"Nós
vive em Riacho das Almas. Fica no meio do nada. De certo mesmo, só precisa ter
ciência de que fica em cima do chão e debaixo do sol. E sol daqui é tão
quente...oi, mas tão quente, que às vez a cabeça da gente ferve que nem
rapadura no tacho."
Pacu, Abril Despedaçado
Construindo
a fonte, problematizando o objeto
A
incorporação do Cinema como fonte e objeto de uma reflexão possível ao ofício
do historiador é relativamente nova, datando mais precisamente da década de
1960, com o trabalho pioneiro de Marc Ferro; a partir de então, como era de se
esperar, houve um aumento significativo de pesquisadores que se debruçaram
sobre essa reflexão. No caso da relação Cinema-História é importante lembrar
que o filme não traz em si o status
de fonte histórica, pois, como toda fonte, a fílmica é elaborada no momento
em que o historiador transforma algo que tem uma função na sociedade que a concebeu
em outra coisa que passa a funcionar de forma diferente em suas mãos (CERTEAU,
2006).
Se o
filme não é, em essência, uma fonte histórica, o que ele é então? O filme é
um monumento, um vestígio de uma temporalidade, que pode evocar, ou mesmo construir,
a memória desse tempo (LE GOFF, 2003, p.526) e, como todo monumento, pode virar
uma fonte histórica; necessitando, para isso, que o historiador lance luz sobre
as condições de sua produção. Nessa perspectiva, se o filme pode ser tomado
como um testemunho da história, esse testemunho não se configura de forma
voluntária, mas apenas a contragosto, pois é um testemunho que só fala de
uma realidade devido à indiscrição dos historiadores que insistem em fazê-lo
falar (RICOEUR, 2007, p. 181). Desse modo, a problemática aqui levantada está
relacionada às possibilidades de diálogo entre a História e às práticas que
enxergam o filme como produto permeado pelas marcas de um lugar e que, por
isso, dialoga com os desejos e subjetividades que configuram a época de sua
produção.
Ao
estudar as representações do sertão no
recente cinema brasileiro, chamou-me à atenção a escassez de estudos que, ao
proporem uma análise histórica do filme, respeitaram, verdadeiramente sua
alteridade. Inquietava-me o grande número de trabalhos preocupados
unicamente com o julgamento dos conteúdos, hierarquizando-os, para validá-los
historicamente ou não, e que, em nome do conhecimento de supostas zonas
invisíveis da sociedade, silenciavam o filme dando atenção quase que
exclusivamente ao contexto social e político de sua produção. Não raro,
deparou-se com estudos que abordam a fonte fílmica a partir de uma postura
ilustrativa, ou seja, apenas como uma desculpa para legitimar um conhecimento
previamente estabelecido.
Partindo
dessa carência metodológica, fez-se uma análise das representações do rural em Abril
Despedaçado (Walter Salles, 2001), buscando entender as formas como esse
filme significa o sertão brasileiro. O desafio era compreender em que medida as
representações do sertão em Abril se
encontram presentes na estereotipia com a qual a sociedade brasileira
historicamente significa o universo rural, destacando as permanências e
rupturas entre essas representações e as encontradas em filmes que antecederam o
de Walter Salles ou que foram contemporâneos ao dele.
Em
coerência com essa proposta, procuramos eleger como fonte primeira do trabalho,
evidentemente, o filme em análise, incluindo, ainda, todo um universo que o
circunda: roteiro, notas de filmagem, textos publicados pela crítica
especializada. Ressalte-se que, embora tenhamos feito, em nome do
aprofundamento do tema proposto, a opção de verticalizar a discussão em torno
de um único filme, na versão completa desse trabalho foram estabelecidos
diálogos com outras produções cinematográficas, contemporâneas ou não ao filme
de Walter Salles. O estudo percorreu dois sentidos complementares, que visava
revelar tanto a estrutura interna da obra, como as suas relações externas; e,
a partir dessa inter-relação, entender como o filme se envolve com a realidade
histórica e social em que se move (EINAUDI, p. 192). O primeiro passo foi
compreender os níveis de intercruzamento entre a obra e o contexto com o qual
está entrelaçada. Logo, se as produções culturais ganham significados
específicos a partir de seus contextos, a atenção sobre as condições de
produção do filme (local, época, meio cultural, equipe produtora,
financiadores, público alvo) serviu como ponto de partida para o seu estudo.
O
segundo caminho que direcionou o trato com a fonte foi buscar os mecanismos de
funcionamento do mundo da obra, ou melhor, os modos como a ficção extrapola
os aspectos da temporalidade vivida, habilitando-se a detectar, na forma das
variações imaginativas, as potencialidades não efetuadas de um tempo histórico
(RICOEUR, 2007, p. 275). Justificou-se, assim, a atenção dispensada aos
mecanismos com os quais o filme constrói seus significados (gênero narrativo,
personagens, locações, iluminação, fotografia, falas, sons, silêncios),
invertendo o padrão de verdade para chegar não a personagens reais que marcaram
um lugar na história e que poderiam fazer-se presente no filme, mas às que
foram possíveis, porém não realizadas, e que, nem por isso, deixam de ser
indícios dos mecanismos através dos quais uma sociedade se reconhece ou
constrói a imagem do outro.
A atenção à estrutura narrativa do filme não
significou a celebração da linguagem em si, pois, em sua narrativa, ganham vida
aspectos e valores da realidade, aos quais não poderíamos ter acesso fora do
jogo metafórico da arte. Além do mais, a escolha de um gênero narrativo (tragédia,
comédia, drama) a fim de se estruturar um filme não é uma simples opção estética:
desempenha, na prática, papel central frente às imagens e ao tipo de
significado que se busca construir (WHITE, 2001). Essa atenção para com o tipo
narrativo deve ter papel central nas preocupações dos historiadores, porque,
quando se faz uma opção por um gênero, está se fazendo, na verdade, uma opção
por um tipo específico de compreensão que se quer estabelecer; por exemplo, ao
se fazer uma opção pela narrativa cômica, o modo de entender os acontecimentos
narrados se faz não apesar da comicidade, mas exatamente a partir dela e com
base nela. A comicidade, aqui, não é mero ornamento: é uma das formas de
conferir concretude ao pensamento. (RAMOS, 2002, p.41).
Na pesquisa, as imagens
do sertão recorrentes em Abril Despedaçado foram objetos de reflexão não
pelo simples fato de aparecerem em contextos históricos específicos, mas,
principalmente, porque foram elaboradas em diálogo com as subjetividades que
configuraram o momento de sua produção: são indícios que servem à compreensão
do modo como uma sociedade pensa e significa o universo sertanejo. Ao final, verificou-se
que as representações do sertão presentes no filme de
Walter Salles dialogam com as estereotipias presentes na cultura brasileira e
que são responsáveis por significar o universo sertanejo como sendo um local
hostil, arcaico, violento, patriarcal e dominado por dualismos que marcariam a
vida do sertanejo: exploração/honestidade,
pobreza/dignidade, violência/honra.
A
tragédia como referência para pensar o rural
Abril Despedaçado,
primeiro trabalho do diretor Walter Salles após o sucesso de seu filme
anterior, Central do Brasil (1998), é
na verdade uma adaptação do livro homônimo escrito pelo albanês Ismail Kadaré no
final da década de 1970, após uma viagem que este fez à região norte de seu
país. Durante essa viagem, Kadaré pôde observar como o Kanun, código de origem medieval, que regulava todos os aspectos da
vida pessoal e social dos habitantes da região, ainda se fazia presente naquele
recanto, distante do poder regulador do Estado e ainda um reduto da tradição
católica albanesa. O livro é ambientado na gélida fronteira da Albânia com
Kosovo e narra o drama pessoal de um jovem que, contra sua vontade, é obrigado
pelo pai e pela tradição do Kanun a vingar
a morte de seu irmão mais velho, assassinado por um membro de uma família
rival.
De
forma sucinta, é esse o romance que Walter Salles adapta para o cinema. O
primeiro desafio enfrentado pelo diretor era saber em que região e para qual
época a história seria adaptada. A solução encontrada para esse problema é
mostrada logo na mensagem inicial que abre o filme: Sertão brasileiro 1910. A questão a ser
levantada é: por que, entre tantas possibilidades, o sertão nordestino acabou escolhido
como local ideal para ambientar uma obra como Abril Despedaçado e, principalmente, como o gênero narrativo que
estrutura o filme influencia no processo de significação do universo e da
cultura sertaneja?
A
escolha do sertão como pano de fundo para o desenrolar da história da família
Breves, núcleo central do filme, não foi simples coincidência, pois, segundo a
visão do diretor, deve existir uma
relação entre a geografia física e a geografia humana, quer dizer, a aridez do
lugar de uma certa forma impregna aqueles personagens (SALLES, 2007). Essa relação
entre a geografia física e a geografia humana acaba se tornando indispensável
à sensação, construída em diálogo com as expectativas nutridas pelos espectadores,
de que os fatos narrados se alojam dentro da possibilidade de um real
acontecido. O fato é que a imagem do sertão recorrente no filme, mesmo
reconhecendo a capacidade das personagens de romper com seus destinos, coincide
com a estereotipia que atrela o universo rural brasileiro à memória de um
ambiente arcaico. É o que está explícito na escrita de parte da crítica especializada,
à época do lançamento do filme:
Walter Salles achou melhor adaptá-lo [o livro
Abril Despedaçado] para o nordeste
brasileiro. A escolha não tem nada de insensata. Há muito em comum entre os
montanheses da Albânia e nossos sertanejos. São produtos de sociedades
arcaicas, brutas, miseráveis, reacionárias, atreladas a seus mitos. (MAINARDI, 2007)
Abril Despedaçado se
aproxima do gênero trágico, e, como afirma Gerd Bornheim (1975), para que esse
tipo de narrativa possa efetivamente acontecer, é necessária a combinação de dois
pressupostos básicos: a existência de um herói e de uma ordem, um ambiente,
trágico. Segundo Bornheim, embora quase sempre pensado como o centro da
tragédia, o herói não cumpre esse papel, ao contrário, o trágico só se revela
como tal quando esse herói é posto em suspensão, quando fica dividido entre os
seus interesses pessoais e as ações que é obrigado, motivado pelo seu meio, a
realizar. Isto é, na tragédia o ambiente em que são contextualizadas as ações tem
tanta importância quando a personagem que salta aos olhos do expectador.
No filme, tem-se a combinação citada por
Bornheim: um ambiente opressor, fruto da ausência do Estado como regulador
social e da forte tradição familiar, com uma personagem que se vê dividida entre
os seus interesses pessoais e as ações que é obrigado a concretizar vingar a
morte do irmão. Na adaptação de Walter Salles, um artifício se destaca na
construção de um ambiente sufocante para as personagens: a incorporação da
bolandeira, que funciona como a metáfora de um tempo que parece não passar. A
bolandeira é, na verdade, uma espécie de engenho movido a bois que moía a
cana-de-açúcar e dela extraía a matéria-prima para a fabricação de rapaduras.
A
incorporação da engenhoca no filme não acontece de forma acidental, Salles
sabia o que estava fazendo e buscou identificá-la como sendo o símbolo maior da
pretensa imobilidade temporal que ditava a vida no sertão: suas engrenagens, com
movimentos repetitivos e lentos, fazem lembrar as de um relógio, que, de modo
sugestivo, gira no sentido anti-horário. Contudo, a bolandeira não representa
apenas a imobilidade do tempo: ela capta em si a imagem de uma cultura
anacrônica que tem sua dinâmica condicionada à perfeita combinação de
engrenagens, e que, assim como a máquina tritura a cana, aquela tritura e se
alimenta dos filhos daquela família. É desse modo que a rotina diária dos
Breves gira simbolicamente em torno do velho engenho e de uma tradição tão
antiga quanto ele.
A
posição assumida diariamente por cada membro da família frente à bolandeira só
vem fortalecer a importância alegórica da engenhoca no filme. Enquanto a câmera
acompanha os movimentos das engrenagens, o menino, narrador que permanece em off, descreve para o expectador o papel reservado
a cada membro de sua família na produção de rapadura. Dentro da lógica que regulava o trabalho dos
Breves, cabia ao pai (personagem de José Dumont) um papel central: o patriarca era
responsável por fazer a bolandeira funcionar ditando o ritmo dos bois e, conseqüentemente,
do restante da família. A função do Sr. Breves vai além da simples manutenção do
processo produtivo: ele é responsável também por manter a honra e a sede de vingança
em sua família. No filme, a personagem do pai é construída como o resultado e,
ao mesmo tempo, como o grande animador de uma cultura anacrônica.
No
centro da grande engrenagem, como que cercados pelo patriarca, está o filho
mais velho Tonho (Rodrigo Santoro) a quem cabe alimentá-la diretamente com
a cana-de-açúcar: uma metáfora para se imaginar a incorporação de novas
gerações às tradições familiares; e a mãe (Rita Assemany), que mesmo tendo
consciência do destino trágico que é reservado a seus filhos, não faz nada para
impedir as vendetas; ao contrário, a matriarca, em sua passividade, funciona
como mais um incentivador das vinganças. O último membro dos Breves a assumir
uma função no processo produtivo é o menino (personagem de Raví Ramos), que também
alimenta a engenhoca, mas de forma indireta, carregando a cana para o irmão
mais velho, como se ainda não houvesse chegado a hora de ser ele próprio o responsável
por manter a roda girando.
A
lógica que organiza a narrativa implica também a criação de uma personagem
inexistente no romance e que no filme permanecerá sem nome identificado
apenas como menino até bem próximo do seu final. O fato de não possuir um
nome é significativo para que possa marcar sua posição concomitante de
espectador e crítico da irracionalidade que parecia cegar seus familiares.
Prova disso, é que essa personagem só irá se envolver nos acontecimentos que
opunham sua família à família Ferreira após ser batizado e receber um nome,
Pacu. Com o batismo, aquele que estava deslocado e à margem da narrativa passa
a ser uma personagem mais próxima das demais e poderá influenciar decisivamente
o desfecho do filme.
A existência ou não de nomes para as
personagens é bastante sugestiva. Vejamos, como exemplo, os personagens de José
Dumont e Rita Assemany. Dumont encarna uma personagem apenas conhecida como
Sr. Breves, como se, não possuindo um primeiro nome que o individualizasse, sua
identidade apenas incorporasse o nome e a tradição da família; no caso da Srª
Breves, embora, suponhamos, possua um nome, esse não aparece em nenhum momento
do filme, o que demonstra ser sua vida uma sombra daquela família de homens. No
grupo, apenas a personagem de Rodrigo Santoro, Tonho, é individualizada por um
nome, embora, sugestivamente, não se reconheça plenamente com membro de seu
clã.
Ao Menino
caberá a função de narrador. Ele aparecerá como uma personagem a mais na
história, não se envolvendo diretamente com os acontecimentos que narra. O fato,
porém, de não se envolver diretamente nos acontecimentos não o impede de
desenvolver uma função central na efetivação da narrativa, pois, tendo a
faculdade de poder acompanhar as ações e os pensamentos de todas as personagens
da trama, inclusive daqueles já mortos, o menino, além de ocupar uma cômoda
posição à margem da história narrada, funcionará como um articulador entre as outras
personagens do filme.
É a
criança que aperfeiçoa a narrativa, juntando os acontecimentos e recolocando-os
num eixo cronológico mais fácil de ser compreendido pelo espectador. Utilizando
essa faculdade para explicar parte do processo de produção da rapadura, o
menino afirma: no tempo de vô, os escravo é que fazia o serviço todo. Agora é
nós mesmo. Essa explicação é fundamental para que o espectador aproxime a
temporalidade do filme a um marco, um fato histórico que lhe é conhecido: a
escravidão, ou o seu fim. Com esse artifício, o filme aproxima a história narrada
a uma cronologia histórica já conhecida, o que facilita a sua inserção dentro
de numa possibilidade de real acontecido.
O sertão arcaico como símbolo da
exploração
Ainda
que não se configure na tônica sobre a qual se desenvolve a história narrada, o
filme não deixa de olhar para o sertão a partir da estereotipia que configura a
região como símbolo maior da violenta luta armada pela terra e da opressão
sobre os mais humildes. A adaptação para as telas de cinema irá pontuar, em várias
passagens, o motivo pelo qual a família de Tonho se vê impelida a participar
das vendetas: a guerra entre o clãs dos Breves e dos Ferreiras é motivada pelas
disputas em torno da posse de terras.
O
motivo dos crimes de vingança entre as famílias rivais são descritos pelo
menino no momento em que Tonho, por insistência do pai, sai em busca do
assassino de seu irmão: pra chegar aos Ferreira, Tonho vai pisar em chão que
já foi nosso. Os Ferreira tomaram, e nós tomamos dos Ferreira...Agora é deles
de novo. Foi assim que começou a briga. Ou ainda quando o pai explica ao
menino os motivos pelos quais a cobrança do sangue derramado é inevitável:
Presta atenção menino. Ele [o pai se
referindo ao filho mais velho, morto no início do filme] fez o que tinha que
fazer. Agora é vez de Tonho. Teu avô, teus tio, o teu irmão mais velho. Eles
tudo morreram por nossa honra e por essa terra. E um dia pode ser tu. Tu é um
Breves. Também já cumpri minha obrigação. Se não morri, foi porque Deus não
quis.
O
mais importante a se perceber na fala das personagens é o fato de que a luta
violenta pela posse da terra, ao mesmo tempo em que é responsável pela desgraça
da família, funciona, contraditoriamente, como um dispositivo responsável por
construir e manter viva a memória que une e cria uma identidade para a família.
Desse modo, o ódio nutrido contra o inimigo e a disposição em vingar a morte de
um parente tornam possível a existência de um sentimento de pertencimento àquele
grupo de parentesco.
Outra
temática que se incorpora em Abril e
que remete a uma tradição recorrente em filmes do Cinema Novo é a exploração
econômica sofrida pelos mais humildes quando da venda ou da partilha de seus
bens. É emblemática a cena em que o Sr. Breves deixa suas terras para ir até a
cidade vender sua pequena produção de rapaduras. O patriarca se dirige ao
armazém de um certo Senhor Lourenço (Othon Bastos), presumivelmente o
comerciante mais importante da cidade e, como demonstra o rápido diálogo entre
as personagens, um fiel comprador da produção de rapadura do engenho Breves. O
armazém no qual a cena se passa é uma espécie de quitanda onde pode se
encontrar quase tudo: óleos, bebidas, gêneros alimentícios, celas para cavalos,
tecidos o típico comércio sertanejo que povoa o imaginário social brasileiro.
O
contato entre o patriarca dos Breves e o comerciante irá ressaltar a diferença e
a tensão entre mundo rural e o urbano em que viviam, respectivamente, as duas
personagens. O primeiro, robusto e vestido com um velho paletó que apenas
expunha sua condição humilde, permanecerá todo o tempo procurando manter um
respeito subserviente ao comerciante, enquanto que esse se mantém numa postura
mais descontraída, denunciando sua cômoda posição na negociação. Após receber
o pagamentos por suas rapaduras, o Sr. Breves, ainda mantendo o mesmo respeito
subserviente, afirma que o comerciante havia errado na conta; este, tentando
se justificar ao seu fornecedor, explica que após a chegada das usinas a vapor,
onde supostamente a rapadura era produzida em maior quantidade e com custos
reduzidos, os preços desses produtos haviam baixado. Utilizando sua confortável
posição dentro da negociação, o comerciante aponta para as prateleiras ao seu lado
e sentencia em tom mais áspero e sugestivamente ameaçador: rapadura é o que
não falta!.
Para
além de uma simples cena que põe em lados opostos, e bem definidos, os
explorados e os exploradores, o diálogo no interior do armazém é central
dentro do processo de caracterização e significação do sertão no filme. Primeiro
porque marca as fronteiras e expõe a tensão entre o sertão e a cidade; segundo,
porque ao explicar que os preços da rapadura baixaram devido às usinas a vapor,
o comerciante não deixa de ressaltar que o progresso, personificado nas usinas,
havia, finalmente, chegado à região. Se a usina é o sinônimo de progresso e de
novos tempos, em contrapartida subentende-se que a bolandeira seria o exemplo
maior do atraso que ainda existia na região.
Partindo
desse raciocínio, chega-se à conclusão que, além de servir como metáfora para
um tempo que teimava em não passar, a bolandeira também personifica o atraso
econômico e uma fase primitiva da produção que ainda se estruturava sob o
trabalho artesanal. Fica implícito que, sem capacidade de competir com uma
produção mecanizada e mais organizada de rapaduras, o engenho dos Breves
estaria condenado a desaparecer.
Considerações finais
Voltemos
à questão inicial: por que o sertão é escolhido como local para ambientar Abril Despedaçado e como o estilo narrativo
que estrutura o filme influencia na significação desse universo? Embora Abril Despedaçado busque construir um
evento ficcional e pretérito, para que sua narrativa possa capturar o
espectador, convencendo-o de que se trata de uma história com possibilidades de
uma existência real, é necessário que trabalhe sobre espaços e personagens já
conhecíveis pelo grande público. Anterior às imagens do sertão presentes no
filme de Walter Salles existe uma estereotipia responsável por significar o
universo sertanejo como o local dominado por uma natureza hostil, pela tradição
familiar, violência anárquica e por uma religiosidade popular que beira a superstição
irracional. É com essa estereotipia que o diretor busca dialogar, basta
lembrarmo-nos da violência constante entre as famílias ou a crença de que o
sangue derramando deve ser vingado para que o morto possa descansar imagens
comuns na literatura e na cinematografia que tomou o sertão como palco.
Do
mesmo modo, as personagens encontradas no filme são referências comuns a tipos
sociais imagináveis do sertão nordestino: o patriarca, símbolo da tradição que
une a família; a mulher, em seu papel de esposa e mãe submissa; e os filhos,
igualmente submissos ao pai através de uma relação sufocante, na qual não se
separa o respeito do medo. Assim, pode-se concluir que o filme Abril Despedaçado estabelece um diálogo
com uma tradição que pensa o sertão a partir dos dualismos
exploração/honestidade, sofrimento/dignidade, violência/honra Salles não
consegue se livrar do fardo das representações que significam o sertão como
local do atraso, do patriarcalismo e da violência.
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ABRIL
DESPEDAÇADO.
Direção: Walter Salles. Roteiro: Walter Salles, Sérgio Machado e
Karim Aïnouz, baseado em livro de Ismail Kadaré. Produção: Arthur Cohn. Música: Antônio Pinto. Fotografia: Walter Carvalho. Elenco: José Dumont, Rodrigo
Santoro, Rita Assemany, Luiz Carlos Vasconcelos, Ravi Lacerda, Flávia Marco
Antônio, Everaldo Pontes, Caio Junqueira, Mariana Loureiro, Wagner Moura, Gero
Camilo, Othon Bastos e outros. Brasil,
2001. DVD (105 min).