A entrevista que segue foi feita, via e-mail, há
mais de meia década, precisamente em 2003. Na época, foi publicada em um número
da revista amálgama que teve tímida circulação. Lesto e de uma inteligência
invulgar, creio que Fabrício Carpinejar, hoje, atualizaria muitas das respostas
que seguem. Também eu, na condição de entrevistador, eliminaria algumas
perguntas e faria outras. Mesmo com estes pormenores, percebo que as questões
debatidas e as sagazes respostas de Carpinejar em nada perderam sua atualidade.
Estes fatores, creio, justificam a republicação da entrevista.
Wanderson Lima - Ernesto Sabato, em um de seus ensaios, diz que em nossa
época um escritor que queira se passar por profundo deve ser obscuro, pois
temos associado clareza à superficialidade. Esse comentário de Sabato parece
ter a ver com uma linha de nossa poesia que engloba Bandeira, Quintana, Manoel
de Barros e você, vítimas desse julgamento patrocinado principalmente por
certos vanguardismos formalistas afeitos a experimentações herméticas as quais
só é possível a compreensão se estivermos por dentro de seus pressupostos
teóricos. O que pensa sobre isso?
Fabrício Carpinejar - Eu penso que o poeta não deve ir ao fundo da linguagem, mas
permanecer em vigília na superfície. A superfície é densa e expressiva, onde o
mundo nos assiste. O que me importa é o cheiro da rua, da casa, das roupas,
remexer no desperdício. Estar tão próximo do leitor que ele me sinta longe. O
fundo é isolamento e nos afasta da vulnerabilidade. Desde criança, tenho uma
empatia pela fraqueza. Sempre tentei amparar quem estava desfocado, deslocado,
às margens. Minha linguagem é um esforço de diplomacia entre a imaginação e a
realidade, entre os que as pessoas pensam e o que elas são. Criou-se uma crença
de que a boa poesia é aquela que não é compreendida. Quanto mais difícil,
melhor a criação. Não concordo. A poesia precisa falar para todos os tempos em
qualquer tempo. O tempo tem que estar vivo no verso. O que adianta dizer para
não dizer? O que adianta apenas preencher um lugar na estante? O que adianta
escrever para si? Melhor então é nunca publicar. Escrevo como doação, buscando
transferir meu sangue. Minha única vanguarda é acompanhar minha morte a distância.
Deixar que ela se aproxime. Enquanto isso, vou fazer da vida a minha mais alta
despedida. O verdadeiro poeta não precisa de um prefácio para ser entendido. A
sensibilidade tem urgência e não fica esperando pressupostos teóricos.
Wanderson - Mário Faustino, quando de sua página no JB, reclamou certa
vez que o Brasil estava cheio de “Drummondzinhos”. Talvez hoje ele dissesse que
está cheio de “Cabralzinhos”.
Carpinejar - Mario Faustino era um leão (crítico) com coração de ave
(poeta). Acredito que Cabral teve muitos imitadores em vida. Mas é impossível
imitar Cabral, o autor brasileiro com o melhor sistema anti-vírus. Houve até
quem conseguisse cotejá-lo na forma, mas sem nunca atingir sua implacável visão
de mundo. Imitar Cabral é tentar ser gago. Tudo não passará de uma caricatura.
A poesia brasileira contemporânea está se libertando dos referenciais da última
metade do século XX. Mais solta, convicta, menos experimental, capaz de
inaugurar sua fome sem precisar recorrer à metalinguagem. Vários autores
começam a aparecer com intensidade, não transformando seus livros em teses
acadêmicas e procurando sentir o peso das contradições e paradoxos de nossa
época.
Wanderson - O crítico Hidelbrando Barbosa Filho afirma com lucidez:
“Poeta que pensa, Carpinejar, no entanto, não busca seu pensamento fora de sua
vivência pessoal. à semelhança de Rainer Maria Rilke, nas Elegias de Duíno, sua
convocação metafísica nasce do pacto com a vida, do olhar sobre as coisas, do
olhar por dentro das coisas, e não exteriormente das doutrinas filosóficas que
aí circulam.” Você concorda com os que afirmam que os poetas romperam “o pacto
com a vida” e passaram a produzir uma poesia muito literalizada e
auto-referente?
Carpinejar - Concordo. Centenas de poetas passaram a problematizar o
poema, com medo da influência de Cabral, Bandeira e Drummond. A poesia virou um
divã, uma terapia. Ao invés de propor um pacto com a vida, regurgitava a
impossibilidade de se fazer um poema. Basta pegar aleatoriamente qualquer
iniciante das últimas décadas, sempre existirá um verso pedindo desculpas por
não conseguir vencer a insônia. Há gente que ficou cega com a página em branco. Daí que os
leitores se afastaram dos poemas pela ausência de identificação e foram
encontrar ressonância biográfica nas letras da MPB e do rock. Agora o poema
voltou a ser música, sentido e olhar demorado sobre as coisas. Retoma-se os
grandes temas a partir das pequenas delicadezas e irrupções do cotidiano.
Wanderson - O cânone literário brasileiro precisa ser reavaliado?
Carpinejar - Sim. É um crime deixar de fora do cânone Cecília Meireles,
Murilo Mendes, Jorge de Lima e toda uma poesia filosófica e mística. A crítica
tentou dilapidar nossa herança barroca e visionária. A necessidade de
engajamento nos anos 70 e 80 criou uma obrigação aos poetas de transformar o
mundo. O que parecia mais subterrâneo e religioso, ficou de lado. Uma tônica
realista e ateísta impregnou o cânone brasileiro, dificultando o acesso a
alguns importantes precursores de nossa brasilidade. O lirismo acabou
deslizando para os epigramas, ao humor, aos trocadilhos, aos haicais
preguiçosos e aos anúncios publicitários. Do protesto, a poesia virou
brincadeira.
Wanderson - Jorge Luis Borges parece ter sido muito importante em sua
formação, como transparece especialmente em seus dois últimos livros.
Carpinejar - Ainda é importante. O que mais gosto dele é a espessura do
pensamento. Ninguém lê Borges
sem mudar o tom de voz. Ele exige uma projeção fônica de fábula, de vaticínio e
história. Borges controlava a paixão durante a formulação poética para que ela
despontasse somente na leitura, na oralidade. Ele acreditava que a grande magia
estava em reunir novamente a narração e o poema, dizia que os leitores estavam
sedentos pela épica. Nesse sentido, meus livros formam um romance versificado,
um desdobramento de um enredo, feito pela velocidade das metáforas.
Wanderson - O diálogo com Manoel de Barros em seu último livro, Biografia
de uma Árvore, é notório e foi ressaltado por críticos como Miguel Sanches Neto.
Até que ponto esse diálogo foi relevante? Qual a importância, para nossa
literatura, da produção literária de Manoel de Barros?
Carpinejar - Um poeta precisa ser influenciado principalmente pelos seus
defeitos. Isso é estilo. Sou também influenciado por aquilo que não foi
escrito. Manoel de Barros é um grande escritor, peculiar, explorando os desvios
da língua já anunciados por Raul Bopp e Guimarães Rosa. Faz a catequese do
traste, a pedagogia do ínfimo. Defende uma teologia do abandono, pós-industrial.
Sua estética simula o nível da criança enquanto está aprendendo. Recupera a
primeira dentição da linguagem. Realiza uma poética da fé, religiosa, que
reivindica a crença de que todos partilham das mesmas convicções. Barros
infantilizou a forma poética, não se restringindo a tematizá-la. Propõe que o
objeto seja de todos não sendo de ninguém. Minha poesia é mais desconfiada,
cínica, não quer o deslumbramento, mas o assombro, algo entre a alegria e a
dor. Quero misturar os sentimentos: chorar rindo e rir chorando. Não falo como
uma criança, porém percorro as diferentes idades do homem em um mesmo livro.
Wanderson - Há uma forte unidade em sua obra, não só entre os poemas de
um mesmo livro mas entre um livro e outro. Parece-me, porém, que seu primeiro
livro, o surpreendente “As Solas do Sol”, foge dessa unidade, é uma experiência
à parte.
Carpinejar - Apronto os livros simultaneamente. Não é um processo
estanque, individualizado. Desdobro pensamentos em uma única matriz. Meu núcleo
é a família e suas relações de poder e despoder, influência e desatino. São
manuscritos emendados, embaralhados na escrivaninha, manchados pela luz
líquida. Em As Solas
do Sol, existem metáforas fechadas que aos poucos foram se abrindo nas demais
obras. É um livro à parte, mas com extrema significação no todo. Fui raspando
minha estréia, retirando o que tentava me esconder, desvelando o que ainda não
estava suficientemente formulado. O personagem de As Solas do Sol, Avalor, pode
ser o mesmo de Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma
Árvore. Uma espécie de Jó sem fé. Ficou três vezes viúvo: da esposa, dos amigos
e de seu tempo. É o último da fila. Busca um lugar seguro para guardar sua
memória. Está procurando até hoje.
Wanderson - Em “Um Terno de Pássaro ao Sul”, você conseguiu realizar um
mea culpa sem se deixar contaminar pelo pathos romântico, o que é realmente
admirável. Foi o livro mais difícil de ser escrito?
Carpinejar - Um Terno de Pássaros ao Sul foi o livro mais difícil, pois
o considero um divisor de águas da minha literatura O trunfo dele consiste em
não ser derrotista. É muito fácil cativar pela dor, viciar-se na depressão,
exaltar o sofrimento. O romantismo se espalha pior do que a gripe. O difícil –
e estimulante – é superar as adversidades e cantar a alegria que pode existir
no mais banal. No início, o filho pretende condenar o pai pródigo. Entretanto,
descobre que está assim se condenando. A amizade se fortalece pela compreensão.
Compreender é perdoar de certo modo. Eu corria o risco de ser confessional.
Armei-me, portanto, da ironia, conciliando o apelo dramático com a autocrítica.
O que proponho são “conficções”, confissões inventadas. Sou um perfeccionista
pelas imperfeições. Quero mudar o senso comum de lugar. Procuro o avesso e a
inversão, corromper as certezas. Fazer com que a palavra não morra no costume.
Quem pensa que a vida está ganha, não está. Quem pensa que está perdida, também
não está. Literatura é indefinição, tensão, desejo, estar na contracorrente do
óbvio, caminhar do fim ao início. Poesia é nunca se alfabetizar. Renuncio à
erudição para desaprender e perceber cada pessoa como um novo dialeto. Renuncio
ao conhecimento para me desconhecer. Quero desescrever cada vez mais,
desaparecer para que quem está lendo se enxergue. Que ninguém repare que a
poesia foi escrita. Meu nome não é um endereço. O autor precisa se ausentar do
livro para se fazer presente por inteiro. O crítico Maurício Melo Júnior talvez
tenha descoberto o grande duelo em minha obra: “do anônimo com o inonimável”.
Wanderson - Em um artigo seu, Antecedentes Criminais Poéticos, você tece
reflexões a respeito do desinteresse do jovem pela poesia. Por que o jovem lê
tão pouco textos poéticos? Que parte da culpa cabe à escola?
Carpinejar - A poesia não é posta na escola como criação, porém apenas
como leitura e catalogação de gêneros e escolas. Persiste uma interpretação
mórbida da vida do autor em detrimento da obra. Sabe-se mais das doenças de
Castro Alves do que de suas odes. Esse é o grande erro. É impraticável criar um
laço com aquilo que não é exercitado. Ninguém nasce tocando violão. O jovem tem
uma vocação natural à poesia, procurando se expressar por diários, cartas e
agendas antes de qualquer outro gênero. Infelizmente, não recebe o incentivo, o
exercício da sensibilidade, a intimidade do convívio, que insira o verso como
algo espontâneo, real, funcional e vivo. O sistema educacional brasileiro trata
a poesia como um luxo ou um acessório. Pela desinformação, ela termina sendo
sinônimo de tumba formal ou de derramamento, catarse e atentado emocional ao
pudor. Poesia é o contrário: contenção e ritmo, idéias e música, relâmpago da
voz.
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Carpinejar, Fabrício Carpi Nejar é poeta e jornalista, mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS. Nasceu em Caxias do Sul (RS)
aos 23 de outubro de 1972. É autor dos livros: As Solas do Sol (998), Um Terno de Pássaros ao Sul (2000) , Terceira Sede ( 2001), Biografia de uma árvore (2002), Caixa de Sapatos (2003), Porto Alegre e o dia em que a cidade fugiu de casa (2004), Cinco Marias (2004), Como no Céu e Livro de Visitas (2005), O Amor Esquece de Começar (2006), Filhote De Cruz Credo (2006), Meu filho, minha filha (2007), Canalha! (2008) e Diário de um Apaixonado: sintomas de um bem incurável (2008).
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Wanderson Lima
é poeta e ensaísta. Professor de literatura da Universidade Estadual do
Piauí – UESPI e doutorando em Literatura Comparada pela UFRN. Autor,
entre outros, de Reencantamento do mundo: notas sobre cinema (amálgama, 2008), em co-autoria com Alfredo Werney.
contato: wandersontorres@hotmail.com