3 poemas de
Dirceu Villa





sum. Pont.

quem não es-
tranha até às en-
tranhas
o beatífico
emburrado entre as duas
metades
do pão — a fé
o ‘stado. dá-lhe deus
as duas mãos
& o quê
mais?
seu cadáver
verazmente ex-
pandindo-se/ corpo-
óstia: finito
& sem limites.
dos velhos
artelhos  em  artrites
aos
inchaços numa arte
heresiarca
se deve o que ouve
ou se devolve
ovo-alvo
diz-se a deus
ou
adeus
?



porta afora : pé na estrada


o espírito oprime: sair.
cem bocas, nuvens do céu
expiram flamas
na carnadura da terra
onde incham galhos e frutas explodem
doçura na terra.
trens tremem engates, jóias
aos olhos, devoram paisagens rurais
antebraços fincando em janelas
e o ar foge ao peito
supremo prazer dos dois pés
pistões macerando o úmido verde
que cheira vida esmagado
num suco nas solas.
extensão dos cabelos, estrelas:
o rico, se mesmo tem bolsos vazios.



breve manual do prestidigitador

que a vida não se pega como a um corpo
e desliza logo onde é suave,
dizem sempre: é como um sopro
e surgem
indícios onde plantam casas
dentro e fora
como notas musicais ou mesmo
imensas nuvens condensadas.

que alguém lhe aplique cores
como a um quadro,
é sempre certo: alguns um rio, outros deserto.
sempre dizem com palavras
que, por folhas,
já se abrem muito verdes,
amarelam e logo
caem.

eles trazem muitos jogos,
mesas, cartas e no chão
dispõem os dados:
o que compram é cartão
e nunca resta; uma festa, a ocasião
inventa roda onde há arestas.

eles têm bolsos e compassos,
    medem o medo com tijolos
e os nomes movem deuses
em florestas já vazias;

    quem e por que lhe deu o que lhe é dado
? o indiferente filho de homem só,
o acaso.
    sob as sombras há quem ria,
pernas doces da alegria: este é o passo
mais difícil:
virem todos
    pra outro lado.


 


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Dirceu Villa. Nasci em 1975. Publiquei a duras penas três livros de poesia: MCMXCVIII (Badaró, 1998), Descort (Hedra, 2003) e Icterofagia (Hedra, 2008). Traduzi & anotei um livro de poemas de Ezra Pound, Lustra, em 2003; não obstante, segue inédito. Publiquei ensaios, traduções & otras cositas neste Brasil, no México, nos EUA & no País de Gales. Escrevo o blog O Demônio Amarelo no esquema otium cum dignitate.


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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/agosto/setembro de 2010]
 
 

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