poemas de Uberto Stabile Tradução e nota de Floriano Martins
Estes são poemas do livro Solo uma vez más, que em 2007 publicou o espanhol Uberto Stabile (1959), numa simpática edição bilíngüe enriquecida com a tradução do português Rui Costa, que também assina uma esclarecedora nota introdutória. Uberto Stabile já esteve no Brasil, participando da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará (Fortaleza, novembro de 2008), quando a mesma esteve sob a minha curadoria. Há seis anos desenvolve um trabalho editorial e de produção e pesquisa na área literária que envolve ações como a edição de uma expressiva coleção de livros e da revista Aullido, assim como a realização dos Encontros Internacionais de Editores Independentes e Edições Alternativas, aspectos todos estes de grande destaque e engrandecimento da cultura na Andaluzia, região da Espanha em que vive. Seus livros são ainda desconhecidos do leitor brasileiro, cabendo aqui apresentá-lo como alguém que nos cativa com sua busca de um diálogo afetivo através da escrita, pondo o humano, em suas reações mínimas e mais cotidianas, no centro dessa mesa de diálogo. Os cinco poemas aqui apresentados foram traduzidos por mim, considerando certas particularidades que, a despeito de qualquer acordo ortográfico, seguirão caracterizando como duas fontes de riqueza incessante o português que se fala no Brasil e em Portugal. Aos leitores de dEsEnrEdoS, portanto, a boa fortuna de conhecer um pouco da poesia de Uberto Stabile. Abraxas.
ângelus Observo a lamentável geografia de meu quarto e por entre os livros os bonecos de trapo e circunstância as fotografias na parede sobre o velho e úmido papel me encontro suficientemente abatido para compreender que tudo continua.
aguardente Bebo sem sede, bebo sem pressa, bebo como o pirata bebe após o saque como bebe o soldado em sua trincheira bebo com medo de beber sem ti. Nego a ti e te bendigo minha boca transparente é também escura, sou um astro sem luz, um farol fundido. Como todas as histórias de amor a nossa aqui se conclui, teu beijo quente teu consolo fugaz nem a mim nem a ti nos fez eternos, recordará teus conselhos quando a canção chegue ao fim.
a levar a vida pela frente
Que a vida era em sério só começamos a perceber mais tarde, como todos os jovens, eu cheguei a levar a vida pela frente. Jaime Gil de Biedma
Ela costumava dizer-me eu te amo sinto tua falta não posso viver sem ti sem teu amor cansado, meu amor sem teu amor cansado e tolo
Tinha dezenove anos cobrados ao revés enganchados no dedo auricular de uma manhã em que rapidamente envelheci porque já não podia morrer de amor, porque de amor se morre muitas vezes mas de velhice apenas uma.
Em seguida me ameaçou com o esquecimento E mais tarde esqueceu de cumprir sua ameaça.
É difícil intimidar se não conheces o medo Difícil esquecer se não entendes a memória.
disse Gillespie Disse Gillespie que a morte não é o pior que a dor não é a melhor escola nem a fome nos converte em campeões. Disse Gillespie que não são mais fortes aqueles que mais podem e sim aqueles que mais resistem aqueles que da derrota erguem carícias. Disse Gillespie que o mais perigoso nunca é o perigo que o mais perigoso é a segurança com que iludimos sempre o mesmo perigo. Disse Gillepsie que não é um homem acabado que é apenas um homem que está acabando que nunca o final substitui o fim, porque em realidade disse Gillespie que lhe disse Parker que lhe contou Cortazar que em lugar de fazer amor já chega a hora de que o amor nos faça.
os anos perdidos Chegar tarde a todas as partes não é uma virtude nem um defeito é uma condição que a alma admite mas que irrita a memória. Cheguei tarde a tantas coisas como tarde chega o amor a ser amado. Chegar tarde a todas as partes tem sido sempre uma surpresa um dom que concede ao tempo sua maior riqueza. E se perdi os anos nem por isto perdi o tempo pois cada vez que os vejo compenso os anos perdidos.
_________________________ Floriano Martins (Fortaleza, 1957) é poeta, editor, ensaísta e tradutor. Dentre seus livros de poesia mais recentes, encontram-se Tres estudios para un amor loco (México, 2006), Duas mentiras (São Paulo, 2008), Teatro Imposible (Venezuela, 2008), e A alma desfeita em corpo (Lisboa, 2009). Foi curador da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará (Brasil, 2008) - função que voltará a desempenhar em 2010, e membro do júri do Prêmio Casa das Américas (Cuba, 2009). Juntamente com Claudio Willer, dirige a revista Agulha - Prêmio Antonio Bento (difusão das artes visuais na mídia) da ABCA/2007.