5 poemas de Ossip Mandelstam Tradução de Francisco Araújo
cinematógrafo Cinematógrafo. Três assentos. Azáfama dos sentimentos. A aristocrata e abastada Na teia da rival-celerada.
O amor que surge não controla: Em nada é ela culpada! Como a um irmão, abnegadamente, Amou da frota o tenente.
Já ele no deserto vagueia Bastardo filho do conde encanecido. Assim começa o açucarado Romance da bela condessa.
Em frenesi, feito cigana, Para trás os braços torce. Separação. Furiosos sons Do piano atormentado.
Bravura ainda há o bastante No peito débil e confiante Para roubar para o inimigo Documentos importantes.
Pela alameda das castanheiras O colossal motor a toda, A fita palra, bate o coração Mais alegre de ansiosa comoção.
Em caro vestido e de maleta-viagem, Em automóvel e em vagão, Apenas teme a perseguição, Exaurida de árida miragem.
Que amargo absurdo: O fim não justifica os meios! Para ele herança paterna, Para ela fortaleza eterna!
Кинематограф
Кинематограф. Три скамейки. Сентиментальная горячка. Аристократка и богачка В сетях соперницы-злодейки.
Не удержать любви полета: Она ни в чем не виновата! Самоотверженно, как брата, Любила лейтенанта флота.
А он скитается в пустыне - Седого графа сын побочный. Так начинается лубочный Роман красавицы-графини.
И в исступленьи, как гитана, Она заламывает руки. Разлука. Бешеные звуки Затравленного фортепьяно.
В груди доверчивой и слабой Еще достаточно отваги Похитить важные бумаги Для неприятельского штаба.
И по каштановой аллее Чудовищный мотор несется, Стрекочет лента, сердце бьется Тревожнее и веселее.
В дорожном платье, с саквояжем, В автомобиле и в вагоне, Она боится лишь погони, Сухим измучена миражем.
Какая горькая нелепость: Цель не оправдывает средства! Ему - отцовское наследство, А ей - пожизненная крепость!
1913
a americana A americana aos vinte anos Deve alcançar o Egito, Esquecendo do Titanic o aviso, De no fundo mais soturno que a cripta dormir.
As sirenes cantam na América, E as chaminés de arranha-céus vermelhos Para as frias nuvens devolvem Seus lábios de fuligem.
E no Louvre a filha do oceano Está linda como o álamo; Para o mármore de açúcar triturar, A Acrópole, feito esquilo escalar.
Sem palavra entender, Fausto no vagão lê E Lamenta porque Louis No trono não está mais.
Американка
Американка в двадцать лет Должна добраться до Египта, Забыв "Титаника" совет, Что спит на дне мрачнее крипта.
В Америке гудки поют, И красных небоскребов трубы Холодным тучам отдают Свои прокопченные губы.
И в Лувре океана дочь Стоит прекрасная, как тополь; Чтоб мрамор сахарный толочь, Влезает белкой на Акрополь.
Не понимая ничего, Читает "Фауста" в вагоне И сожалеет, отчего Людовик больше не на трoне.
1913
a concha Talvez não precises de mim, Noite; da mundial voragem Tal como a concha sem pérolas, A tua margem fui lançado.
Tu espumas as ondas com indiferença E cantas com teimosia, Mas terás apreço, amarás Da concha a inútil mentira.
Ao seu lado deitarás na areia, Com sua casula te vestirás, Um indestrutível e grande sino Com ela na marola erguerás.
E as paredes da frágil concha, Como a casa de vazio coração Encherás com os sussurros da espuma, Com a chuva, o vento e a bruma...
Раковина
Быть может, я тебе не нужен, Ночь; из пучины мировой, Как раковина без жемчужин, Я выброшен на берег твой.
Ты равнодушно волны пенишь И несговорчиво поешь; Но ты полюбишь, ты оценишь Ненужной раковины ложь.
Ты на песок с ней рядом ляжешь, Оденешь ризою своей, Ты неразрывно с нею свяжешь Огромный колокол зыбей;
И хрупкой раковины стены, Как нежилого сердца дом, Наполнишь шепотами пены, Туманом, ветром и дождем...
1911
leningrado Regressei a minha cidade, conhecida até às lágrimas, Até as veias, as inflamadas glândulas das crianças.
Tu regressaste para cá, então bebe de um gole O óleo de peixe dos faróis fluviais de Leningrado.
Descubra logo o pequeno dia de dezembro, Onde a gema mistura-se ao funesto breu.
Petersburgo! Eu ainda não quero morrer: Tu ainda tens de meus telefones os números.
Petersburgo! Ainda tenho os endereços, Pelos quais acharei as vozes dos mortos.
Vivo na escada de fora, e na têmpora Me golpeia a campainha brutalmente sacada.
E por toda noite aguardo visitas queridas, Chacoalhando as correntes das portas.
Ленинград
Я вернулся в мой город, знакомый до слёз, До прожилок, до детских припухлых желёз.
Ты вернулся сюда, так глотай же скорей Рыбий жир ленинградских речных фонарей,
Узнавай же скорее декабрьский денёк, Где к зловещему дегтю подмешан желток.
Петербург! я ещё не хочу умирать: У тебя телефонов моих номера.
Петербург! У меня ещё есть адреса, По которым найду мертвецов голоса.
Я на лестнице чёрной живу, и в висок Ударяет мне вырванный с мясом звонок,
И всю ночь напролёт жду гостей дорогих, Шевеля кандалами цепочек дверных.
Декабрь 1930 (Dezembro 1930)
Ajuda-me, Senhor, esta noite passar. Temo pela vida, pela sua serva... Em Petersburgo viver é como em ataúde adormecer!
Помоги, господь, эту ночь прожить: Я за жизнь боюсь за твою рабу В Петербурге жить словно спать в гробу!
Январь 1931 (Janeiro 1931)
_________________________ Ossip Mandelstam (1891 1938, Varsóvia, Polônia, era parte do Império russo na data do nascimento) de uma família de comerciantes judeus, estudou filologia e história na Universidade de São Petersburgo. Inicia a atividade literária em 1910, quando publica alguns poemas na revista Apollo (1909-1917). Um dos fundadores do Acmeísmo, corrente fundada em 1912 e que representava a tendência individualista extrema em arte, pregando a arte pela arte, a beleza pela beleza. Permaneceu pouco tempo no movimento. Seu primeiro livro, Pedra, de 1913 é marcado por suas pesquisas rítmicas e reflexões sobre a linguagem. Em sua primeira etapa, o poeta sofre a influência dos simbolistas franceses, mais tarde, um pouco antes de sua morte, retrata a crua realidade em que se encontrava, sobretudo depois de sofrer com o exílio imposto por Stalin, de quem denuncia a cruel intolerância num poema que lê para um grupo de amigos. Mandelstam é considerado o maior dos acmeístas e um dos mais sóbrios intelectuais russos de seu tempo, não se opondo à Revolução de Outubro, também não partilhou da euforia que dominou alguns artistas do período. Contando com poemas e ensaios, sua obra não é muito extensa. O rumor do tempo (1925) e A viagem à Armênia (1930), dois textos de reminiscências, foram publicados no Brasil pela Editora 34 em 2000, num único volume, com tradução de Paulo Bezerra.
_________________________ Francisco Araújo é tradutor e professor, graduado em Letras Português-Russo pela UFRJ, especializando em linguística e língua portuguesa pelo Liceu Literário Português, no Rio de Janeiro. Nasceu em Fortaleza e atualmente mora em São Paulo, aguardando fevereiro de 2010 chegar, quando enfrentará o inverno russo para fazer um curso de aperfeiçoamento em língua russa no Instituto Pushkin, em Moscou. Contato: franciscodaraujo@yahoo.com.br