Camões e Gregório de Matos: elementos retóricos de louvor presentes no discurso heróico
Assunção de Maria Almondes Leal[1]
RESUMO
Discorre-se neste texto sobre o uso de artifícios retóricos usados para compor o louvor de ilustres e guerreiros, presentes no poema épico Os Lusíadas, de Luis de Camões e no discurso heróico, sem título, atribuído a Gregório de Matos e Guerra, composto à imitação da referida épica camoniana. Importa observar os expedientes miméticos constituintes do encômio que se busca identificar através do cotejo da proposição, invocação, dedicatória e narração dos referidos poemas, principalmente no que respeita às premissas retóricas que constituem as tópicas exordiais e laudatórias, bem como a composição da persona heróica desses gêneros poéticos. Palavras-chave: Discurso heróico. Camões. Gregório de Matos. Louvor. Imitação.
RIASSUNTO
In questo lavoro, si discute circa l'uso di tecnica retoriche utilizzate per comporre l'elogio di illustri e guerrieri, presenti nel poema epico Os Lusíadas, di Luis de Camões, e nel discorso eroico, nessun titolo, attribuito a Gregório de Matos e Guerra, composto ad imitazione di quella l'epica camoniana. Abbiamo tentato di osservare gli componenti del espedienti mimetica del encomio, che cerchiamo di identificare attraverso l'analisi della proposizione, invocazione, dedizione e narrazione di queste poesie, soprattutto in che si riferisce alle basi della retorica che costituire gli argomenti esordio ed elogiativo, e la composizione del persona eroico di tali generi poetici. Parole-chiave: discorso eroico. Camões. Gregório de Matos. Lode. Imitazione.
O exame detido sobre a poesia de vertente retórica atribuída ao poeta luso-brasileiro do Seiscentos Gregório de Matos evidencia que o mesmo toma Os Lusíadas de Camões como modelo de composição poética, dando prosseguimento aos fundamentos normatizados pelas preceptivas e tradição coevas, sobretudo quando estas indicam que o imitador deve se servir, em sua imitação, dos escritos de melhores notas, sentenças e conceitos no gênero que irá compor, imitando-lhe as sutilezas e singularidades. Essa premissa pode ser observada no canto heróico, atribuído a Gregório de Matos, gênero misto composto à imitação do poema épico de Luís de Camões.
Como se sabe, a extensa epopéia camoniana é composta de vários episódios distribuídos em dez cantos, cada um deles com um número variável de estrofes oitavadas, que, no total, somam 1102, com versos hendecassílabos, conforme a terminologia da época, predominantemente heróicos, que obedecem ao esquema rimático "abababcc" (rimas cruzadas nos seis primeiros versos e emparelhadas nos dois últimos), os quais são apresentados em linguagem alta e solene como requer o decoro do gênero épico[1]. Semelhantemente à épica camoniana, o canto heróico atribuído a Gregório de Matos compõe-se de oitavas rimas com versos hendecassílabos e possui similar estrutura semântica e sonora dos versos, além de seguir o estilo grandíloquo e solene com que Camões trata, em sua épica, os grandes feitos da nação portuguesa, tema cerne do panegírico que tem o capitão Vasco da Gama como figura central. Gregório de Matos, em sua imitação desta epopéia moderna, louva os feitos insignes de Dionísio de Ávila[2], guerreiro fidalgo que, numa empresa bélica, lutou e aprisionou com sucesso trinta “facinoros”[sic] no então povoado de Porto Seguro, como nos antecipa a didascália[3] do poema: “Ao dezembargador Dionizio de Avila Varreyro ouvidor geral do civel deste estado do Brasil indo à Porto Seguro prender trinta e sete facinoros que andavão roubando, e matando naquela povoação, sòmente com cincoenta soldados desta praça e alguns índios, là aggregou ação que sem o favor divino não poderá conseguir esforço humano”[4]. Esse poema atribuído a Gregório de Matos reproduziu literalmente um verso do poema de Os Lusíadas em cada uma das trinta estrofes de sua glosa encomiástica, da qual destacaremos alguns trechos, com vistas à identificação de elementos miméticos, observando-lhes certos lugares-comuns.
Deste modo, seguindo orientação de seu tempo, Camões compôs Os lusíadas à imitação de épicas antigas tais como Ilíada e Odisséia, de Homero, e a Eneida, de Virgílio, fazendo uso de argumentos históricos, mitológicos, políticos e religiosos para celebrar a dignidade do Império português e a exaltação da fé “verdadeira” para efeito didático e moral. Em semelhante veio didático de se emular os bons poetas em suas composições, Gregório de Matos se serviu de elementos da epopéia do emuladíssimo Camões para realizar a feitura de seu canto heróico, gênero misto com a presença marcante de vários elementos épicos. Ressalte-se que esse procedimento gregoriano de imitar a épica era frequente no Seiscentos ibérico, uma vez que, por falta de uma normatividade que desse conta dos numerosos gêneros que então circulavam, a tendência era que essas novas composições se acomodassem aos gêneros mais bem estabelecidos, como a epopéia e a tragédia. Destaque-se que, na época a que nos reportamos, o crédito máximo é efetivamente concedido ao gênero épico, como se verifica nas justificativas de Manuel Pires de Almeida, no seu Discurso sobre o poema heróico:
Tem a ação mais perfeita, porque não há mister ajuda de outros, como a trágica dos representantes; o misto induz matérias diversas; consegue maior admiração e deleite; usa do metro mais nobre; e ultimamente a épica é um montão de tragédias (como diz Aristóteles) e como o todo é mais nobre que sua parte, o fica o heróico, respeito da tragédia e dos mais poemas inferiores. Lançados destes fundamentos, por símbolo de sua fortaleza e veneração, davam os antigos coroas de carvalho aos poetas heróicos, como notou Júlio César Scalígero na sua Poética, L.1, c. 41.[6]
Portanto, imitar um poema épico de um autor consagrado funcionava como um meio de legitimação de um poeta que visava a ascender[7] na tradição poética.
Como é sabido, a epopéia se situa como discurso heróico, subgênero do epidítico e tem como objetivo louvar os grandes feitos dos homens bons, necessariamente melhores do que somos[8], cujo verossímil e equivalência decorosa encontra lugar propício de representação no discurso elogioso. Entretanto, para que o discurso elogioso ou panegírico consiga os efeitos de verossimilhança necessários à adesão do público, o poema segue alguns procedimentos preconizados pela retórica, alguns deles fundados, por exemplo, na amplificação das predicações do sujeito do encômio, para realizar a composição do exceler. Neste caso, o artífice deve se manter atento aos conhecimentos circulantes e aceitos pela recepção, pois o “opinativo” ou um pensamento circulante, segundo pondera Marcello Moreira, “constitui a base de adesão a partir da qual o discurso poético é produzido com vistas a ser aceito pelo público a que se destina”[9]. Nesse sentido, para atingir o efeito de verossimilhança, o poema deve respeitar os caracteres agentes “cujas ações e palavras condigam, primeiramente, com a sua idade, condição, sexo e nação, critérios primeiros na produção da caracterização”[10], sendo a consecução desses critérios que tornam o poema digno de confiança. Certamente esse tipo humano modelar, digno de emulação pelos pósteros, somente existe dentro dos discursos elogiosos que o produzem[11], o que permite afirmar que o artífice somente irá compor um poema em que a caracterização das personagens seja verossímil, se possuir o domínio dos preceitos da imitação, isto é, o conhecimento dos decoros próprios do gênero e matéria.
Importa trazer à luz que “a caracterização ou personificação que se dá no elogio é operada por meio do preenchimento de lugares-comuns retóricos (loci a persona) aplicados para construir o caráter virtuoso”[12] do ser elogiado. De maneira que o artífice, ao compor esses tipos, deve agir em concordância com as pragmáticas retóricas e poéticas que prescrevem as normas, como também atentar para os usos poéticos, pois os bons usos é que disseminam os decoros específicos dos gêneros, tornando-os aceitos pela comunidade receptora dos poemas, que os recebe sem maiores estranhamentos, na medida em que os destinatários compartilham dos códigos textuais ou convenções pré-estabelecidas, a exemplo das dilatadas adjetivações que qualificam o herói épico, cuja superioridade das ações, essencialmente acima dos feitos hodiernos, é plausível e, portanto, aceita, pois conforma-se ao ethos heróico que compõe a figura do encômio.
Dentre as várias convenções para a épica está o modo enunciativo composto ou misto, diferentemente da tragédia e da comédia, que assumem a narrativa dramática, em que os personagens falam diretamente. A tradição, desde Aristóteles, subministra ao épico a utilização de narrativa mista (diegética e mimética), em que ora o narrador apenas expõe os fatos, ora as personagens falam diretamente. Assim, para ilustrar o argumento, esse filósofo utiliza-se, em sua Poética, do exemplo de Homero, segundo o qual teria realizado com excelência a imitação:
Homero, que por muitos outros motivos é digno de louvor, também o é porque, entre os demais, só ele não ignora qual seja propriamente o mister do poeta. Porque o poeta deveria falar o menos possível por conta própria, pois assim procedendo, não é imitador. Os outros poetas, pelo contrário, intervêm em pessoa na declamação e pouco e poucas vezes imitam, ao passo que Homero, após breve intróito, subitamente apresenta varão ou mulher, ou outra personagem caracterizada.[13]
Segundo Marcello Moreira, tratar de poesia encomiástica produzida no Seiscentos exige necessariamente o conhecimento dos preceitos retóricos de que se valeram os poetas do Estado Monárquico e do Antigo Regime para produzir as espécies do subgênero elogioso do epidítico[14], o que implica conhecer “os procedimentos próprios do gênero retórico no qual se efetua um objeto particular”[15]. Logo, para além dos decoros poéticos, a análise dos poemas requer a compreensão dos fundamentos retóricos que os embasaram, principalmente quando se trata de discurso heróico, que constitui gênero eminentemente retórico. A esse respeito, importa informar que a Retórica aristotélica, ao dividir os discursos em judicial, deliberativo e demonstrativo ou epidítico, divisão que, segundo Quintiliano, “se contentaron todos los antigos de mayor nombre”[16], delegou ao epidítico o fim de vituperar os vícios e louvar as virtudes, princípios que bem se adéquam aos ofícios da poesia, sendo que os poemas que se ocupam do louvor, como a epopéia, são qualificadas como exornativas, como é o caso do panegírico[17], o genetlíaco, a oração lústrica, o epinício[18], dentre outros. Nesse sentido, é possível localizar em tratados coetâneos instruções específicas do gênero épico, como é o caso do Discurso sobre o poema heróico, discurso em que Manuel Pires de Almeida atualizou alguns preceitos importantes deste gênero discursivo, para o qual prevê como divisão quantitativa o prólogo, a proposição, a invocação, a dedicatória e a narração, além de instruir sobre os elementos que compõem cada parte. Com base nessa divisão, serão destacados alguns desses componentes retóricos observados nos poemas em análise, visto que, como discurso heróico, imitaram decoros coetâneos exigidos às temáticas laudatórias e observada a atuação desses elementos discursivos nos dois poemas sob enfoque.
É notório, no princípio dos poemas em estudo, a aplicação de premissas exordiais em que se realizam postulados da proposição, parte retórica do panegírico que tem por fim apresentar a elevada matéria de que irá discorrer[19], o que os poemas realizam em tom altivo e solene, com vistas a adquirir a moção e a benevolência do leitor ante a matéria apresentada, pois, como dizia o anônimo da Retórica a Herênio, o início do poema é ocasião em que “deixamos os ouvintes com boa disposição de ânimo”[20]. Sobre essa parte introdutória do discurso heróico é apropriado pontuar as esclarecedoras considerações de Manuel Pires de Almeida, quando afirma que a proposição
é o lugar primeiro da obra, em que propõe o poeta o que intenta cantar nela: esta seja breve e clara, possível, e em a qual não se ponha o nome próprio do príncipe, ou herói, senão usando-se de perífrase; em tudo o mais dela não haja circuncisão, nem rodeio algum, senão que o poeta em brevíssimas razões diga o que pretende cantar, compreendendo na proposição toda a ação da fábula e captando atenção com prometer coisas dignas de serem escutadas.[21]
Esses aspectos enunciados nas considerações de Pires de Almeida sobre os procedimentos introdutórios do poema são devidamente observados na composição gregoriana, como se verifica a seguir: Gregório de Matos (estrofe 1)
Herói Númen, Herói soberano, Cujo esforço, e conceito peregrino Transcende os termos do limite humano, E quase logra foros de divino: Ouvi, se é, que as grandezas do Oceano Cabem neste clarim tão pouco fino, Que mais preclara tuba, e voz merece Cam. Quem a tamanhas cousas se oferece.[22]
Nessas estâncias iniciais do poema, o ser do encômio é apresentado pela perífrase Herói Númen, qualificação recebida pela soberania do combate empreendido na vitoriosa batalha de Porto Seguro, em que os esforços do herói superaram os “termos do limite humano” e quase lograram a este “foros de divino”, de forma que o prólogo, pelo estilo elevado com que apresenta a matéria de que irá tratar, demonstra sincronia normativa aos decoros instituídos ao gênero épico. Pelo exórdio, nota-se que a persona poética demonstra que conhece os lugares retóricos preconizados e a necessidade do cumprimento dos mesmos para a consecução de seu ofício ante a audiência que, cientes dessas normatizações e modelos convencionados, inspecionam os decoros do que lêem e ouvem. Como artifício para louvar o encomiado e para captar a benevolência do leitor, nota-se que o enunciador poético mantém certo distanciamento hierárquico ante a matéria e o herói apresentados, ao deixar o leitor de sobreaviso que tratará de coisas tão altas que a sua pena não será capaz de fazê-lo condignamente, postando-se de maneira humilde ante a grandeza do herói e da matéria do louvor, o que certamente se trata de um entre tantos artifícios retóricos. Reconhece-se, neste caso, o artifício retórico denominado modéstia afetada[23] (infirmitas), também denominado humildade fingida, recurso que constitui tópica muito em voga na poética seiscentista e, particularmente, no panegírico que aciona este lugar-comum, segundo a retórica, como mecanismo de consecução da benevolência do leitor, como meio de torná-lo receptivo ao discurso. Esse artifício da humildade é posto em prática pela persona de Gregório de Matos quando enuncia: “ouvi, se é, que as grandezas do oceano/ cabem neste clarim tão pouco fino”. Repare-se, nessa sentença, que a voz que fala no poema, ao assumir certa rusticidade para laborar a poesia, conjuga dois lugares retóricos: a modéstia afetada e o labor limae[24] horaciano, (noção relacionada à advertência de Horácio, ao preceituar que a obra de arte deveria ser aprimorada por longos dias antes de ir a público), pois, ao se assumir precária ante a matéria, caracterizando a si própria como “clarim tão pouco fino”, a persona realça a consciência de sua precariedade para dispor do devido tratamento que a matéria requer, ao tempo que demonstra o anseio por se aprimorar em busca do refinamento artístico.
No caso de Os Lusíadas, a apresentação se estende no decorrer de três estrofes, nas quais expõe, por ocasião da proposição, a matéria de que irá tratar. Vejamos essa parte do poema camoniano:
Os Lusíadas - Canto I
As armas e os barões assinalados, Que da ocidental praia Lusitana, Por mares nunca de antes navegados, Passaram ainda além da Taprobana, Em perigos e guerras esforçados, Mais do que prometia a força humana, E entre gente remota edificaram Novo Reino, que tanto sublimaram; (estrofe 1)
E também as memórias gloriosas Daqueles Reis, que foram dilatando A Fé, o Império, e as terras viciosas De África e de Ásia andaram devastando; E aqueles, que por obras valerosas Se vão da lei da morte libertando; Cantando espalharei por toda parte, Se a tanto me ajudar o engenho e arte. (estrofe 2)
Cessem do sábio Grego e do Troiano As navegações grandes que fizeram; Cale-se de Alexandro e de Trajano A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano, A quem Neptuno e Marte obedeceram: Cesse tudo o que a Musa antígua canta, Que outro valor mais alto se alevanta. (estrofe 3)[25]
Nas duas primeiras estrofes, Camões apresenta a ilustre matéria do poema e, em seguida, na terceira estrofe, leva a termo a amplificação[26] da grandeza e imponência de seu canto, ao enunciar que é grande porque canta “o peito ilustre Lusitano/ A quem Netuno e Marte obedeceram”, pois canta matéria tão elevada capaz de superar as mais renomadas autoridade antigas: “Cesse tudo que a Musa antígua canta”, pois cantará coisa de mais alto valor superando a tradição épica antiga.
à proposição se segue a invocação, parte do poema em que a voz narrativa roga pelo auxílio das musas, deuses ou outras entidades que possam fazê-lo ou, nos termos de Manuel Pires de Almeida,
Invocação, é donde o poeta invoca socorro e ajuda divina, para poder começar e acabar o intento; há de ser breve também; e esta se pode repetir na narração todas as vezes que se oferece tratar de coisa grave e de importância[27].
Esse expediente da invocação é comum aos dois poemas sob análise, sendo que a persona gregoriana, ao invocar auxílio às musas, procede nos seguintes termos:
Gregório de Matos (estrofes 2 e 3)
Tu, que abres o cristal da Aônia fonte, Ó doce Musa, se até agora ingrata, Solta a corrente, porque em verso conte, O que só cabe em lâminas de prata: Fecunde esse cristal tão duro monte, Que se fluido, e belo se desata. Eu farei, que se admire no universo Cam. Se tão sublime preço cabe em verso.
3 Sê pródiga comigo, porque vejo, Que hei de cantar proezas levantadas, E do ouro, que cria o Lago Tejo Te farei uns pendentes, e arracadas: Põe, Musa amada, fim ao meu desejo, E terás para o colo as congeladas Lágrimas puras, e no dedo amante Cam. Outra pedra mais clara, que diamante
O ato de invocar as musas representa, em certa medida, signo de humildade da persona elocutória, pela demonstração de uma suposta incapacidade do engenho para atender plenamente à composição do poema, como se a realização do mesmo dependesse necessariamente desse auxílio. É o que se percebe na invocação do poema gregoriano quando a voz enunciativa roga às musas para fecundar “esse cristal tão duro monte” como condição de êxito do discurso. A importância da musa para a correnteza do poema é tanta que a persona promete agraciá-la com valorosas prendas, como jóias de ouro e diamantes, pelo cumprimento do pleito. Na épica camoniana, os rogos aos auspícios das musas (Tágides, ninfas do rio Tejo) são desferidos com clamor, para que a obra resulte tão sublime quanto o assunto proposto: Camões (canto I, 4, 5)
E vós, Tágides minhas, pois criado Tendes em mim um novo engenho ardente, Se sempre em verso humilde celebrado Foi de mim vosso rio alegremente, Dai-me agora um som alto e sublimado, Um estilo grandíloquo e corrente, Porque de vossas águas, Febo ordene Que não tenham inveja às de Hipocrene.
Dai-me uma fúria grande e sonorosa, E não de agreste avena ou frauta ruda, Mas de tuba canora e belicosa, Que o peito acende e a cor ao gesto muda; Dai-me igual canto aos feitos da famosa Gente vossa, que a Marte tanto ajuda; Que se espalhe e se cante no universo, Se tão sublime preço cabe em verso.
Observe-se que, ao rogar pelo auxílio das divindades, a persona poética determina que estas devem atentar para as exigências da matéria, pois, se antes cantava apenas em verso humilde – “Se sempre em verso humilde celebrado/ Foi de mim vosso rio alegremente” –, agora diz necessitar de “Um estilo grandíloquo e corrente” adequado à matéria que cantará: “Dai-me igual canto aos feitos da famosa/ Gente vossa, que a Marte tanto ajuda”. Dessa forma, o eu poemático, ao tempo que solicita o auxílio a tais divindades, parece avisar ao leitor/ouvinte sobre a ciência dos decoros poéticos, uma vez que, sendo matéria alta, o estilo também deveria sê-lo.
Em outras ocasiões, no decorrer do poema, o eu poético camoniano recorre também à ajuda de entidades divinas para auxiliá-lo na composição. No Canto III, estrofes 1 e 2, tem-se a invocação de Calíope, musa da eloquência e da poesia épica e outras divindades como as ninfas do Tejo e do Mondego, presentes no canto VII estrofes 78 a 87; e no canto X, estrofes 8 e 9 e 145, Calíope torna a aparecer:
Agora tu, Calíope, me ensina/ O que contou ao Rei o ilustre Gama:/ Inspira imortal canto e voz divina / Neste peito mortal, que tanto te ama. (Canto III, estrofe 1)
Põe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,/ Como merece a gente Lusitana;/ Que veja e saiba mundo que do Tejo/ O licor de Aganipe corre e mana. (Canto III, estrofe 2)
Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego,/ Por caminho tão árduo, longo e vário!/ Vosso favor invoco, que navego (Canto VII, estrofe 78)
Aqui, minha Calíope, te invoco/ Neste trabalho extremo, por que em pago/ Me tornes do que escrevo, e em vão pretendo,/ O gosto de escrever, que vou perdendo. (canto X, estrofe 8)
Em sequência às partes introdutórias, nos dois poemas, tem-se a narração, parte do poema que, segundo Bartholomeo Alcaçar, tem por fim ordenar em um ou mais capítulos a matéria proposta pela voz que fala no poema[28]. No caso desse panegírico gregoriano, a sucessão dos fatos narrados está em concordância com os postulados do referido autor, quando aconselha principiar a narrativa enumerando as virtudes do ser louvado e os exemplos buscados em sua vida, momento em que, por ocasião do louvor, o poeta recorre ao exemplum e promove uma comparação entre Dionísio de Ávila e imponentes figuras de heróis da mitologia (Pactolo, Marte e Apolo), realizando, como artifício retórico, a amplificação das predicações do ser elogiado, o que se pode constatar nas estrofes 4, 5 e seguintes:
Nesta do mundo a mais mimosa parte, Em cujo soberano, e fértil pólo Vos reconhece o mundo novo Marte, Onde vos representa novo Apolo: Inculcando o valor, engenho, e arte Inveja dos murmúrios de Pactolo, Mostrastes nesta ação, que tudo alcança Cam. Em uma mão a pena e noutra a lança.
Para vencer os fortes adversários Vibrastes valeroso a dura espada, Para prender aspérrimos contrários Inculcastes idéia celebrada: Valor, e engenho foram necessários, Porque soubesse a fama remontada, Partistes tão guerreiro, quão fecundo Cam. Ameaçando terra, mar, e mundo.
Note-se que a estrofe 4 inicia a narrativa apresentando a partida de Dionísio de Ávila para o combate heróico, em que o herói é descrito como detentor de incontestes virtudes de guerreiro cortesão, possuidor de engenho e arte, virtudes axiais do nobre herói, descritas no verso “Mostrastes nesta ação, que tudo alcança/ Em uma mão a pena e noutra a lança”, premissas capazes de qualificá-lo como mais ardil que o próprio Marte (deus da guerra entre os romanos). Desta feita, utilizando-se do lugar-comum retórico, o topos armas e letras, estabelece-se o perfil de um típico personagem épico, cuja narrativa dos feitos deverá dar conta de confirmar, através da sucessão dos fatos, os decoros instituídos.
No caso de Os lusíadas, a narrativa propriamente dita principia in medias res, no Canto I, estrofe 19, narrando a viagem de Vasco da Gama e não o caracterizando.
Já no largo Oceano navegavam, As inquietas ondas apartando; Os ventos brandamente respiravam, Das naus as velas côncavas inchando; Da branca escuma os mares se mostravam Cobertos, onde as proas vão cortando As marítimas águas consagradas, Que do gado de Próteo são cortadas
20
Quando os Deuses no Olimpo luminoso, Onde o governo está da humana gente, Se ajuntam em concílio glorioso Sobre as cousas futuras do Oriente. Pisando o cristalino Céu formoso, Vêm pela Via-Láctea juntamente, Convocados da parte do Tonante, Pelo neto gentil do velho Atlante.
Do ponto de vista do foco narrativo, os dois poemas assumem o modo narrativo misto, conquanto prepondere em ambos o modo exegemático ou diegético, em que a persona poética ou o “poeta”, como dizem os textos coevos, fale por sua própria voz narrando os fatos. No poema gregoriano, somente observamos uma passagem em que a personagem se pronunciasse diretamente, assumindo assim a postura dramática ou mimética, situação localizada na estrofe 18, versos 5, 7 e 8, em que a personagem Dionízio de Ávila se posiciona com sua própria voz:
Nada lhe val que o Cabo diligente Futuros antevendo, inopinados, Fiado em Deus anima a sua gente Talvez com a espada, e tal com os brados: Esta é ocasião (diz o valente Jurisconsulto aos férvidos soldados) Que sempre alcançará fama perfeita Cam. Quem do oportuno tempo se aproveita.
Enquanto no poema camoniano, embora predomine a narrativa pura ou diegética, a interferência de personagens que se pronunciam diretamente se dá em várias passagens do texto. O herói Vasco da Gama se manifesta diretamente a partir da terceira estrofe do canto III e se estende por quase todo o canto:
Canto III, estrofes 3 e 4
Prontos estavam todos escutando O que o sublime Gama contaria, Quando, depois de um pouco estar cuidando, Alevantando o rosto, assim dizia: "Mandas-me, ó Rei, que conte declarando De minha gente a grão genealogia: Não me mandas contar estranha história, Mas mandas-me louvar dos meus a glória.
"Que outrem possa louvar esforço alheio, Cousa é que se costuma e se deseja; Mas louvar os meus próprios, arreceio Que louvor tão suspeito mal me esteja; E para dizer tudo, temo e creio, Que qualquer longo tempo curto seja: Mas, pois o mandas, tudo se te deve, Irei contra o que devo, e serei breve.
Nos cantos IV e V, Vasco da Gama volta a se pronunciar diretamente e, no canto VIII, pode se verificar a fala de Paulo da Gama.
Para além dos elementos estruturais, importa cotejar alguns aspectos relativos à caracterização das personas heróicas presentes nos dois poemas sob análise, posto que, segundo nos informa Marcello Moreira, quando da observação dos caracteres agentes das personas poéticas do subgênero laudatório, diz verificar
na Europa do século XVI e XVII, uma interseção entre poética e política, já que as preceptivas estabelecem como matéria do louvor apenas aquelas pessoas cuja condição de vida se ajuizava apropriada ao encômio.[29]
Nesse sentido, o encômio tinha um papel político norteador de condutas éticas e morais, na medida em que as virtudes desses heróis cortesãos serviam para estatuir e preservar a memória desses padrões modelares, que, sendo exemplos de virtude, funcionavam como espelhos em cujos feitos a sociedade deveria se mirar. Isso posto, é possível identificar tanto no caráter de Vasco da Gama como de Dionízio de Ávila o delineamento das virtudes primaciais do herói cortesão, pois ambos são caracterizados como homens de “armas” e “letras”, expressões que sugerem a conduta virtuosa dos protagonistas, a exemplo dos adjetivos altivo, forte, sábio, soberbo, sublime, ilustre, temido, termos que indicam traços essencialmente morais. Nesse tocante, apesar de a épica moderna se amoldar aos paradigmas antigos, cujos modelos tem-se a Eneida de Virgilio e a Ilíada e a Odisséia de Homero, é possível detectar distinções entre a épica antiga e a moderna, uma vez que a epopéia antiga enaltecia primordialmente a grandeza física dos heróis, como se pode observar nas personas notáveis de Homero. Percebe-se que, à medida que os séculos decorrem, “as personagens épicas vão-se desvestindo dos atributos físicos para se adornarem com valores morais”[30]. Nesse sentido, tanto Vasco da Gama quanto Dionísio de Ávila têm as virtudes morais evidenciadas, suas excelências dos feitos e primores de caráter sobressaem a qualquer outro quesito.
Relativamente à caracterização da figura do encômio, Adolfo Hansen informa que sua composição se dá por meio de preenchimento de lugares-comuns retóricos (locia a persona), isto é, por aplicações formulares que se afinam com o caráter virtuoso que os tornam dignos do encômio[31] (homem discreto, ilustre, dotado de nobreza, de linhagem elevada, possuidor de força e habilidades bélicas e apreço pelas letras, ou seja, virtudes que fundamentam a dignidade da matéria panegirical), o que significa que esses códigos de honra são reiterados naqueles discursos como forma de edificar esses valores.
Ressalte-se que, embora o herói de Os lusíadas seja um perfeito cortesão, sendo caracterizado como forte, alegre, sublime, atento, esclarecido, douto, ciente, prudente, valeroso, obediente, religioso, astuto e engenhoso, esses caracteres são, entretanto, insuficientes, segundo julgamento de Maria Helena Ribeiro e Luiz Piva, para alçá-lo ao patamar de super-homem: “Gama não é um super-homem. O poeta não no-lo caracteriza superior à condição humana”[32], pois se nota em Vasco da Gama certas falibilidades humanas como o cansaço, arreceio, além de algumas falhas do entendimento, não obstante estar envolto num ambiente místico e constantemente ser agraciado com benesses divinais, como exemplificado a seguir:
No feio caminho a noite tinha anelado, E, as estrelas no Céu, coa luz alhea, Tinham o largo Mundo alumiado; E só co'o sono a gente se recreia. O Capitão ilustre, já cansado De vigiar a noite que arreceia, Breve repouso então aos olhos dava, A outra gente a quartos vigiava;[33]
[...]
Pergunta-lhe depois, se estão na terra Cristãos, como o piloto lhe dizia; O mensageiro astuto, que não erra, Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria. Desta sorte do peito lhe desterra Toda a suspeita e cauta fantasia; Por onde o Capitão seguramente Se fia da infiel e falsa gente.[34]
[...]
Quando Mercúrio em sonhos lhe aparece, Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano, Da cilada que o Rei malvado tece, Por te trazer ao fim, e extremo dano; Fuge, que o vento, e o Céu te favorece; Sereno o tempo tens e o Oceano, E outro Rei mais amigo, noutra parte, Onde podes seguro agasalhar-te.[35]
Já a persona gregoriana, em toda a extensão do poema, aparenta virtudes que a fazem transcender à condição humana e, diferentemente do Capitão de Os lusíadas, é isenta de falhas, o que a aproxima, neste particular, dos heróis épicos antigos, quase sempre encenados como semideuses, o que pode ser notado, inclusive, pelo epíteto Herói Númen, no verso que principia o poema, como em toda a extensão do canto, como veremos em alternados excertos:
Debuxa em bronze, ou metal luzido Insígnias tais, escreve este letreiro "São as armas do sábio, e do temido Dionísio de Ávila Varreiro" Elas por este nome alto, e subido Nome terão em todo o mundo inteiro: Tu por elas lugar te tem a idade Cam. No templo da suprema eternidade.
Com insultos, e roubos aleivosos Não perdoando vida, casa, ou muro Trinta e sete cruéis facinorosos Roubam a Povoação Porto Seguro: Para castigo destes criminosos O fado destinou celeste, e puro Esse braço, esse peito, esse conselho Cam. Para leais vassalos claro espelho[36].
[...]
Qual raio, que o trovão tem despendido Contra a Nau sobre o túmido alabastro, E tendo-a a voraz fogo reduzido Em mil pedaços faz o grande mastro: Tal se mostrou nas matas o temido Contra os imigos valeroso Astro: Prostrando tudo sem temer agouros Cam. Com ferro, fogo, setas, e pilouros.
[...]
Dentro do bosque teatro enfim eleito Se trava a briga de uma, e outra parte, Quebra-se a espada, e sem romper o peito, Que há Deus mais poderoso, que o Deus Marte: Zune o pilouro sem fazer efeito, Voa a seta, porém a si se parte, Que quis Deus despertar no ato presente Cam. Com tal milagre os ânimos da gente[37].
Nessas estâncias destacadas, o herói é representado metonimicamente como braço, peito e conselhos celestes e puros, o que o tornam espelho para os leais vassalos. Em outra passagem, é temido e valoroso Astro, comparado ao raio de um trovão, assim qualificado pela destreza com que age contra os inimigos, “Prostrando tudo sem temer agouros”. Na estrofe 15, o herói é literalmente apresentado de forma magistral, encenando um “Deus mais poderoso, que o Deus Marte”, “Dentro do bosque teatro enfim eleito”, onde se trava a briga entre os criminosos e o ilustre guerreiro, inatingível diante dos ataques a ele desferidos.
Conforme se pode evidenciar, muitos são os elementos comuns aos dois poemas. Conquanto o poema gregoriano não constitua uma epopéia, vê-se o uso de vários expedientes que a retórica prevê ao discurso heróico, a exemplo do estilo, tópicas, entre outros observados, como também alguns elementos que demonstram a transparente imitação do poema camoniano, a exemplo da transposição de versos inteiros de Os Lusíadas, usados como mecanismo capaz de dar crédito ao poeta que se mostrava atento às orientações circulantes. Sublinhe-se que o ato de transpor reiteradamente versos de um poema de Camões, poeta que à época já compunha a lista dos notáveis, não constitui procedimento imotivado por parte do poeta imitador, senão uma forte alusão mimética de reprodução dos usos e até como reverência à magnitude do poeta emulado, ocorrência que a tradição poética e retórica do Seiscentos endossava.
REFERÊNCIAS
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Assunção de Maria Almondes Leal é mestra em Literatura pela UFPI. Professora da Faculdade Santo Agostinho - FSA e Diocesano.
[1] No Seiscentos a épica adquire o estatuto de maior elevação entre os gêneros literários, lugar distinto da posição prevista por Aristóteles, na Poética, que privilegia a tragédia como o gênero mais elevado.
[2] É notório, nas poesias atribuídas a Gregório de Matos, como informa João Adolfo Hansen, que nos gêneros líricos, épicos e encomiásticos, principalmente os últimos, têm destinatários que referem letrados do governo, como o conde do Prado, o governador Matias da Cunha, o desembargador Dionísio de Ávila Vareiro [sic], o secretário Bernardo Vieira Ravasco e outros [...] (HANSEN, A sátira e o engenho, p. 39). Observa-se, nos poemas destinados aos letrados fidalgos, convenções e lugares-comuns do encômio para compor o elogio.
[3] Espécie de nota explicativa, não necessariamente do poeta que compôs o poema, que encabeçava os poemas, tradição comum à época de Gregório de Matos.
[4] MATOS, Gregório de. Obras Completas. (Crônica do viver baiano seiscentista). Códice James Amado. 4. ed. Rio de Janeiro: Record, 1999, 2 vols, p. 311.
[5] No final deste artigo consta como anexa a poesia atribuída a Gregório de Matos, exposta lateralmente às estrofes de Os Lusíadas, de onde o poeta baiano retirou o último verso de cada uma das trinta estrofes de seu poema.
[6] ALMEIDA. Discurso sobre o Poema Heróico. (Manuscritos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo/Lisboa). In: REEL Revista Eletrônica de Estudos Literários, Vitória, a. 2, n. 2, 2006, fl. 629v. Disponível em: <www.ufes.br/~mlb/reel2/AdmaMuhana.pdf>. Acesso em: 05 de setembro de 2007.
[7] PIRES, Maria da Conceição Ferreira. Manuel Pires de Almeida e a Reinvindicação de uma Nova Homologia para Os Lusíadas. In: Revista Camoniana, 3ª série, vol. 17, Bauru, SP: 2005, p. 110.
[8] ARISTÓTELES, Poética, 1448a4.
[9] MOREIRA, opus citatum, p. 133.
[10] MESNARDIèRE apud MOREIRA, opus citatum, p. 131.
[11] MOREIRA, opus citatum, p. 131.
[12] Idem, ibidem, p. 135.
[13] ARISTÓTELES. Poética, cap. 24, 1460a5-11.
[14] MOREIRA, opus citatum, p. 146.
[15] PÉCORA, Alcir. Máquina de gêneros. São Paulo: Companhia da Letras, 2001, p. 12.
[16] QUINTILIANO, opus citatum, libro, tercero, cap. IV. § 146.
[17] ALCAÇAR, Bartholomeo. Delicioso jardim da Rhetorica, tripartido em elegantes estancias, e adornado de toda a casta de flores da eloqüência (...). Lisboa, Offícina de Manuel Coelho Amado, 1750. O panegírico, conforme instrução do padre seiscentista Bartholomeo Alcaçar, he Oração, com que celebramos toda a vida de huma pessoa (opus citatum, Livro I, p. 43), e que convém dividi-lo, segundo o mesmo autor, em exórdio, proposição, narração, confirmação e peroração, cada parte com suas especifidades discursivas.
[18] Desses gêneros do discurso tratou Bartholomeu Alcaçar na obra supracitada.
[19] ALMEIDA, Manuel Pires. Discurso sobre o poema heróico, fl. 633v.
[20] Retórica a Herênio. São Paulo: Hedra, 2005, Livro I, p. 57.
[21] ALMEIDA, opus citatum, fl 633v.
[22] MATOS, opus citatum, p. 311.
[23] Robert Curtius, no livro Literatura européia e Idade Media latina, ao tratar de várias tópicas presentes nos discursos, desde os tempos antigos, e particularmente de Os Topoi do Indizível, acentua que a raiz desses topoi é a acentuação da incapacidade de dominar o assunto e que esse procedimento discursivo ocorre desde Homero e se estende por muitos outros autores de renome que, em seus panegíricos, argumentam que suas penas não estão à altura de louvar os feitos do sujeito do encômio, agindo assim como forma de valorizar a pessoa homenageada (CURTIUS, opus citatum, p. 213-214).
[24] HORÁCIO, opus citatum, p. 63. Nesta obra é constante a afirmação de que a obra de arte necessita de árduo trabalho, por parte do artífice, para conseguir um bom resultado, como no excerto seguinte: vocês, descenentes de Pompílio [lendário rei de Roma], retenham o poema que não tenha sido apurado em longos dias por muita rasura, polido dez vezes até que uma unha bem aparada não sinta asperezas.
[25] CAMÕES, Luís de. Os lusíadas (1524?). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
[26] A respeito dessa técnica da amplificação ou sobrepujamento, útil ao panegírico, Curtius assinala que se uma pessoa deve ser ´louvada´, é preciso mostrar que ela supera tudo o que lhe é semelhante, servindo-se, para esse fim, de uma forma especial de comparar que denomino ´sobrepujamento´, o que se dá, reitera Curtius, com vistas a provar a superioridade do ser eleogiado sobre aqueles a quem a tradição impinge ser excelente naquele aspecto comparado. Esse artifício, conforme o mesmo estudioso, tem emprego sistemático iniciado por Isócrates (opus citatum, p. 216, nota 64). É válido lembrar que Quintiliano (Inst., Orat. VIII, 4, 9) nomeia amplificação esse instrumento discursivo, trazido por Curtius como sobrepujamento, sobre o que esclarece: A amplificação, baseada na comparação, pede aumento aos menores, ao referir que o ser louvado há de ter nos discursos os caracteres virtuosos amplificados.
[27] ALMEIDA, opus citatum, fl.633v.
[28] ALCAÇAR, opus citatum, cap. I, p. 44.
[29] MOREIRA, opus citatum, p. 134.
[30] CUNHA, Maria Helena Ribeiro da; PIVA, Luiz. Lirismo e epopéia em Luís de Camões. São Paulo Cultrix: Ed da Universidade de São Paulo, 1980, p. 52.
[31] HANSEN, João Adolfo. Pedra e cal: freiráticos na sátira luso-brasileira do século XVII, Revista USP, São Paulo, vol. 57, 68-85, 2003, 74-75.
[32] CUNHA, Maria Helena Ribeiro da; PIVA, Luiz. Lirismo e epopéia em Luís de Camões. São Paulo: Cultrix: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1980, p. 52.