Não valeria mais a pena apresentar Michael Moore, dizer como seus documentários diferem da maioria da produção, e comparar seu novo Capitalism: A Love Story com Fahrenheit 11/9, Tiros em Columbine, Sicko. Afinal, o procedimento é sempre o mesmo, e quer critique uma pessoa específica (Georges W. Bush), uma ideologia ou um sistema econômico, ele acredita poder aplicar as mesmas regras, e a mesma metodologia. Moore é o tipo de cara que seria capaz de falar de Gandhi ou de Hitler com procedimentos idênticos.
Enquanto a popularidade crítica e de público de seus filmes cai drasticamente (de Oscar e Palma de Ouro a uma bilheteria fraca e prêmio algum para este seu opus sobre a crise econômica), seria mais interessante listar alguns desses procedimentos presentes não somente em Capitalism: A Love Story, mas também em todos os outros documentários do diretor, desde os seus mais populares, e em sua maneira de pensar de um modo geral:
- Tautologia: Moore sempre assume a postura fictícia do ingênuo, e parte à descoberta de fenômenos que ele e todo o mundo já conhecem muito bem. Para falar do capitalismo, ele presencia a desigualdade na distribuição de renda e as injustiças de um modo geral como se as encontrasse pela primeira vez, e chega à conclusão brilhante que o capitalismo não é um sistema igualitário.
- Pedagogia e ambição: Como consequência do ponto acima, tem-se a arrogância deste procedimento didático que ora se faz de falso-ingênuo, ora supõe que o público desconhece este discurso e esta história. Diz-se frequentemente que Moore prega para convertidos, e que seu pensamento seria unicamente capaz de inflamar os inflamados e divertir os apolitizados. Desta maneira, seus planos de denunciar a ideologia bélica norte-americana, eleger um novo presidente (sua candidata era Hillary Clinton) e mudar a política do país vão por água abaixo.
- A História e o espetáculo: Que dom particular é este de, por um lado, pesquisar como um bom historiador as origens precisas do capitalismo e, por outro, jogar fora todo o complexo mecanismo de construção deste sistema para concluir, simplesmente, que o capitalismo é o roubo dos ricos sobre os pobres? Por mais esquerdista que se reivindique, este tipo de redução é simplesmente precária. Finalmente, o interesse histórico de Moore parece não passar das orelhas dos livros de História.
- Representação: Se por um lado o diretor pretende revelar fatos e dados precisos, como estatísticas e momentos históricos, por outro ele pretende representar a sociedade por alguns poucos exemplos, e sempre supõe que seus entrevistados simbolizam perfeitamente a sociedade americana, o que é uma manipulação metodológica das mais perigosas. Sua paixão pelos depoimentos lacrimosos e pelas histórias trágicas fazem perder a credibilidade dos dados utilizados, porque pode-se legitimamente supor que o diretor tenha tratado as estatísticas com a mesma visão espetacular com que trata a sociedade.
- Anti-herói: Moore sempre se põe em cena como a representação do americano qualquer, vindo de uma família comum. Sua própria imagem é investida do símbolo de anti-herói, aquele homem desprovido de físico ou origem excepcionais, mas dotado deste conhecimento intrínseco do que o povo quer. O diretor se faz porta-voz de uma sociedade que talvez não se reconheça neste show de reivindicação da morte pública dos ricos em nome dos pobres. Enquanto Robin Hood do século XXI, Moore passa mais perto da performance que de um verdadeiro engajamento político.
- Caráter normativo: O diretor não se limita a expor os problemas que julga existirem na sociedade, ele também propõe outras soluções, sejam elas simples (culpe Bush) ou mais precisas (votem em Hillary). No caso da crítica contra o capitalismo, seria Moore capaz de propor um retorno ao modelo socialista? Não, de modo algum. Sem fazer diferenças entre sistema político e sistema econômico, ele simplesmente propõe uma troca do capitalismo pela democracia, e dá exemplos pontuais de empresas cooperativas, sem jamais explicar como este modelo nuclear poderia ser aplicado à nação inteira.
- Eficácia: Por fim, para que servem as constatações alarmistas de Moore que retornam ao cinema a cada dois ou três anos? Seria possível supor que o público será sensibilizado pela mensagem, e que se revoltará contra o sistema (proposição final do filme)? De fato, Capitalism: A Love Story parece se inscrever perfeitamente neste tipo de mensagem institucional de um certo tipo de ideologia, que tem aparecido sempre no cinema para nos dizer que é preciso respeitar a natureza, tratar as mulheres de modo igualitário e lutar pela democracia. Algum ousaria contestar essas mensagens carregadas do bom senso comum? Este tipo de cinema se presta à descoberta do óbvio, à moralização quase infantil da sociedade, e à suposição de um superpoder persuasivo da imagem que parece ou muito ingênuo, ou muito arrogante da parte dos realizadores que optam por estes procedimentos.
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Bruno Carmelo é graduado em Cinema pela Faap e mestrando em Teoria e Crítica de Cinema na Universidade francesa Sorbonne Nouvelle
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