a extensão dos segundos
Alexandre Moraes







falo a língua das embalagens. preciso fazer respirar: cotidianos: símbolos: embalagens, verdades.


recodificar, despejar: fazer tudo ressoar. abrir embalagens dentro de embalagens. implodir e ouvir o


ruído. tomar um braço de palavra. resistir ao imenso movimento da miséria: preciso construir


circuitos: intensificar: ingerir: (recolher) implosões sob a pele: redistribuir os gestos e tudo isto será


dito como num desejo: o barco ligado ao sentido será a procura da respiração boiando sobre todas as


coisas. preciso fazer tudo respirar, ser e reter uma lingua: ter sentido _____ não sinto a mais fazer


respirar como me tocam: sinto e isto é: fazer respirar. absorvo superfícies plásticas de fantasmas


(talvez o poema): vou ao supermercado: recolho as palmas na claridade das zonas de conflito e


submersão: recolho: respiro ∞ preciso não ser preciso nem precisar: destilo o movimento no dia,


reinscrevo um cotidiano como fruta ou mundo na luminosidade contida e indefinida das coisas




o poema só nos diz do que não toca. nunca mais ver um amor que se fez, inclusive, contra a vontade da tempestade, é como estar na casa, na solidão da casa  e isto todo amor nos devolve como uma palavra sempre alheia e sempre presente. viver em resíduo, atravessar em farrapos a lisura do silêncio e saber derramar-se em água pura com os fios de aço da dor nas mãos.




uma
palavra
crua
sem
toque
ou
torque
uma
palavra

sentido
uma
que
nunca
tenha
sido
uma
palavra

             (o resgate
só poderá ser
do que
como
a fúria
permanece
            intacto)





não deter nada
sons vocais festa ou silêncio mas
a extensão dos segundos como
matéria de todos os passos





sistema deste trajeto: tocar a pele incandescente em exata chuva sobre os dias. tocar o rosto leve sobre a noite que se esvai. saber-se distante, nunca dentro nunca fora, mas reter a dor de todo esquecimento, reter a dor de nunca provar o que se vai, o que se coloca como intensidade do exercício da chuva e dos olhos que se apagam diante dos cerrados labirintos do sangue em seu cego correr pela noite no meio do tempo de estar vivo. no sistema deste trajeto exercitar a pele das coisas e do amor esquecido numa tarde qualquer entre o desejo e o olho incandescente que toca o mundo.




 
 o corpo se esvai
no exercício
impuro da camisa
dos sapatos
e óculos


____________________
perder: uma razão, um sentido, uma possibilidade/ a todo momento perdemos/ como saber-se no corpo que se esvai/que se perde e transforma não em pó mas em substância destilada que se evola/como manter o sabor do corpo e dos sentidos de cada gesto quando a cada instante não há tempo?/como continuar no exercício impuro dos dias tão sujos/os dias imundos cheios de cascalhos/propagandas e coisas acumuladas/intensidades desfeitas: perder: fazer respirar é como tornar à água/perder tudo, a casa, os corpos, os sentidos, os dias, as noites, destilar um sol imenso sobre a atenção fixa nos dias e nas noites que podem ser interrompidas. perder: uma forma de estar: uma forma de escrever no vidro inseguro de cada dia. penetrar no mundo como quem morde uma fruta/acumular sentenças ser o personagem/ser a própria estória dos corpos esvaídos/sentir o desejo imenso latejando sobre os corpos/refazer linhas/imagens colocadas em cada exercício/tudo é exercício.




método deste desejo: consumir os resíduos, devorar os farrapos, estabelecer passagens e perceber a sucessão dos dias, a sequência de todas as chuvas que ficaram perdidas sem ar. nada a mostrar, tudo a dizer, enviar sinais, esperando respirar com todos os riscos e aviar sinalizações de emergência, respirar. integrar o hálito dos hábitos e detonar bombas, digerir toda a poluição dos desejos e de cada método de estar vivo. nadar. insistentemente nadar como ouvindo sons, sabendo a falência deste amor pelo mundo, inventar e inventariar todos os caminhos, métodos, de sobrevivência diante da miséria, da guerra que grita e elimina o corpo e o motivo do suicídio e do assassinato, do amor roído que se espalha pelas caras nas ruas, nos bares, bazares, rimas e acidentes de palavras, naufrágios sem sinalizações de intensidade.
talvez, evitar o método, o caminho

(e os fios de aço de toda história)




sistemas de transmissão sob céu retorcido


[00001]

paisagem:
não há tempo
enterrada no ar

nos trens
não toco a polpa descascada do tempo
e dos sistemas de transmissão

fora da casa
engolida por vozes
não fumo
mas
derrubo os olhos
 mato 
não há tempo para fugir
devoro as frutas e as pernas


[000002]

nos trens
enlaçam pernas todas da mesma cor
passam muros caras traçam olhos
todos da mesma dor sem cor
mastigo pedaços de ferro e ar entre os destroços


[000 003]

suturar:
o azul de um possível céu retorcido


[000 004]

transmissão:
sei que tenho o tempo consumido
pelas ruas
sou apenas uma dessas caras desconectas no meio do tiroteio


[000 005]

desfragmentar:
tomo comprimidos que roubo numa farmácia
arrasto drogas de um miserável qualquer
apresso nas costelas as pernas que surgem em queda

não há tempo
no tempo passam cores todas da mesma cor


[000006]

conectar:
uma a uma sobre o dia a noite interrompida


[000007]

ambientações:
não tenho paisagem
mas um gole de tempo
devoro os dentes ferozes que me olham de
dentro de caras como quem mastiga


[000008]

sistemas de transmissão em céu retorcido:
uma palavra antes de estar nas cascas de todo dia


[000009]

instalar:
passam mãos dedos unhas pedaços de
pernas detritos de olhos e de dentes


[000010]

navegar:
passam caras que vou mastigando
recortada no labirinto de ruas tiros sentidos e palavras apagadas
na beirada das calçadas as caras que não chegam a rosto


[000011]

direção:
a chuva
não posso fabricar nenhum horizonte nem perguntar nada
não há tempo, mas balas
passam pedaços de sol e de céu nenhuma cara me toca


[000012]

ver:
impossível não tocar esse mínimo pedaço
em golfadas arrebentadas em sangue
impossível não tocar com mãos plásticas esse nódulo quente
em levezas borbulhas estripadas em um céu retorcido de azul


[000013]

tocar o tempo
ossifica as caras e os sentidos  a noite e a respiração bebida
que surge pela tempestade desajustada sobre as ruas imensas
cobertas de aço e caras
de um ao outro como uma chuva sem lados
seguro com os lábios os fios e as
pontas da água que se infiltra
pelos ossos pelo algodão sujo das roupas
sinto latejar os dedos
as caras somem engolidas
desfabricadas
diante de fios de olhos
detritos de sentido
nas coisas, luas e incêndios
retidos ao controle do dia
silencioso
de direções
instalado como uma palavra
no centro da mão
dos ossos e músculos depredados na circulação do sangue
de tanta rua
tanto resquício de olho


[000014]

instalar:
não há  silêncio que me cubra
não tenho paisagem que me configure
sei apenas das direções que eu não sei


[000015]

contabilidade:
da noite  e das conexões interrompidas que eu não toco
sei do que não vejo quando vejo
inventariar uma insistente coisa tocando as mãos as pernas os olhos
fatias fartas de ar de fôlego de lâminas na miséria indomável da crueldade mais pura
que se debate entre os trilhos invisíveis do que vejo e não posso fazer circular
tenho apenas frascos do que sinto e
o que sinto é sobretudo o que me deixa
o que não mais tempo
e sei que perdi a casa as caras
sei que jamais fui tocada como uma possibilidade
no meio da instabilidade das sobras e das direções que não tomo
me estendo um segundo um corpo um detrito de perna e de sexo
sei que tudo isto pode ser a avenida mais crua mais insistente
sei em nuvem em solidão em sangue


[000016]

ambientações para design:
aqui
na enxurrada de caras línguas e sistemas


[000017]

em qual
língua posso entrar e sair como quem entra num vagão de metrô?
em qual
língua posso me escutar e saber que escuto algo?
em qual
língua posso me dizer alguma coisa e saber que ainda posso
beber o líquido venenoso que escorre de todas as coisas?


[000018]

o tempo:
 nítido horizonte onde ladrões, rufiões,
enganadores com deuses de moeda corrente
entram no vagão e retiram a máquina
que produz bolas de medo e tempo


[000019]

na desmesurada noite insurgente
interrompo e te vejo sob os ares pesados da liberdade
que não atesta nem presta para correr ao encontro do fogo
que corre surdo ao amanhecer
e no amanhecer sou apenas esse fio de tempo
surgindo pela noite interrompida
estendida
bebida
consumida
apenas esse ar que entra e sai sem saber e sem gosto de direção


[000020]

a direção:
não me venha com uma não me venha com duas
não me venha com três ou quatro
a direção é esta aqui mesma
esta que não toco que me mantém em suspenso
como uma mulher aos 40 dias de todo sangue escorrido
de toda noite que me extraio
sobre a impossibilidade mais que possível não te pergunto
sei que me reservo sobras e sei que do sol
terei apenas uma lembrança insurgente sobre a noite
sei que você jamais me fala nada
um nada que seja que esteja que lateja
insinuando um sentido
sei que me mantém como com o ouvido
num fone esperando o vendedor de telemarketing
atirar e arrematar as palavras sobre a orelha fria
a liberdade e os vídeos as artes e as caras que me saem do tempo


[000021]

notas para construção de sistemas de transmissão:
não há tempo
mas sei que toco algo
com os dedos pegajosos
com as palavras escorrendo de cada coisa sem significar


[000022]

estender os olhos:
na lua mais constrita
abro a manhã como quem sabe que deve tomar uma direção
o gosto fresco do sangue de alguma coisa
que possa ser a si dita e a si feita aqui
feita sentido signo de uma noite
uma tarde um dia
um amor tão imenso recortado de tudo mais
amor intacto a não ser nas sobras de tempo
esse amor simples
amor pelas coisas por
essa impossibilidade
esse poema desenhado na parede intransigente
de todas as horas que não posso tocar
esse poema feito de sangue carne osso e destino
mas não em tempo e no tempo que me insiro
assim essa louca perambulando caminhando pelas ruas
depois de ter rasgado o vestido vivo e ter comido a ausência
mais pura mais decantada de tudo em deslize
o som mais finito das lágrimas caindo
com o frescor do que se acredita poesia
e do que se instala como uma cadeira um garfo diante
e ao toque da mão


[000023]

percorro a cidade
como quem
no centro da queda

sei que não há tempo
ou informação adicional
 


____________________
Alexandre Moraes é carioca, professor da Universidade Federal do Espírito Santo. Publicou: Preparação para o Exerxício da Chuva (Aves de Água, 2010), A Sequência de Todos os Passos (Confraria do Vento, 2009), Paisagem sobre Corpo em Silêncio (FLOR&CULTURA, 2008), Coisas Quebradas (SECULT, 2005), Pequenos Filmes sobre o Corpo (IHGES, 1997), Objetos com Nomes (EDUFES, 1995), Pra-To do Todo Dia (Corações tropicais edições, 1982). A sair, pela Aves de Água: Pinturas para Primeiros Barcos (ou O Livro das Implosões).

e-mail: alexandremoraes@alexandremoraes.net.




/envie seu comentário




[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/agosto/setembro de 2010]
 
 

  Site Map