Jesus e Javé

Luiz Felipe Pondé
 


BLOOM, Harold. Jesus e Javé: os nomes divinos. Trad. José Roberto O'Shea. Rio de Janeiro: Objetiva, 2006.



O novo livro de Harold Bloom, "Jesus e Javé", parece ser um exercício intelectual com grande carga subjetiva. Não há dúvida de que existe nele trabalho de scholar de crítica literária, ainda que em conflito direto com grande parte da fortuna crítica teológica ou filosófica especializada na área.

Apesar de não ser sua intenção explícita fazer teologia, "literariamente" faz afirmações com desdobramentos teológicos sérios: cristianismo e judaísmo seriam religiões radicalmente estranhas uma à outra (negação frontal do fundamento do messianismo cristão), e a chamada tradição "judaico-cristã" não passaria de um engodo, justamente devido a esse mútuo estranhamento.

Metodologicamente o livro entrelaça, às vezes de modo excessivamente ligeiro, um olhar histórico sobre Ioshua de Nazaré (esse judeu fracassado), uma abordagem desconstrutiva da figura teológica de Cristo (uma divindade que nada teria a ver com a figura enigmática do judeu Ioshua) e um encontro psicológico com a "alma" de Javé, esse ser tempestuoso que se exilou para criar o Universo.

Trata-se de uma confissão de um "judeu gnóstico" de 74 anos que, às vezes, desperta à noite, melancólico, desce as escadas em silêncio para não acordar a mulher e se põe a pensar: Javé é um ser ficcional ou real? "Pouco importa", responde ele para si mesmo e para o leitor (ou leitora, dependendo do seu lugar em relação à pressão institucional dos gêneros), mesmo se for ficção, "não consigo me libertar de Javé".
Ainda que ao final diga que não "acredita em Freud", a asfixia hermenêutica da psicanálise está presente em sua análise: Javé parece ser uma figura antes de tudo acometida por desesperos e dúvidas, e ele, o autor, submetido à presença de uma herança judaica que, embora laica, carrega em si a perenidade da qual ninguém escapa (aliás, objeto sério de reflexão da teologia da eleição do povo de Israel). Como Hamlet diante da visita de seu pai.

Evidentemente que uma "confissão gnóstica" sempre implica um alto grau de reconhecimento do mal: no princípio era a crise.


Sem sutileza

O estilo, usual, vai de Jesus a Hamlet, de Javé a Oscar Wilde num salto. Mesmo que haja aqui uma indicação evidente de repertório, o salto fere a sutileza necessária para caminhar num campo minado como as origens histórica e teológica do monoteísmo semítico.

A forma como Bloom relata suas conclusões e escolhas temáticas sobre esses "maiores personagens" do Ocidente não é de modo algum monótona ou imparcial. Para quem conhece, por exemplo, a narrativa dramática da chamada escola luriânica da Cabala tardia, considerada pelos historiadores da religião (Scholem) como gnóstica devido ao pessimismo cosmológico que apresenta, sabe que esse Javé feito "Ein-sof" ("Sem-fim") é uma figura que se aproxima do sincretismo neoplatônico e que vaga entre o mistério e a dor.


Polêmica datada

Contra Bloom, valeria indagar se essa não seria uma forma de revisitar o conceito de "Paixão de Deus". O retorno à polêmica do século 19 (da qual figuras de peso como Nietzsche participaram) contra a validade do "Cristo de Paulo de Tarso" – esse "marqueteiro" do platonismo para pobres chamado cristianismo – permeia grande parte de sua negação da existência de conexão entre o homem crucificado em Jerusalém e a entidade greco-romana de Cristo construída ao longo de intermináveis controvérsias bizantinas.

Para Bloom, Ioshua estaria muito mais próximo do humano, demasiado humano Javé do que do plácido Cristo, cujo "abba" (seu Pai no Céu) seria uma pálida e esquálida representação do Criador hebreu. "Jamais Javé cometeria suicídio", afirma Bloom, e o Pai de Cristo, ao lado do restante de seu panteão politeísta (Filho, Espírito Santo e a Imaculada Virgem "théotokos" – a mãe de Deus), é muito mais um conceito do que uma pessoa que se mete continuamente na vida de seus atormentados eleitos.

Ao final, talvez devêssemos escutar a respiração insone desse judeu intelectual apaixonado por Shakespeare, o "inventor do humano", e se perguntar por que razão ele afirma que sem Javé (ainda que confesse "não confiar na Aliança") flertaríamos com um cosmos que seria "uma máquina entrópica".

A entropia pode ser um conceito dramaticamente real quando olhamos a dança macabra dos seres humanos fabricando a desordem em meio ao mundo, mas a infelicidade nunca foi argumento contra uma verdade possível. A experiência humana na Terra pode ser a de uma simples pedra que um dia despertou em meio à longa noite da matéria (como diria o filósofo alemão Hans Jonas [1903-93], "outro judeu gnóstico") e cunhou o termo solidão para descrever o silêncio que ouviu. Bloom parece estar atento, buscando identificar alguns passos dentro dessa longa noite.


[Publicado originalmente na Folha de São Paulo e reproduzido aqui com a autorização do Autor.]


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Luiz Felipe Pondé é filósofo, professor da PUC-SP e da FAAP. Autor, entre outros títulos, de "Crítica e Profecia – Filosofia da Religião em Dostoiévski" (ed. 34) e "Do Pensamento no Deserto – Ensaios de Filosofia, Teologia e Literatura" (Edusp, no prelo).



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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/agosto/setembro de 2010]
 
 

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