Há um livrinho de Paul Auster, O caderno vermelho, que relata uma série de histórias supostamente autobiográficas, centradas no poder do acaso em sua vida. Auster, um prestigiado autor americano, coincide com Jung e sua conhecida teoria da sincronicidade, tão famosa quanto tripudiada pelos cartesianos, sobretudo quando ele procura colocá-la a serviço do prognóstico, ou pior, de diagnósticos.
Auster garante que, dos quatro casos de pneus furados que teve desde que aprendeu a dirigir, em todos estava acompanhado de um colega que de vez em quando via, com a agravante de que os quatro incidentes se deram em três países diferentes. Auster informa que, por mais que tentasse racionalizar as coincidências, sua amizade com esse colega esfriou a um ponto de não mais se verem.
Sou permeável ao encantamento dos chamados fenômenos sincrônicos e às vezes me vejo obrigado a tomar um antídoto para ser devolvido à razão. Esse santo remédio pode ser encontrado, por exemplo, no filósofo Bertrand Russell ou no próprio Freud, caso se queira um antípoda direto de Jung. Poção de fabrico mais recente, e das mais poderosas, é o ensaio do astrofísico Carl Sagan, O mundo assombrado pelos demônios, que recomenda passar tudo pelo crivo científico, ou, conforme ele diz, pela arte refinada de detectar mentiras.
Um dos tripulantes do voo 447 da Air France, que caiu na travessia do Atlântico em 31 de maio, no trajeto entre o Rio e Paris, chamava-se Clara Mar Amado. O marinheiro croata Zoran Markovic ia tomar o voo anterior, mas perdeu-o e aceitou de bom grado embarcar no avião fatídico. O arquiteto alemão Moritz Kock, que veio ao Brasil para consultar Oscar Niemeyer sobre a construção de um parque aquático em Potsdam, divertia-se com o medo proverbial do arquiteto brasileiro de viajar em aviões. O engenheiro inglês Arthur Coakley, que estava no Brasil para trabalhar numa plataforma de petróleo por quatro semanas, adiou por duas vezes a viagem de retorno até que finalmente lhe caiu nas mãos o bilhete do voo 447. A sueca Christine Schnabl e o marido tinham o hábito de tomar voos diferentes sempre que viajavam com os filhos, para evitar que um acidente aéreo liquidasse com a família (o marido embarcou antes com a filha de três anos, enquanto a esposa e o filho de cinco não chegaram a seu destino). A dona de casa Sonia Donizete de Souza, que mora em Londres e veio para o enterro da mãe, estava com passagem marcada para o voo 447 mas desistiu na última hora; teve um estalo e decidiu ficar mais um dia com a família. O mesmo aconteceu com a jornalista gaúcha Vera Marsicano, que achou desperdício passar o domingo dentro de um avião. Certamente não vem ao caso que o maestro Silvio Barbatto, dois dias antes do embarque, tenha comparecido a um show do Sepultura; nem que, ao compor uma ópera sobre o cientista Oswaldo Cruz, meses antes, tenha resolvido não encenar sua morte no palco, mas fazê-lo sumir no mar.
Nada disso significa talvez coisa alguma a não ser a procura de sinais quando a gente se vê diante de um luto sem velas, em que a pessoa querida simplesmente evaporou. Seria uma tentativa muito humana de fazer com que algum sentido emerja de tragédias aparentemente absurdas, de causas às vezes inexplicadas, como é o caso do voo 447.
São coisas que vêm a propósito da desgraça que se abateu sobre o teatrólogo Mário Bortolotto, uma semana atrás, baleado durante um assalto a um teatro na praça Roosevelt, em São Paulo. Bortolotto, que tinha uma peça em cartaz no teatro Parlapatões e quis defender uma atriz que levara uma coronhada na cabeça, era um homem confiante em si mesmo e não esperava pelo que aconteceu (no momento em que escrevo, ele ainda está no hospital), a crer no que registrara em seu blog horas antes. O assalto aconteceu de madrugada, quando Bortolotto e seu grupo resolveram terminar a noite no barzinho do teatro. No blog, ele dizia que após a peça jantaria com amigos e que estava cheio de bons presságios. Não seria um modo de exorcizar presságios que sentia não serem bons?
E eu voltei pro bar, escreveu ainda, quando ninguém mais acreditava que eu pudesse voltar. Eu tinha tudo pra não voltar, né? Mas eu sempre volto. Que a peça se intitule Fatal talvez não queira dizer muito. Mas é de doer que o blog tenha por título, espantosamente, Atire no dramaturgo.