A relação entre o campo literário brasileiro e a cultura de massa através das revistas Cult e EntreLivros

Herasmo Braga de Oliveira Brito[1]







RESUMO

O presente texto reflete sobre as relações de mercado e o poder simbólico dentro do campo literário, tendo como objetos de estudo as revistas Cult e EntreLivros. A empreitada visa demonstrar o quanto as relações comerciais passam desapercebidas pela maioria, quando se trata do discurso literário.
Palavras-chave: Campo Literário – Poder simbólico – Cultura de Massa – Revistas – Relações comerciais


ABSTRACT

This article reflects on market relations and the symbolic power within the literary field, having as objects of study and magazines Cult EntreLivros. The venture aims to demonstrate how trade relations go unnoticed by most, when it comes to literary discourse.
Keywords: Literary Field - Power symbolic - Mass Culture - Magazines - Trade relations






Entre os temas mais recorrentes dentro das discussões literárias – e não é de hoje – pode-se destacar as querelas sobre a função da literatura, sobre a finalidade a que se destina uma produção literária e em que se baseiam as concepções estetizadoras dos textos. Apesar da longa existência dessas questões, e mesmo diante de todo o arsenal teórico de que dispomos em relação às discussões literárias, reconhece-se que nenhum desses problemas será resolvido, pois, ao contrário das concepções aristotélicas e cartesianas de acreditar no homem-razão, eles extrapolam qualquer tentativa de categorização.

Assim, busca-se, através destas linhas, contribuir com o uso deste instrumento discursivo, amparado no intuito de desmitificar alguns componentes destes elementos possuidores de pensamentos cristalizados). A literatura será tratada desprovida do véu que lhe garantia o status de discurso visto sob a forma mariana; consideraremos a problemática que envolve a relação entre literatura e mercado, utilizando-nos, basicamente, das significativas contribuições desenvolvidas por Pierre Boudieu, Sergio Miceli e Ênio Passiane na análise do campo literário, tendo como objetos de estudo as revistas Cult e EntreLivros. A empreitada visa demostrar o quanto as relações comerciais passam desarpercebidas pela maioria, quando se trata do discurso literário.

Mesmo sob a égide de novos tempos, novos paradigmas, novas problematizações e olhares sobre a realidade, um dos temas que se tem apresentado de forma constante a nós refere-se ao uso dos textos literários como fonte documental na tentativa no auxílio às ciências humanas, principalmente a antropologia, a sociologia, a psicologia e a história. Os “guardiões” dos estudos literários têm apresentado, sempre quando possível, seu descontentamento com esse fato, não por temerem a invasão de outras disciplinas e outros estudos que possam causar algum dano à sua profissão ou teoria. Os estudiosos da literatura reconhecem, sem dificuldades, que o conhecimento é holístico e é impossível patentiar-se a literatura e, portanto, nada pode invalidar o uso de romances, poemas e outras peças literárias como fonte documental nas humanidades. Mas o que se questiona  são os abusos e equívocos cometidos por estudiosos de outras áreas que, ao tomarem a obra literária como objeto de análise, acabam tomando-a não só como pretexto, como também conduzindo mal o processo de pesquisa ao sustentar hipóteses questionáveis e dificilmente comprováveis como a consideração de Machado de Assis como um escritor gay ou de Clarice Lispector como escritora essencialmente feminista no seu sentido mais radical ou de Torquanto Neto como um revolucionário da poesia brasileira.

No entanto, se por um lado falta a esses estudiosos de áreas diferentes um conhecimento maior de teoria literária, falta também a nós, proponentes das abordagens literárias, conhecimento das questões referentes à história e à sociologia. Ainda continuamos concebendo a literatura sob uma ótica essencialista, tomando-a como fruto de um gênio com o dom superior, como uma ação contemplativa distanciada daquela que a produziu (BENJAMIM, 1994). Mas essa visão idealista da produção literária foi desfeita por Pierre Bourdieu, quando ele analisou o surgimento do campo literário:

A autonomia das práticas literárias que se baseiam na noção de campo – O campo literário – é a unidade de análise que permite explicar as práticas consideradas evitando recorrer a fatores externos como princípio exclusivo de inteligibilidade. Concretamente, isso significa, por exemplo, que não se pode considerar uma obra sem considerar aquilo cuja negação ela traz implícita: o sentido que ela possui está nessa própria diferença, desafio objetivamente lançado às demais obras, isto é, aos demais criadores (1992, p. 71).


Observa-se, então, que as relações estabelecidas no sistema literário vão além do que simplesmente o ato criador da obra. Outros procedimentos são necessariamente adotados na busca de se conseguir uma notoriedade ao conjunto “autor – obra – leitor”, pois uma idealizadora situacionalidade direta entre estes segmentos não seria possível devido os fortes laços comerciais existentes no mundo, seja no ocidental ou não.

Até bem pouco tempo não se tinha como mote de estudo o desenvolvimento destas questões, pois não a reconheciam como digna de estudo por faltar uma visão mais esclarecedora e sintética sobre esses aspectos. A noção de campo literário mudou esse quadro ao permitirmos compreender as relações entre o que é interno à literatura e o que lhe é externo, sem que seja preciso absolutizar ou reduzir nenhum dos termos.

Portanto, a linha à qual tomaremos por base pauta-se nos pressupostos daqueles que relacionam, como Antonio Candido propôs em seu livro “Literatura e Sociedade”, um estudo dialético entre as realidades interna e externa da obra. Todavia, nosso ensaio terá como corpus não obras literárias propriamente dita, mas os veículos que compõem a cultura de massa, analisando-a dentro de um contexto do campo literário nacional em que permeiam predominantemente as relações apenas de consumo e de efetivação de um capital simbólico desprovido dos aspectos formativos de uma intelectualidade.

Mas, antes de passarmos para a análise, alguns pontos reflexivos serão desenvolvidos para que a nossa proposta seja bem compreendida. Esses pontos serão: o surgimento da literatura brasileira, o processo de formação do campo literário brasileiro (tomando o conceito de campo segundo Bordieu), a conceituação do que vem a ser cultura de massa e, enfim, a análise das duas primeiras e duas ultimas revistas Cult e EntreLivros.


II

Muitos livros, entre eles aqueles utilizados nas escolas, colocam o surgimento da literatura brasileira a partir da Carta de Pero Vaz de Caminha. Isso já é um consenso consolidado no entendimento nacional sobre nossa literatura, no entanto, essa afirmação traz em seu bojo inúmeras inadequações frente à nossa realidade nacional e não nos ajudar a entender melhor o nosso processo de formação literária. Se não vejamos!

Segundo Antonio Candido, só acontece uma nacionalização da literatura quando um conjunto de operações se efetuam, as quais seriam assim descrita por Candido (2000, p. 23): “existência de um conjunto de produtores literários, mais ou menos conscientes do seu papel; um conjunto de receptores, formando diferentes tipos de público, sem os quais a obra não vive”. Ainda, acrescenta adiante, um outro elemento que compõe o tripé básico para a formação dum sistema literário nacional vem a ser o conjunto de leitores”), dentre os quais se sobressai o crítico, por se aprofundar melhor e especializar-se nas concepções. Assim, conclui Candido:

O conjunto dos três elementos dá lugar a um tipo de comunicação inter-humana, a literatura, que aparece sob este ângulo como sistema simbólico, por meio do qual as veleidades mais profundas do indivíduo se transformam em elementos de contacto entre os homens, e de interpretação das diferentes esferas da realidade (2000, p.23).

Portanto, quando se coloca as questões referentes ao nascimento da literatura nacional, deve-se levar em consideração estes três elementos: autor, obra, leitor (crítico), sem os quais não há uma formação básica para uma nacionalização literária. Além destes fatores, há outros de vital importância para a consolidação de uma literatura genuinamente brasileira, segundo Candido: os temas desenvolvidos nas obras; referências aos aspectos sociais, culturais e históricos do Brasil.

Sem este conjunto de caracteres, segundo a visão de Candido à qual também compartilhamos, não há literatura propriamente dita, mas sim manifestações literárias. E a primeira vez que este conjunto se forma nacionalmente é na transição do Arcadismo para o Romantismo, momento de mudança não só nos aspectos estético-culturais, mas também históricos, pois o Brasil se insere dentro de um contexto que irá culminar no processo de consolidação da independência brasileira e o estilo literário predominante na época terá papel fundamental de contribuição no processo de formação de um Brasil nação.

No período romântico há, de acordo com Candido (2000), o processo de formação de um sistema literário nacional, ou mais exatamente uma literatura brasileira propriamente dita, pois durante este período iremos ter a consolidação do tripé básico autor – obra – leitor (crítico), e não somente isto: as obras produzidas a partir deste período terão como tema aspectos nacionais. Portanto, somente a partir do Romantismo ocorre a formação de um sistema literário. Mas isso não será o único grande feito deste período, pois outros acontecimentos iniciais irão proporcionar, no século XX, a formação do campo literário brasileiro, de acordo com a formulação conceitual de Pierre Bourdieu.


III

O desenvolvimento das letras a partir do Romantismo foi motivado de forma significativa pela vinda da família Real para o Brasil, que proporcionou o desenvolvimento de diversos setores que até então não existiam, ou se existiam era de forma bastante precária. Acabou-se, nesta época, por se desenvolver ações que contribuíram para a formação de um maior número de leitores, ainda que restrito às casas abastardas, como o desenvolvimento da educação e surgimento da imprensa. É durante o Romantismo que ocorre todo um processo de formação de um público que será fundamental para a consolidação da literatura local e, no século seguinte à consolidação do campo literário, pois agora teremos todas as condições necessárias para a efetivação de um campo: capitais sociais, simbólicos, financeiros e, mais adiante, a criação das instâncias de consagração, como a Academia Brasileira de Letras, apesar de a proposta de sua criação existir já há alguns anos. Aqueles que almejam serem reconhecidos como escritores devem contar com a estrutura desse espaço que, dotado de propriedades tais como solidez, tradição, opacidade e duração, acumula em si aspectos relacionados aos mecanismos de constituição do capital simbólico e social e constituem-se como lugar de legitimação do valor literário do indivíduo.

A criação e o desenvolvimento da imprensa também foi outro fator crucial, não só por formar entre a população a idéia de país que para ser forte deve permanecer unido, como também para ampliação e desenvolvimento de leitores, além de proporcionar aos donos dos meios de produção a viabilidade mercantil da atividade.


IV

Após o período romântico, que culminou com a Independência do Brasil, surgiram, no final do século XIX, teorias pautadas no cientificismo, como a teoria da evolução das espécies, o determinismo biológico e a corrente filosófica positivista, segundo a qual a ciência seria o estágio final do desenvolvimento, capaz de tudo explicar e de levar a vida humana a um constante progresso, caso houvesse a perpetuação da ordem. Em conseqüência disso, tivemos obras que reduziam o homem a sua natureza instintiva e animalesca (as obras de cunho naturalista) e outras que buscaram representar em seus enredos a realidade sem máscaras (Realismo); outros ainda se voltaram para os aspectos formais da literatura deixados em segundo plano durante o Romantismo (Parnasianismo) , enquanto que outrem buscou resgatar o sentido transcendental, ingênuo, puro e simbólico perdido diante de uma sociedade moderna (Simbolismo).

Assim, diante de cada desenvolvimento literário destas correntes estéticas, o processo de formação de um campo literário foi se desenvolvendo com a publicação cada vez maior de obras e, conseqüentemente, com o aumento no número de autores e leitores. Com isso, já no período denominado por Tristão de Ataíde pré-modernismo aconteceu a consolidação do campo literário, através do empenho, segundo Enio Passiani (2003), de Monteiro Lobato enquanto autor e editor, inicialmente através da Revista do Brasil e posteriormente através da editora Monteiro Lobato & Cia, que se tornou, em 1921, a maior e mais importante editora do Brasil.

O propósito de Lobato constituía-se, através deste projeto, estimular no Brasil uma arte autóctone, pois, para ele, no Brasil haveria de se ter uma “estética nacional baseada no temperamento, cor e vida, ou seja, “uma arte voltada para as coisas do Brasil, sua gente, sua flora e fauna, seus costumes e tradições” (LOBATO apud PASSIANE, 2003, p.56). Na concepção de Lobato, “o artista cresce à medida que se nacionaliza” (Idem, Ibidem, p.56), voltando-se para o interior do país, para o nosso sertão, onde reside o “verdadeiro” Brasil, e se afastando do litoral, região influenciada pelos modismos europeus, porta de entrada dos “francesismos” que se alastram pelo país ...” (Idem, Ibidem). 

O desenvolvimento deste projeto mostrou-se inteiramente viável, pois a valorização das nossas tradições culturais, da cultura popular, da oralidade, o combate à imitação das modas culturais européias e a exaltação da nacionalidade acabaram por estreitar as relações das obras com o leitores, possibilitando a Lobato tornar-se figura hegemônica dentro do campo literário brasileiro (cf. PASSIANI, 2003). Mas o autor de “Urupês” não logrou bons resultados apenas nessas questões, segundo a visão de Passiani (2003), pois proporcionou à literatura nacional o surgimento de novos escritores que tratavam dos aspectos culturais nacionais.  Com isso, Lobato tornou-se um figura com tanto capital simbólico e social que chegou mesmo a desdenhar de uma instância de consagração que era a Academia Brasileira de Letras (ABL), criada em 20 de julho de 1897, e que certamente contribuiu para a formação do campo literário ao possibilitar aos artistas da palavra escrita o reconhecimento do público com uma maior visibilidade social, além de iniciar o processo de profissionalização do escritor (cf. PASSIANI, 2003). Diante de   tanta pompa, Lobato retirou a sua candidatura de membro ao considerar humilhante o fato de ter de solicitar votos dos acadêmicos e também por perceber que a ABL só se interessava por ele devido à grande importância que ele tinha na época e isso traria à Academia maior benefício, pois haveria uma troca de consagração entre Lobato e aquela instituição (cf. idem, Ibidem). Diante de tanto acúmulo de capital simbólico, Monteiro Lobato consolidou-se na história não só literária como também educacional de nosso país.

O pensamento de Sérgio Miceli (2001), no entanto, é discordante da visão proposta por Passiani ao colocar que a consolidação do campo literário nacional aconteceu durante o pré-modernismo sobre a tutela de Monteiro Lobato. Para Miceli, o campo literário realmente se efetiva durante o surgimento do Modernismo nas artes brasileiras. Durante o pré-modernismo teria ocorrido, de fato, uma aceleração maior rumo à consolidação do campo, mas somente no modernismo ocorreu a maturação deste processo e, conseqüentemente, a consolidação do campo.

Estas porém são questões que poderão ser desenvolvidas em outro momento porque o interesse central para este ensaio reside na compreensão do que seja um campo literário, segundo Bourdieu, e como aconteceu seu surgimento no Brasil.


V

A primeira revista Cult despontou no cenário nacional em agosto de 1997, trazendo logo na sua capa uma imagem extremamente convidativa para o caráter ao qual, talvez, ela estivesse proposta a se inserir: de um veículo de comunicação de massa, literário, diferenciado dos demais. A capa apresenta a imagem de Che Guevara, um líder revolucionário que lutou pela independência da América Latina frente às grandes potencias. Com isso, talvez a revista buscasse consolidar-se exatamente por este caráter de independência frente aos outras concorrentes de conteúdo igual ou até mesmo de outros segmentos, como fica bem exposto em seu primeiro editorial:

Dos diversos instrumentos utilizados pelo homem, o mais espetacular é sem dúvida o livro. Os demais são extensões de seu corpo. O microscópio, o telescópio são extensões de sua visão; o telefone é a extensão de sua voz; em seguida, temos o arado e a espada, extensões de seu braço. O livro, porém, é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.

Esta frase que abre o ensaio O livro, do escritor argentino Jorge Luis Borges é a epígrafe ideal para uma publicação que nasce como um espaço para a literatura, a cultura e a reflexão. Pois se o livro é o mais sublime instrumento de transformação do mundo, se o poder silencioso da palavra pode ditar a direção da espada, ensinar o uso do arado e do microscópio, uma revista que aposta no poder da imaginação e do pensamento será também um espaço para as bibliotecas reais e virtuais que preservam nosso passado e projetam nosso futuro.

Livros e literatura, imaginação e memória estes os temas que estarão nas páginas da revista CULT. Se já nos acostumamos com a idéia de que vivemos num mundo de signos, um mundo criado pela linguagem, a CULT pretende justamente sublinhar a força do universo simbólico e suas infinitas constelações poéticas.

A força da linguagem está expressa, por exemplo, pela personagem de nossa matéria de capa, o mito Che Guevara, que há trinta anos fracassou como guerrilheiro, mas acabou se eternizando como ícone de uma geração que queria a imaginação no poder.” (PINTO, Rev. Cult, julho de 1997, p.2)

Percebe-se então que, dentro do esquema de capitais conceitualmente formuladas por Pierre Bourdieu, a revista tende a consolidar-se através  de um capital, o social, ou seja, pretender conquistar a respeitabilidade e o reconhecimento em todas as áreas  em que a literatura se apresente, como podemos ver na apresentação de seus textos:

Está também na permanência da obra de Kafka (tema das seções Ensaio e Turismo literário), na poesia brasileira contemporânea que chega em livro aos EUA (tema do poeta Heitor Ferraz no Diálogo literário) e, sobretudo, no depoimento de Décio de Almeida Prado, nosso maior crítico de teatro, que ao completar 80 anos lembra sua experiência como editor da revista Clima e do Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo  duas referências obrigatórias para o jornalismo cultural.

Sem esquecer o viés crítico, a CULT resgata a história (nem sempre edificante) da Academia Brasileira de Letras, que comemora cem anos de existência, analisa o saldo (questionável) do Prêmio Nestlé de Literatura e abre um espaço permanente para o professor Pasquale Cipro Neto, com suas observações rigorosas e bem-humoradas sobre os maus tratos que sofre a língua portuguesa.

E se a criação se alimenta ora da inspiração, ora da negação do passado, a CULT procura recapitular também os sedimentos da modernidade, na figura do poeta futurista Blaise Cendrars, a história editorial brasileira (na seção Memória em revista), a trajetória intelectual do pensador italiano Norberto Bobbio e a obra de Padre Vieira, imperador da língua portuguesa. (no Dossiê) (PINTO, Rev. Cult, julho de 1997, p.2).

Observa-se aqui a pretensão da revista em tornar-se uma instância de consagração, não só dos colaboradores como da própria revista, ao distanciar-se disfarçadamente do estereotipo de instrumento de divulgação de uma cultura de massa; ou seja, no primeiro momento, a Cult se atém ao capital social que seria a valorização da qualidade do material proposto, constituindo-se externa e internamente seu momento de consagração e, após a superação destes aspectos, conseguir o seu terceiro campo, que seria o firmamento financeiro, constituindo o seu capital financeiro.

Essas questões ficam bem nítidas na conclusão do editorial, quando Paulo Lemos e Manuel da Costa Pinto, editores, afirmam o compromisso da revista em: “Partindo do mundo dos livros e seus autores, a CULT quer dar um retrato multifacetado do panorama cultural, um retrato necessariamente pluralista (embora seletivo) de uma realidade fragmentária como a nossa” (LEMOS, PINTO, Rev. Cult, julho de 1997, p.2)

Já a EntreLivros traz em sua capa uma imagem bastante sugestivade sua proposta : a imagem de Thomas Mann, autor, entre outras obras, de “Doutor Fausto” e “A Montanha Mágica”. Mann é considerado por muitos o herdeiro de Goete, um mito da literatura alemã, e no editorial se explica o porquê de Thomas Mann e a frase ‘Uma montanha de literatura’:

Um nova revista não coloca impunemente, na capa de estréia, o mote “uma montanha de literatura”. Além de referência explícita a uma obra-prima de Thomas Mann, a frase embute uma promessa a ser cumprida. E é assim que deve ser entendida: como declaração inequívoca de princípio e de compromisso editorial.

O exemplar de EntreLivros que o leitor tem em mãos, mais do que este começo de conversa, é eloqüente ao demonstrar que é adequada a metáfora da montanha....

... EntreLivros surge para atender a demanda de um público adulto, que tem, ou gostaria de desenvolver, o hábito de ler livros.

EntreLivros procurará, a cada edição, seu ponto de equilíbrio. A aposta em trabalhos inéditos terá como contrapartida a abordagem de obras consagradas. A erudição permeará os textos mais densos, mas sempre filtrada por um didatismo orgânico, sem o qual se torna pedante e obscura. A polêmica e o consenso não se estranharão. Será assim, por meio de dicotomias, que EntreLivros buscará seu tom. (Pilagallo, EntreLivros, maio de 2005, p.5)

Percebe-se claramente por este editorial que a revista EntreLivros, assim como a Cult, pretende inserir-se dentro do campo literário como instância de consagração, sem desvincular-se da cultura de massa. No entanto, ela parece arriscar-se mais ao pretender especificar-se somente nas discussões literárias, ao contrário da Cult que trabalha com uma pluralidade maior de temas, embora todos relacionados aos aspectos culturais.

A equipe formada pelas revistas é de grande respeitabilidade no cenário literário nacional, como o crítico Alexandre Barbosa na Cult,  e Milton Hatoum e Umberto Eco na EntreLivros.

As duas revistas se consolidaram dentro não só do campo literário, como também entre as demais revistas de conteúdos variados. A Cult comemora em Março de 2006 a sua centésima edição, enquanto a EntreLivros adentra em seu segundo ano com toda força editorial.

Uma outra característica bastante interessante é que, apesar de toda notoriedade nacional, elas camuflam bem o seu tom de independência nas produções de suas matérias, não cedendo de forma explícita às pressões das grandes editoras na indução de vendagem de livros. Por exemplo, a revista EntreLivros é das editoras Segmentos e Ediouro, mas em uma das sessões da EntreLivros, na parte de resenhas, não há predomínio de obras apenas das duas editoras  na seleção e recomendação de leituras, como acontecem com outras revistas, como a editada pela Annabune, que expõe explicitamente as obras por ela editadas. Isso demonstra a habilidade da Cult e da EntreLivros de não comprometimento do material trabalhado e exposto em suas matérias, utilizando sutilmente dos mecanismos de sedução que compõem a cultura de massa.

Talvez a marca principal destas revistas resida justamente neste trabalho harmônico enquanto instrumento da cultura de massa e veículo de credibilidade, fazendo com que elas conquistem um público significativo e se consolidem dentro de um segmento extremamente amplo do campo literário nacional.


 

REFERÊNCIAS


BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. 8ª ed. Obras escolhidas volume I. São Paulo: Brasiliense, 1994.

BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. 2ª ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.

________. As regras da arte. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

________. Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 2004.

________. Os usos sociais da ciência: por uma sociologia clinica do campo científico. São Paulo: UNESP/INRA, 1997.

CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira: momentos decisivos. Volumes I e II. 6ª ed.  Belo Horizonte: Editora Itatiaia Ltda, 2000.

________. Literatura e Sociedade: estudos de teoria e história literária. 8ª ed. São Paulo: T. A. Queiroz, 2000.

CULT. São Paulo: Lemos Editorial, edição 1, ano 1, julho de 1997.
 
CULT. São Paulo: Editora Bregantini , edição especial, ano 9, março de 2006

ENTRELIVROS. São Paulo: Ediouro, Segmento- Duetto Editorial Ltda. Ano 1, nº 1, maio de 2005.

LIMA, Luiz Costa (org.). Teoria da Cultura de Massa. São Paulo: Paz e Terra, 2000.

MICELI, Sergio. Intelectuais à brasileira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

PASSIANI, Ênio. Na trilha do Jeca: Monteiro Lobato e a formação do campo literário no Brasil. São Paulo: EDUSC, 2003.

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[1] Herasmo Braga de Oliveira Brito é mestre em Literatura pela UFPI.

blog: O mundo é do tamanho do meu vocabulário


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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 6 - teresina - piauí - julho/agosto/setembro de 2010]
 
 

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