Quero uma dose. Quero qualquer coisa que me faça esquecer ela mendigando dose de qualquer bebida pra qualquer um. Não quero é dar meu priquito por isso. É pouco, é muito pouco demais. Tem neguim que quer comer até o cu por qualquer migalha. Aí não dou não. Nem o peito pra chupar que não sou vaca. Não sou não. Conheço lugares imundos e nome pra xingar a mãe. Por isso mesmo, pareço minha mãe. Aí chega um cara e pergunta o nome dela e ela pede outra dose, fuma, bebe, bebe, fuma e ri e quer saber qual nome ele prefere. Era assim. Qual nome você prefere? A mulher das camisinhas chamava as mulheres daqui de profissionais do sexo, que viviam de cama sem tá doente, e eu sei que eu sou a doença. Não digo que não tenha nunca gostado de fazer noite, mas é muito pouco o que consigo ganhar. Mas aí eu caí na besteira de emprenhar. Nem vi a cara do tal. Quer saber? Foi bom na hora. Nem pagou. Só menino que ficou no bucho, isso foi o ruim. No rapaz que na noite depois botava o pau na minha boca eu mordi. Mão pesada na cara, porrada quebrou minha venta. É que eu não queria mais isso. Queria esquecer. Mas depois da cara inchada, arrastei barriga inchada, porque tinha dentro gala de marginal. Gostar, gostei. Mas não é certo o cara que quer pagar bem por eu estar de bucho. É que diz ser mais apertadinho. Só se for o cu dele. Pode me chamar cadela porque mordo, mas não quero mais ser igual minha mãe, nem mãe para essa barriga que parece crescer mais do que eu. E me aparece filho duma égua querendo pagar tão bem quanto pagavam antigamente?! Não quero! Eu quero é uma dose pra ter coragem de fazer minha vida escorrer, eu quero beber. Pode pagar só a bebida, que tu bebe também, pode até comer o cu e o priquito apertadinho sem medo de machucar o menino dentro, que de hoje não passa. E eu só quero uma dose...
___________________ Josué Antônio Hernandes
é piauiense, contista e poeta.
[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/agosto/setembro de 2010]