dossiê Vicente Ferreira da Silva

Fim e Começo1

Dora Ferreira da Silva





Acima do tempo, fim e começo falam entre si
Paul Evdokimov

Tentarei confrontar nestas páginas duas afirmações de Vicente no que diz respeito à sua obra. Recuadas no tempo comum, aparentemente contraditórias, sinto-as no entanto a salvo, e profundamente significativas em seu módulo e timbre. As duas afirmações a que me refiro foram retiradas do contexto de conversas que tivemos em 1963, de dois diálogos que se esfumaram. Assim isoladas, colocam a questão de fim e começo, representando textualmente tomadas de posição sucessivas de Vicente diante de sua obra e, portanto, de si mesmo.

A primeira afirmação é esta: “Eu já disse tudo o tinha a dizer”. A segunda: “Agora vou começar a escrever”.

A primeira foi uma espécie de pensamento em voz alta, sem ênfase, e tinha o tom ubíquo das coisas que são ditas para todos e para ninguém. Mas tal afirmação sobrenada ao movimento da conversa e hoje a evoco talvez em seu verdadeiro sentido: algo fora terminado, tratava-se de um fim. Não, é claro, de um melancólico entregar-se ao silêncio da exaustão ou da carência. Vicente continuava a escrever, como sempre, atirando ao papel, numa caligrafia miúda e difícil, notas e esboços que retomava depois, ou então abandonava definitivamente. Muitas dessas páginas são ilegíveis; ou só decifráveis a muito custo. Não se tratava pois de estancamento, mas (creio eu) da súbita consciência de limite. Fim do dizível para ele? Fim do que até então lhe coubera dizer?

Num caderno de apontamentos de Vicente encontro esta observação, comentando um livro de Jean Wahl sobre “O fim da Ontologia”: o Fim ocorre quando o Ente se mostra como o revelado que descansa na força revelante; o Ente é uma ilusão do Ser.”

Essa ideia da derelição do já dito e do abandono que o Ente sofre em face à plenitude da Fonte aparece com frequência nos últimos trabalhos de Vicente. O apocalipse de um dado traçado do mundo corresponderia, segundo ele, a um refluxo do oferecido e manifesto à Matriz original. Em suas últimas meditações há uma obscuridade germinal, sua linguagem torna-se saturada de neologismos e de novas formas de dizer. Isso provinha da necessidade de comunicar experiências inusitadas do pensamento, de um pensamento que, para se exprimir, precisava dançar sobre si mesmo. Eis como Vicente tenta captar e transmitir a intuição dessa Fonte, princípio e fim de todo o oferecido: “A Fonte, ma¬nando no Aberto, põe o limite do oferecido, desenha imaginativamente a estampa do manifesto e faz transparecer a desolação da noite ilimitada. (...) Na ontogênese transcen¬dental, na desocultação do oculto, as essências prodigadas recortam-se, não sobre o possível — pois todo o possível está com elas — mas sobre as trevas do ilimitado. Acontece que o fechar-se de uma forma, o desenhar de um desenho, libertam a contrafigura do caos. Figura e contrafigura, Apolo e Dioniso, Cosmos e Caos são transcendíveis ou reabsorvíveis na Fonte”.

É importante situar essas notas antes de procurar inte¬grá-las a essa totalidade incompleta que, paradoxalmente, é o horizonte mais vasto de todo pensamento que se assume em sua finitude, mas também em seu ímpeto ilimitado. Fo¬ram elas escritas a modo de notações rápidas em 1962, depois de um ensaio de Vicente que se intitula “Religião, Salvação e Imortalidade”. Acho este trabalho de Vicente um dois pontos mais altos de sua meditação filosófica. Sua originalidade é radiosa. Heidegger e Walter Otto dão o embasamento à sua pergunta pelo salvável e à consideração dos múltiplos espaços soteriológicos que resultam das várias fundações “da ex¬periência idiomática do divino”. A partir de uma plataforma puramente filosófica e especulativa, Vicente indaga sobre os “vórtices de eternidade” que seriam abertos além do uranismo espiritual dado pela tradição ocidental-cristã. A cada diacosmese — segundo ele — corresponderia um espaço soteriológico, isto é, um campo do salvável. A eternidade pensada em termos espirituais seria apenas uma dentre as múltiplas formas de implantação no transcendente. Em suas palavras: “Os deuses abrem campo a efetuações existenciais eternizantes que pertencem ao seu âmbito interno de possibilidades atualizáveis”. E ainda: “As cenas eternas do mundo que constituem o universo prototípico dos deuses surgem, convocando e convidando-nos para as diversas moradas indestrutíveis”.

Reportando-nos às notas já citadas, imediatamente posteriores às ideias expostas no ensaio em questão, não é constatável, ainda que sob a obscuridade de uma nascente, essa “fé na origem” de uma Fons et Origo na qual tudo se reabsorveria — Apolo e Dioniso, Caos e Cosmo — noite do Inominado?

Numa ordem especulativa paralela, Vicente preocupa com a polaridade Mito-Logos. Se o “Logos nos ata ao já oferecido, o Mito nos transporta para o domínio desvelante do primordial”. Essa tensão entre o Mito e o Logos corresponde a duas vertentes da personalidade intelectual de Vicente: a apocalíptica e a auroral. Como não relacionar a sua primeira afirmação, a de que se objetivava como aquele que já dissera o que tinha a dizer com esse refluxo do manifesto à Fonte do Inominado? Mas ao movimento doloroso de entrega e devolução à Origem, à Gelassenheit diante de uma Totalidade incompreensível e meta humana, se opunha, no mais profundo da personalidade de Vicente, uma tônica entusiástica e auroral. O potlach dos trobriandeses era um tema que o fascinava. A modo de um ritual de renovação, essa festa ocorria quando as tribos atingiam um excepcional fartura. Tinha um caráter orgiástico e violento, empenhando-se os homens em destruir utensílios e armas, sacrificando o gado e tudo o que possuíam. Tratava-se de uma destruição e ao mesmo tempo de uma emulação, em busca de um começo absoluto. As aldeias em chamas eram abandonadas e as tribos partiam à procura de um novo centro, em torno do qual deporiam as tendas.

“Agora começarei a escrever”: teria Vicente pensado em destruir o já dito e pensado, em busca de uma nova criação? Ou retomaria em novos desenvolvimentos os múltiplos embriões contidos em seus escritos?

Não acho lícito nem justo imaginar o que teria podido ser o caminho ulterior desse pensamento cuja força se acres¬centa a cada dia, e cujo caráter profético e de antecipações é evidente para todos nós. Acredito, com Eliot que

o que teria podido ser é uma abstração
que permanece como perpétua possibilidade
apenas no mundo da especulação.
2

Mas por diversos motivos, do menos ao mais, teremos que interpretar e sonhar debruçados sobre esta obra. Amigos e inimigos, em simpatia, antipatia ou empatia, têm que con¬tar com ela. De nada ela precisa, nós precisamos.

Atrevo-me a uma hipótese, evocando o quanto a ideia de uma Wendung ou de uma Wandlung (mudança ou metamorfose) era cada vez mais frequente nos últimos es¬critos e conversas de Vicente. à maneira dos trobriandeses, não acho impossível que ele sacrificasse o já-dito, rumo ao totalmente novo. Sua passagem radical da Lógica Matemá¬tica para a Metafísica aí está como prova de uma possibilidade deste tipo. Mas uma transformação não é, em última instância, uma negação do anteriormente manifesto. Fechado o círculo do já-dito, não ascenderia seu pensamento em espiral, atingindo outros níveis, inimagináveis? Em página póstuma publicada no segundo tomo de suas Obras Completas (ou Incompletas?), Vicente fala-nos do Oceano germinal de onde “estariam surgindo continuamente os zigotos da vida”. Essa Vida, Noite primeira, Matriz abissal não é tam¬bém uma expressão de sua criatividade fervilhante?

Dois versos de Rilke eram particularmente caros a Vicente. Um deles é o Wolle die Wandlung de um dos Sonetos a Orfeu e o outro é o verso final de um dos poemas do Livro de Horas: Ich glaube an Nachte. Não insistirei nas implicações que constituem uma espécie de subtexto entre esse vocabulário poético e o pensamento último de Vicente. A transcendência do puro in fieri e a “morte como estado de genialidade” exprimem, na cunhagem originalís¬sima de sua maneira de dizer o indizível, a intuição de um começo que é um fim e de um fim que é um começo. Ao “sentido apolíneo da consciência” (já-dito) se oporia a realidade dionisíaca de uma Noite-Origem da qual sempre estariam emergindo os “zigotos da vida”, em novas configurações.

A primeira afirmação de Vicente: “Eu já disse tudo o que tinha a dizer” e a segunda: “Agora vou começar a escrever”, me reconduzem à atmosfera de seu ser auroral, desvencilhando-se da obra já cumprida. Tal como nas festas do Ano Novo das cosmologias arcaicas, a segunda afirmação varre a primeira como um vento de primavera e de renovação mediante a volta ao tempo forte da Origem, que é também o vigor de um impensável Começo.

Assim, estas duas afirmações não se destruiriam mutuamente em obediência a uma lógica demasiado óbvia, mas seriam uma forma de diálogo “acima do tempo”, quando fim e começo falam entre si:

A aurora aponta e outro dia
se arma para o calor e o silêncio. O vento da aurora
se enruga e desliza sobre o mar. Estou aqui
ou lá, ou em qualquer parte. Em meu começo
.3

São Paulo



____________________

1  Texto publicado originalmente em: SILVA, Dora Ferreira da. “Fim e começo”, São Paulo, Convivium, v. 16, n. 3, p. 189 193, mai./jun., 1972.

2  Tradução da Autora.
3  T. S. Eliot, Eats Coker, Four Quartets. Dawn points, and another day/ Prepares for heat and silence. Out at sea the dawn wind/ Wrinkles and slides. I am here/ Or there, or elsewhere. In my beginning”. Tradução da Autora.


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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/setembro/outubro de 2010]
 
 
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