Falarei da viagem e da caixa e do que me dizem as coisas.
Embarquei no vagão de carga, envolta em seda trouxe comigo a caixa. Antes, as janelas dos passageiros diziam-me coisas e aqueles rostos nada. Tinha sede de encontrar o que estava gravado nas partículas que formavam os vidros das janelas. Janelas dizem histórias, corpos, coisas que não param de cair. Os objetos guardam tudo. Por isso, falo da caixa e da viagem.
Embarquei e trouxe a caixa. Fecharam a porta do compartimento de carga. Não sabíamos aonde íamos, ou até onde nos levaria aquele carvão. Pensava. Esse carvão foi árvore um dia, e sob sua copa, talvez muitos amantes, famílias em piquenique, um homem santo em contato com a luz, ou nada, só a grama verde sob e o vento espalhando sementes.
Pensando no vento e na luz, desnudo a caixa. Tampo de cristal. Era assim para ver-se o que tinha dentro: matéria, memória de quem velou o objeto. Quantos, em que momento? Será que agora o estão vendo? Ainda não consigo percebê-los aqui.
II – Sobre a Viagem
Embarquei no compartimento de carga porque fui obrigado junto com muitos outros passageiros que também foram obrigados e também não sabiam o seu destino. Não há janelas aqui. Nada que decifre onde devemos chegar. Muitos respiram com dificuldade e alguns param de respirar. Cheiramos mal e transpiramos muito. Ao meu lado, há uma criança morta. Embarcou sozinha e está morta. Muitos choram e gemem. Outros ficam em silêncio. Alguns planejam fuga mas nada acontece. Ainda tenho o que me mantém.
Objeto que fala sem palavras:
O que é que não tem língua e fala, que fala e não tem palavras? O que é que está guardado além do que está guardado? O que é que nos faz querer estar com coisas e pessoas? O que é que não me deixa abandonar essa caixa?
O segredo.
III – Sobre a Caixa
No tampo de cristal umas florzinhas pintadas. Muita, muita delicadeza. Mandaram fazer na França. Há alguns anos havia muita, muita delicadeza. As florzinhas eram para homenagear a pureza? Ou significavam um tributo à beleza? Na ponta dos pincéis, as florzinhas. Havia chave e fechadura de ouro. Chave para um outro altar, para um outro olhar. Ninguém percebeu o objeto quando entrei. Esta seda... Acho que é mágica. Cobri com ela o rosto da criança morta.
Agora, a viagem:
Todos com sede, fome e náusea. Insuportável a atmosfera, irrespirável a espera, e uma primeira parada para retirada dos cadáveres. Um corvo pousa sobre a seda. Valas acompanham os trilhos que guardam os corpos que depois só ossos cabelos e o ouro escondido nos dentes.
Agora, a caixa:
A cor da caixa, ou melhor, o tecido que recobre a caixa tem a cor do tecido da poltrona que o poeta descreveu em seu poema. A cor do acolchoado, ou melhor, o tecido acolchoado que forra a caixa tem a cor do tecido da poltrona que o poeta descreveu em seu poema. A cor que descreveu a dor do poeta, a cor do tecido, a cor do poema.
I – A Viagem e o Sagrado
Aquele objeto era um altar. Ali todas as orações guardadas. Quando eu apenas ossos, o cristal, o ouro, o tecido contariam o que foram as orações. Quando eu só cabelos, o objeto levado no navio para algum lugar, carregando a memória das ondas de pensamento trancadas lá dentro com as orações. Para isso está aqui, para que guarde as orações.
II – O Segredo da Caixa
através do tampo de cristal sobre o acolchoado estão duas tranças de uma ancestral que morreu tísica
girando a chave encaixada na fechadura de ouro abre-se a caixa e dela exala o cheiro das florzinhas
olhando as tranças é preciso tocá-las tocando as tranças é preciso pensar nelas
Penso nelas enquanto enxoto o corvo de cima da seda mágica.
Agora, a caixa e a viagem.
___________________ Adriana Versiani dos Anjos nasceu em Ouro Preto – MG,1963. Tem cinco livros de poemas publicados, dentre eles, A Física dos Beatles (2005) e Conto dos Dias (2007), virtual Explicação do Fato (2008 – Germina literatura – Revista Virtual) e Livro de Papel (2009). Integrou o Grupo Dazibao de Divinópolis/Belo Horizonte. Foi co-organizadora da Coleção Poesia Orbital e do Jornal Inferno. É editora do Jornal DEZFACES. Faz parte do conselho editorial da Revista de Literatura Ato. e-mail: driarroba@gmail.com