da alma na íntima união com o amor Deus
Ó chama de amor viva, que ternamente feres de minha alma o mais profundo centro! Pois já não és esquiva, cessa já, se queres e rompe a teia deste doce encontro.
Ó cautério suave! Ó dadivosa chaga! Ó branda mão! Ó toque delicado, que a vida eterna sabe, e quanto deve paga! Matando, morte em vida tens trocado.
Ó lâmpadas de chama, em cujos resplendores as profundas cavernas do sentido, que escuro e cego clama com estranhos primores calor e luz dão junto ao seu Querido!
Quão manso e amoroso repousas em meu seio onde a sós secretamente tu moras e em aspirar gozoso de bem e glória cheio tão delicadamente me enamoras!
llama de amor viva
Canciones del alma en la íntima comunicación de unión de amor de Dios
¡Oh, llama de amor viva, que tiernamente hieres de mi alma en el más profundo centro! Pues ya no eres esquiva, acaba ya, si quieres; rompe la tela de este dulce encuentro.
¡Oh, cauterio suave! ¡Oh, regalada llama! ¡Oh, mano blanda! ¡Oh, toque delicado que a vida eterna sabe y toda deuda paga! Matando muerte en vida la has trocado.
¡Oh, lámparas de fuego en cuyos resplandores las profundas cavernas del sentido, que estaba oscuro y ciego, con extraños primores calor y luz dan junto a su Querido!
¡Cuán manso y amoroso recuerdas en mi seno, donde secretamente solo moras, y en tu aspirar sabroso, de bien y gloria lleno, cuán delicadamente me enamoras!
_________________________ San Juan de La Cruz (São João da Cruz) nasceu Juan de Yepes Álvarez, em Fontiveros, Ávila, Espanha, em 1542 e morreu Úbeda, Espanha, em 1595. Inspirado no livro bíblico O Cântico dos cânticos, produziu uma poesia de forte pendor místico e erótico, na qual se toma Eros como expressão de uma unificação última da alma com o Divino, engendrando uma forma de espiritualidade que borra a rígida distinção entre o sagrado e o profano. Como acentuou Dora Ferreira da Silva, “sua poesia se desenvolve no trânsito do Eros para o ágape”. Dámaso Alonso e Jorge Luis Borges o consideravam o maior poeta de língua espanhola de todas as épocas; sua influência no século XX se faz presente em poetas como T. S. Eliot e Murilo Mendes. Patrono dos poetas espanhóis e da teologia mística.
________________________ Wanderson Lima
é poeta e ensaísta. Professor de literatura da Universidade Estadual do
Piauí – UESPI e doutorando em Literatura Comparada pela UFRN. Autor,
entre outros, de Reencantamento do mundo: notas sobre cinema (amálgama, 2008), em co-autoria com Alfredo Werney.