Tudo existe para terminar em livro (Mallarmé) A virtude é a mãe do vício, conforme se sabe; acabe logo comigo ou se acabe. (Torquato Neto)
Beatriz casou com um Frutinho. Contou-me Teresa, em pé, no supermercado. Nós duas trupicamos com nossos carrinhos engolfados de pó de café, miojo, bacalhau e abóbora. Esbarramos com tanta força uma na outra que uma flor de uma couve despencou.
Acho que isso aqui é câncer. Levantou o vestido e mostrou-me um boloto (do tamanho de uma pêra) apostemado com dois olhos pretos. Um velho, pasmo, olhava a cena eu, inclinada, examinando o esdrúxulo tumor de Teresa.
Não é não. Falei: talvez seja um furúnculo ou herpes. Vai aqui no INCA (Instituto Nacional do Câncer) e entra gritando, é possível que algum médico te atenda. Usa essa estratégia estou com um câncer!!! Ela riu e fez futrica de novo com o caso de Beatriz.
É o Frutinho que deixa um enorme cinzeiro sobre a mesinha da cozinha sustentando pontas de cigarros. Foram aquelas pontas podres de cigarro que me deram esse câncer. Maldito Frutinho.
Foram as pontas, não.
Tentei acalmá-la, mas a pustema nas costelas, abaixo do braço esquerdo estava em petição de miséria, na pobre Teresa. Fiquei muito impressionada com minha amiga e as pessoas no supermercado começaram a reclamar que estávamos atravancando o trânsito. Um rapaz chegou a gritar: sai da frente, espelho sem luz.
Onde Beatriz arranjou esse Frutinho?
Numa favela, em Botafogo; você sabe que ela só gosta do que não presta. O caboclo é tão carne de pescoço (ele é ex-presidiário) que eu comprei um ventilador e ele veio todo amarrado numa caixa com barbante. Desempacotei a caixa e ia jogar fora o barbante. Pois ele correu, pegou do balde do lixo o barbante. Começou a lamber aquele troço e dizia: Tia Teresa, isso aqui na cadeia é ouro! Ouro em pó!!!
Onde já se viu uma coisa dessas? Revirava os olhos; aquilo foi me dando um medo... Larguei eles lá na favela. Sei lá se ele não pensava na hora que revirava os olhos em me enforcar com aquele barbante... Vai saber! Beatriz não tem medo não, mas eu tenho. Já pensou, portadora de câncer e ainda enforcada por um bandido chamado Frutinho? Tenha dó.
Uma atriz que faz um programa de humor na TV deu um chaveco em meu carrinho que o resto da couve-flor pulou longe! Teresa a reconheceu e disse: essa aí não é aquela famosona?
Ela mesma.
Veja você numa TV que quer mandar no mundo, num programa famoso e tão mal educada!
Não leve isso a sério; preocupe-se mais com o seu calombo, vá agora ao hospital, é logo aqui do lado, na Cruz Vermelha, na outra quadra.
Mas eu não tenho dinheiro pra remédio, essas coisas.
Esvazia sei carrinho, fica sem comer ou come menos, mas vá cuidar desse negócio.
Teresa começou a colocar pacotes de biscoitos, macarrão e outros alimentos sobre as gôndolas.
De noite eu sonhei que Frutinho virava uma enorme mosca de asas rendadas e ficava me observando enquanto eu dormia. Fazia um barulho de avião e logo se transformava num urubu-rei. Saía voando do meu quarto. Eu levantava, olhava pela janela no imenso céu que se descortina em minha casa e lá estava Teresa pendurada em seu bico, como um títere balangando ao vento. Teresa! Eu gritava! Frutinho solta ela! Teresa ouvia meus gritos e dizia: ele não pode me soltar senão eu caio no abismo. Aqui em Santa Teresa só tem colinas!
Não implica mais com os cotos de cigarro no cinzeiro que ele te deixa em paz!
Mas Teresa como numa mágica virava um pássaro e saía voando, livre do bico de Frutinho.
Acordei suada e pensei: é um sinal! Tenho que juntar todas as peças desse quebra-cabeça. Por que Teresa levantaria o vestido e me mostraria seu corpo dentro de um supermercado? É um pedido de socorro.
Levei Teresa a um hospital e, sem querer conheci Frutinho.
Teresa estava de mini-blusa e uma baínha de gordura dobrava-se em sua barriga. Com aquela roupa, parecia uma árvore cor de poeira. Era a própria assombração em formato de gente. Como as pessoas se transmutam, pensei: Teresa foi bonita um dia quando era bilheteira de cinema. Andava de salto alto, cabelo bem penteado. Hoje em dia parecia um frangalho de mulher.
Eu, Teresa e Frutinho nos acomodamos num banco de madeira. Beatriz disse: Vou fumar lá fora, estarei próxima a alguma escarradeira. E saiu furando o chão com seu salto agulha. Observei que Frutinho tinha os olhos cor de ardósia e falava de modo trágico das coisas mais simples. Pude constatar quando gritou mais ou menos baixo: Vem logo, azougue!
Beatriz, sem olhar para trás levantou o dedão do meio bem alto.
Vaca! o vaca só eu e Teresa ouvimos.
Vocês nunca estudaram português? Pergunta Teresa, dando um pequeno gemido de dor.
A teoria de sua nenenzinha é que confusão dá lucro, tia.
Não me chame de tia porque eu não sou sua tia nem aqui nem na Conchinchina.
Frutinho esforçava-se por ser ignorado pelo universo, de modo a evitar investigações incômodas; seu campo de ação era mais obscuro que um buraco de lacraia. Na realidade sua existência tinha um formato em extinção. O olhar arguto de Frutinho mostrava movimentos tão bem regulados quanto os dos planetas. Certamente guardava a sete chaves seus planos. Falar de projetos a Teresa, seria fazê-los fracassar.
Para dialogar com Beatriz, Frutinho usava a prescrição de uma língua, uma espécie de chave representada por uma cifra secreta. Aprendera a se comunicar daquela forma a preço de anos de esforço, na cadeia. Mas Frutinho sabia ler os avisos nos muros. Tinha certeza que Beatriz se mostrava como um material inflamável.
Teresa se curvava de dor e o banco de madeira saía do lugar.
Imaginam se essa consulta não fosse paga! murmurou Teresa Dava tempo para eu voltar numas três reencarnações.
Entre Frutinho e Teresa havia umas linguiças e costelas de porco que ele havia comprado para uma feijoada. Beatriz, em pé fingia que lia os avisos num quadro de flanela. Mas virou-se como um gato arisco e falou entredentes:
Isso aqui é hospital de pobre, mãe! Se conforma, ta legal?
Vocês não pensam em mim: eu, operada, vou comer pé de porco?
Qualé, gente boa! Não abro mão de minha feijoada, não. A tia não comprou miojo? Miojo é comida de neném. Bilu, bilu... Todo neném adora miojo. Ou então come boi ralado ou cenourinha-palha.
É melhor você parar com suas gracinhas, amizade! reclamou Beatriz.
Eu sobrava ali, calada. Interiormente rezava para que tudo acabasse bem. Beatriz quando menininha era calma! Agora se mostrava uma mulher parruda e irada.
Já perdi o sol... meu dia todo. Vamos sair daqui de noite. Fala Teresa.
O sol é apenas uma lâmpada, tia. Diz Frutinho.
Cala a boca, ô cara pálida. Fala Beatriz.
Qualé, ô Beá, afinal de contas tu é minha mina ou ta do lado dos hômi? Tá parecendo um xerife.
Isso aqui não é xadrez, ô gente boa!
Mas tu parece um carcereiro. Só falta o molho de chaves. Escuta.
A palavra E S C U T A, pronunciada por Frutinho merece um estudo. Ele a pronunciou letra a letra e dando um toquinho na orelha direita bem devagarinho.
E S C U T A! Tá chovendo mina na minha horta, te segura, malandra! Melhor você ouvir aquele CD do Kid Morengueira que eu te dei. Escuta bem aquelas letras do mano.
No último E S C U T A, ele relaxou e deixou de bater na orelha.
Se vocês vão ficar aqui nessa brigaiada toda é melhor eu cuidar sozinha de meu câncer. Minha amiga também não precisa saber da sujeirada toda da família. Fala Teresa dando um gemido de dor quando aparece uma enfermeira e a leva para a sala de operação. Beatriz foi fumar no pátio. Enquanto Teresa é operada, Frutinho me conta sua vida.
Se a tia não fosse medrosa eu já tinha feito essa operação há muito tempo. Na cadeia, eu puxava com canivete esses troços das virilhas dos manos. Fiz muitas operações na cadeia. Eu sou bom em arrancar furúnculo. Sabe qual era a pomada pós-operatório? Cuspe. Cuspe cicatriza até a alma. É o maior remédio do mundo. Principalmente em jejum, aquela gosma bem fedida. Fecha qualquer pereba. Depois do cuspe a gente fica só no boldinho. Os melhores médicos do mundo são nossos amigos da cadeia. Não há pustema que sobreviva ao cuspe em jejum.
Por que você foi preso?
Tentativa de assalto a banco. Não roubei, não matei, não fiz nada. Só tentei assaltar um banco. Me lasquei. Mas agora eu me regenero. Nunca tunguei o bolso de ninguém. Minha mãezinha até hoje não sabe que eu fui preso. Pensa que passei num concurso e fui trabalhar de funcionário público em Manaus. Na cadeia aprendi a lidar com as minhas emoções. Hoje em dia eu sei que tudo que estou dizendo para o outro está passando por mim. Precisei muito da intervenção de Deus para resolver problemas com meus brothers, na cadeia. Toda noite eu via a cara de meu pesadelo. Minha vida dava um livro, grosso assim.
E o apelido, como surgiu?
Ah isso foi um irmãozinho que falou meu nome errado. Quando alguém fala Flávio, eu demoro para entender que sou eu. Minha mãezinha tem 108 anos e 20 filhos. Eu sou adotado e muitos outros irmãos também.
Dizem que quando eu cheguei no colo de alguém que me levou para minha mãezinha, um de meus futuros irmãos gritou: chegou o Frutinho. Todo mundo riu e nunca mais me chamaram de outra coisa. Eu gosto. A tia inventa que ganhei esse nome horrível na cadeia. Horrível pra ela porque pras minas é um sucesso. Minha mãe fala que meu avô viveu 118 anos.
Nós poupamos nossa mãezinha de sofrimentos. Minha irmã de 60 anos morreu faz dois meses e minha mãe ainda não sabe e nem vai saber. Elas agora só vão se encontrar no plano superior. Meu irmão, professor, rico, cheio da grana, com uma casa imensa, esposa bacana, dois filhos, carros na garagem... sumiu tem 5 anos. Ninguém tem a menor pista dele. Já acionamos tudo. Nada. Minha mãe nem sabe dessa história. E ela é lúcida, lembra o nome de todos os filhos e netos. Só se atrapalha com os bisnetos. Quando eu saí da cadeia corri para os braços dela, então ela me perguntou e o emprego em Manaus, ta bom? Respondi tá ótimo, vou fazer outro concurso para melhorar mais. Eu vou fazer mesmo, isso é verdade.
Depois de duas horas de vida de Frutinho, aparece Teresa, operada, andando devagarinho.
Você tinha razão, amiga, era um furúnculo com 20 olhos. Vocês ouviram meus gritos?
Não. Respondi.
Eu venho sozinha tirar a gase que está aqui dentro. Prefiro pagar um táxi do que ouvir tanta lenga-lenga de família.
No estacionamento do hospital estava o fusca de Frutinho. O carro era amarelo com umas letras vermelhas onde se lia: FRUTINHO DOCE.
Eu ri quando li os dizeres. Frutinho riu também e disse:
Entra aí, eu te dou uma carona.
Obrigada, eu vou de Metrô.
Êh!, Frutinho, fazemos muitas coisas que somos incapazes de compreender. Os amendoins também são formados por metades. Uma história se conta. Não se explica. Tudo existe para acabar em papel riscado. Eu o achei mais parecido com Corisco, de Glauber Rocha: Te entrega, Corisco! Eu não me entrego não. Apesar de ele achar-se Kid Morengueira.
Santa Teresa, Rio de Janeiro, 27 de dezembro de 2006
___________________ Rosa Kapila, piauiense, mora atualmente no Rio de Janeiro. É autora de 13 livros de ficção, entre eles Primeiro manuscrito das tentações, Pulso de lamê, Papik, o menino que nasceu na neve, Quando mamãe souber e O agito dos amores. Premiada pelo MEC/Unesco com o livro Felizes são os gatos. Doutorou-se em Literatura Brasileira (com tese em Mário de Andrade) pela Unesp e é professora universitária.