dédalus vago
Alexander Nassau





I

estou gasto
como aquela palavra que
parece
vã [avulsa]

dispensável              última
embora sempre a primeira
como na deriva:
               qualquer passo é inaugural

mas nenhum horizonte é como
antes

estou posto
mesa limpa ossuda
                    ou vasta

nem mesmo corto as aparas e me
recomponho com a mesma
sombra

simulação para quem vier beijar a
lona do desprendimento

mas é só escuridão

braço cansado da própria carne

busco a liquidez dos mares que não precisam mais
responder  a nada

ou
lixar a pele como se
o sangue fosse
dizer
quais circuitos

quais?

estou curto
num porto
num corpo aberto
[o antibarco também vai
 a ave cursora também
                               voa
no semcéu]

     num marco

apenas calculo a distância
                        sal e pausa
há tantas oficinas de desejos
                               [na curva
                                a fera óbvia
                                não existe e
                                observa]

ver apenas
como antiguepardo
                                             estou perto

menos corpo
sou passagem
mas não quero a existência [nome de insistir]
[the lifer soterrado]
quero a demora

       pulsação nula do cataléptico
       luz pelo espaço sem ter onde chegar

alcanço meu dente meu livro meu metro
meu meio
alcanço o voo cego e a
cinza plena de

recortes

nome de inúmeras quedas

instalo a roupa
o signo isola
nenhum filho se arremessa a meus pés

não há felicidade na metáfora

e ainda que não fosse breve poeira  a cinza que paira
    sobre os móveis
onde as digitais dos pratos dos copos do garfo
envelhecem um jantar
ainda assim   seu olho-em-pó me via
vulto
vulto que eu retocava com insetos macios de
 concentração

corpo que eu contraía
infecção

colagem
[não há felicidade na insistência?]

não era rosto
não eram
braços
não era gesto
sequer um invento de eletrochoques e suores e mucosas
nuvem tóxica
árvore de esquecimento

vulto que eu retocava com insetos macios de pronomes
mas os insetos foram saindo
buscando a flor diversa que nunca vi
[estou vazado]
os ciclos dos voos
                            romperam os quase horizontes
e em meu olho   em que quase nunca era dia
amanheceu
                   como o silêncio do tempo polar
o olhar do suicida convicto quando olha o
mundo e já não o nomeia
olhar de quem está morto
e seu coração ainda bate num corpo de si esquecido

ou queda

quase não é dia no meu olho
passei por uma porta escura

os pontos negros
                    em cada poro
são secas partículas de não

um tambor também seco marca ao longe
não sei o que seja

estou isto


II

para Eduardo Moura

(autorretrato com flor imprópria)
com a espátula
raspa a massa do alto da testa
ao queixo

sem nariz
sem dentição
que a cara é essa contracapa
parte de dentro da casca do ovo

em chama rubra queime o lóbulo
flor
mandarim improvável

cabeça decepcionante
                             merece moldura
absurda intenção esferóide
górgona [medusa de
                               1015 pincéis]

um rim e me debruço à janela
meu quadro clínico exuberante sorriso fantasma
dorme sedada nos alvéolos das tintas
erwartung
a morcega de schöenberg na floresta destroncada

circuito


III

meu cão      meu sono      meu modo
                                                  meu roubo
asa
meu saldo      meu sexo
pâncreas      verbo      metro      meu fraco
meu lado

meu próximo plural
sangue
sal
monstro
meu corte      remo      livro
meu livro que ficou entre tatuagem e      
                                    pássaros pobres empoleirados
meus dizeres — por assim não dizer
estou morrendo
morrendo agora
escrevam tudo

eu escrevi tudo


disseram que o céu — que só muito treme com
a orgia

de aviões e mais nada — estremeceria quando o
                                                    verso o riscasse
meu livro que ficou entre a raia e o atleta
e a cinza de lumière

há uma floresta na sexta página — mesa de camelot —
                                                                  aquela maçã
e dentro um código de barras
por que ninguém quer comê-la?
estou morrendo

meu cão late um verso meu deus cobra caro
a página estala               há brasas nas letras
assoprem

o tigre se foi e os rastros são isto: passado
meu lacre      meu susto      meu velho verso
meu lado do papel é outro


IV

cair

servir-se onde há fogo
cuspir um número aberto
círculos

todo céu possível
cabe nos vidros daquele
edifício
traçado na asa da cena

e  a
asa
é uma teia

cada vez que
      nada for
a vez serão as garras de
seu último fóssil dos saltos

recolher as mãos
       [você as perdeu demais]
seu sonho dínamo
avesso
ficou lá
batendo a cabeça nos pregos
                                   da travessia
abismo um afago de mãe cega
mas não precisa acreditar

a asa
uma teia
desatino do voo

alguns de seus avatares ainda riscam
os livros
jogam o jogo vago de respirar a nenhuma dor do
                                                                    tempo

na omoplata colateral
                            do sonho
o sinal de
onde aplicaram
um sedativo
silêncio do número
a cor do sonho é depois
                          não quebra não rasga

o cabelo cai e em cada um há tinta crespa
                                                  de sonho
seus inimigos de cabeceira velam
quando
é
noite
uma pergunta pousou na escuridão — só eles a veem
o judas lúdico impacienta-se no corredor
quer ver o filho morto
                        mas você dorme

as falas coalhadas a meio metro


do chão


a asa é
ficção
arquitetura de ar
    como escrever

e buscar sempre um corpo maduro
que caiba


o enorme inseto laranja
pendula
seu ex-voo antigo
epigrafa o tempo
                                               era um ovni?

quebrar uns copos na parede
ovnis cruzando o vácuo do quarto
sílabas de arritmia
escorrem
duplicam as paredes
o coágulo de seu olho na leitura apócrifa
era um ovni?

o morcego do remorso tem náusea ao menor sabor de
                   sangue
no pobre lábio

                             inscrever o corpo entre vãos
gritar no labirinto
ir patético
é seu hotel
você pele papel-vegetal em que
                    narraram a unhadas
os velhos pais a lascívia de sua distância
há um antigo inseto na lâmpada queimada
de seu desatino
ficou lá
     e silencia
     quando
     você chega

o tempo nunca lhe foi selvagem o suficiente
suas páginas debulhadas
crespas
a bolha do olho
                sólida

como se
tivesse relido o manual de civilidade do século XVI

e andava
um rasgo colateral
fantasma por onde eu fosse
possibilidade


             nos pés as glândulas febris dilatam
                                                          o chão
antônimo
caminhar e suas estrias
escravas da procura
o chão
               estreito em que solta pedaços
               um braço um rim um começo

ali na imensa cólica da cifra
intacto descontorno
       mediúnico
retalhos de mapas

asa epicena
asa sem tempo asa que nunca dorme
com sua leveza soterra de
origamis desfeitos

a cor indecorosa das cabeças
     do alto rastreia a sombra dos que inscrevem o corpo
     entre vãos

o algoritmo de tanto voo trinca a cerâmica
celeste dos sem futuro
alto demasiado alto
seu silêncio atravessa
meu olhar de bípede


            asa de outras vidas
            nuns dias pressinto que
    está pousada em mim


cair

e mesmo dentro sempre deste quarto
essa deslocalização
estrela em sua testa


V

estou de pé
meu torso de homem médio respira entre alguns
│músculos
meu torso               de homem digerível pressente
                                                      qualquer notícia
estou de pé
os braços decepados

comprime um pouco meu diafragma esse outro homem
│de gesso
                         que dorme      aqui dentro desde a grécia
                         e espera não sei que rebento


                        não sei que gravidade

continue dormindo

                                                                      apenas de pé
e os detritos do que explode nem os posso tirar dos
olhos
se ainda há colinas estão cobertas de fuligem
meus amigos passam ao largo
também desmembrados
sem histórias que me contem


uma cidade nos nomeia e está exausta
mas esse jardim de sal em que nossos corpos ilustram
│os dias
não existe o suficiente

arrepia-se ao vento meu torso mutilado
os braços       os braços cortados não acenam velhos
│golpes
buscam despetalar rosas de longe

                               rosas que nem vejo

algumas com cheiro de gasolina                   cal

muito depois de todas as colinas
depois das roseiras            e suas carnes pisoteadas
nossos braços serpentes cegas
contorcem gestos que ninguém vê

e   nem   ainda   é   noite


VI

vim nesta hora da noite
hora ampliada poro de um deus
                                cronietzsche
vim fantasmal assombrar um poema qualquer
dou com a cara no aço
poema não há
vim arrancar escritos da dicção página
extraí-los com as unhas


os barulhos de quem ainda não é vivo e não é morto
seu hálito venéreo
vim nesta hora lambê-lo anjo de avulsa assepsia
poema não há
                   sequer sua placenta
este imponderável
sem peso
        eletricidade

vim nesta vaga nocturna
escavar o sonho ao contrário
baforadas de sono comprimem meu crânio

esmaga-o no
travesseiro do século imaginário

o poema era fóssil mas gasoso implodiu
                             o subsolo do papel

vim nesta hora aberta
alheio aos outros seres noturnos
azeitar as dobradiças do desamparo


VII

não sou meu nome
mapa
nem o da sina alheia
estrela de repulsa
a descoberto
casca

se é branco meu nome
se multidão e sua fome
meu nome me come

ausência que está no lugar de um pronome


não sou
nem o nome de frida kahlo
     [onde a coragem de
                          deitado
      atear fogo na cama cortar a barriga
      para olhar o dentro?]
nem o nome de ícaro
falta filtro solar
fator zeppelin
meu sicrano se clona para ver pessoa na lona

é lua cinza em torno do planeta véspera
seus anéis tribais códigos estratos

nem tempo para escrever na areia
e perder o escrito quando o mar vem ler
meu nome é só madeira numa porta de silêncio
roupa-musgo
repousa sob a vigília de um pronome à sombra oblíqua
triste caso reto


VIII

proclítico
isômere ombro a ombro
sua pele
mal suporta
o que de dentro
desadentra

última pétala
sua língua
arrancaram-na e então
resta-lhe ser
isômere

a américa vem enquanto dorme
os olhos são todas as cores e
nenhuma
e nem era você que ia
mas o pressentimento
peixe turvo

eunuco
eu nunca
eutanásia
fariseu

seu fígado em patê
nos pães dos prometeus
que não
cessam de
nascer


IX

isso sem nome
que nem pássaro
       nem medo
       serpente vermelha das artérias
ou vida como cantam
é ir andando
                 sem pássaro
                 sem cálice
                 sem metáforas ao passar pelo deserto

esqueçam a serpente
o acrílico dos dias
[abrem-se asas negras
bélicas tentativas de ejeção]
o esperma tóxico semanal
nuvens de nuvens
mas não é isso

matar o negro pássaro
cair
mas não é ainda isso


encontrar as mesmas palavras
é deitar-se ali [estou vasto?]
        sob essa árvore de esquecimento
até que uma única esfinge
entre o limo e o glacial do tempo
se multiparta
corpo aos pedaços
e já corpo não é
mas vácuo mantido a musgo
e quem maldisse o pássaro
e quem blindou a alma
quem pedra
quem se calou
não sentiu o rugido
na quanta floresta sob a pele
o coração é um vampiro

o que afinal dirão
do poema que ninguém fez
do poema que ninguém errou?

[ver pela sombra que o
                         pássaro
vai pousado no ombro]
caminho aberto
recorte ao trigal
de esquecido arrepio dos corvos de van gogh

nuns dias sou apenas asa
sem corpo



____________________
Alexander Nassau nasceu em 1971. “Dédalus vago” integra O tempo da curva, seu primeiro livro, publicado em 2010, pela Aves de Água.

e-mail: alexnassau@gmail.com.
 


/envie seu comentário




[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/agosto/setembro de 2010]
 
 

  Site Map