poemas de
André Setti





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O curso do rio
é também o discurso do tempo,
num vaivém bravio
de vento e vaga.
 
A verdadeira saga
das geleiras da alma
é ver no compasso
mutilado do fracasso
o passado na palma das águas,
e mesmo assim perecer com calma,
a esmo, porém sem fim,
como um vintém do infinito,
fazer do perecer um rito
do abismo ou do istmo que nos navega
como uma bruma cega.
 
No entanto, se nega o canto a tecer
as escuras escrituras
do tempo e seus ferrenhos engenhos
do lento perecer.


.



Meu corpo é o teatro
da ruína e do sonho,
rio de imagens e música,
oceano navegado
por cavalos do espírito,
quando me entrego ao ritmo
dos ciclos múltiplos
da ruína e do delírio.

Babilônia fez seu império.
Meu corpo é o império do sonho.


.


O futuro seria penetrar ruínas,
tempo desfiando tempo,
no oculto movimento da fantasia,
como uma estrela celebrando
o nome cego do infinito
na casa do esquecimento.

Resta a estrada eterna:
eu, você, o vento.

De todos os tempos
declamados pelo sonho,
o futuro é o balé mais belo.


.


Num porto secular da memória,
bailo no caos,
destroçando as margens sagradas
das cifras antigas,
declamo piruetas no caos das ruínas,
as musas ocultas
calculam o sonho entre os destroços do templo,
navego como um trovador dos séculos,
ébrio peregrino,
o que vejo é meu caminho,
o oceano
devora o cérebro dos séculos,
sou uma ponte
a degolar os símbolos,
que navegam.


.


Se o amor é minha sina,
quem poderia,
sonho após dia,
compor tão doce ruína?


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André Setti é poeta, professor de inglês e tradutor.

Site: http://www.freewebs.com/andresetti

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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 4 - teresina - piauí - janeiro/fevereiro/março de 2010]
 
 

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