RESUMO O primeiro olhar, de acordo com Anthony Giddens (1991), é uma atitude comunicativa, uma apreensão intuitiva do olhar do Outro. Revelador do desejo, não raro, um simples primeiro olhar é capaz de unir duas pessoas desconhecidas; o sentimento amoroso quase sempre inicia com o encontro de dois olhares: o amor começa com o olhar: olhamos a pessoa que queremos e ela nos olha (PAZ, 2001). No que diz respeito ao jogo da conquista, pode-se afirmar, portanto, que tudo começa com o olhar, por isso, a relação entre olhar e sedução na literatura é uma constante. Os grandes poetas, desde a antiguidade aos nossos dias, utilizam o olhar como ingrediente na abordagem da temática amorosa. Ao fazermos uma leitura da poética de Florbela Espanca (1894-1930), podemos perceber que a imagem do olhar é recorrente em seus escritos. É interessante, desse modo, observarmos a maneira como a poetisa portuguesa brinca com o jogo do olhar na sua lírica. Palavras-chave: Olhar. Sedução. Florbela Espanca.
ABSTRACT The first one to look at, in accordance with Anthony Giddens (1991), is a communicative attitude, a intuitiva apprehension of the look of the Other. Revealer of the desire, not rare, simple a first one to look at is capable to join two unknown people; the loving feeling almost always initiates with the meeting of two looks: the love starts with the look: we look at the person that we want and it looks in them (PEACE, 2001). In what it says respect to the game of the conquest, can be affirmed, therefore, that everything starts with the look, therefore, the relation between looking at and seduction in literature is a constant. The great poets, since the antiquity to our days, use the look as ingredient in the boarding of the thematic lover. When making a reading of the poetical one of Florbela Espanca (1894-1930), we can perceive that the image of the look is recurrent in its writings. He is interesting, in this manner, to observe the way as the Portuguese poetess plays with the game of the look in its lyric one. Word-key: To look at. Seduction. Florbela Espanca.
1.INTRODUÇÃO
Poderíamos dizer que o olhar é o princípio primeiro da sedução, considerando que o erotismo é caçada silenciosa entre dois olhares (KERL, 1988, p.411)[2]. De acordo com Anthony Giddens (1993, p.51), o primeiro olhar é uma atitude comunicativa, uma apreensão intuitiva da qualidade do outro.
Revelador do desejo, não raro, um simples primeiro olhar é capaz de unir duas pessoas desconhecidas; o sentimento amoroso quase sempre inicia com o encontro de dois olhares: o amor começa com o olhar: olhamos a pessoa que queremos e ela nos olha (PAZ, 2001, p.191). É por isso que nos romances, se produz a cena fulgurante do encontro de dois amantes, com a paixão nascendo no instante mesmo em que um enxerga o outro. (RIBEIRO, 1988, p.433). Em outras palavras, no que diz respeito ao jogo da conquista, tudo começa com o olhar.
Muitos predicados são atribuídos ao olhar. Desde os mais óbvios, como o de captar imagens foi ao olhar-se nas águas que Narciso se encantou com sua própria beleza; Mirando-se, o homem prepara, aguça, lustra esse rosto, todos os instrumentos de sedução. (BACHELARD,1997, p.23) , até o de dizer o inefável: Esse seu olhar quando encontra o meu, fala de uma coisa que eu não posso acreditar..., diz uma famosa canção de Tom Jobim.
É também dada ao olhar a função de trazer à tona o que estava oculto, pois o olhar, para os psicanalistas, é o espelho da alma. Renato Mezan (1988, p.461) que no artigo A medusa e o telescópio ou Vergasse 19 procura refletir sobre a questão do olhar na situação psicanalítica comenta que
O olhar apresenta-se assim como veículo de um poder, poder que na neurose obsessiva é ao mesmo tempo afirmado e negado. A figuração mais característica deste poder, no universo do inconsciente, é a fantasia da castração [...] Uma outra figuração deste poder da visão é a idéia da descoberta, a paixão de desvendar os segredos do passado, do que está oculto ou do que virá a acontecer.
Por isso, exigimos olhos nos olhos quando queremos atingir a verdade: Olhos nos olhos, quero ver o que você faz/ Ao sentir que sem você passo bem demais / Olhos nos olhos, quero ver o que você diz / Quero ver como suporta me ver tão feliz... [3]. E por ser espelho da alma e ter o papel de revelar o que está guardado no nosso Eu profundo, o olhar às vezes nos atraiçoa: ... o brilho desse olhar foi traidor e entregou o que você tentou conter...[4].
Florbela Espanca reflete essa idéia de olhar como espelho da alma; observemos o que a poetisa de Alentejo nos diz no poema As quadras dele (II) (2005, p.31-35):
Os olhos são indiscretos;
Revelam tudo que sentem,
Podem mentir os teus lábios,
Os olhos, esses, não mentem.
Mas, voltando à nossa reflexão inicial, a sedução anda lado a lado com o olhar. Melhor ainda: a sedução começa no olhar. Quando queremos incitar o desejo de alguém, a primeira coisa que fazemos é captar o olhar desse alguém. Isso explica por que, na literatura, a relação entre olhar e sedução é uma constante.
2.OLHAR E SEDUÇÃO NA POESIA FLORBELIANA
Na poesia de Florbela, conforme veremos no decorrer deste artigo, o olhar está associado ao desejo: desejo de entrega, desejo de envolver o Outro, desejo do desejo. De acordo com Novaes (1988:9), O olhar deseja sempre mais do que lhe é dado a ver. Assim, podemos dizer que Florbela utiliza o olhar como um atalho para atingir seu objetivo: a fusão com o amado. A poetisa alentejana se apropria de uma espécie de jogo de sedução, no qual a peça fundamental são os olhos e no qual o duplo movimento de olhar e de ser olhada é a principal regra.
Torna-se interessante, portanto, observarmos como a poetisa de Alentejo brinca com o jogo do olhar na sua poesia: temos um Eu lírico atraído e deslumbrado pelo Outro através do olhar e, concomitantemente, esse Eu seduz o Outro utilizando o recurso do olhar.
O desejo de olhar e de ser olhada caracteriza o Eu de muitos poemas florbelianos: Olhos buscando os teus por toda parte (2005, p.258); Olha pra mim, amor, olha pra mim; (2005:74). A poetisa alentejana concebe um Eu lírico que atua em seus poemas, ao mesmo tempo, como sujeito e como objeto do olhar. Percebe-se aí a presença de um Eu que deseja ser olhada, e, por isso, se exibe para o amado, e que também lança seu olhar, objetivando o cruzamento dos olhares, ponto onde nasce a paixão.
[...] o prazer sexual não é unicamente um prazer não intencional: a pessoa não sente prazer quando é simplesmente olhada, tocada, acariciada, mas sente prazer quando é olhada, tocada, acariciada pelo objeto desejado. Aliás, é o reconhecimento de nosso desejo e do nosso objeto do desejo que transforma o prazer não intencional em prazer sexual. (MARZANO-PARISOLI, 2004, p.111).
Fazendo um paralelo entre Marzano-Parisoli e a poética florbeliana, é possível dizer que o jogo de sedução pelo olhar é intencional; assim, o Eu poético tanto lança seu olhar de desejo como também espera o retorno: Olha pra mim, amor, olha pra mim; / Meus olhos andam doidos por te olhar! (ESPANCA, 2005,p.74).
Há uma forte ligação entre o erótico e o olhar na lírica florbeliana: é pelos olhos que o corpo do Eu é tomado pelas chamas da paixão. Tal afirmação nos remete ao Embate entre os olhos e o coração escrito por Giordano Bruno (apud NOVAES, 1988, p.18). Esse embate se inicia com uma acusação do coração, que se queixa do fogo que o consome e culpa os olhos pelo cruel incêndio: [...] É que a primeira chama veio dos olhos porque a razão excita o desejo: perceber, ver, conhecer, eis, em verdade, o que o desejo acende. É, pois, graças aos olhos que o coração é incendiado.
Todo o jogo de sedução que perpassa a poesia de Florbela Espanca tem, portanto, origem no olhar, uma vez que os olhos apreendem as aparências e as propõem ao coração (BRUNO apud NOVAES, 1988, p.18).
O olho, diz Leonardo da Vinci (apud CHAUI, 1988, p.31), [...] é janela do corpo humano, por onde a alma especula e frui a beleza do mundo, aceitando a prisão do corpo que, sem esse poder, seria um tormento [...]. Sendo janela do corpo, os olhos têm abertura para apresentar ao mundo exterior a nossa essência e, ao mesmo tempo, trazer para o nosso interior o mundo de fora. A definição do olho como janela do corpo, talvez explique o significado que tem a troca de olhares para os amantes: trocando olhares, supomos, as almas se encontram.
O ato de olhar alguém nos próprios olhos, de acordo com Renato Janine Ribeiro (1988), está carregado de uma idéia de veracidade, limpidez e honestidade. O encontro dos olhares é garantia de um mundo limpo, no qual o belo e o bem coincidem: [...] Pois se eu vejo os olhos teus/A fitarem-se nos meus,/ Não há de tudo ser lindo?!, indaga Florbela Espanca em Doce Milagre (2005,p.24-25).
Ainda recorrendo ao pensamento de Ribeiro, o olhar da paixão possui raios que atingem, mutuamente, os amantes. Isso significa que, conforme Octavio Paz (2001), os amantes são tomados por uma espécie de deslumbramento; para ilustrar tal deslumbramento, Paz cita um poema de Donne[5], no qual os amantes se olham interminavelmente. Em O meu desejo, poema que faz parte de Reliquiae (p.282) essa representação é clara:
Vejo-te só a ti no azul dos céus
Olhando a nuvem de oiro que flutua...
Ó minha perfeição que criou Deus
E que num dia lindo me fez sua!
O Eu do poema declara que, ao olhar a nuvem de oiro que flutua, só consegue ver [perceber] o amado Vejo-te só a ti no azul dos céus e, nos versos que seguem, confessa: Meus olhos têm sede só dos teus!. Sede, neste caso, significa necessidade de algo, desejo intenso, veemente, ânsia. O desejo do Eu lírico é de, portanto, poder olhar interminavelmente para seu objeto amado.
Esse deslumbramento do sujeito apaixonado pela pessoa amada é o que Ribeiro (1988) denomina de amor instantâneo [o amor à primeira vista]. Tal amor se diferencia do amor apaixonado [cristalizado], que é aquele que vai crescendo gradativamente; começa com o olhar entusiasmado, mas este não basta, somente com o tempo, alternando aproximações e distanciamentos, é que a paixão se constitui. (Ibidem, p.433). Já o amor instantâneo é aquele que não tem tempo, é fulminante, leva o sujeito apaixonado à perdição. Nesse caso, a visão é algo fatal:
A vista aqui aparece como algo fatal. É precisamente o fatum que entra no mundo no meu mundo quando vejo e me apaixono ao ver. A primeira vista, ao contrário da cristalização, é o amor instantâneo, o raio, o fulmen, ferida no olho. É esse amor extremo, um amor de paradoxo: ofusca, dá a ver tanto que não permite mais ver. Lembra o mito da caverna: um conhecimento que ilumina e cega. Temos, então extremos, a luz que produz trevas, a visão que deslumbra, eclipsa. Ou, melhor dizendo, vivemos o paroxismo uma tal exacerbação que rompe o cotidiano, o banal.(1988:434).
O que Ribeiro nomeia de amor instantâneo pode ser observado na poesia de Florbela, na qual o olhar do amado é o raio que atinge o Eu poético, deixando-a cega; é a visão que deslumbra Vejo-te só a ti no azul dos céus. Trata-se de um olhar capaz de marcar o sujeito apaixonado definitivamente: ele vê, se apaixona, se perde naquilo que vê. Desse modo, o olhar em Florbela é representado sempre como aquele que enceguesse, no sentido de que, quem está envolvido nesse jogo está condenado a perceber somente a pessoa amada.
Assim, podemos dizer que, pelo olhar do Outro, o Eu da lírica florbeliana é envolvido, é seduzido e passa a viver somente em função do ser amado. O olhar que perpassa em Florbela pode ser definido como uma espécie de rede de arrasto. Esta, como sabemos, é lançada ao mar com a finalidade de fisgar peixes e crustáceos e, depois, é puxada por pescadores ou por arrastões; do mesmo modo, o olhar, na poesia de Florbela, como instrumento de sedução que é, lança-se em busca do ser amado, com o objetivo de capturá-lo e arrastá-lo para vivenciar a fusão amorosa. Nisso, a imagem do olhar em Florbela assemelha-se ao olhar de ressaca da personagem Capitu:
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Trazia não sei que fluido misterioso e energético, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, ás orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saia delas vinha cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. (ASSIS, 1997, p.54).
No trecho transcrito acima, Bentinho tenta dar uma definição para os marcantes e enigmáticos de sua amada, os quais levaram-no à perdição. Na falta de uma comparação exata e poética, Bentinho os compara ao mar em dias de ressaca, capazes de invadir, arrastar e de causar a destruição do que está ao seu alcance: [...] Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas [...].
O olhar do Outro na lírica florbeliana atua do mesmo modo que o olhar de Capitu: é inquietante, é perturbador, é semelhante à onda em dias de ressaca, capaz de carregar o sujeito apaixonado. Trata-se de um olhar de captura, no qual o sujeito apaixonado se torna presa, conforme trataremos mais detalhadamente no próximo tópico, onde iremos fazer a leitura do soneto Teus olhos (2005, p.254).
3. O JOGO DO OLHAR NO POEMA TEUS OLHOS
Ainda tomando por base o pensamento de Renato Janine Ribeiro (1988, p.443), discorreremos agora sobre os dois poderes atribuídos ao olhar no amor: o poder de capturar e o poder de revelar:
Olhar, no amor, tem dois poderes. O olhar captura, extrai, é voyeur, arranca prazer do objeto que ele devassa; e por isso os índios não gostam de ser fotografados, temendo perder a alma. É o que sucede quando alguém nos impressiona, desde a foto do nu ata a pessoa por quem nos apaixonamos. Na primeira vista, o apaixonado sofre uma perturbação terrível, nunca sentida. Não sabe falar, age mal. Só diz bobagens, ou nada. Mas extrai.
O segundo poder do olhar e que se revela, entrega, dá. Pelos olhos o sentimento circula, ao bom entendedor, que nem sempre é o destinatário.
Então podemos inferir que nas relações de envolvimento amoroso, o olhar possui, ao mesmo tempo, a capacidade de doar e a capacidade de capturar. É preciso deixar claro que esses poderes só prosseguem quando acontece o cruzamento de olhares, ou seja, quando o sujeito apaixonado lança o olhar de sedução à pessoa amada e é contemplado com o retorno do olhar. Observemos o soneto Teus olhos (p.254):
Olhos do meu Amor! Infantes loiros
Que trazem os meus presos endoidados!
Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:
Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.
Neles ficaram meus palácios moiros,
Meus carros de combate, destroçados,
Os meus diamantes, todos os meus oiros
Que trouxe dAlém-Mundos ignorados!
Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas...
Enigmáticas campas medievais...
Jardins de Espanha... catedrais eternas...
Berço vindo do céu à minha porta...
Ó meu leito de núpcias irreais!...
Meu suntuoso túmulo de morta!...
No poema transcrito acima temos um Eu poético que, buscando encontrar seu olhar no olhar do Outro, torna-se presa, perde-se naquilo que vê. Os olhos do amado de quem a voz poética fala possuem, supomos, a meiguice e a inocência de um menino [são adjetivados de infantes loiros], entretanto, esse olhar ingênuo funciona como uma estratégia do Outro para conseguir o que deseja: capturar o Eu.
Os olhos infantes do Outro são como os olhos de um bandido, para usarmos uma comparação presente na canção Esse cara de Caetano Veloso[6], capazes de consumir tudo o que o Eu lírico possui.
É, pois, com a aparente ingenuidade de um menino que o olhar do amado leva o Eu à perdição; na verdade, o olhar do amado é um olhar de dominador, que tem a capacidade de apreender os olhos dela juntamente com todos os seus bens [tesoiros, anéis, rendas, brocados, diamantes, oiros]; e é também um olhar aniquilador para Marilena Chauí (1988), o olho é tão poderoso, que é capaz de despir, de devorar e de matar.
A manifestação do poder que tem o olho pode ser vista nos dois primeiros versos do segundo quarteto: Neles ficaram meus palácios moiros/ Meu carros de combate, destroçados, [...].
O olhar do outro é capaz de devastar os palácios moiros [monumento nacional lusitano] e os carros de combate [instrumentos de defesa do Eu], que são tanques poderosíssimos de guerra, usados pela cavalaria de um exército. Esses carros possuem cinco poderes essenciais ao combate: o poder de fogo, de ação de choque, de proteção, de mobilidade e de comunicação. No entanto, o olho do Outro é tão poderoso que consegue destroçá-los, deixando o Eu lírico sem arma, sem defesa e, portanto, mais propensa a servi-lo.
O olhar, diz Marilena Chauí (1988, p.33), sempre foi considerado perigoso, pois, pelo olhar as filhas e a mulher de Ló foram transformadas em estátuas de sal, Narciso se perdeu de si mesmo, Édipo vazou os olhos por não ter conseguido enxergar a verdade quando podia ver (olhar enceguecedor). Assim, o olhar na poesia de Florbela também pode ser considerado perigoso: perceba-se que o Eu lírico perde tudo o que possui, seus bens materiais, sua arma de combate, ao contemplar o olhar do ser amado: O homem que contempla é absorvido por aquilo que contempla (NOVAES, 1988, p.10).Por isso Narciso foi absorvido pela sua própria imagem refletida, por isso que os índios não se olham no espelho (CHAUÍ, 1988).
Tecendo relações entre o pensamento de Ribeiro e a imagem do olhar que perpassa o soneto Teus olhos, podemos dizer que há neste os dois poderes [de captura e de entrega] atribuídos ao olhar; o olhar do Outro possui o poder de captura Que trazem os meus presos endoidados!; Já o olhar do Eu detém o poder de entrega Neles deixei, um dia, os meus tesoiros:/ Meus anéis, minhas rendas, meus brocados.
Em relação ao adjetivo loiros, no primeiro verso do primeiro quarteto, podemos imaginar que os olhos do amado possuem a cor dourada. Essa cor pode ser associada ao sol, cuja luz de tão intensa ofusca todo o resto. Isso explica o porquê do poema girar em torno tão-somente dos olhos do meu Amor: o Eu poético não consegue ver mais nada além dos olhos do amado: os olhos estorvam a visão (CHAUÍ, 1988, p.55). Retomando o que Ribeiro fala acerca do amor instantâneo, podemos observar aqui que, ao olhar nos olhos do amado, o Eu lírico enceguesse; os olhos do amado são, ao mesmo tempo, luz e treva; são raios que atingem fulminantemente o ser que ama.
Nos dois tercetos do poema, Florbela volta a adjetivar os olhos do amado na tentativa de defini-los:
Olhos do meu Amor! Fontes... cisternas...
Enigmáticas campas medievais..
Jardins de Espanha... catedrais eternas...
Berço vindo do céu à minha porta...
Ó meu leito de núpcias irreais!...
Meu suntuoso túmulo de morta!...
É curioso observarmos o uso das reticências nesses dois tercetos: foram utilizadas oito vezes. Como sabemos, usamos as reticências quando queremos deixar algo subentendido ou quando queremos deixar o sentido de um discurso suspenso. Nesse caso, o uso repetitivo das reticências sugere o esforço de encontrar uma imagem capaz de definir os olhos do amado. Novamente aqui, lembramos da passagem de D. Casmurro, em que Bentinho tenta explicar o que eram os olhos de Capitu; assim como os da musa de Bentinho, os olhos do amado são enigmáticos, misteriosos, indecifráveis e, por isso, são definidos como fontes, cisternas [que fazem alusão à origem da vida] e campas e túmulo [que fazem referência ao fim de tudo], termos aparentemente opostos, mas que apontam para o mistério e a profundidade que caracterizam o olhar do Outro.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
E, então, ratificando o que já dissemos, claramente temos no poema Teus olhos os dois poderes. A partir deles, podemos distinguir a figura do sedutor (aquele que tem nos olhos o poder de captura) e a figura do seduzido (aquele que tem nos olhos o poder de entrega).
Florbela sabe que é somente explorando as fantasias do Outro e colocando-se como objeto do olhar dele que é possível, para a mulher, chegar à fusão amorosa, uma vez que a visão, no homem, é a principal fonte de excitação sexual; é nessa relação que Alberoni (1997) denomina o erotismo masculino de erotismo visual.
Para Georges Bataille (2000), as mulheres são objetos privilegiados do desejo, pois, embora não se possa afirmar que elas sejam mais desejáveis que os homens, é possível dizer que se propõem ao desejo, pois, têm o poder de provocar a libido dos homens. Propor-se é, portanto, a atitude feminina fundamental (Ibidem, p.226). Daí que, objetivando a fusão amorosa, tentando amenizar seu estado de separação, Florbela, em muitos de seus poemas, representa um Eu que se coloca como verdadeiro objeto do olhar do Outro; descreve-se atraente, propositalmente, porque sabe que irá direcionar o olhar do amado para ela.
REFERÊNCIAS
BACHELARD, Gaston. A água e os sonhos. Ensaio sobre a imaginação da matéria. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
BATAILLE, Georges. O erotismo. Tradução de Cláudia Fares. São Paulo: Arx, 2004.
CHAUI, Marilena. Janela do corpo, espelho da alma. In: NOVAES, Adauto et al. O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. P.31-63.
ESPANCA, Florbela. Poemas de Florbela Espanca. Edição preparada por Maria Lúcia Dal Farra. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
KERL, Maria Rita. Masculino/ Feminino. O olhar da sedução. In: NOVAES, Adauto et al. O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. P.411-423.
NOVAES, Adauto. De olhos vendados. In: NOVAES, Adauto et al. O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. P.9-20.
RIBEIRO, Renato Janine. Os amantes contra o poder. Sobre alguns olhares que se cruzam à primeira vista e na teletela do Grande Irmão. In: Novaes, Adauto (et al). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. P.433-444.
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[1] Lígia Mychelle de Melo Silva é mestranda em Estudos da linguagem, na UFRN, na área de literatura comparada. / ligiamychelledemelo@yahoo.com.br
[2] In: NOVAES, Adauto (org.). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. Todas as referências sobre o olhar datadas de 1988 fazem parte dessa coletânea sobre a questão do olhar.
[4] Explode coração. Música composta por Gonzaguinha.
[5] John Donne (1572-1631): poeta inglês, maior representante dos poetas metafísicos da época. Foi poeta, padre e advogado. Escreveu poemas de caráter amoroso, religioso e satírico.
[6] Ah! Esse cara tem me consumido/ A mim e a tudo que eu quis/ com seus olhinhos infantis/ Como os olhos de um bandido [...]. In: CAZUZA. Burguesia. Manaus: Universal music, 1989.