Aquele certamente seria um dia inesquecível. Sentada, fitava, atônita, aquele homem desconhecido. Histórias de uma vida inteira, expostas ali, através daqueles olhares. Meu olhar era fugidio, relutante mesmo, mas o dele era insistente, como a cobrar algo que eu não conseguia definir.
Tinha treze anos e aquela foi a única vez que o vi. Sempre esperava encontrá-lo outras vezes, não sabia se o queria, mas esperava. Sou filha de uma só cena. Não tenho diálogos a lembrar, na verdade, nunca falei com ele. Poucas palavras que a mim soaram soltas. Só a imagem predominava. Lembro que fiquei séria, sem dissimular o rancor, transformado mais tarde em culpa. Eu não quis ouvir sua história, não lhe dei nenhuma chance. O papel que eu encenei era comum a todos os filhos do ódio. Aquele não era o personagem que eu queria representar, mas era o que me oportunizaram, naquele momento. Era apenas uma cadeia de reação esperada para os que não aprendem a refletir, a construir, de forma partilhada, a sua própria história, a buscar sua própria identidade. Mas era o papel possível naquele momento.
Muitas vezes senti falta do que ele simbolizava, pensei como seria tê-lo presente. Se assim o fosse, o que teria sido diferente? Ainda hoje faço essas indagações, embora elas sejam cada vez mais raras. à medida que se envelhece algumas questões vão perdendo a importância, aparentemente. Hoje eu apenas gostaria de ter mais cenas para lembrar, de um banco de imagens que um dia, quando só tiver a mim para conversar, fará falta.
Há histórias que sempre se espera retomar. Quando ele morreu, reconheci, não de imediato, que a nossa história nunca poderia ser retomada. O desfecho era definitivo: o fim, sem retoques.
[...]
às vezes precisa-se de tempo para reconhecer o irremediável. Eu nunca o veria nas ruas do meu passado, no quitandeiro da esquina, nunca saberia como é ser beijada por ele. Não há como recompor histórias perdidas. Os desfechos muitas vezes são definitivos. Quando não há lembrança, recorre-se ao preenchimento dos vazios. Não foi o que fiz. Nem isso adiantaria.
___________________ Helena Arcoverde
é licenciada em Letras (UFPI-PI) e em Comunicação Social-Jornalismo (ESEEI-PR). Possui mestrado em Teoria Literária (Uniandrade-PR) e atualmente cursa disciplinas isoladas no Programa de doutorado em Comunicação e Linguagens (Linha Cinema) – Universidade Tuiuti, PR. Em 1991 foi uma das ganhadoras do II Concurso Helena Kolody, 1991 - Secretaria de Estado da Cultura – PR, por meio do qual participou da Antologia de poetas contemporâneos do Paraná. Foi professora da Escola Técnica Federal do Piauí e da Escola Técnica da Universidade Federal do Paraná, da qual é aposentada. Nos últimos anos, exerceu as atividades de revisão e edição de textos em editoras de livros didáticos em Curitiba, Paraná.