Cheguei atrasado. Um braço de névoa gelada começava a cobrir a estrada no fim do dia de inverno. O posto de gasolina, no alto da serra, passou como um grupo de manchas amarelas. As lanternas dos caminhões assustavam, surgindo de súbito do meio da parede opaca e úmida, que o farol da moto erguia alguns metros à frente do pneu. Os que ainda trafegavam de luzes apagadas tornavam a marcha mais lenta. O percurso foi tenso: quase uma hora nas curvas da subida e nos caminhos do alto, até que o meio das costas acusasse o esforço e os olhos começassem a arder; meia hora, descendo, enquanto o horizonte se abria timidamente, sobre os campos e as casas esparsas das fazendas espalhadas ao longo do caminho.
Saí da estrada principal e cortei a várzea, debreando nas descidas mais brandas para ver se ouvia o canto dos sapos, os grilos e qualquer rumor difuso que conseguisse atravessar o capacete. O vento frio cortava o rosto, quando erguia a viseira.
A moto agora deitava suavemente, à esquerda e à direita, seguindo as curvas abertas. A tarde caía. No trecho plano, deixei os braços soltos, para que a moto ondulasse no ritmo do motor, descrevendo grandes esses até parar no ponto de encontro, junto à fábrica de doces.
Encontrei-o no bar. Desci, tirei o capacete, as luvas. Ele me abraçou e reclamou do atraso. Estava ali há uma hora, bebendo durante a espera. Ofereceu-me um copo. Sentei-me. Perguntou da viagem, olhou a moto. Não gostava desse tipo. Preferia as que podiam andar em todo terreno. Era saudosismo, dizia. Um trambolho, coisa antiga. Na areia, era ineficaz; nos buracos, um perigo. E era desconfortável pilotar com os pés para a frente, embrulhado num casaco de couro, com o ar entrando pela cintura e empurrando o peito para trás. Tudo muda, ele disse, enquanto olhava para a sua moto. Pensei em responder que me parecia um gafanhoto amarelo, uma coisa grotesca. Mas eu tinha chegado atrasado. Não valia a pena. Olhei para o casaco, as calças justas, a bota com proteções, as luvas idem. Bati as minhas, ainda meio encharcadas da neblina molhada da serra, pus sobre os joelhos e perguntei se não tinha fome.
A mulher no balcão olhava para nós, à espera. Pedi-lhe um sanduíche. Ela foi para dentro. Perguntei-lhe então se estava tudo bem. Ele não queria falar ali. Gritou para trazerem mais uma cerveja. Não era uma coisa fácil, disse. Mas ao menos estávamos ali, íamos para o sítio, tínhamos o final de semana. Depois de tantos anos.
Ele não falava muito. Se fumasse, como nos velhos tempos, estaria fumando apenas, olhando para o cigarro. Mas já não fumava. E olhava direto para mim, com o mesmo olhar parado.
Perguntei-lhe então da casa, das terras, de quem tomava conta, se as coisas continuavam como sempre foram. Não havia mais nada. Quase nada, corrigiu. A venda já não existia há tempos. Isso eu sabia. Nem a lavoura. Isso eu não sabia. Tinha ficado apenas uma horta, o pomar, alguma criação, a produção nova de coelhos, numa gaiola junto do paiol. Quem cuidava de tudo era um camarada apenas, o Ditão. Já velho. Esse eu conhecia. Ele sabia que eu conhecia. Um negro forte, muito alto, violeiro, quieto. Sempre sozinho. Nunca ouvira falar que tivesse mulher, nem parentes. Tinha vindo de longe. Os tios diziam que era de Mato Grosso. Mas ele dizia que não, que era dali mesmo. Das redondezas. Mas não dizia mais, que não importava, que não tinha nenhuma razão para lembrar coisas que passaram.
Houve uma época em que se achou que o Ditão tinha feito algum crime, matado ou roubado, e que vivia assim pelas quebradas, com o nome falso, sem documento. Benedito. Era o nome comum dos pretos. Da Cruz, o sobrenome que informava. Mas podia ser qualquer um, dizia o tio mais velho. Nada mais se sabia de Ditão, que era cumpridor, fiel, não cobrava mais do que as despesas, a comida e algum dinheiro mínimo por mês, que sempre pedia para o patrão guardar, para um dia de necessidade.
Tinha só um inconveniente: quando enjoava ou se aborrecia no emprego, não falava nada. No meio da noite arrumava a mala de papelão, reforçada de madeira, juntava as ferramentas que tinha ganhado, amarrava com cordão em volta da mala, e saía em silêncio, quando todos dormiam.
No outro dia, já se sabia: o Ditão partira. Depois, passado mês ou ano, voltava, acertava o serviço, se lhe dessem, ia para o mesmo quarto, se ainda estivesse vago, e recomeçava de onde tinha parado. Não se esquecia de nada. Os tios diziam que ele sabia o que precisava saber do serviço, e que ainda tinha certo na cabeça as contas com o dinheiro guardado, a seu pedido, com o patrão. E assim devia ser com os outros lugares para onde ia, quando deixava cada emprego, no meio da noite.
Acostumei-me à sua figura quieta e alta, naqueles tempos. Cismava com a sua história de sumiços, o possível crime, a solidão em que vivia. Lembrava-me agora apenas do seu rosto, do nariz largo, mais ainda por conta de duas verrugas numa das abas, dos lábios enormes, que apenas se separavam para cantarolar, tão baixo que não se podia ouvir. Porque o Ditão não cantava. Embora fosse violeiro dos bons, alguém tinha de cantar com ele, que apenas murmurava, quase em silêncio, acompanhando a linha da música, no ritmo dos compassos que ia marcando no instrumento.
Perguntei se o Ditão estava de vez no serviço ou se ainda desaparecia, como antigamente. Não mais, ele disse. Já fazia cinco anos que estava ali. A perna não ajudava, mal conseguia dar conta da horta e de cortar o capim para os coelhos. O trato com os cavalos não era dele. Nem o pomar. Apenas a casa, que ele vigiava, desde uma casinha nova de caseiro, que tinha sido feita perto da entrada. Tinha violão, sim, e viola também. Mas não sabia se ainda tocava, ou se ficaram ali somente como lembrança.
Quando a mulher trouxe o sanduíche, comi em silêncio. Ainda lhe perguntei se não queria comer nada. Depois, seguimos.
A estrada, que era de pista simples, tinha sido duplicada. Mal os motores começavam a esquentar, tivemos de deixar o asfalto e enveredar pela estrada secundária, que era de chão.
Foram 10 quilômetros. Porém longos. Era a boca da noite. Não chovia, nem fazia muito frio. O caminho atravessava pastos de terra ruim, semeados de macaúbas. Longos trechos de areia, nos quais os caminhões deixavam dois trilhos fundos, com uma grande elevação entre eles, que era preciso evitar. E havia também, depois, na parte já sem sinais de trânsito, areias espraiadas nos lugares onde a chuva recente tinha feito poças e desfeito o facão dos trilhos.
O ruído dos motores ecoava nos vales e fazia as vacas erguerem a cabeça. As luzes começavam a projetar sombras nas margens da estrada.
Na metade do caminho, perto da sede da última fazenda grande, paramos sob a seringueira. Começava a esfriar de novo. Tirei do alforje a garrafinha de bebida, pus uma malha por baixo do casaco e seguimos depois, sem parar, até o sítio, até a porteira nova, pintada de verde, fechada com corrente e cadeado.
Foi então que o vi, iluminado pelos faróis, protegendo o rosto com a mão. Veio arrastando a perna, devagar, desconfiado. Tiramos o capacete, saudamos o velho com o seu nome. Ele sorriu, ou pareceu ter sorrido. Veio chegando, abriu o cadeado, virou as costas e voltou, no mesmo passo, subindo o declive até sumir pela porta.
Quando passamos por ela, não o vimos. Seguimos até a outra casa, que ficava junto do pomar, na parte mais alta do terreno. Quando desliguei a moto ouvi o ruído completo do pasto. Com os faróis apagados, percebi, num buraco entre as nuvens, as primeiras estrelas.
II
Você não gostava dela, ele disse. E completou que eu estava certo. Neguei que não gostasse, mas sem convicção. Quando a conheci, não conseguia espantar o pensamento que se formava insistente. Eu sabia desde o começo, de alguma forma. Mas neguei. Disse apenas que nunca tivemos muita oportunidade de estar juntos.
A história não tinha nada de mais. O de sempre. Conheceram-se e acreditaram que tinham um destino em comum, isso eu já sabia. Casaram-se às pressas. Também sabia. E testemunhara. Depois, as viagens, a insatisfação crescendo nela como um buraco, a vertigem dele olhando para o desejo sem fim de outra coisa que não fosse ele, nem a vida que tinham.
Demoraram a perceber o engano. Ou perceberam logo e lhes faltou coragem. Foi mais ou menos o que ele disse. Eu não prestava muita atenção. Sabia por cima a história. Sabia da infelicidade que foram aqueles oito anos, das brigas que a cidade pequena ecoava, da partida dela. Súbita como as velhas partidas do Ditão. Mas sem volta, sem contas a acertar.
Ia ouvindo e respondendo o mínimo. Ele tinha pegado no baú da moto uma garrafa de uísque e bebia, fazendo uma careta a cada gole. Busquei uma caneca de água e ofereci, mas ele não deu por isso e continuou a contar. Episódios, frangalhos de lembranças, história repetidas. Não imaginava que falasse tanto e tão abertamente. Constrangi-me, ouvindo, como me constrangeria vendo. Nos últimos tempos, estava paranoico. Ele não disse isso. Percebi. Achava que era uma mulher do diabo, que fazia de propósito: provocava os garçons, olhava com desejo para o jardineiro, insinuava-se para os amigos.
Eu a conhecera, de fato. Não era má pessoa. Era apenas uma pessoa sem graça. Não me parecia possível que fosse como ele dizia. Mas o que contava tinha coerência. Como um sonho, ou uma alucinação. Deixei-o falar, pensando que talvez fosse o que ele precisava fazer: um amigo de tantos anos, afastado há muitos, que em breve voltaria para casa, sem vê-lo no próximo ano, ou talvez nos próximos.
Quando a noite estava avançada, lembramo-nos de comer. Ele tinha trazido dois frangos e um pouco de pão. Acendi a churrasqueira e os pus para assar.
Voltei para o rancho. Ele estava agora enrolando um baseado. Eu não tinha bebido muito, e por isso me alegrava com a novidade.
Depois de fumarmos, comemos. A noite continuava escura. Mas as nuvens desapareciam. O frio aumentava e no fundo do céu era possível sentir o brilho difuso da lua, como um farol no meio da neblina. O tempo ia ficar limpo.
Foi então que o vi pela segunda vez. Veio cortando o terreiro, com o violão nos ombros, mancando, arrastando a perna ruim. Chegou, puxou um pedaço de tronco, que servia de banco. Sentou-se. Não disse nada.
Ficamos os dois olhando para ele, sem saber como começar a conversa. Ele parecia não perceber que estávamos ali. Sabia, por certo, pensei. Senão não teria vindo. Mas ele parecia tão à-vontade naquele tronco, tão acostumado a se sentar ali, virado para o pomar, que pensei que devia fazer aquilo todas as noites.
Começou a tocar, sem cantar, apenas movendo a boca. Eu não sabia que música era aquela, mas meu primo parecia saber. Balançava a cabeça para um lado e para o outro e começou a ter no rosto, pela primeira vez, um sorriso ou um gesto de prazer.
Comecei a me sentir zonzo. O ritmo da música e a sucessão dos acordes sem melodia se embaralhavam no meu estômago com os pedaços de frango mal assado.
Então o primo começou de novo a falar, cantarolado. Era uma coisa disparatada: pedaços do que me contara, outras coisas que eu não entendia. Mas a voz era notável. Vinha da garganta, um pouco como se fosse flamenco falado, com uma quase melodia regular, dependendo pouco das pausas e da sustentação. Ditão não olhava para ele. Inclinou-se, porém, para o seu lado e tocava agora com muita energia, batendo com os dedos na madeira da caixa do instrumento, pontuando as frases. Não havia, entretanto, lógica. Era como se cada um estivesse fazendo uma coisa diferente, que às vezes se casava, mas que o resto do tempo produzia apenas o desacordo, uma algazarra de voz e cordas e batidas ocas.
O primo fez uma pausa, olhou para Ditão como um astro de rock olha para um solista, no outro canto do palco. Enquanto olhava, acendeu outro baseado. E bebia sempre.
Olhou para mim, tentando ser irônico, mostrando o preto velho com o lábio inferior, mas eu vi que não havia sinceridade nesse gesto. E, de fato, de súbito, voltou a cantar, após uma pausa de percussão, da mesma forma que iniciara.
Quando parou, para fumar e beber, Ditão cantou. Começou grave, quase inaudível, mas depois a voz foi acordando, rouca, e se erguendo em tom e em volume. Repetia as palavras do primo, aparentemente. O que restara delas: a traição, o desespero da noite. Nomes, sustos, angústias comuns. Cantava tudo de embrulhada.
Eu e o primo fumávamos. Ele tinha tentado rir, mas não tinha conseguido. Agora, parecia chorar. Meu estômago estava embrulhado, eu ouvia ruídos em todos os lados, como se mais gente estivesse chegando.
Não havia nada. O céu estava aberto, as estrelas queimavam a sua luz fria. Só a voz da criação no pasto. E, mais longe, a saparia do brejo. Ou isso também, na noite fria, era alucinação. A única novidade era o grito do curiango, latidos de cães nos sítios vizinhos, o barulho distante dos pneus de carretas na pista.
Tive uma espécie de alucinação. Enquanto ouvia a canção desatinada, devo ter adormecido um instante. O suficiente para ver o rosto dela como um close num filme. A boca deformada por um hematoma, o olho direito quase indistinto numa grande mancha escura, que mostrava o lugar da pancada.
Foi rápido. Tentei ficar em pé, mas não consegui. Tinha fumado muito. Encostei-me na trave, respirei fundo, para não me apavorar. Já conhecia esse estado. Já tinha passado por isso.
A música me perturbava. As palavras sem nexo pareciam às vezes dizer coisas terríveis. Era também da minha vida que falava, eu pensei, e logo vi o absurdo da ideia. Tirei a garrafinha do bolso do casaco e a esvaziei de uma vez. O calor do uísque foi um rápido alívio.
O primo agora cantava de novo. Ele e Ditão. Ora em coro, ora em terça. Afundei aos poucos num sono visguento, apoiado na trave, tentando não cair para a frente ou para trás.
III
Acordei com o frio. Num susto. A primeira coisa que vi foi o vapor da respiração. Minhas mãos doíam. As pernas doíam. A cabeça doía. O primo dormia. Ditão já não estava ali.
Esfreguei as mãos, andei devagar, porque as juntas estavam rígidas. A casa estava fechada.
Rodeei o rancho e fui até o paiol. Nos fundos, ficava a antiga garagem e, atrás dela, a sala dos arreios. Peguei as mantas e dois pelegos. Estavam furados, com o pelo gasto em muitas partes. Mas ainda assim serviriam.
Cobri o primo com cuidado. Primeiro os pelegos, com os pelos para baixo e o couro para cima. Depois as mantas, que tinham cheiro forte de suor de cavalo.
Empurrei a moto até o começo da descida. Não havia luz, mas era possível ver a linha da estrada e o vulto da porteira.
Quando liguei o motor, senti uma espécie de alívio. Sem acelerar, olhei para trás, para ver se o primo acordaria. Esperei, sentido o calor do motor começar a subir e envolver o tanque. Nenhum sinal. Nem do primo, nem do Ditão.
Saí lentamente. O farol, com o movimento do guidão, por conta da areia, oscilava muito e dava um começo de tontura. Só quando a moto entrou no asfalto, o mal-estar começou a desaparecer. Acelerei forte e senti o vento cortar, junto do pescoço, onde o lenço estava mal colocado. Ajeitei-o e pensei no que o primo dissera sobre a velha moto, a roupa de couro e os apetrechos saudosistas.
Quando cheguei à serra, os primeiros raios de sol começaram a clarear a neblina. Parei no posto, pedi um café. Sentado no banco de cimento, olhando as linhas da moto, ainda não sabia o que pensar.
Apenas repassei o episódio todo. E, com meu último gesto, o pensamento mal formado. Eu sabia onde ficava o velho poço. Tinha sido tampado com lajes de cimento ainda nos tempos do avô. Eu e o primo o descobrimos, quando procurávamos minhocas. Tínhamos tirado uma das placas. O poço era escuro. Ele tinha tido então a ideia. Era muito esperto. Desenrolou um pedaço do rolo de papel higiênico, pôs fogo na ponta e foi soltando papel, enquanto o fogo subia. Não havia nada, só a lama esverdeada no fundo, ao longe. E o eco. Depois jogamos pedras ali, contando, para calcular a fundura, enquanto não vinha o barulho surdo.
Repusemos a laje, devolvemos a terra. Era o nosso segredo.
Não tinha conseguido ir até lá. Apenas olhara, da porta da sala dos arreios, para a sua direção. E o que eu devia ter feito? Procurado a laje no escuro? Com base numa visão de bêbado, sob o efeito da maconha?
Tomei o resto do café, pedi outro.
Quando o sol se ergueu completamente, tomei o caminho de casa. A visão dos vales se abria agora plenamente. Ditão, o primo, o velho sítio escuro, o poço, o pelego gasto. A moto agora roncava na subida e obedecia aos comandos com doçura.
___________________ Paulo Franchetti
é professor titular do Departamento de Teoria Literária do Instituto de
Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É
mestre em Teoria Literária pela Unicamp (1981), doutor em Letras pela
Universidade de São Paulo (1992) e Livre-Docente pela Unicamp (1999).
Desde 2002, dirige a Editora da Unicamp, cujo Conselho Editorial
preside. Com Elza Doi e L. Dantas, organizou e traduziu a obra Haikai –
Antologia e História (Editora da Unicamp, 1990). Publicou também
Haikais (São Paulo: Massao Ohno / Aliança Cultural Brasil-Japão, 1994).
[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 5 - teresina - piauí - abril/maio/junho de 2010]