O Delírio dos Códigos: uma leitura do livro "Abrindo Caminho", de Ana Maria Machado
Rodrigo da Costa Araújo
RESUMO Esta pesquisa estuda a relação entre criação e interpretação de imagens direcionada ao livro Abrindo Caminho (2002), de Ana Maria Machado. O foco serão as relações entre o que o texto faz ver e o que a imagem dá a entender como nexo privilegiado para delinear a arquitetura do regime representativo e do discurso intertextual. O texto, nesse sentido, não explica mais o que a imagem diz, e a imagem, por sua vez, não ilustra o que a palavra oculta. Tal hipótese foge dos moldes tradicionais de comparação entre imagem e texto, que se concentram nas semelhanças e simetrias. Acompanha-se interpretativamente o gesto/redemoinho intertextual que, como operação de escrita, promove a incorporação da visualidade e produz efeitos híbridos, processando, concomitantemente, a recapitulação parcial e condensada desses discursos.
Palavras-chave: Abrindo Caminho - ilustração - livro infantil - Ana Maria Machado
ABSTRACT This research studies the relationship between creation and
interpretation of images directed to the Green Pioneering (2002), by
Ana Maria Machado. The focus is the relationship between what the text
is to see and what the image suggests how privileged link to delineate
the architecture of representative government and intertextual
discourse. The text, accordingly, does not explain more what the image
says, and the image, in turn, does not illustrate what the hidden word.
This hypothesis avoids the traditional way of comparison between image
and text, which focus on similarities and symmetries. Attached to
interpret the gesture / whirlpool intertextual, as write operation,
promotes the incorporation of visual effect and hybrid processing,
concomitantly, the partial and condensed summary of the discussions.
Keywords: Opening way - illustration - children's book - Ana Maria Machado
“O lugar do
descaminho ignora a linha reta, nunca se vai de um ponto a outro ponto; não se
parte daqui para chegar ali; nenhum ponto de partida e nenhum começo para a
caminha. Antes de se ter começado, já se está a recomeçar; antes de se ter terminado,
repisa-se; esta espécie de absurdo que consiste em regressar sem nunca ter
partido [...]”
(BLANCHOT, 1984, p.104).
Como na epígrafe de
Maurice Blanchot, posta acima, esta é a sensação encantadora que temos ao ler o
livro Abrindo Caminho (2004), de Ana
Maria Machado. Uma sensação de incompletude, de caminhos diferentes que se
bifurcam, um verdadeiro delírio dos códigos.Além da escritura, a visualidade incorporada à textualidade encanta o
leitor de qualquer idade.
O que chama a atenção,
antes mesmo de abrir o livro, são o tamanho e a cor vermelha da capa, a
delicadeza da ilustração. Inclinações semiológicas
para uma prática do ver, sentir, perceber, envolver-se, apaixonar-se. Objeto
semiótico destinado, por conseguinte, a fornecer “os utensílios que permitam ao
olhar descobrir o sentido que as coisas apresentam e que o hábito oculta”
(RODRIGUES, 2000, p.132). Sugestões e exercícios retóricos para centrar-se no
leitor, no olho que procura pistas, marcas de reconhecimento, prazer de
conhecer e ver.
Nesse ponto, a
narrativa de Ana Maria Machado parece dialogar com o processo escritural
barthesiano que entende o texto como “lugar onde o sujeito se produz com risco,
onde o sujeito é posto em processo e, com ele, toda a sociedade, sua lógica,
sua moral, sua economia” (PERRONE-MOISÉS, 1993, p.49). O texto, desde da capa,
como tela vermelha, teatraliza o lugar da escritura, um lugar, onde “o sujeito
se arrisca numa situação de crítica radical, e não o produto acabado de uma
sujeito pleno” (PERRONE-MOÍSES, 1993, p.49).
Nesta ascese
do olhar que a leitura semiótica tende a instaurar, o grande desafio das
descobertas - tema central do livro - estaria em não ignorar o transitório, os
diversos caminhos que se bifurcam, os encontros e desencontros. Em diversos
caminhos, sempre povoados de formas, surgem nesse redemoinho narrativo, tantas
linguagens em mil facetas inevitavelmente cambiantes no mundo contemporâneo. O
visual impõe-se como reflexão, imaginação e fantasia - certo convite ao
improviso ou para um passeio em “caminhos”. Num certo sentido e relance inicial
surgem alguns questionamentos, antes mesmo de folhear o livro: Como ler
desvendando o invisível nas imagens e ultrapassando o evidente nas palavras?
Como achar um caminho, fora das falsas evidências do discurso?
DO TÍTULO E
DO JOGO DOS SIGNIFICANTES
É o título que, ao nomear,designa e produz, instiga e
desperta, cria o livro ou, melhor dizendo, o efeito tela-livro; é a cor
vermelha que, ao instigar, funda o desejo; é o resumo na contracapa que
legitima o enredo; o texto-fronteira, mais precisamente, o peritexto segundo
Gerard Genette (1982) - todos instituem como discursos fundadores do livro, um
verdadeiro ato de linguagem literária.
O título põe a prova, para além de uma semântica do
título, uma recepção - como aliás todo paratexto -, ganhando em ser lido nesta
dimensão. Ele é um índice, um resumo e uma fórmula para uma rede de relações na
obra. O significante “caminho” condensa, desde de já, o investimento de
descoberta, procura, angustia de vencer obstáculos, semântica que marca um
considerável número de fragmentos e personagens. Este título anuncia e
transporta uma escritura metalingüística de caminhos que se encontram,
bifurcam-se, multiplicam-se, numa permanente metamorfose senão dissolução do
caminho em outros, sem começo nem fim. Ora, esse “caminho” que surge aí como
condição de sua própria existência está muito próximo de uma “estranha
inquietação” em ler, aprender, descobrir. Pode, de alguma forma ou de outra,
ser sintetizado numa frase da escritora: “Não penso em linha reta, mas em
meandros ziguezagues” (MACHADO, 2001, p.7).
A PLASTICIDADE DAS DESCOBERTAS
A descoberta, o deslocamento, a busca eterna são
metáforas significativas que articulam-se com as imagens e com a própria malha
textual/visual do livro. Pode-se dizer que, segundo Iuri Lotmam, em A
Estrutura do Texto
Artístico, “num caso limite, na linguagem poética, qualquer palavra pode
tornar-se sinônima de qualquer outra palavra” (1978, p.68).
As representações da descoberta traçadas por Ana Maria
Machado e enfatizadas pela ilustradora Elizabeth Teixeira reforçam, no livro, o
discurso plástico, imbricando e instigando o leitor a compartilhar do processo
de curiosidade, sempre lúdico e intertextual. Em outros termos, o trabalho
intertextual é retomado, tanto na palavra como na imagem, para subvertê-lo em
um novo contexto. Para que se realize essa relação intertextual entre os signos
verbais e a expressão plástica (signos icônicos), é necessário que haja um grau
de iconicidade nos signos verbais que promova também uma “homologia de
conteúdos”. Além disso, o discurso poético efetuará uma transposição dos signos
icônicos para signos literários. Essa transformação pode ser considerada como
uma absorção do texto pictórico pelo texto poético, uma vez que o espaço
intertextual “é um ponto de cruzamento de vários códigos” (KRISTEVA, 1974,
p.174).
Com ilustrações em página dupla, - em toda a narrativa -,
o livro assume a dimensão de telas que se desdobram permitindo ao leitor fazer
as relações e, “fazendo delirar os códigos, atribuir sentidos. É nessa
perspectiva que a página de abertura onde se lê: “No meio do caminho de Dante
tinha uma selva escura”, ainda que o leitor não identifique a paráfrase do
Canto I, do Capítulo Inferno, da Divina
Comédia (2003), é possível reconhecer, através de caracterizações
figurativas, reunidas ao discurso verbal, algumas pistas intertextuais.
Logo de início fica claro que Abrindo Caminho (2004), de Ana Maria Machado assume tendências da
narrativa pós-moderna misturando elementos da poesia e da prosa, da música e da
literatura clássica, do visual que se impõe sem configurar em sua escritura
romanesca, a estrutura clássica do conto. O livro em questão, é exemplo dessas
discussões intricadas na própria leitura que constrói metáforas da interseção
de numerosos códigos e ideologias, é signo plural. A história apóia-se num
processo principal que oculta um argumento secreto que deve ser descoberto
progressivamente, seja olhando-o, procurando marcas, estabelecendo relações. E
por isso mesmo, trata-se de um texto lacunar, com espaços vazios onde se lê a
significação ausente. Neles se potenciam os signos fundamentais da semiose da
descoberta.
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) ressoa na segunda
página entre uma pedra e cenários mineiros com a frase: “No meio do caminho de
Carlos tinha uma pedra”. Estilisticamente esta citação é a força retórica da
repetição que constrói a narrativa a partir da relação entre os demais como
réplica a outros textos. A partir desse verso, do famoso poema de Carlos
Drummond de Andrade, a obra realiza um discurso que significa referencialmente,
mostrando os diversos “caminhos” da descoberta, e, conseqüentemente, várias
contradições de quem está disposto a descobrir.
Esse discurso,
centro espacial e temporal, remete-se, em labirintos constantes, a outros
referentes que também são textos ou texto-memória (outros livros, outras
descobertas, outros autores, outros descobridores) imaginários ou não - outras
formas de saber, outras concepções filosóficas para produzir uma sobresaturação
textual, originando o discurso paródico que recai sobre a leitura.
Olhando para
uma certa iconografia mineira, em vários tom de verde, no livro “o
personagem-poeta-gauche”, em terno preto e mala, sugere a idéia de vida como
viagem e desgaste, como viagem mortal, onde o ser encontra seu fim na
dissipação completa e por isso diz: “Nunca me esquecerei desse acontecimento/
na vida de minhas retinas tão fatigadas”. Segundo Afonso Romano de Sant’Ana, a
vida, o tempo, a viagem são vocábulos sinônimos ao se tentar a explicação da
poética drummondiana. “A vida é uma viagem através do tempo. O tempo é uma
viagem em vida. A
viagem é a vida no tempo” (1972, p.182).
Das citações
do verso de Drummond à Águas de Março,
de Antonio Carlos Jobim (1927-1994) a diferença reside no significante “rio”
que perturba o caminho. Por isso, a narrativa, ao apresentar Tom diz: “No meio
do caminho de Tom tinha um rio”. Tão desafiador quanto a “pedra”, de Drummond,
o rio surge no caminho e carrega, além da ambigüidade semântica, uma variedade
de substantivos que se repetem, reforçando estilisticamente o ritual diferente
da vida mineira: “ [...] É um estepe é um prego, é uma ponta, é um ponto, é um
pingo pingando/ É uma conta, é um conto/ É um peixe, é um gesto, é uma prata
brilhando/ [...] É o carro enguiçado, é a lama, é a lama”.
A leitura da música indica o trabalho
semiológico do jogo binário que se resume nos significantes vida e morte.
Pontos extremos da existência cujo poeta preenche com a repetição, o ritual de
instantes e afazeres diários, atitudes triviais imperceptíveis no dia a dia.
Novamente, a estilística da repetição do poema drummondiano ecoa na música de
Tom Jobim e na narrativa de Maria Clara Machado enquanto construção -: “Era
pau/ Era pedra/ Era o fim do caminho?” - questionando o leitor e sugerindo a
retomada de citações, de discursos e memória dos viajantes.
As imagens
também reforçam os clichês dos cartões-postais que representam a cidade do Rio
de Janeiro, tais como o calçadão de Copacabana em preto e branco, o Pão de
Açúcar e o Cristo Redentor ao fundo. Elementos semióticos de um livro que,
misturados em diversas linguagens, fazem homenagem ao músico Antonio Carlos
Jobim - a quem o livro é dedicado na epígrafe.
Paralelamente,
a narrativa pós-moderna e labiríntica, reforça a solidão dos personagens
viajantes e a leitura retratada na cena de uma menina lendo o próprio livro Abrindo Caminho. Paradoxalmente, a
leitura representada como objeto estético afasta o leitor para um canto: “Cada
um no seu canto/com seu canto/ nos chamou”. E aproxima todos os discursos ao
mesmo tempo: “E nenhum de nós/nunca mais ficou sozinho”. A plasticização do
livro (ou do ato de ler), nesta página, transforma-o em algo particular, o
livro-jóia, o livro que aproxima descobertas, o livro como objeto precioso.
Isso também pode ser lido como uma metalinguagem visual na repetição dos livros
na biblioteca, os mesmos livros citados no corpo da narrativa (que se lê e se
mostra) as mesmas cenas no livro da menina. Ou seja, uma verdadeira biblioteca
borgeana.
A biblioteca,
nesse contexto, funciona como espelho de representação do objeto livro e a
vertigem do reflexo, a mise-em-abime
do significante livro na ilustração ou imagem. Esse jogo de duplos, de
repetições, de encontros e citações também se repetem no texto quando diz: “No
meio do caminho de Dante teve uma estrada/ No meio do caminho de Carlos teve um
túnel/ No meio do caminho de Tom teve uma ponte”. A intertextualidade é vista, nesse
caso, como “máquina perturbadora. Trata-se
de não deixar o sentido em sossego - de evitar o triunfo do “cliché” por um
trabalho de transformação”. (LAURENT, 1979, p. 45).
Cristóvão
Colombo aparece como quarto personagem para efabular o mito do descobridor que
conseguiu transpor os limites de um mapa antigo a fim de encontrar a
continuidade de um mundo esférico cujos extremos estariam ligados no grande
oceano. Nessa prática- expedição solitária-, bem como na maneira como ela
literariamente se exprime (narrativa ou diário de viagem), a viagem corresponde
a uma adequação do homem ao mundo exterior, um poder incessantemente
manifestado do homem sobre o mundo,por
vezes mesmo uma vontade de poder, quer dizer, “uma capacidade infinita de, ao
descrever e ao compreender o mundo, se conceber como dono desse mundo”
(MACHADO, 1982, p.30).
Diferentemente
de Cristóvão Colombo, Marco Pólo surge como quinto personagem e reforça a
narrativa de viagem como gênero literário. A metáfora sugere a criação do
romance de aventura, a elaboração do romanesco em si mesmo. O cenário ilustra o
deserto árido e os camelos compõem a viagem do andarilho-protagonista. Neste
horizonte e espaço estrangeiro, o viajante-narrador, como quis Ítalo Calvino, em As
Cidades Invisíveis
(1990), vai descobrir (ou esquecer) o Outro.
A metáfora da
viagem, quer se trate de Cristóvão Colombo, Marco Pólo ou Alberto Santos
Dumont, quer se trate de viagem “real” ou viagem imaginária, o discurso
romanesco de Ana Maria Machado registra alegoricamente, em Abrindo
Caminho, uma viagem nos livros e nas bibliotecas. Feito
Jorge Luis Borges, ela é uma travessia labiríntica, é descrições de locais
visitados, de impressões e experiências, é uma peregrinação através de livros e
de tradições culturais. De qualquer forma, o significante “viagem”, semelhante ao
significante “caminho”, soa como discurso polifônico para uma tentativa
metalingüística de apropriação de idéias, de discursos e palavras, de uma
reconstrução (ou desconstrução?) verbal e visual de um espaço mítico: aquele
que é comum aos personagens, ao leitor e a escritora.
O FIM QUE NÃO TEM FIM
Nessas
encruzilhadas de “caminhos” que nos oferece Ana Maria Machado apresenta outra
natureza: não é preciso sair do lugar para conhecer o que havia no “meio do
caminho” de Dante Alighieri, Carlos Drummond de Andrade, Tom Jobim: “uma
floresta”, “uma pedra”, um “R(rio)”... ou no caminho de Cristóvão Colombo,
Marco Pólo e Alberto Santos Dumond: “oceano”, “deserto”, “muita lonjura”. Ou o
que há nos possíveis caminhos do leitor, como anuncia o livro: “No meio do meu
caminho tem coisa de que não gosto. Cerca, muro, grade tem. No meio do seu
aposto tem muita pedra também”.
E, assim,
imbricados,- leitor, escritora, imagens, música, memória, viagens, caminhos - a
narrativa pós-moderna de Ana Maria Machado vai permitindo começo de novas
leituras, infinitas, sejam dos clássicos da literatura universal e brasileira,
seja de canção popular brasileira ou referências históricas de todos os povos.
Afinal, todo o livro - “é uma promessa de vida” - e a escritora, afinada com o diálogo
entre gerações (de pessoas e textos) vai colando, feito recorte-colagem, para
compor um mosaico, seu traçado textual.
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____________________ Rodrigo da Costa Araújo é professor de Literatura Infantil e Teoria da Literatura na FAFIMA - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Macaé, Mestre em Ciência da Arte [UFF] e Doutorando em Literatura Comparada [UFF]. Ex Coordenador Pedagógico do Curso de Letras da FAFIMA, pesquiador do Grupo Estéticas de Fim de Século, da Linha de Pesquisa em Estudos Semiológicos: Leitura, Texto e Transdisciplinaridade da UFRJ/ Cnpq. E-mail: rodricoara@uol.com.bro
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