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Minha pobreza não corrompe um corpo único. Posso sufocar a fome (anestesiando a carência que infecciona os músculos), mas a miséria — com faltas afiadas em faca — corrói corpos que não se permitem tatear. Sei que estou quase esquálida. Não preciso, no entanto, apalpar as costelas: meus ossos emergem da pele, segundo após segundo, já aquecidos pelo sol. Distingo a manhã — tentando me manter atenta; tentando me manter atenta: repito, buscando uma pausa difícil, enquanto os dedos circulam rachaduras no cimento. Adiantaria levantar da calçada (do canto quem sabe confortável onde depositei a coluna que recuso depredada), bater a poeira — com as mãos, embora machucadas, abertas, de par em par — depois recomeçar um curso que seja somente estar em fluxo? Respiro forçando alguma lentidão, escuto alguém comentar entrecortando cada palavra; pressinto um dia acelerado, capaz de estimular os passos até a fronteira da rarefação. Procurando abrigo na sombra, uma mulher, ao esquivar o quadril, com sinuosidade, dos pedestres que quase tropeça, desliza por golpes de luz, ignorante, como todos os outros, da minha posição. Recorto — num lance abrupto — seu corpo da paisagem: um ambulante, prestes a pisar em mim, grita água que purifica, depois continua — sem cessar a gritaria — até sumir na esquina cada vez mais oscilante. Apesar de não esperar pela minha presença, a mulher caminha, dissimulando a pressa, até onde estou deitada. Trabalho o seu nome. Mesmo que não tenhamos um instante de entrega, seleciono as sílabas mais nítidas, dedilhando um ritmo, conciso, que alicie nossa língua. Pois não nos queremos solitárias. Digo que guardo um repertório de possíveis companhias; concertando uma mecha de cabelo, explico: componho, como parte dos acontecimentos que me constituem, um maço de afetos pouco elaborados, mas que — por mais perigosos que pareçam — propõem percursos que percorro alheia a qualquer cuidado. Engasgo, no entanto, sacrificando, assim, a última frase. Saberemos sorrir. Em seguida, iniciaremos um assunto sem previsão de dissolução. Como ainda não podemos nos tocar (calculo, com indisfarçável excitação, a distância entre nós), acompanho sua aproximação. Observo de múltiplos pontos, embora permaneça parada. Após recortar seu corpo, — sem contudo eliminar as massas de luz, — expus sua imagem a meu prazer, submetendo-a não a prismas — mas a implosões de duração premeditadamente indeterminada. Somos cúmplices de um olhar que movimenta pedaços de corpos inacabados. Não garantiremos a integridade daquilo que se dá à voragem das vistas avivadas para devorar. Concluiremos nossas frestas fabricando novas fraturas: aquilo que nos falta — não preciso dizer que muito nos falta — orienta a formação de outras fissuras: sobrevivemos a partir do que ainda não depreendemos. De repente, abrimos, com dedicação, a boca, numa voltagem distribuída entre os dentes. Conheço a força que suas pernas impõem ao chão. Não escondo a admiração pela disciplina que os músculos empreendem; compartilhamos a mesma calçada, a mesma manhã ensolarada — mas desenvolvemos, neste caso, diferentes desempenhos: o que compreendo que nos compromete. Não permito que siga sem a minha solidão. Quando estivermos debruçadas uma no tronco da outra, edificaremos o tempo — nossos corpos serão todo o espaço — com que experimentaremos um roteiro de toques não mais devastados.
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(I)
o lábio esquecido na boca
do seu
ouvido — o líquido
detido
na palma
deste
delírio — não impõem
ao pulmão
a paz
da
imprecisão
(II)
o chamado para a guerra, que enverga a carne, que enreda a terra, o chamado para a guerra, no curso de um íngreme medo abrupto, que ninguém celebra, o chamado sobre a terra, com seus cheiros, com suas chagas de guerra, o chiado que irriga a carne, matéria que nenhum vento enverga, o chiado que enreda a guerra, mesmo quando mudo, o chiado no pulso espalhado, como um fruto, pela terra que a terra celebra
(III)
onde
a insistência
repousa — uma
fenda
fixa — no vértice
do
alvo
recusado
(IV)
um bloco intacto: o extremo desamparo; um órgão (uma grade de intensidades) distante de todo impacto: a coerção — não o contato: o isolamento (cotidiano) da corrosão: a paralisia — não a perturbação: o desaparecimento: a desertificação dos lapsos
(V)
(sob a pressão
da
palavra
em expansão
pela
corrosão)
o copo — seu surdo salto —
na
claridade:
objeto
que
perturba a quietude
da casa
(que inventa
agora
uma
inóspita asa)
PROFUSÃO PROGRAMÁTICA
Inclui na coluna do enigma as contorções
que crestam
o rosto inconcluso
do corpo
mergulhado nas malhas do magma
que toca o espelho
com
toda a calma: há um modo de descrever,
há
um modo de depredar
o que não mudaria
de lugar: o incêndio — no momento
em que
despejaria os joelhos
no
gume
dos seixos — o incêndio
inaugura
uma nova maneira
de
mastigar
outra
fonte nesta úlcera
4
(I)
Por que não tocar o instante
com os dedos
do espanto? Como ainda
hesitar
com as mãos já feridas?
(II)
Acredito que a série de textos sobre a qual tenho comentado não passa, pelo menos por enquanto, de um processo de trabalho; um processo que tenho vivido de dentro, com alguma calma. Gostaria que lesse — seria uma forma de me desculpar — esta pequena peça como o começo de um tateio (talvez exista somente este anseio).
(III)
Manipular
a
desorganização — da obra? —
onde
os objetos,
os sentidos, os gestos
estejam
em
incessante
circulação?
CANÇÃO-EPÍLOGO
Por uma senda entre
sucintos
silêncios — o som
que
será repartido:
(depois
de cristalizado como
indício
de
ruído): a vivência
de
uma
reverberação
extrema — integra —
em ca-
da ato interrogado —
o detrito
que
detém
a decomposição
do
ritmo
ainda
inaudível:
(como
reconhecer
sua
interrupção):
reunir — nas
mãos
da
manhã — um
resíduo
de
reinício: o órgão
que
dis-
semina lábios
na
luz — mantém
vi-
va
a vigília — uma
ferida
sísmica — no
ha-
lo de sua calma
le-
veza
á-
vida
1
Desdobro os dedos, com o silêncio no centro da mão (uma perplexidade
que nem sempre se sabe sede); não durmo, nem ergo
a pele contra a luz — algo aqui se esquece —
que cinge o cimento devastado
pela solidão ofertada
como um fruto, ainda que ínfimo, sim, mas suficiente para
incitar um circuito
(não um acolhimento): queremos calma? (nomearemos
um núcleo: sem sigilo,
porque desconhecemos — já que desgastamos — os lazeres
da lucidez: nomearemos, além de um núcleo, um sistema, um suporte,
um útero: nomearemos tudo quanto
não temos a oportunidade
de desprezar, tudo quanto nos desafia com uma ausência
que consumimos — que concluímos — ao pisarmos
os primeiros
andares do dia). Digo: o murmúrio
cessa no corpo (não apenas no lábio, não apenas
no pulmão) ressequido;
o murmúrio
cessa, embora caudaloso, mas não podemos, assim,
sondar qualquer
cansaço: cessa quando, não sendo lacuna, seca depois
de habitado por uma suficiência
que o sufoca. Digo: o murmúrio cessa somente
no corpo (não em todo
o corpo) que fasta, da sua precária malha, o contato com
a miséria, pulsação
de uma fonte manifesta. Há choques —
choques que, no entanto, não impõem uma ruptura — algo aqui
rejuvenesce — pois mapeiam
entre traumas, ainda cambaleando, um campo
de coordenadas
— sem abrigo: suas marcas são falhas que infiltram
a catatonia,
pelos cantos. Assim que a chuva
recomeçar, (até quando
regressaremos às pedras da letargia?) a boca pronunciará
uma memória — como se a dilatasse, num ato brusco,
contra
a própria vontade — para estilhaçá-la pela água,
outra forma
de vivê-la, de alimentá-la, com uma tranquilidade
minada por uma cadeia
de metáforas conturbadamente sincopadas. Reconheço a cegueira
que leva
ao limiar, por um tempo
incontrolável: o trabalho da voz — que desejamos infatigável — questiona
as mortes a que
respondemos com desconforto; hesitar será um modo
de esmorecer: as narrativas
ferem a língua, as falas
ferem a língua, as imagens,
as fraturas,
as voragens ferem a língua. Escuto: sobretudo estas feridas
intensificam
a poesia. Escuto: sobretudo
estas feridas, depois
de castigadas pela saliva, sabem estar
em expansão — uma expansão
pela pobreza —, apesar de colidir — muitas vezes
de
coincidir — com as fraquezas
que não delimitam
suas forças (não são fronteiras)
mas que excitam
os insetos que infestam suas fissuras.
2
Estou aberta ao canto que aperta minha nuca com o dedo ainda retorcido, admirando a disciplina derramada sobre uma poça árdua; estou aberta — apesar de esquálida — em nítida ameaça: grafar a incerteza como uma fava a ser pacientemente mastigada; costumo descansar junto a uma trama de artérias: uma máquina a pulsar no poema, entre ferragens ávidas. Estou aberto ao pensamento agravado pelo conjunto de figuras com que me refaço em mais de um espaço (penetro minhas perdas — escavando de um palmo a outro palmo — como a dedilhar um jardim de novo desalojado): estou aberto à palavra que continua o ardor de uma luta cujas descrições mergulho nos ácidos daquela fruta tão insistente quanto uma úlcera, porque não me basto (a vida — aquilo a que chamamos vida — não me basta) nem me contento (o cotidiano — aquilo a que nos dedicamos, talvez obstinados num tímido engano — não me anula nem me mantém, não me massacra nem me sustém).
3
Acordo
com o calor que dissipa
as primeiras
mortes
do
dia; sou
— ao
sol — um instante
que
quase alcança
o silêncio: domestico
o seu deserto
de mãos
que minam (como a preparar
o pão
para um
leve
devorar)
o mármore
da mudez — nossa
velha
voragem, vaga
mas venenosa —
ando
a lavrar a aragem:
meu
medo estende os lábios
— que jorram
já
infeccionados —
quando
detalho
suas margens; seus zelos;
suas malhas;
seus atalhos; a nomear
para
a aniquilação — para
a assimilação —
do
movimento alocado
como
uma inanição: quando
os vidros evidenciam
a
tensão das
artérias, — depois
de reaquecermos
as casas
que
(por cautela)
emudecem — a intensidade
em
incisões
disseminadas
pela
terra se firma
ao fluir
num
rumor
irreconhecível.