Poesia em microscópio (Breve roteiro para a desaparição de Bueno de Rivera)[1]
Artur de Vargas Giorgi - UFSC-CNPq
RESUMO
Esta leitura parte de uma obra anunciada mas não cumprida em sua forma do poeta mineiro Bueno de Rivera para articular algumas relações entre a singularidade dessa autoria e os conceitos de gesto e de dispositivo propostos por Giorgio Agamben a partir de suas leituras de Foucault. Palavras-chave: Bueno de Rivera; Gesto; Dispositivo.
ABSTRACT
This lecture starts from an announced but not formally accomplished work of the poet (pertaining to Minas Gerais) Bueno de Rivera to articulate some relations between the singularity of this authorship and the concepts of gesture and dispositive proposed by Giorgio Agamben from his lectures of Foucault. Keywords: Bueno de Rivera; Gesture; Dispositive.
1
Em 2003, Affonso Romano de SantAnna editou pela coleção Melhores Poemas, da Editora Global, uma seleção do mineiro Bueno de Rivera (1911-1982). Nessa seleção, poemas dos livros Mundo Submerso, de 1944, Luz do Pântano, de 1948, Pasto de Pedra, de 1971, e mais outros, esparsos, nunca reunidos em um livro fechado, ou melhor, aparentemente reunidos em um livro denominado As Fúrias que não foi publicado, mas, como diz o autor da seleção, aparece na folha de obras de Bueno de Rivera, da edição de Pasto de Pedra, como uma obra inédita que reuniria os poemas escritos entre 1949 e 1960. Para encontrar alguns desses poemas, Affonso Romano de SantAnna recorreu a jornais e revistas, mas também à família do poeta de Santo Antônio do Monte. E a respeito disso, diz ele em seu prefácio:
Onde estão esses poemas?
Perguntei a Clara e Isaac, seus filhos, numa visita feita a eles, em Belo Horizonte (por misteriosa coincidência no dia 25 de junho de 2002, quando se completavam 20 anos de sua morte). Os filhos contaram-me que quando lhe perguntavam por esse livro mencionado, ele simplesmente respondia: Está todo aqui na minha cabeça (SANTANNA, 2003, p. 08).
Detenho-me no seguinte ponto: o fato de uma das obras de Bueno de Rivera existir sob esta condição paradoxal, inscrita como um livro no corpus da sua autoria ao mesmo tempo em que essa inscrição anuncia tão-somente a ausência da obra, ou ainda anuncia a presença de uma obra que, em sua forma, se resume ao título[2].
2
Inscrever no corpus da sua autoria uma obra ausente, anunciar um livro que é só título ou feito sobretudo de sua falta, sua falha, sua memória quem sabe isso possa ser entendido como uma extensão da própria presença do autor, em seu gesto característico de desaparecimento e risco. Pois, nesses termos, penso que seja esta uma possibilidade, um preparo para a leitura de Bueno de Rivera, colocado em jogo com o texto O autor como gesto, de Giorgio Agamben, que por sua vez parte, explicitamente, dos textos de Foucault O que é um autor?, em suas versões de 1969 e de 1971, e A vida dos homens infames.
Como se sabe, em O autor como gesto, Agamben retoma a divisão feita por Foucault entre o indivíduo autor e a sua função para enfatizar que é na ausência mesma do autor como indivíduo que está a possibilidade de uma vida ética. Ética não é a vida que simplesmente se submete à lei moral, diz o italiano, mas a que aceita, irrevogavelmente e sem reservas, pôr-se em jogo nos seus gestos (2007, p. 61). Mas ainda é preciso indicar com maior clareza como essa vida ética e seus gestos tocam a ausência do autor. Cito Agamben:
Se chamarmos de gesto o que continua inexpresso em cada ato de expressão, poderíamos afirmar então que [...] o autor está presente no texto apenas em um gesto, que possibilita a expressão na mesma medida em que nela instala um vazio central (2007, p. 59).
Pôr-se em jogo nos seus gestos, nesse sentido, é implicar-se por completo na expressão originada, expressão esta que, contudo, se mantém insuficiente para a definição do autor; pois se alguma subjetividade lança sua luz sobre o mundo, como testemunho de uma forma-de-vida, de uma ética, ela o faz apenas ao retirar-se do que apresenta, pela necessária recusa em se reduzir ao dispositivo que, depois de criado, inscreve e nomeia[3] essa subjetividade. Com isso, em jogo não está uma identidade prévia ou uma realidade autônoma que seria determinante do sentido, mas, de outro modo, como chama Agamben, o sujeito: o que resulta do encontro e do corpo-a-corpo com os dispositivos em que foi posto se pôs em jogo (2007, p. 63). O sujeito, portanto, exibindo em um gesto a irredutibilidade da própria vida capturada nessa expressão, ou ainda a impropriedade disso que foi feito para, propriamente, manifestá-la viva.
3
De que modo, então, as considerações de Agamben podem se referir a Bueno de Rivera? Não genericamente, é certo, já que a ausência do autor é singular. E sem dúvida o gesto passa pelo corpo-a-corpo que o poeta mineiro manteve com diversos dispositivos, a partir da linguagem, evidentemente, mas para além da escritura e da poesia; ou, também poderia ser dito, o gesto passa pelo corpo-a-corpo em que Bueno de Rivera foi posto e se pôs em jogo e do qual resulta, como pretendo mostrar, a singularidade de uma espécie de escritura que eu vejo inscrita além da literatura.
Um primeiro passo: publicado em Mundo Submerso, de 1944, o poema O microscópio é lido por Affonso Romano de SantAnna como um vestígio das diversas atividades que o poeta desempenhou na vida. Diz ele em seu prefácio:
Tendo chegado a Belo Horizonte aos 15 anos, [Bueno de Rivera] exerceu uma série de atividades, que ia desde a de microscopista até locutor da Rádio Mineira. Sua voz pausada e bem articulada marcou época. Com efeito, em alguns de seus poemas há vestígios dessas atividades. Veja-se o poema O microscópio (SANTANNA, 2003, p. 08).
Pois vejamos o poema:
O microscópio
O olho no microscópio vê o outro lado, é solene sondando o indefinível.
Dramática a paciência do olho através da lente, buscando o mundo na lâmina.
A tosse espera a sentença, o leito aguarda a resposta. O tísico pensa na morte.
O silêncio é puro e o frio envolve o laboratório. Os frascos tremem de susto.
O infinito dos germes reflete no olho imenso que pousa na objetiva.
O avental se levanta. Os dedos inconscientes escrevem a palavra ríspida.
O resultado terrível entra nos óculos do médico e ele diz: positivo.
O doente tira o lenço. Aperta a mulher e o filho, chora no ombro da esposa.
Imagina a reclusão no sanatório, a saudade e o vento no quarto branco.
Olha o papel: positivo. Cresce a palavra com a tosse. A febre queima a esperança.
O microscopista, no entanto, conta anedotas no bar. Está alheio e feliz.
Não sabe que o olho esquerdo ditou a sentença e a morte. Paga o café e caminha (RIVERA, 1944, p. 35-36).
Se, como diz Affonso Romano de SantAnna, no poema há vestígios, restos, então nele não podemos ler a inequívoca biografia do poeta, sua identidade ou algo correspondente à sua pura presença substancial, senão a ausência, ali marcada, que faz essa vida ser colocada em jogo. Em outras palavras, não encontraremos o homem no poema nem nos registros de suas atividades como microscopista, por exemplo; de outro modo, neste caso, é do contato do poeta com o dispositivo microscópio que temos como resultado a expressão a insuficiência do vestígio, do poema que situa o sujeito Bueno de Rivera em sua própria cisão, em risco: uma subjetividade que está entregue ao dispositivo, aparentemente anestesiada diante da vida pela captura que esse dispositivo impõe, ao mesmo tempo em que a denuncia, se volta sensibilizada contra ela e permite que sua figura de sujeito se expresse paradoxalmente pela recusa do sujeitamento.
Insisto neste ponto. Cindido, onde está Bueno de Rivera? Diante do microscópio, insensível? Ou diante do poema, acusador? Creio que em nenhum desses lugares. O microscópio, como o poema, é apenas um dispositivo junto ao qual um sujeito pode vir a ser. No poema, entretanto, a aporia que perpassa toda consideração a respeito dos dispositivos mantém-se sensivelmente aberta: o microscópio traz a promessa de extensão da visão do homem, que então domina com uma acuidade inusitada as coisas que o cercam, penetrando, por assim dizer, um aspecto da vida que antes lhe escapava; assim como ele traz, também, a potencial perda da visão, na medida em que o olho do homem, cego para a sorte do outro, é capaz de ditar, alheio e feliz (RIVERA, 1944, p. 35-36), a sua morte.
Com o mesmo gesto que eu agora refaço, mas unicamente ocupando seu vazio Bueno de Rivera arrisca-se no testemunho de uma forma-de-vida indecidível; forma-de-vida que, desse modo, só faz exigir uma decisão urgente, isto é, uma leitura irrevogavelmente comprometedora da vida. Podemos sempre questionar qual solução se submeteria à lei moral. Mas, de qualquer maneira, acredito que toda tentativa de precisar a pura expressão da vida do indivíduo seja o microscopista alienado ou o poeta acusador facilmente escapa com o inapropriável dessa subjetividade, ou seja, com o próprio ser vivo que, apesar de ilegível, em cada leitura é colocado em jogo.
4
Este roteiro erra o poeta. E, com ele, também o poema pode estar em outro lugar. Penso agora em outra atividade de Bueno de Rivera, em Belo Horizonte. Volto às palavras de Affonso Romano de SantAnna:
Visitei o poeta diversas vezes. E com ele me encontrava ou na Livraria Itatiaia às 6 da tarde ou nas esquinas da capital mineira em amenos bate-papos. Ele sempre com uma pastinha sob os braços, pois editava o famoso Guia Rivera que dava aos habitantes da cidade informações básicas sobre as ruas, comércio etc. Bueno vivia dessa atividade, embora anteriormente tivesse se dedicado a outras ocupações (2003, p. 09).
Assim como o autor está presente no texto apenas em seu gesto, podemos dizer que o poema, esse vestígio, sendo tudo o que há, guarda no que não revela a potência de ser sempre uma outra coisa. No caso de Bueno de Rivera, o autor pode diferir o poema e quem sabe fazê-lo aparecer sob a forma de outro tipo de risco, isto é, na forma do risco que o próprio corpo do poeta imprime no corpo-a-corpo com a cidade. Refiro-me a esta espécie de escritura deslocada que o poeta realiza caminhando as ruas do dispositivo Belo Horizonte, buscando contato com seus lugares, as linhas de condução e as paradas, suas praças e passagens, para compor um guia, que sintomaticamente seria chamado Guia Rivera: um guia para compor-se. Para o homem não se perder de si, talvez sabendo, posso imaginar, que lidava com o impossível.
Está dita a função do livreto, cuja primeira edição data de 1950: localizar, nomear, capturar a cidade em um outro dispositivo, ainda, que servisse aos seus habitantes. Como se o microscopista, primeiro mergulhando nos detalhes de Belo Horizonte, pudesse em movimento seguinte, afastando-se da lente, vê-la à distância. Mas as muitas páginas do guia, que hoje segue em edições ampliadas e atualizadas, sob os cuidados da empresa que comprou os direitos de publicação após a morte do poeta, essas muitas páginas são apenas um grande e insistente vestígio do autor e da própria cidade que ele compôs. Nesse sentido, o Guia Rivera, na eloquência dos seus detalhes e do nome que forma, não funciona, não conduz, não guia; nele está tão-somente a ausência de um Bueno de Rivera junto a uma cidade que não se restringe a tudo o que nela pôde ser nomeado e catalogado. Em tudo o que o guia expressa, o inexpresso de uma vida que designava (desenhava, riscava) essa cidade sem a isso se reduzir e sem conseguir reduzi-la. E agora, como quem caminha um deserto, como em qualquer cidade, refazer o trajeto do autor não é garantia de encontro, de saída: não há roteiro possível para o homem e seus confins, de modo que a leitura do guia coincide com a escritura de um outro sujeito e seu desaparecimento.
5
Bueno de Rivera foi também tipógrafo. E locutor, um speaker prestigiado da Rádio Mineira. Affonso Romano de SantAnna diz que sua voz pausada e bem articulada marcou época (2003, p. 08), e lembro-me de ter lido em algum lugar memória, está tudo aqui na minha cabeça... que foi exatamente essa voz que primeiro seduziu aquela que seria sua esposa, Angela. Para mim, mais importante é que ele tem entre as suas obras um livro de poemas chamado As Fúrias. E é nesse livro, precisamente, que o poeta está.
REFERÊNCIAS
AGAMBEN, Giorgio. O autor como gesto. In: ________. Profanações. Tradução: Selvino José Assmann. São Paulo: Boitempo, 2007, p. 55-63.
___________. O que é um dispositivo? In: A exceção e o excesso: Agamben & Bataille. Tradução: Nilcéia Valdati. Outra travessia. Florianópolis: UFSC, n. 5, p. 9-16, 2º semestre/2005.
RIVERA, Bueno de. Melhores poemas de Bueno de Rivera. Seleção Affonso Romano de SantAnna. São Paulo: Global, 2003.
________. Mundo Submerso. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944.
SANTANNA, Affonso Romano de. Bueno, um bom poeta [prefácio]. In: RIVERA, Bueno de. Melhores poemas de Bueno de Rivera. Seleção Affonso Romano de SantAnna. São Paulo: Global, 2003, p. 07-12.
____________________
Artur de Vargas Giorgi é graduado em Comunicação Social (UNAERP-SP) e licenciado em Letras (UFSC). Atualmente faz mestrado em Teoria Literária (UFSC). Este trabalho foi realizado com o apoio do CNPq Brasil.
[1] Comunicação apresentada na mesa-redonda Os gestos: memória, palavra e imagem proposta pela Professora Doutora Ana Luiza Andrade na IV Semana Acadêmica de Letras da Universidade Federal de Santa Catarina UFSC (Florianópolis, maio de 2010).
[2] Considero obra, aqui, o trabalho autoral que se manifesta como cumprimento de um projeto, com uma forma definida e, em certo sentido, fechada, acabada; como um livro editado e publicado, por exemplo: tal edição é uma obra específica, tem sua apresentação bem determinada em elementos como: editora, capa, conjunto de poemas, formato, fontes escolhidas, tipo de papel, ano, local de publicação, etc. Nesse sentido, portanto, a obra As Fúrias, de Bueno de Rivera, existe apenas enquanto ausência desse cumprimento, dessa forma.
[3] Novamente a partir de Foucault, Agamben define em O que é um dispositivo?: Generalizando posteriormente a já amplíssima classe dos dispositivos foucaultianos, chamarei literalmente de dispositivo qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar, controlar e assegurar os gestos, as condutas, as opiniões e os discursos dos seres viventes. Não somente, portanto, as prisões, os manicômios, o panóptico, as escolas, as confissões, as fábricas, as disciplinas, as medidas jurídicas etc., cuja conexão com o poder é em um certo sentido evidente, mas também a caneta, a escritura, a literatura, a filosofia, a agricultura, o cigarro, a navegação, os computadores, os telefones celulares e por que não a linguagem mesma, que é talvez o mais antigo dos dispositivos, em que há milhares e milhares de anos um primata provavelmente sem dar-se conta das conseqüências que se seguiriam teve a inconsciência de se deixar capturar (2005, p. 13). E em seguida: O fato é que com toda a evidência os dispositivos não são um acidente no qual os homens caíram por acaso, mas eles têm a sua raiz no mesmo processo de hominização que tornou humanos os animais que classificamos sob a rubrica homo sapiens. O evento que produziu o humano constitui, com efeito, para o vivente, algo assim como uma cisão, que reproduz de algum modo a cisão que a oikonomia introduziu em Deus entre ser e ação. [...] Por meio dos dispositivos, o homem procura fazer girar em vão os comportamentos animais que separaram dele e assim gozar do Aberto como tal, do ente enquanto ente. Na raiz de cada dispositivo está, deste modo, um desejo demasiadamente humano de felicidade, e a captura e a subjetivação deste desejo em uma esfera separada constitui a potência específica do dispositivo (AGAMBEN, 2005, p. 13-14).