Sol a pino: apenas uma frase

Veronica Filíppovna


ALVES, Adriano. Sol a Pino: o dizer das coisas. São Paulo: Editora Scortecci, 2008



“Quero antes que me queimem os poemas∕cortem meus dedos, calem minha boca∕se eu deixar minha poesia oca”. Esses versos foram retirados do estupendo livro Sol a pino: o dizer de coisas do poeta pernambucano Adriano Alves (Editora Scortecci, 2008). Os que, infelizmente, ainda não tiveram o privilégio de conhecer seu trabalho poderão concluir que tais versos não passam de meros arroubos poéticos. Muito pelo contrário! Sua poesia está longe de se tornar oca. Entregue ao eterno espanto da descoberta, faz vicejar nas coisas o perfume do que não se diz. A cor púrpura do amanhecer sorri ao meio-dia. Imagens embriagadas de sentido escorrem no infinito. O silêncio pode tudo, menos ser medido.

Um dos representantes mais significativos da poesia contemporânea, Adriano rompe com os esquemas estabelecidos e deixa o poético ser. Desde a publicação de seu primeiro livro, em 2002 – Poemas de memória: navegação de auto-mar (Editora UFRJ) –, que sua poética configura no jogo entre o rigor da forma e o vigor da desforma. Ausente de escolas literárias e com uma densidade rara nos dias de hoje, está sempre à procura da palavra na sua simplicidade originária.

Poeta da memória, Adriano canta o surdo silêncio a tinir no âmago das coisas. Todavia, erra o leitor que articula a memória como saudosismo do que passou. A divisão espaço-temporal não cabe na dinâmica do mundo. Todos os tempos dão-se no verbo, diz o poeta. Plenitude de memória a perscrutar o ritmo assimétrico da vida na palavra grávida de dizer, a memória adrianina é o que acontece. Prova disso é Sol a pino.

O que se evidencia logo nos primeiros versos de Sol a pino é o encontro epifânico do homem com a própria realidade. Abrir-se em escuta ao dizer de coisas é o convite ofertado. Na memória inaugurada pelas coisas podemos escapar da banalidade do dia-a-dia e imergir num “recanto da cidade perdido” sem a intenção de descrevê-lo. Toda palavra recolhida no seu silêncio desvenda uma senda oculta do que antes não havia. Convoca o fluxo vital do lume de nós mesmos, clamando a memória cantada. A leitura deste livro convoca, de maneira singular, seus leitores a pensarem o dito de cada coisa. De onde vem, no entanto, esse dizer de coisas?

A poesia não carece de lugar nem de porquê. Ela acontece. É plenitude de vida, mundo em consumação. “Letras pretas de concerto” a reverenciar a plenitude de silêncio que se diz em canção. “Eclipses de memórias”. “Agonia∕de dia quente”. “Há certas coisas∕que só entendemos∕quando vistas a olho nu”. Assim é Sol a pino. Um livro que não pode ser explicado ou definido, mas tão-somente vivenciado. Na simplicidade da palavra mais simples, seu sentido trespassa o esperado. Prenúncio de calmaria. Alvorada alvorecente de alvoroço. Sol a pino é um livro que não tem receio de acontecer. É sempre um mistério desvelado. “Vertigem: o sol na folha branca”. “Horas mortas”. “O dizer de coisas”.  A poesia de Adriano é plena de ser.

Apenas uma frase ao leitor:

Sol a pino entra e fica.


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Veronica Filíppovna é ensaísta e tradutora. Graduanda do curso de Letras Português-Russo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), atua como docente de curso de extensão sobre mitologia, literaturas brasileira e russa na Faculdade de Letras da mesma Universidade. Já publicou alguns artigos e ensaios sobre literatura e filosofia em revistas especializadas.


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[revista dEsEnrEdoS - ISSN 2175-3903 - ano II - número 5 - teresina - piauí - abril/maio/junho de 2010]

 

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