dossiê Vicente Ferreira da Silva

Vicente: Filosofia e Vida

Agostinho da Silva





Ainda hoje, embora passados alguns anos sobre o mais vivo da questão, se debate muito em Portugal se existe ou não uma filosofia portuguesa. Grande parte do desentendi¬mento vem, como em copioso número de disputas, de se não terem definido termos e de não estarem, portanto, todos de acordo sobre o que designam por filosofia, acresce a isto que também se não tem noção exata do que significa a palavra Portugal: para quase todos, mesmo para os que mais defen¬dem, no campo político, a existência de um Portugal Ultramarino, o Portugal a que se referem é aquele que se situa na Europa; se ao outro se referissem, o problema se complicaria, porquanto já existe bibliografia, de resto não portu¬guesa, sobre filosofia banta e é fora de dúvida que devem ter pensado filosoficamente indianos de Goa ou chineses de Macau, os quais, em termos jurídicos, foram ou são por¬tugueses.

Se entendermos por filosofia o sistema coerente de pensamento que, baseado no que se pode conhecer cientificamente, a tudo liga por laços racionais e a si mesmo se pensa, quer admita ou não que existe mais mundo para além do racional ou, por outras palavras, que raciocinar é apenas uma parte do pensar, então força é dizer que nada disso se viu até hoje em Portugal, a não ser como reflexo ou discipulato de filosofias desenvolvidas fora das fronteiras portuguesas, desde as escolásticas, que duraram até o século XVIII, cartesianismos e kantismos ou neokantianos que nunca tiveram grande voga, marxismos, que mais são políticos do que filosóficos, e intuicionismos, existencialismos e estruturalismos que se situariam, pelo menos no que respeita a Portugal, antes no campo da moda do que no do pensar filosófico.

Mas não é talvez a este alvo que apontam os defensores da existência de uma filosofia portuguesa, os quais não dei¬xariam, em tal caso, de registrar os nomes de um Francisco Sanches, de um Leão Hebreu ou de um Espinosa, muito fáceis de reduzir a uma original marca portuguesa, embora de ambiente muito outro. Quando têm como seus mestres um Sampaio Bruno e um Leonardo Coimbra e até um Delfim Santos ou seguem os ensinamentos dos ainda felizmente vi¬vos Álvaro Ribeiro e José Marinho, já menos os do perfurante cético que é Sant’Ana Dionísio, o que nos dizem é que pouco importam os sistemas, sempre incoerentes e sempre deixando largo domínio ao mistério, úteis para base de morais e polí¬ticas, e até de economias, por aí fortemente europeus, técnicos e de ação; o que importa, segundo lhes parece, é a inquietação contínua perante esse mesmo mistério, a interrogação pe¬rante a alegria e a tragédia da vida, o espanto diante do fenômeno, a capacidade de viver antinomias e de ser, portanto, contrário a si onde europeu o quereria lógico, o abandono ao que vem muito mais do que o apresto a dominá-lo, a confiança na intuição, a tendência a ser dionisíaco mais do que apolíneo; antes de ligarem ao além-pirenaico se que¬rem mediterrânicos, de um Mediterrâneo cretense não ático, heracliteano e não geômetra, de cerâmica em zona e não de jeito dórico, de ritos místicos e não de romana estrada linear; depois muçulmano, árabe ou berbere islamizado, mais que visigótico ou dos cruzados, francos ou saxões, que submete¬ram as Espanhas ao que Espanha não era.

Talvez a discussão não tenha grande importância em Portugal, que certamente vai ter que afrontar problemas mais imediatos e que os resolver de acordo com circunstâncias várias que o envolvem, só mais tarde vindo a ter a oportunidade, que esperemos não falhe, de se marcar indi¬vidual e de porventura ser cabeça de guia para que se saia da confusão em que se encontra a Europa, depois de ser o ponto de apoio para que, após tantos séculos de herdeiros dos Reis Católicos e de Carlos V, tenham livre expressão de sua originalidade os povos da Península.

Acho, porém, que a tem e muita neste nosso Brasil, aquele cujo nome para mim tem sua origem no mito cartográfico da ilha Brasil, a terra dos bem-aventurados, o Brasil que foi lugar de eleição para as utopias do Renascimento e que vai de Montaigne a Rousseau, o Brasil que será apenas um gigante tonto se não se pensar, se organizar, se dirigir a ser o ponto de arranque de uma União Internacional dos Povos, União de Paz interna donde a externa brota, no domínio de uma economia que seja primeiro de justiça e depois, de abundância; de uma educação que seja de libertar o gênio que na criança existe e não de o destruir; de uma informação livre que encontre para a joeirar espíritos sábios e críticos; de uma política que tenda o mais possível a não ser, liberando as Nações de seus Estados e tornando-as a todas elas, por plenitude, universais.

E metafísicas. Ponto de partida e ponto final. Não há hoje no mundo nenhuma crise real de ciência ou de técnica, de política ou de moral, de pedagogia ou de arte. Tudo vem como aspecto ou como projeção de uma crise de pensamento filosófico: a multidão de fenômenos, mate¬riais e espirituais, excedeu as disponibilidades do homem pensante, habituado a sistemas do real, quanto agora se lhe abrem as exigências de concatenar, num todo único e vivido, o real e o possível; habituado a ser apenas filósofo ou apenas místico quando tem que se virar agora a ser, simultaneamente místico e filósofo, com a agravante de que, se era místico de uma só religião ou filósofo de uma só filosofia, tem hoje de encarar o ser místico de todas as religiões e filósofo de todas as filosofias.

A humanidade, e para só o pormos em termos de Oci¬dente, o que é inadequado, venceu a sua primeira grande crise quando Sócrates afirmou a existência da ideia geral, ou por ele a afirmou Platão, venceu a segunda quando, depois de terem posto a questão Sanches, Montaigne e Rabelais, conseguiram Bacon e sobretudo Descartes-Espinosa dominar as descobertas de portugueses e espanhóis; estamos agora diante da terceira e se põe o problema de saber se há gênio bastante nalgum homem para congraçar tudo o que aparece a nossos olhos como antinômico e longínquo. Por mim, creio que não; a tarefa é de todos e a levaremos a cabo muito mais pela vida que formos do que pelas ideias que tivermos.

Convirá, pois, aos brasileiros que somos e aos universais que desejamos ser que cortemos as amarras com os tempos e os lugares em que se podia pensar em guias a que seguis¬sem multidões, quer fossem guias um Platão ou um Eckhart, um Lao Tsé ou um Planck, um Kant ou um Confúcio, o que não quer dizer que não tenhamos obrigação de os entender, a eles, a seus seguidores e a seus contrários. A hipótese reden¬tora é a da genialidade da criança e toda a revolução brasi¬leira tem que tender a libertar a criança, como uma revolu¬ção francesa libertou o burguês, a russa, o operário, a chinesa, o camponês; libertar as crianças de nossos limitantes modelos adultos e dar-lhes todo o alimento de que precisam corpo e espírito para que qualquer delas possa ser o que até hoje apenas foram aqueles que denominamos gênios e que foram somente crianças que por sorte, raríssima sorte, escaparam de ser adultos; gênios mais gênios do que os gênios porque não haverá para eles a exigência das especializações e se po¬derá, sem peias, ser, ao mesmo tempo, o poeta, o herói e o santo, até hoje sempre ou quase sempre separados e frus¬tres.

Aumento do produto nacional bruto, disciplina do traba¬lho, melhoria da balança de pagamentos, crescimento orde¬nado da população, importância internacional, nada disso valerá coisa alguma se não servir ao Brasil para afirmar a liberdade da criança e para ajudar a que libertem também, primeiro os outros territórios de língua hispânica, finalmente levando a todos os povos do mundo um Evangelho, plena eclosão daquele mesmo que tanto afirmou ser das crianças o Reino dos Céus.

Não creio que venha então a haver sistemas metafísicos ou morais, nem burocracias filosóficas ou religiosas; creio que todo o homem será, vivendo, religioso e metafísico, artista e cientista, místico e político, num constante diálogo consigo mesmo e com o mundo e, simultaneamente, imerso no silêncio e na nulidade do absoluto valor; companheiro e só; ponto sem dimensões e a todo o espaço extenso; parada hora em que se juntou todo o passado e o futuro inteiro. Alma bem-aventurada num universal Brasil de bem-aventurados. Fazendo aquela síntese de sistema e não-sistema que ainda é em Portugal divisão e polêmica.

Embora tenha convivido no Porto com Leonardo Coimbra e seus discípulos imediatos e embora tenha, no Brasil e no Japão, encontrado quem ia muito pelos mesmos caminhos, tanto nos eruditos como no povo, e no povo muito mais, pelo que se refere a Portugal e Brasil, ninguém me pareceu tão perto do objetivo, tão precursor do que virá, de tão forte aceno para o rumo a seguir como Vicente Ferreira da Silva, perfeitamente informado da filosofia que se fizera ou fazia no mundo, atento ao que a ciência, sobretudo a física, ia trazendo de alicerce ao pensar, desperto para a arte, quer ela fosse a da pintura ou a da música, sensível às religiões ou ao religioso que nelas por várias linguagens ou formas se traduz, apaixonado pelo abstrato sem que tal significasse desprezo do concreto e, sempre, apesar da sistemática dúvida e de alguma experiência humana adversária de sonhos, cân¬dido no pensar e no agir, despido de ambição pessoal e, em¬bora amando a vida, dela se desprendendo sem esforço nem pena.

Raras vezes, se algumas, o ouvi citar; o que sabia se lhe tornara personalidade e podia dar a superficiais a impressão de ignorância e desinteresse; silencioso e aristocrático ao primeiro encontro, era no diálogo que desabrochava como pensador e na ação que se revelava sua gentileza de espírito; vi-o algumas vezes desgostoso, nunca, porém, o encontrei violento e, se em alguma oportunidade se queixou de sofrer, o fez sempre como se se referisse a um fatal de si mesmo, não a uma perversidade dos outros; gostava mais de se re¬ferir a qualidades que a defeitos e todos lhe pareciam de cabimento no mundo. Aparentando ser fraco e frágil, pouco disposto a esforço físico e às vezes um tanto assustado da natureza e dos homens, vi como atravessava noites inteiras de discussão de problemas, como podia aguentar as longas e às vezes ásperas marchas em que eu, distraído, nos metia e como, numa época agitada de Buenos Aires, serenamente se movia e continuava falando de filosofia através de cargas e de tiros e de bombas.

Nele o homem, como convém, sobrelevava ao filósofo. Este, no entanto, estava sempre alerta a toda a oportuni¬dade que se oferecia de fazer que houvesse melhores condições para o pensar e outros se sentissem atraídos a seu círculo, não por qualquer ambição de discipulato, mas para que nova gente, original a seu modo, enveredasse pelo caminho de saber, de raciocinar o saber e de o transpor abrindo-se a toda a possibilidade de iluminação ou graça. Pensou ver no Grupo de Itatiaia a base de dois movimentos sobre que se poderia alicerçar uma renovação do Brasil, ou antes, um regresso ao Brasil pelo sacudir de seus vícios europeus, como tão bem o definiu, por volta de 48 e nessa mesma Itatiaia, um Oswald de Andrade: seria um o da formação de uma Comunidade, que teria muito de uma Ordem, sem os cânones, e cujo obje¬tivo fundamental estaria em apurar o pensamento de uma idade nova e em estudar todos os seus reflexos de ordem social e individual; seria o outro o da fundação de um Insti¬tuto em que se meditassem todas as características do Brasil e, sob o ponto de vista do Brasil, todas as correntes de ideias ou todos os procedimentos, nacionais ou não, que apareciam no mundo como criação ou herança.

Nenhum dos dois vingou, como não vingou, para Vicente, a vida. Não creio que a tenha perdido senão por culpa de nós todos, demasiado distraídos por nossos interesses ou impe¬lidos a fazer as nossas próprias experiências, já que ninguém aprende com as dos outros; como não tínhamos real vida não lhe pudemos sustentar a dele. Além de tudo, era ele, talvez, dos homens que, morrendo mártires, com a morte se acentuam na presença e mais, como sombras, iluminam; profeta, no que foi, de algum Brasil a ser, talvez o não cele¬bremos, quando o soubermos, como filósofo; certamente, po¬rém, o teremos como modelo de uma humanidade que dese-jamos como ele sabedora e pura, inquieta e firme, inteira de sua terra, gente e língua, mas sua integridade se exercendo no espaço universal do vário e do contrário.


Lisboa

[Publicado originalmente em: SILVA, Agostinho da. Vicente: filosofia e vida. Convivium, São Paulo, v. 16, n. 3, p. 246 251, mai./jun., 1972.]


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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/agosto/setembro de 2010]
 
 
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