Relicário

Adriana Versiani





Falarei da viagem e da caixa e do que me dizem as coisas.

Embarquei no vagão de carga, envolta em seda trouxe comigo a caixa. Antes, as janelas dos passageiros diziam-me coisas e aqueles rostos nada.
Tinha sede de encontrar o que estava gravado nas partículas que formavam os vidros das janelas.
Janelas dizem histórias, corpos, coisas que não param de cair.
Os objetos guardam tudo.
Por isso, falo da caixa e da viagem.

Embarquei e trouxe a caixa. Fecharam a porta do compartimento de carga. Não sabíamos aonde íamos, ou até onde nos levaria aquele carvão.
Pensava. Esse carvão foi árvore um dia, e sob sua copa, talvez muitos amantes, famílias em piquenique, um homem santo em contato com a luz, ou nada, só a grama verde sob e o vento espalhando sementes.

Pensando no vento e na luz, desnudo a caixa.
Tampo de cristal.
Era assim para ver-se o que tinha dentro: matéria, memória de quem velou o objeto.
Quantos, em que momento? Será que agora o estão vendo? Ainda não consigo percebê-los aqui.


II – Sobre a Viagem

Embarquei no compartimento de carga porque fui obrigado junto com muitos outros passageiros que também foram obrigados e também não sabiam o seu destino. Não há janelas aqui. Nada que decifre onde devemos chegar. Muitos respiram com dificuldade e alguns param de respirar. Cheiramos mal e transpiramos muito. Ao meu lado, há uma criança morta. Embarcou sozinha e está morta. Muitos choram e gemem. Outros ficam em silêncio. Alguns planejam fuga mas nada acontece.
Ainda tenho o que me mantém.

Objeto que fala sem palavras:

O que é que não tem língua e fala, que fala e não tem palavras? O que é que está guardado além do que está guardado? O que é que nos faz querer estar com coisas e pessoas? O que é que não me deixa abandonar essa caixa?

O segredo.


III – Sobre a Caixa

No tampo de cristal umas florzinhas pintadas.
Muita, muita delicadeza.
Mandaram fazer na França.
Há alguns anos havia muita, muita delicadeza.
As florzinhas eram para homenagear a pureza?
Ou significavam um tributo à beleza?
Na ponta dos pincéis, as florzinhas.
Havia chave e fechadura de ouro.
Chave para um outro altar, para um outro olhar.
Ninguém percebeu o objeto quando entrei.
Esta seda... Acho que é mágica.
Cobri com ela o rosto da criança morta.


Agora, a viagem:

Todos com sede, fome e náusea.
Insuportável a atmosfera, irrespirável a espera, e uma primeira parada para retirada dos cadáveres.
Um corvo pousa sobre a seda.
Valas acompanham os trilhos que guardam os corpos que depois só ossos cabelos e o ouro escondido nos dentes.


Agora, a caixa:

A cor da caixa, ou melhor, o tecido que recobre a caixa tem a cor do tecido da poltrona que o poeta descreveu em seu poema.
A cor do acolchoado, ou melhor, o tecido acolchoado que forra a caixa tem a cor do tecido da poltrona que o poeta descreveu em seu poema.
A cor que descreveu a dor do poeta, a cor do tecido, a cor do poema.


I – A Viagem e o Sagrado

Aquele objeto era um altar.
Ali todas as orações guardadas.
Quando eu apenas ossos, o cristal, o ouro, o tecido contariam o que foram as orações.
Quando eu só cabelos, o objeto levado no navio para algum lugar, carregando a memória das ondas de pensamento trancadas lá dentro com as orações.
Para isso está aqui, para que guarde as orações.


II – O Segredo da Caixa

através do tampo de cristal
sobre o acolchoado estão
duas tranças de uma ancestral
que morreu tísica

girando a chave encaixada
na fechadura de ouro
abre-se a caixa e dela
exala o cheiro das florzinhas

olhando as tranças
é preciso tocá-las
tocando as tranças
é preciso pensar nelas

Penso nelas enquanto enxoto o corvo de cima da seda mágica.


Agora, a caixa e a viagem.


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Adriana Versiani dos Anjos nasceu em Ouro Preto – MG,1963. Tem cinco livros de poemas publicados, dentre eles, A Física dos Beatles (2005) e Conto dos Dias (2007), virtual Explicação do Fato (2008 – Germina literatura – Revista Virtual) e Livro de Papel (2009). Integrou o Grupo Dazibao de Divinópolis/Belo Horizonte. Foi co-organizadora da Coleção Poesia Orbital e do Jornal Inferno. É editora do Jornal DEZFACES. Faz parte do conselho editorial da Revista de Literatura Ato.
e-mail: driarroba@gmail.com

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Borra de café, Adriano Lobão Aragão
Carnaval, carnaval, M. de Moura Filho
Hora Marcada, Leila Guenther



[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 4 - teresina - piauí - janeiro/fevereiro/março de 2010]

 

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