Política cultural

Assis Brasil



A função do best-seller se tornou endêmica, com penetração
nos estratos profundos da mentalidade popular, como produtos
subliterários ou subestéticos.
Euryalo Canabrava


As relações entre arte e política sempre foram problemáticas por haver uma intermediação de cunho ideológico, contudo, do ponto de vista das relações humanas, são sempre importantes. A junção de classes sociais, de ideologias, atividades de grupos, os mais díspares, acabam por resultar em uma cooperação de iniciativas pessoais – fundamento de qualquer sociedade – que termina por galvanizar as tarefas do grupo social, quer sob o aspecto tecnológico, administrativo ou educacional. Aqui é que entra a ação dos governos. Pensando na arte, por exemplo, como um dos seus projetos culturais, ao lado de planos científicos e tecnológicos, reduzem tudo, burocraticamente, para os fins de uma suposta política de desenvolvimento. Misturando a arte nesse cadinho, a administração governamental o que quer é restringir o aspecto abstrato dos empreendimentos estéticos, tentando “valorizar” toda a produção cultural para fins exclusivamente utilitaristas.

Nesse sentido, a cultura de massa tanto é bafejada pelo setor governamental, como pelo setor industrial, mancomunados para a burocratização da cultura. E o conflito impera: de um lado as decisões políticas e do outro as decisões culturais, pois os produtores deste último setor nunca se submetem inteiramente ao primeiro.

E a cultura burocratizada, como muito bem assinala Euryalo Canabrava em Teoria da decisão filosófica, “se transforma em subcultura de massa que se nutre de best-sellers, de programas de televisão e de rádio, de histórias em quadrinhos, de novelas, romances policiais, filmes de baixa extração. A função do Best-seller se tornou endêmica, com penetração nos estratos profundos da mentalidade popular, como produtos subliterários ou substético”.

O best-seller, ao qual já chamaram de besta fera, é mais maléfico do que se pensa, pois cria uma falsa impressão de desenvolvimento artístico e literário; a propaganda, a grande mola de impingir e vender a cultura massificada, acaba por dar ao best-seller a dimensão de obra padrão, de modelo estético, de paradigma cultural. E então se revela o óbvio: as bases políticas da cultura servem a objetivos extra-estéticos, “a desígnios de radicalismos programáticos, a técnicas de depuração ideológica e de lavagem de cérebros”.

Em uma época de repressão mais acentuada na Rússia, por exemplo, havia um grupo que se designava stalinistas culturais, defendendo alguns autores e condenando outros, como Kafka, tido como um alienado de perigosa influência.

Por volta de 1963, em Praga, aconteceu algo curioso em relação à política cultural. No Castelo de Liblica houve uma conferência sobre Kafka. Participaram especialistas e escritores orientais e ocidentais (comunistas na época) – Ernest Fischer, da Áustria e Roger Garaudy, da França. Alfred Kurella, da delegação da Alemanha Oriental, era quem ditava as questões políticas culturais em seu país e pediu imediatamente a condenação da obra de Kafka. Fischer e Garaudy, após debates, pediram a publicação aberta de toda a obra do escritor, pois embora ele tenha sido o analista da alienação do homem da sociedade capitalista, mostrou também que essa alienação existia na sociedade socialista. E alguns orientais acabaram achando que Kafka fora um socialista avançado no seu tempo. Kurella e seu grupo stalinista foram perdendo terreno. A certa altura da discussão, diante de tantos elogios ao escritor, um marxista não convicto disse que Kafka era “a pomba matutina anunciadora do novo dia do socialismo”. Ao que Kurella replicou: “Pomba? [...] É um morcego saído das trevas”. Na então Alemanha Oriental, onde existia repressão cultural e remanescentes do stalinismo literário, ainda hoje os livros de Kafka não são encontrados. Que consequências a Política cultural pode trazer?


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Assis Brasil (Parnaíba-PI, 1932) é autor de mais de uma centena de obras, envolvendo romances ("Beira rio beira vida", "Os que bebem como cães", "Nassau, sangue e amor nos trópicos"); contos e novelas ("O sol crucificado","A chave do amor"); ensaios sobre literatura ("Joyce e Faulkner, o romance da vanguarda"; "Manuel e João, dois poetas pernambucanos"), cinema ("Cinema  e Literatura") e religião ("Jeová dentro do judaísmo e do cristianismo", "A vida pré-humana de Jesus"); obras infantis ("Pequeno pássaro com frio", "O sábio e o andarilho", "o mistério do punhal-estrela"); antologias (organizou, pela Imago, antologias poéticas de diversos estados brasileiros) e didáticos ("Dicionário do conhecimento estético", "O livro de ouro da literatura brasileira"). Detentor de várias honrarias e prêmio literários, dentre eles o Prêmio Machado de Assis, em 2004, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Reside atualmente em Teresina.


[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 4 - teresina - piauí - janeiro/fevereiro/março de 2010]
 
 

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