13 canções de guerra e de paz Yehuda Amichai Tradução de Sebastião Edson Macedo
meu filho cheira a paz Meu filho cheira a paz. Quando eu me inclino sobre ele Não há só o cheiro do sabonete.
Todo mundo foi uma vez a criança com o cheiro a paz. (E não há em toda a terra um só Moinho que ainda gira)
Ó moinhos despedaçados como roupas que não se pode remendar. Duros, solitários patriarcas na tumba de Hebron Sem filho algum em seus silêncios.
Meu filho cheira a paz. O ventre de sua mãe o prometeu Aquilo que deus não pode Nos prometer.
minha amada não esteve na guerra A minha amada não esteve na guerra. Ela aprende o amor e a história No meu corpo, que foi dois, ou três. E de noite. Quando meu corpo faz duelos na paz Ela se confunde. Seu pasmo é seu amor. E seu aprendizado. Suas guerras e sua paz, seu sonho.
E eu estou bem no meio da minha vida. O tempo quando se começa a coletar Os fatos, e muitos detalhes, E mapas exatos De um país que jamais ocuparemos E de um inimigo e um amante Cujas fronteiras jamais cruzaremos.
nós o fizemos Nós o fizemos na frente do espelho E a claro. Nós o fizemos no escuro, Na água, e na grama alta.
Nós o fizemos em memória do homem E em memória da fera e em memória de Deus. Mas eles não queriam saber da gente, Eles já entendiam a nossa sorte.
Nós o fizemos com imaginação e a cores, Com uma confusão acaju e marrom de cabelos E com difíceis exercícios Gratificantes. Nós o fizemos Como a bicicletas e a seres sagrados E com as cátedras próprias para os profetas. Nós o fizemos seis asas e seis pernas Mas os céus Austeros eram sobre nós Como a terra por debaixo do verão.
caminhada com uma mulher Quando depois de horas de caminhar Tu subitamente descobres Que o corpo da mulher que vai a teu lado Não tinha sido pensado Para a viagem ou a guerra,
E que suas coxas se tornaram pesadas e suas nádegas se movem como um rebanho cansado, Tu te inflas numa grande alegria Pelo mundo No qual as mulheres são mesmo assim.
espião Muitos anos trás Eu fui enviado Para espiar a terra fora Para além da idade dos trinta.
E eu fiquei por lá E não voltei para os meus mandantes, Para não ter que Contar Desta terra
Nem ter que Mentir.
faz muito tempo que ninguém é perguntado Faz muito tempo que ninguém é perguntado Quem viveu nestas casas, e por último falou, quem Esqueceu sua capa nestas casas, E quem ficou. (Por que ele não caiu fora?)
Uma árvore morta fica no meio das árvores floridas. Uma árvore morta. É um velho engano, nunca compreendido, E nas fronteias do país, o princípio Do tempo de outro alguém. Um pequeno silêncio. E os delírios do corpo e do inferno. E o fim do fim que se move nos sussurros. O vento passou por este lugar através E um cão muito sério vê humanos se rirem.
e nós não devemos ficar excitados E nós não devemos ficar excitados. Porque um tradutor Não tem que ficar excitado. Calmamente devemos transmitir As palavras de pai para filho, de uma língua Para os lábios dos demais, des-
Conhecidamente, como um pai que transmite Os traços do rosto de seu pai morto Para seu filho, e ele próprio não semelha nenhum deles. Um mero mediador.
Nós devemos lembrar das coisas que tivemos nas mãos E escapuliram. O que eu tenho em minha posse e o que eu não tenho em minha posse.
Nós não temos que ficar excitados. Os apelos e seus apeladores naufragaram. Oh, a minha amada Disse-me umas poucas palavras antes de partir, Para dar conta dela.
E nós não devemos mais contar o que nos contaram Para outros contadores. O silêncio como aceitação. Não temos Que ficar excitados.
de três ou quatro pessoas numa sala De três ou quatro pessoas numa sala Uma sempre fica na janela. É obrigado a ver o mal entre os espinhos E as chamas na colina. E como as pessoas que saíram todas juntas São devolvidas aos lares ao anoitecer Como se fossem um troco miúdo.
De três ou quatro pessoas numa sala Uma sempre fica na janela. Seus cabelos negros sobre seus pensamentos. As palavras ficam atrás dela. Em frente a ela, vozes se perdendo sem bagagem, Corações sem mantimento, profecias sem água, E as grandes pedras devolvidas Como cartas lacradas Sem remetente nem destinatário.
o prefeito É triste ser O prefeito de Jerusalém. É terrível. Como pode um homem ser prefeito de uma cidade dessa? O que ele pode fazer por ela? Ele só pode construir e construir e construir.
E à noite, As pedras dos montes ao seu redor Virão até as pedras do limiar das casas Como lobos que vêm uivar para os cães Que se tornaram escravos dos homens.
não aceitar Não aceitar estas chuvas que vêm tarde demais. Melhor se segurar. Fazer da tua dor Uma imagem do deserto. Dizer está dito E não olhar para o poente. Recusar
Render-se. Tentar este ano também Viver sozinho no longo verão, Comer teu pão ressequido, refrear Tuas lágrimas. E não aprender com
A experiência. Tomar a minha mocidade como exemplo, O meu retorno tarde da noite, o que foi escrito Na chuva no ano passado, não faz a menor diferença
Agora. Ver teus casos como meus casos. Cada coisa será como antes: Abraão será de novo Arão. Sara será de novo Sá.
é chegado o tempo de colher os testemunhos Quando foi a última vez eu chorei. É chegado o tempo de colher os testemunhos Daqueles que me vivenciaram nisto. Alguns estão mortos. Eu lavo meus olhos com água Para tornar a ver o mundo Através de um véu úmido e doloroso. Eu preciso Colher os testemunhos. Estes dias Pela primeira vez eu senti umas pontadas No meu coração: Eu não estava espantado. Eu estava quase tão orgulhoso Quanto um menino que descobre o primeiro pêlo em seu sovaco E em sua púbis.
com a minha mãe Minha mãe sempre me chama pra dentro Se estou a brincar lá fora. Certa vez me chamou E eu não voltei para casa por muitos anos, E eu não estava brincando.
Quando eu me sento diante dela agora Ela fica igual às pedras silentes. Todas as minhas palavras e os meus poemas São qual uma graxa derramada das palavras De um vendedor de tapetes, De um alcoviteiro, e de um dócil caixeiro viajante.
de Poemas sobre o Mar da Cesaréia 7. A mulher que desapareceu no além Da porta marcada como “Mulher” nunca apareceu novamente. A areia entre meus dedões. Metade de uma maçã e um quarto de hora chegando atrasados. Um bilhete com uma ferida de uma viagem específica, Um número em um antebraço, metade de um fósforo queimado. A pele untada. Para quem?
Rubros pecadores de pé No fogo do inferno de uma ducha A gritar fervorosos por socorro. Dois homens obesos rolando Nas tábuas da lama como um rolo compressor. Palhas de milho e romãs ressequidas No fundo de uma tigela.
Alguém sussurra com um bocado de areia: “Qual a areia nas bordas do mar.” Uma mulher entra com seu vestido Como se subisse uma escada. Seu rosto em chamas.
9. Volte aqui no próximo inverno, Ou algumas dessas palavras Sustentem a minha vida E atravesse meus dias, Como uma fila de soldados, um por um, sobre a ponte Marcada para explodir.
Volte aqui no próximo inverno. Quem não ouviu tais palavras, e quem vai retornar?
_________________________ Yehuda Amichai (1924-2000) é um dos mais destacados poetas de língua hebraica do século XX. Nascido no seio de uma família ultra-ortodoxa em Würzburg, Alemanha, emigou para Israel em 1936. Sua obra é extensa, com 15 livros de poemas, dois romances, vários contos e teatro, sendo considerada fundamental para se refletir as margens da experiência da linguagem na lírica moderna. A poesia de Amichai está intimamentemente conectada ao convívio possível entre os homens num mundo destroçado pela falência do Humanismo. Por isso, talvez, haja tão recorrentes temas da esfera privada implicados na vida pública do homem comum. Amichai ganhou inúmeros prêmios internacionais de poesia e está traduzido para mais de 35 idiomas. A presente tradução se baseou nas versões em língua inglesa de Bloch & Kronfeld (Harcourt: NY, 2000), de Barbara & Benjamin Harshav (HarperCollins: NY, 1994) e de Gutmann, Schimmel & Hughes (Penguin: London, 1978).
_________________________ Sebastião Edson Macedo é poeta e ensaísta, autor de: para apascentar o tamanho do mundo (Oficina Raquel: 2006); e: cego puro sol (UFRJ/FL: 2004). Nasceu no interior do Piauí em 1974. Atualmente mora no Rio de Janeiro, onde se tornou Mestre em Estudos Literários Portugueses pela UFRJ.