Rua Caulaincourt

Alfredo Fressia




Domingo de manhã. Desci em Batignolles para comer alguma coisa no bar de Jacky, mas é domingo e está fechado. Continuo andando até a praça Clichy, pode ser que encontre algum local aberto, depois subirei a rua Caulaincourt até a casa de Jean-Francis. O apartamento de Jean-Francis é triste e bonito, numa ruela sem saída perto do metrô Lamarck-Caulaincourt. O problema é subir a rua Caulaincourt, que é curva, íngreme e parece não terminar nunca, como nos pesadelos.

É claro que tudo iria estar fechado na praça, eu devia ter previsto, considerando minha sorte. Sento um momento na calçada, porque esta praça não tem bancos, é só um corredor urbano, deserto neste horário. Olho para o bulevar Clichy, as portas fechadas da livraria onde Jean-Francis trabalhou vários anos e que nos bons tempos ficava aberta até muito tarde à noite. Perto dali está a joalheria La Turquoise, onde os travestis brasileiros levam os cheques. Muitos clientes pagam com cheque e eles não têm documentos, não podem abrir uma conta bancária para fazer os depósitos. A dona do La Turquoise, Madame Bordelais, por pura gentileza, e enquanto isto não comprometa a sua declaração de imposto de renda, deposita os cheques na sua própria conta e dá o dinheiro a eles. É um favor muito uruguaio, se é que eu posso dizer assim, sentado na frente da praça Clichy, pensando nas dificuldades dos travestis brasileiros. Um favor à uruguaia é o que eu precisaria agora, alguém que me levasse até a casa do Jean-Francis. Sou jovem ainda, é verdade, tenho trinta e poucos anos. Mas hoje dormi pouco, sinto frio, tenho o estômago vazio e pouca sorte.

No meio da praça levanta-se o monumento ao marechal Moncey, aquele que defendeu Paris, no fim do império napoleônico, contra a invasão russa. Penso que os travestis estão aqui para juntar dinheiro, e também sonham com aristocratas russos (mas podem ser ingleses) que se apaixonem por eles. às vezes conseguem o primeiro e voltam ao Brasil com dinheiro para comprar pelo menos um apartamento. Eu não tenho nenhum projeto desses. Mas desde 1978 venho aqui aproximadamente a cada dois anos. Esta média durará até meados da década dos anos 80. Venho porque pertenço a uma outra tribo errante, a dos exilados. Venho para encontrar meus amigos uruguaios, para saber notícias, deles, de mim mesmo.

Junto minhas forças e me levanto da calçada na frente desta praça deserta. A praça Clichy num domingo cinza de manhã no inverno: um bom resumo do desamor. Esse é meu sentimento por Paris nesta época. As moças que passam apressadas trabalham em Pigalle, na praça Blanche, ou em Rochechouart, já é sabido. Os outros passantes são turistas que vão à basílica do Sacré-Coeur, essa igreja mais feia do que a praça Clichy, ou vão comprar lembranças com os pintores em série da praça du Tertre. A praça Clichy nos domingos de manhã não existe, ou se confunde no cinza permanente do exílio.

Começo a subir a ladeira da rua Caulaincourt. Eu não olho nada, ou sim, olho para a calçada e para as árvores, enormes. Estas, os franceses as chamam sophoras. Penso nas calçadas quebradas de Montevidéu e nas árvores que lá chamamos paraísos, eu subia nelas em criança. Venho a Paris também para ter notícias de Montevidéu. Moro em São Paulo, sou professor da Aliança Francesa local, venho a Paris porque tenho a casa de Jean onde me instalo como ele se instala na minha em São Paulo. As notícias do meu Montevidéu impossível são o ar, às vezes rarefeito, que respiro durante muitos anos.

Por isso preciso dos meus amigos, sobretudo da minha Trindade Non Sancta, Juan, Jean, Adalberto. Juan Introini, meu amigo desde a adolescência. É professor de Latim na Faculdade de Humanidades. Tantos anos de estudo, tanto talento, ele e Jorge Cuinat, e um dia foram dispensados da Universidade. Não eram confiáveis. Um professor categoria A deve tê-los substituído. Porque há cidadãos A, cidadãos B e cidadãos C. Quando eu fui expulso do Uruguai essa divisão em categorias ainda não existia, ou não tinha um nome, essas três letras. Eu fui para São Paulo em silêncio, que ninguém percebesse, meu exílio foi sem nenhuma categoria. Dos meus vários delitos creio que o pior consistia em ser amigo de um preso político, o pobre Nelson Marra. Em ir à cadeia de Punta Carretas todos os sábados, infalível. A fidelidade não se perdoa. Ser um homem honesto, praticar a amizade, a solidariedade, isto não se perdoa numa ditadura. Há sempre um consenso implícito nas ditaduras, a idéia de um mal menor, um espaço sem valores onde medram os oportunistas. Também por isso a ditadura é terrível, e não só por ser um regime “de força”. Penso na demolição do Instituto de Professores, o IPA, não posso evitar.

Paro um minuto para recuperar forças, estou na ponte da rua Caulaincourt sobre o cemitério Montmartre. Gosto deste cemitério. Mas eu gosto de todos os de Paris. Nos anos 70 e nos primeiros 80 os cemitérios são a única coisa que eu amo nesta cidade. Prometo a mim mesmo vir num desses dias visitar os túmulos dos meus mortos queridos do Montmartre: Alfred de Vigny, Stendhal, Berlioz, Théophile Gautier, os irmãos Goncourt, Vaslav Nijinsky e, por que não, Émile Zola. O périplo não será pequeno. E no cemitério Montmartre é preciso cuidar dos gatos, pelo menos dar a eles de comer, ou dar-lhes calor, para conjurar a má sorte.

Venho a Paris com teimosia para passar os três meses das minhas férias escolares brasileiras, isto é, sempre no inverno europeu, para encontrar o calor dos amigos, as conversas, a esperança. Percorro sempre meu périplo dos “Refugiados Políticos” – assim figura nos documentos deles. Venho ver meus uruguaios de Grigny-La Grande Borne. Mas também estão os da Porte des Lilas, os que estudam e moram perto da rua des Écoles. São tantos. Eu preciso de todos.

Justamente agora de manhã estou chegando de Grigny. É uma periferia, longe. Rimos: bem que podia chamar-se A Borne Perdida. Tinha um jantar ontem à noite na casa de Jean Stern, um militante gay francês. Éramos dois convidados, um militante holandês e eu. Mas eu quero ficar em Grigny, ligo para Stern, não posso ir, nunca chegaria à rua de Turenne, estou preso num engarrafamento, em Grigny. Stern já entendeu tudo. Não posso e não quero deixar meus amigos, ele sabe disso. Depois eu conhecerei o holandês, ele e eu escreveremos alguma nota para a revista Gai Pied. Mas agora minha urgência são os uruguaios.

Acabei por dormir em La Grande Borne, acordei cedo, tomei um chimarrão amanhecido e voltei de trem à Gare de Lyon agora de manhã. O que fazem os uruguaios quando se reúnem em Grigny, a pobre, ou na rua des Écoles, mais rica, ou pelo menos mais intelectual? Bebem vinho, recordam. Alguns fazem projetos. Eu recomponho o corpo morto que nos une. Chama-se Uruguai, é imenso. É gigante aquilo que nos aconteceu, é gigante a perda. Faz anos que nos reencontramos e sempre voltamos a essa perplexidade, nos juntamos para contemplá-la, para medi-la, é uma ausência falada. Contamo-nos histórias.

Não sabiam a história de Gustavo M.? Sabiam, voltamos a contar para nós mesmos. Fora a Cuba fazer treinamento de guerrilha. Teve algumas crises nervosas, o internaram. No fim a direção da guerrilha desistiu dele. Mandaram-no a Varsóvia, que fizesse o que ele quisesse. Dali ele veio de trem para Paris. Eu o vejo mais uma vez. Somos jovens, muito jovens. Foi em 1978, ele liga para mim, está em Asnières, um subúrbio, quer morrer. Passo todo o mês de janeiro com ele em Asnières. Anos depois ele me contará. Não se matou porque minha presença devolveu algum sentido à vida. “E isso é bom?”, perguntei. Não acusa recibo da minha graça, garante que sim. Sei que vivo para meus uruguaios, para que não passemos o limite, para recordá-lo: estamos na frente do abismo.

Na rua Caulaincourt, depois da curva maior, há uma pracinha. Chama-se Place Constantin Pecqueur, é perto da casa de Jean. Não sei quem pode ter sido Constantin Pecqueur, mas quem fez a praça teve piedade dos pedestres, encheu-a de sophoras. Paris também tem seus oásis.

Penso na vida cotidiana dos uruguaios exilados. Os de Grigny têm filhos. As crianças falam mal o espanhol, têm dificuldades. Moram em prédios enormes, blocos sem identidade. Ali moram uruguaios, argentinos, chilenos, brasileiros, vietnamitas, muitos africanos tanto da África equatorial quanto do Magreb.

Estou quase chegando. Atravesso o quarteirão com os estúdios da Pathé, a companhia de cinema que criou mundos cosmopolitas, lendas de araque. Hoje esses estúdios estão desativados, devem hospedar só fantasmas. Jean-Francis é seu vizinho.

Ele dorme quando eu chego. Preparo o café e minhas lembranças. Penso em Juan e nele, meus “dois Juanes”. Jean-Francis Aymonier é meu apoio, meu porto seguro, há tantos anos, desde março de 1977, ele diria, porque ele é muito preciso com datas. Tinha ido a São Paulo para se casar, vejo os dois noivos chegando de táxi para me pegar na biblioteca da Aliança Francesa. O porteiro me liga, preciso descer correndo, intimado a subir no táxi. Consigo entrar entre o buquê de flores, a cauda do vestido da noiva, Jean radiante dentro do terno mandado fazer para a ocasião. O casamento poderá não durar muito tempo, mas virão outros amores, em São Paulo ou em Paris, atravessaremos a vida juntos, indiferentes às mudanças de hemisfério. Jean, que não fala espanhol, o mais uruguaio dos franceses, irá a Montevidéu, ficará na casa de Graciela Míguez e de Juan Introini, trará notícias, será amigo dos meus amigos.

Muitos anos depois – dia 17 de maio de 2000, ele me lembraria – terá que passar por sua forma de exílio, o acidente na rua. Jean, corretor de um jornal em Paris, está chegando de moto ao local de trabalho, o azar, com capacete e tudo, o golpe na nuca contra o meio-fio. Jean tetraplégico. Jean o forte. Durante algum tempo ele está tentado pela morte, quer morrer, me pede. Diz: “Me mata”. Me contagia o desalento, chego a pensar seriamente nesse pedido final. Mas o espírito volta, a vontade de viver apesar de tudo. Trinta anos depois, Jean e eu continuamos conversando, às vezes em silêncio, ou pendurados a esse telefone de internet com o qual chama, durante horas nos fins de semana.

Os amigos dos uruguaios se “uruguaízam” também, e todos nos contamos histórias para sobreviver. Precisamos delas. Durante anos Roque e Esther Seixas, meus amigos gaúchos, voltaram ao Brasil depois de décadas em Montevidéu, me ligam de Rio Grande. Falamos dos presos. Custa-nos falar dos desaparecidos. Margarita está desaparecida, foi em Buenos Aires. Os três sabemos disso. Mas necessitamos do relato salvador. Alguém em Montevidéu disse que Margarita casou-se com um violoncelista búlgaro da sinfônica de Buenos Aires. Que teve filhos. Repetimos esse relato para nós mesmos, nos aferramos nele, não dizemos que provavelmente ela está morta. Chego a Paris e conto: Margarita está casada, vive, tem filhos em Buenos Aires.

Sim, diz Daniel, o uruguaio da Porte des Lilás, ele soube. Esther escreveu do Brasil a Roberto em Grigny. Daniel casou-se com Beatriz, a argentina. A polícia a procurava, era em 1977. Acharam a irmã dela, na saída de um metrô. Mataram-na porque a confundiram com Beatriz. Alguém consegue avisar a Beatriz. Que fosse embora, para onde pudesse. Um comissário da ONU a recebe na madrugada, consegue embarcá-la a Paris. Carregará a culpa de uma irmã morta no lugar dela. Esther me liga de Rio Grande, soube que Daniel casou-se com uma argentina, é refugiada, terão um filho. Salvaram a vida, repete Esther.

Adalberto, meu amigo de Ribeirão Preto, que um dia morará em Maringá, prepara o mestrado em Paris. Antes de viajar, em 1980, Adalberto de Oliveira Souza vai a Assunção, no Paraguai. Leva livros meus para Josefina Plá, volta com fotos e lembranças de Josefina, incluídos seus últimos livros de poesia. Essas fotos de Josefina serão das poucas imagens suas que se salvarão, são um documento, Josefina entre seus gatos. Eu as farei publicar anos depois, em 2003, em certo livro-homenagem que dedicará à sua memória a prefeitura do seu local natal, La Oliva, Fuerteventura, nas Canárias. De Assunção Adalberto desce a Buenos Aires, de trem. De Buenos Aires também voltará com notícias dos pais de G., aquele que tinha abandonado a vida religiosa, coisas de rapazes novos, e tinha ido morar no Brasil sem dar explicações, em São Paulo primeiro, depois no Recife. Adalberto segue para Montevidéu, estará com Juan Introini, fará o informe da situação. Ele repetirá essas informações em Paris. Adalberto, o amigo do Alfredo, como Jean, incorporados na espera dos exilados uruguaios.

Mesmo Ivo, meu amigo tcheco, circulará na órbita dos uruguaios e do exílio. Ivo era o contraponto necessário dos exílios uruguaios, era o homem preso em outro dos pesadelos do século XX.  Católico e físico nuclear, Ivo tinha vinte anos na primavera de Praga, apoiou o Alexander Dubček, atirou pedras contra os tanques russos, chorou a derrota, viveu aquilo como um estupro.

Somos amigos desde 1978, quando vou a Roma para passar janeiro com Juan Introini, na pensão de estudantes do Trastévere. Despedido da Universidade, Juan recebe do governo italiano uma bolsa para aperfeiçoar seus estudos clássicos. Um dos estudantes é Ivo, um tcheco que faz estudos em física nuclear. Sou novo na Europa, quero conhecer o mundo, Juan adoece durante meus dias romanos – as alergias de Juan, o fígado. Ivo me diz no seu melhor italiano: Eu levarei você a passear por Roma.

E me levou, literalmente. Porque para Ivo atravessar Roma inteira era fazer “uma piccola passegiata”. Tínhamos a mesma idade – ambos nascêramos em agosto de 1948 – mas as forças de Ivo eram de outro mundo, para mim pelo menos. Nos primeiros dias falamos muito da ditadura uruguaia, da qual ele tinha notícias por Juan. Além disso, ele tinha descoberto que seus conhecimentos de italiano lhe permitiam entender muitas frases completas em espanhol. Aos poucos, porém, o centro das nossas conversas vai se deslocando. Ivo não consegue calar, conta os acontecimentos de 1968 na Tchecoslováquia, a ditadura. Acha desesperante que pessoas de esquerda no Ocidente não possam entender o crime que está ocorrendo no seu país, em todo o bloco socialista.

Eu tentarei dar voz ao protesto dele em alguns poemas, poucos, demasiado poucos, sobre a invasão. Falarei com todos meus amigos, levarei o tema aos Refugiados de Paris, do mesmo jeito que o levarei depois a Montevidéu. Eu vou dos meus exilados uruguaios até meu “ilhado” tcheco nos Cárpatos eslovacos, onde ele dá suas aulas. Aprendi que se ouvir ajuda a sobreviver, a aliviar as feridas da história.

No fim do seu período de especialização Ivo tenta prolongar seus estudos em Roma, mas a autorização é negada pelo governo do seu país e volta à Eslováquia, de onde já não poderá sair. O único modo de a gente se ver consistirá em que eu vá, para mim é fácil obter o visto das autoridades tchecas. Com um detalhe: preciso apresentar-me “perante às autoridades policias durante as primeiras 48 horas da estadia no território checo”, avisam em francês os vistos concedidos. As “piccole passsegiate”, enormes, serão agora em Praga, nos Cárpatos, em Bratislava. E continuaremos contando a nós mesmos histórias de resistência às ditaduras, no plural. Eu sei que Ivo me leva às igrejas barrocas ou medievais e aproveita para rezar. Sem mim não seria possível. Se o fizesse sem uma desculpa turística poderia ser demitido da universidade. “Mas pelo menos aqui você não morrerá de fome, como no Ocidente”, eu lembro a ele. Não, mas será humilhado, será mandado, por exemplo, de zelador em algum prédio, e ele quer estudar.

De Paris irei em duas ocasiões a Tchecoslováquia, em 1982 e em 1985. O “socialismo real” deixará de existir poucos anos depois, mas nos 80 não suspeitamos esse fim. Ivo espera por mim fielmente na outra ponta das dezenove horas de trem de Praga. Jean e Juan me deixam na Gare de l´Est, Ivo me pega em Praga-Centro dia seguinte. No meio há uma fronteira com arames farpados e soldados, chamava-se “cortina de ferro”. Nos 80 também ignorávamos que viriam fronteiras piores.

Em Bratislava, na última noite, era janeiro de 1985, Ivo não se contém. Num restaurante elegante, freqüentado pela nomenclatura local e que eu posso pagar porque cambiei francos franceses no mercado negro – é numa torre futurista sobre o Danúbio, e o local parece girar – Ivo chora. Não sei como reagir, não sei como se consola alguém tão enérgico e cheio de fé como Ivo. Somos dois loucos indignados, choramos as ditaduras, não nascemos para aceitá-las.

De Bratislava volto a Praga no trem noturno, para seguir a Paris. É a primeira vez que estou sem Ivo em Praga. Passo na casa de Pavel e Klara, dois de seus amigos que eu aprendi a querer. No café Europa, sobre a praça Venceslau, onde o regime tolera uma mínima vida gay, escrevo a Ivo um cartão postal, que mando aberto para que chegue. Mas ele vai escrito em italiano. Meu cartão não chegará nunca. Ivo sabe o que escrevi nele.

Mas naquele janeiro de 1985 são mais alegres os fins de semana com os uruguaios, até mesmo os almoços cotidianos com Adalberto nos restaurantes universitários da rua de Cîteaux, ou de Jean Calvin. Festejamos a volta da democracia. Eu tenho ainda algumas apreensões, mas se sente a felicidade no ar. Pesa menos a subida da rua Caulaincourt. Juan Introini passa o mês em Paris. Já escreveu a maior parte dos contos que integrarão seu livro El intruso. Eu conhecia alguns deles, agora leio o conjunto, é estupendo.

Jorge Cuinat está morando em Paris, tem uma bolsa da universidade venezuelana onde trabalha. Estuda Cícero. Morrerá em agosto do ano seguinte, no dia do seu aniversário. Os problemas cardíacos, o exílio para complicar esses problemas. Mas durante o mês de janeiro estamos todos juntos em Paris, Juan Introini, Adalberto, Jean-Francis, isto é, a Trindade Non Sancta, e Jorge Cuinat, e todos os uruguaios. Quase todos se preparam para voltar.

Uma noite Jorge vem me buscar na rua Caulaincourt, quer que passemos a noite na casa dele, perto da praça d´Italie, já comprou o whisky. Será nossa despedida. Juan já voltou para Montevidéu, eu voltaria a São Paulo dois dias depois, e já não mais veria o Jorge. Uma parte dele sabe disso, daí essa despedida, regada a álcool, e devidamente autorizada pelo médico. Revisamos nossa adolescência no bairro do Reduto, a rua Marsella, onde ambos tínhamos vivido – Introini morava perto, em Marcelino Sosa –, os companheiros do IPA, sempre o IPA tão amado, os de Humanidades, cada um deles, e cada ano, antes e depois do exílio. Jorge fala, eu sei que precisa disso, que é preciso que lembre e que fale porque depois já não mais haverá tempo. Não voltará vivo a Montevidéu. Espera por ele uma operação no hospital Pitié-Salpêtrière, e alguns meses de vida, fora do país.

Nesse mês de Janeiro, o mais leve dos meus invernos em Paris, vamos a exposições com Jorge e as pessoas da minha Trindade. Visitar o museu Rodin, de que Jorge gosta tanto, passar uma tarde em Versalhes, assistir a um Tristão e Isolda de Wagner na Ópera, porque Jean havia comprado o ingresso meses antes, e eu entro com seu documento de identidade. Vamos a teatros, um Tchékov pela Comédie-Française em Saint-Denis, tomamos champanha oferecida por Jacky no seu bistrô da avenida de Clichy porque esse ano eu levei do Brasil as bandeirinhas dos times de futebol, de São Paulo e do Rio, que ele expõe com orgulho no café. É o ano que passamos uma semana inesquecível na casa de campo de Jennifer, a mãe inglesa de Jean, na Normandia. Percorremos as praias, de Honfleur até Cabourg, reaprendemos a felicidade. Com Jean faremos uma escapada de alguns dias na Itália, aonde eu não ia desde os tempos de Juan Introini em Roma.

Tomo consciência de que eu nunca tinha passeado pela rua de Rivoli, ou pela praça Vendôme, como se em Paris eu só passasse e com pressa. Fui por muito tempo o homem que subia a rua Caulaincourt como se carregasse um mundo nas minhas costas, percorro bairros suburbanos, demoro a conhecer ou a apreciar os lugares celebrados, ao menos com essa alegria sem regras nem compromissos que também é um direito. Em Montevidéu foi a mesma coisa. Por muito tempo eu quase só conhecia a rua Minas onde nasci e a rua Marsella onde morei tantos anos. Demorarei a conhecer o centro. Tudo demora na minha vida. Por isso me deslumbra estudar Literatura, porque descubro o mundo, que estava escondido para mim. Sou e serei sempre o rapaz criado em um bairro, assombrado no café Sorocabana, alguém que precisa ouvir e aprender.

Neste janeiro ou fevereiro de 1985 tomo café com Jorge na rua Soufflot, e uma tarde decidimos parecer dois turistas. Adalberto se junta a nós, fala um espanhol estranho mas não quer ser identificado pelos reais turistas brasileiros que enchem o café na frente do jardim de Luxembourg. Rimos. A frase em espanhol de Adalberto: “Estamos felices hoy”, com destaque para o “hoy”, passará a nosso folclore parisiense, com Juan Introini a repetimos até hoje. Por cautela, seguramente.

Escrevo estas lembranças nos anos 2000, quando não está especialmente no meu horizonte viajar a Paris, Jean não mais mora na rua Caulaincourt, a própria Tchecoslováquia já nem existe mais, os travestis brasileiros parecem ter trocado Paris por Milão ou Barcelona e os exilados estão todos de volta ao Uruguai, ou pelo menos voltam ao Uruguai com a freqüência que desejam. Eu continuo sem saber quem foi Constantin Pecqueur, mas confesso que me sentaria uma última vez na pracinha depois da curva grande da rua Caulaincourt, sob os sophoras, e olharia aliviado as calçadas que descem para o cemitério, Clichy e a estátua longínqua de Moncey.
 

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Alfredo Fressia (Montevidéu, 1948) reside em São Paulo desde 1976. Destacado poeta hispano-americano, Fressia criou uma sólida obra poética, traduzida a muitas línguas. Integra as melhores antologias do Continente. É também tradutor e cronista, autor do recente Ciudad de papel, Montevidéu, julho 2009.




[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 4 - teresina - piauí - janeiro/fevereiro/março de 2010]
 

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