I
estou gasto
como aquela palavra que
parece
vã [avulsa]
dispensável última
embora sempre a primeira
como na deriva:
qualquer passo é inaugural
mas nenhum horizonte é como
antes
estou posto
mesa limpa ossuda
ou vasta
nem mesmo corto as aparas e me
recomponho com a mesma
sombra
simulação para quem vier beijar a
lona do desprendimento
mas é só escuridão
braço cansado da própria carne
busco a liquidez dos mares que não precisam mais
responder a nada
ou
lixar a pele como se
o sangue fosse
dizer
quais circuitos
quais?
estou curto
num porto
num corpo aberto
[o antibarco também vai
a ave cursora também
voa
no semcéu]
num marco
apenas calculo a distância
sal e pausa
há tantas oficinas de desejos
[na curva
a fera óbvia
não existe e
observa]
ver apenas
como antiguepardo
estou perto
menos corpo
sou passagem
mas não quero a existência [nome de insistir]
[the lifer soterrado]
quero a demora
pulsação nula do cataléptico
luz pelo espaço sem ter onde chegar
alcanço meu dente meu livro meu metro
meu meio
alcanço o voo cego e a
cinza plena de
recortes
nome de inúmeras quedas
instalo a roupa
o signo isola
nenhum filho se arremessa a meus pés
não há felicidade na metáfora
e ainda que não fosse breve poeira a cinza que paira
sobre os móveis
onde as digitais dos pratos dos copos do garfo
envelhecem um jantar
ainda assim seu olho-em-pó me via
vulto
vulto que eu retocava com insetos macios de
concentração
corpo que eu contraía
infecção
colagem
[não há felicidade na insistência?]
não era rosto
não eram
braços
não era gesto
sequer um invento de eletrochoques e suores e mucosas
nuvem tóxica
árvore de esquecimento
vulto que eu retocava com insetos macios de pronomes
mas os insetos foram saindo
buscando a flor diversa que nunca vi
[estou vazado]
os ciclos dos voos
romperam os quase horizontes
e em meu olho em que quase nunca era dia
amanheceu
como o silêncio do tempo polar
o olhar do suicida convicto quando olha o
mundo e já não o nomeia
olhar de quem está morto
e seu coração ainda bate num corpo de si esquecido
ou queda
quase não é dia no meu olho
passei por uma porta escura
os pontos negros
em cada poro
são secas partículas de não
um tambor também seco marca ao longe
não sei o que seja
estou isto
II
para Eduardo Moura
(autorretrato com flor imprópria)
com a espátula
raspa a massa do alto da testa
ao queixo
sem nariz
sem dentição
que a cara é essa contracapa
parte de dentro da casca do ovo
em chama rubra queime o lóbulo
flor
mandarim improvável
cabeça decepcionante
merece moldura
absurda intenção esferóide
górgona [medusa de
1015 pincéis]
um rim e me debruço à janela
meu quadro clínico exuberante sorriso fantasma
dorme sedada nos alvéolos das tintas
erwartung
a morcega de schöenberg na floresta destroncada
circuito
III
meu cão meu sono meu modo
meu roubo
asa
meu saldo meu sexo
pâncreas verbo metro meu fraco
meu lado
meu próximo plural
sangue
sal
monstro
meu corte remo livro
meu livro que ficou entre tatuagem e
pássaros pobres empoleirados
meus dizeres — por assim não dizer
estou morrendo
morrendo agora
escrevam tudo
eu escrevi tudo
disseram que o céu — que só muito treme com
a orgia
de aviões e mais nada — estremeceria quando o
verso o riscasse
meu livro que ficou entre a raia e o atleta
e a cinza de lumière
há uma floresta na sexta página — mesa de camelot —
aquela maçã
e dentro um código de barras
por que ninguém quer comê-la?
estou morrendo
meu cão late um verso meu deus cobra caro
a página estala há brasas nas letras
assoprem
o tigre se foi e os rastros são isto: passado
meu lacre meu susto meu velho verso
meu lado do papel é outro
IV
cair
servir-se onde há fogo
cuspir um número aberto
círculos
todo céu possível
cabe nos vidros daquele
edifício
traçado na asa da cena
e a
asa
é uma teia
cada vez que
nada for
a vez serão as garras de
seu último fóssil dos saltos
recolher as mãos
[você as perdeu demais]
seu sonho dínamo
avesso
ficou lá
batendo a cabeça nos pregos
da travessia
abismo um afago de mãe cega
mas não precisa acreditar
a asa
uma teia
desatino do voo
alguns de seus avatares ainda riscam
os livros
jogam o jogo vago de respirar a nenhuma dor do
tempo
na omoplata colateral
do sonho
o sinal de
onde aplicaram
um sedativo
silêncio do número
a cor do sonho é depois
não quebra não rasga
o cabelo cai e em cada um há tinta crespa
de sonho
seus inimigos de cabeceira velam
quando
é
noite
uma pergunta pousou na escuridão — só eles a veem
o judas lúdico impacienta-se no corredor
quer ver o filho morto
mas você dorme
as falas coalhadas a meio metro
do chão
a asa é
ficção
arquitetura de ar
como escrever
e buscar sempre um corpo maduro
que caiba
o enorme inseto laranja
pendula
seu ex-voo antigo
epigrafa o tempo
era um ovni?
quebrar uns copos na parede
ovnis cruzando o vácuo do quarto
sílabas de arritmia
escorrem
duplicam as paredes
o coágulo de seu olho na leitura apócrifa
era um ovni?
o morcego do remorso tem náusea ao menor sabor de
sangue
no pobre lábio
inscrever o corpo entre vãos
gritar no labirinto
ir patético
é seu hotel
você pele papel-vegetal em que
narraram a unhadas
os velhos pais a lascívia de sua distância
há um antigo inseto na lâmpada queimada
de seu desatino
ficou lá
e silencia
quando
você chega
o tempo nunca lhe foi selvagem o suficiente
suas páginas debulhadas
crespas
a bolha do olho
sólida
como se
tivesse relido o manual de civilidade do século XVI
e andava
um rasgo colateral
fantasma por onde eu fosse
possibilidade
nos pés as glândulas febris dilatam
o chão
antônimo
caminhar e suas estrias
escravas da procura
o chão
estreito em que solta pedaços
um braço um rim um começo
ali na imensa cólica da cifra
intacto descontorno
mediúnico
retalhos de mapas
asa epicena
asa sem tempo asa que nunca dorme
com sua leveza soterra de
origamis desfeitos
a cor indecorosa das cabeças
do alto rastreia a sombra dos que inscrevem o corpo
entre vãos
o algoritmo de tanto voo trinca a cerâmica
celeste dos sem futuro
alto demasiado alto
seu silêncio atravessa
meu olhar de bípede
asa de outras vidas
nuns dias pressinto que
está pousada em mim
cair
e mesmo dentro sempre deste quarto
essa deslocalização
estrela em sua testa
V
estou de pé
meu torso de homem médio respira entre alguns
│músculos
meu torso de homem digerível pressente
qualquer notícia
estou de pé
os braços decepados
comprime um pouco meu diafragma esse outro homem
│de gesso
que dorme aqui dentro desde a grécia
e espera não sei que rebento
não sei que gravidade
continue dormindo
apenas de pé
e os detritos do que explode nem os posso tirar dos
olhos
se ainda há colinas estão cobertas de fuligem
meus amigos passam ao largo
também desmembrados
sem histórias que me contem
uma cidade nos nomeia e está exausta
mas esse jardim de sal em que nossos corpos ilustram
│os dias
não existe o suficiente
arrepia-se ao vento meu torso mutilado
os braços os braços cortados não acenam velhos
│golpes
buscam despetalar rosas de longe
rosas que nem vejo
algumas com cheiro de gasolina cal
muito depois de todas as colinas
depois das roseiras e suas carnes pisoteadas
nossos braços serpentes cegas
contorcem gestos que ninguém vê
e nem ainda é noite
VI
vim nesta hora da noite
hora ampliada poro de um deus
cronietzsche
vim fantasmal assombrar um poema qualquer
dou com a cara no aço
poema não há
vim arrancar escritos da dicção página
extraí-los com as unhas
os barulhos de quem ainda não é vivo e não é morto
seu hálito venéreo
vim nesta hora lambê-lo anjo de avulsa assepsia
poema não há
sequer sua placenta
este imponderável
sem peso
eletricidade
vim nesta vaga nocturna
escavar o sonho ao contrário
baforadas de sono comprimem meu crânio
esmaga-o no
travesseiro do século imaginário
o poema era fóssil mas gasoso implodiu
o subsolo do papel
vim nesta hora aberta
alheio aos outros seres noturnos
azeitar as dobradiças do desamparo
VII
não sou meu nome
mapa
nem o da sina alheia
estrela de repulsa
a descoberto
casca
se é branco meu nome
se multidão e sua fome
meu nome me come
ausência que está no lugar de um pronome
não sou
nem o nome de frida kahlo
[onde a coragem de
deitado
atear fogo na cama cortar a barriga
para olhar o dentro?]
nem o nome de ícaro
falta filtro solar
fator zeppelin
meu sicrano se clona para ver pessoa na lona
é lua cinza em torno do planeta véspera
seus anéis tribais códigos estratos
nem tempo para escrever na areia
e perder o escrito quando o mar vem ler
meu nome é só madeira numa porta de silêncio
roupa-musgo
repousa sob a vigília de um pronome à sombra oblíqua
triste caso reto
VIII
proclítico
isômere ombro a ombro
sua pele
mal suporta
o que de dentro
desadentra
última pétala
sua língua
arrancaram-na e então
resta-lhe ser
isômere
a américa vem enquanto dorme
os olhos são todas as cores e
nenhuma
e nem era você que ia
mas o pressentimento
peixe turvo
eunuco
eu nunca
eutanásia
fariseu
seu fígado em patê
nos pães dos prometeus
que não
cessam de
nascer
IX
isso sem nome
que nem pássaro
nem medo
serpente vermelha das artérias
ou vida como cantam
é ir andando
sem pássaro
sem cálice
sem metáforas ao passar pelo deserto
esqueçam a serpente
o acrílico dos dias
[abrem-se asas negras
bélicas tentativas de ejeção]
o esperma tóxico semanal
nuvens de nuvens
mas não é isso
matar o negro pássaro
cair
mas não é ainda isso
encontrar as mesmas palavras
é deitar-se ali [estou vasto?]
sob essa árvore de esquecimento
até que uma única esfinge
entre o limo e o glacial do tempo
se multiparta
corpo aos pedaços
e já corpo não é
mas vácuo mantido a musgo
e quem maldisse o pássaro
e quem blindou a alma
quem pedra
quem se calou
não sentiu o rugido
na quanta floresta sob a pele
o coração é um vampiro
o que afinal dirão
do poema que ninguém fez
do poema que ninguém errou?
[ver pela sombra que o
pássaro
vai pousado no ombro]
caminho aberto
recorte ao trigal
de esquecido arrepio dos corvos de van gogh
nuns dias sou apenas asa
sem corpo