tá pronto, seu lobo? seleção de poemas
Paulo Machado






arquivo
ao contista m. de moura filho

adão andou nas mãos dos paisanos
e foi encontrado na praça da liberdade
como um mamulengo esquecido detrás do palco:
olhos abertos, boca cerrada, músculos petrificados,
sangue coagulado nas narinas.

adão virou manchete
na pose três por quatro,
na última página de o dia.

hoje, é um número qualquer
arquivado
à espera dos cupins.



herança
à artista plástica norma couto

na senador pacheco 1193 há um poema
onde os primos, em volta da mesa, guardam suas ânsias
diante das pastilhas de hortelã.

e o avô na sala de espera
sonha com o vôo dos pássaros
buscando as canaranas.

(às vezes, de sobrecenho, fala da guerra de 14,
da gripe espanhola)

o tio já não tosse dentro da noite
arranhando um estranho silêncio
no fim do corredor
que muito se assemelha
ao gesto acanhado dos meninos
com suas canecas, à espera das cabras.

no verão, da mesma forma que no poema,
não há lodo no muro
e as lagartixas passeiam ao sol.

da mudez das pedras e do vermelho do barro
arrebenta um verso,
cicatriz esquecida.

(nesse poema o difícil
é não ser trágico)

no quintal, a erva-cidreira cresce
por entre as rachaduras das lajes,
sussurrando boatos de revolta.
na sala de jantar, o perigo do naufrágio
nas tradições de há séculos.

há um poema que rói o tédio,
na senador pacheco, 1193.



fragmento

ao artista plástico gabriel archanjo

uma rua torta que se prolonga
à névoa da infância perdida.
pés descalços, camisa aberta ao vento,
cacos de vidro na carne.
as torres da igreja do amparo,
imponentes, dialogavam em monossílabos
e o céu era azul, simplesmente.
as mocinhas namoricavam, tímidas,
desconheciam a pílula.
na calçada, um bêbado, ar de galhofa,
sonhava com o tudo proibido.
os urubus no telhado eram parte do domingo,
como o tédio ou o nada fazer.
negra tomásia contava histórias da carochinha,
o sono galopava num potro branco.



esboço
à poetisa marleide lins

sei que ao verso forte o medo fará inexpressivo,
quando estiver morta a crença inicial na palavra,
restando o vazio, a certeza dos negros amanhãs.

sei que as lembranças de uma longa espera
fingem-se ancoradas,
presas com fortes amarras,
num porto ao longe.

sei que não gosto das coisas do jeito que estão,
tempo pleno de equívocos.
e nesse faz-de-conta o meu ritmo é torto,
incômodo como a pedrada na vidraça.


proposta
à companhia de teatro circo negro

tinha fascínio
pelos personagens difíceis.
sabia vivê-los com tanta garra
que chegava à convincência.

(nos camarins, quantos elogios!)

tinha um jeito maroto
de disfarçar, estranhamente, o medo
que lhe roía as entranhas
nos dias de estréia.

pelos idos dos anos 40 tomava chope,
mordiscando rodelas de queijo,
no bar do alemão.

morreu chagásico, relembrando
as travessuras de hamlet,
num quarto de pensão da zona.

(deixou inédito um monólogo
dedicado ao sr. arthur bernardes,
presidente da república)



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Paulo Machado nasceu em Teresina, em 1956. Advogado. Defensor público. Poeta e contista. Integrou o grupo responsável pela edição do jornal alternativo Chapado do Corisco, em 1976 e 1977, em Teresina. Integra a comissão editorial de lituratura  da revista Pulsar. Publicou Tá Pronto, Seu Lobo? e A Paz no Pântano, poesia; O Anjo Proscrito, contos; As Trilhas da Morte, ensaio sobre a matança e espoliação das populações indígenas na bacia hidrográfica parnaibana piauiense.


[revista dEsEnrEdoS - ano II - número 4 - teresina - piauí - janeiro/fevereiro/março de 2010]
 
 

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